terça-feira, 5 de março de 2013

O Suicídio e o sexto mandamento: "Não Matarás" - Por François Turretini (1623-1687)




            Que o suicídio (autocheirian) é um crime em extremo hediondo, transparece das razões seguintes: um suicida (autocheir) peca contra Deus por tripudiar sua autoridade, porque é o único Senhor da vida; sua bondade, por havê-lo preservado tão bondosamente entre os vivos; sua providência, cuja ordem o suicida tudo faz para perturbar. Ele peca contra si mesmo por violar a inclinação natural que inspira a cada um o amar a si próprio e a nutrir a preservar sua própria carne (Ef 5.29). Ele peca contra o Estado por destruir um de seus cidadãos; contra sua família por dilacerar violentamente um membro e (talvez o principal) precipitar todos os seus familiares em desgraça, tristeza e luto; contra a igreja e a religião por estigmatizar o sistema cristão com ignomínia, causando tristeza a todos, escandalizando os bons e ocasionando escárnio aos inimigos. Opõe-se à lei da natureza, a qual obriga a cada um à auto-preservação; e à confiança e piedade em Deus, que deve receber todos os males, ou descansando em nós ou nos ameaçando, como de Deus; à sabedoria, porque este crime é concretizado não tanto por reflexão quanto por fúria e impulso selvagem. Nem mesmo Sêneca pôde negar isto: "Um homem sábio não deve dar ajuda a seu próprio castigo; é insensatez morrer pelo medo da morte" (Epistle 70 [Loeb, 2:60,61]). Opõe-se a justiça, porque o homem não é mais senhor de sua própria vida do que da de outro. Ele é um servo que tem um senhor, um soldado que tem um general. Ele é colocado em seu próprio posto; não deve ser irregular (leipotaktes) nem deserdar a seu bel-prazer, mas deve deixar que outro o despeça. Isto é expresso na mais excelente forma pelo próprio Epicteto, que ordena que os homens esperem até que Deus dê o sinal (ekdechesthai ton theon) e nos descarte deste serviço (Discourses 1.9.16 [Loeb, 1:68,69]). Opõe-se à força de vontade, porque se origina de uma impaciência ante o mal enviado, ou do medo de que este seja enviado, seja a fim de poder removê-lo ou evitá-lo. Daí Agostinho dizer com propriedade que o suicídio não pertence à magnanimidade, e que merecidamente se diz que tem maior alma quem pode suportar uma vida de tribulações do que quem foge dela (CG 1.22* [FC 8:54]). Opõe-se ao consentimento dos mais sábios entre os pagãos, seja gregos ou romanos: Pitágoras, Platão, Aristóteles, Sêneca, Cícero entre outros, os quais confessam que ele é perverso. Cabem aqui os exemplos de auto-homicídio (autocheirias) registrados nas Escrituras, os quais são atribuídos somente aos incorrigíveis: em Saul (1Sm 31.4); em Aitofel (2Sm 17.23); em Judas Iscariotes (Mt 27.5; At 1.18)

XXIV. O exemplo de Sansão (Jz 16.30) não favorece o suicídio (autocheiria), porque nas ruínas da casa que ele derrubou ele se sepultou não menos que os demais. Este foi um feito singular, perpetrado pela influência extraordinária do Espírito Santo, como transparece tanto do apóstolo (Hb 11.34), que declara que ele fez isso pela fé, baseado nas orações que ofereceu a Deus para a obtenção de força extraordinária para este ato, e no fato de que elas foram ouvidas (Jz 16.28). Deus aumentou sua força e lhe outorgou o desejado sucesso para que assim ele fosse um eminente tipo de Cristo, que causa grande destruição de seus inimigos por meio de sua morte e que quebra o jugo tirânico posto no pescoço de seu povo. Finalmente, o desígnio não visava simplesmente a uma vingança privada, mas à vindicação da glória de Deus, da religião e do povo, visto que ele era uma pessoa pública e levantada por Deus dentro o povo como vingador.

XXV. Tampouco os exemplos de Eleázar, irmão de Judas Macabeus, que morreu ao rastejar-se debaixo de um elefante e ser esmagado pelo mesmo (1Macabeus 6.43-45); e de Razias (que se matou com sua própria espada, 2Macabeus 14.41,42) favorecem o suicídio, porque são extraídos de livros apócrifos. Não pode ser chamado generosidade, mas o cúmulo da pusilanimidade, alguém voluntariamente precipitar-se em sua total destruição em virtude de um mal incerto. Não fazem parte do presente caso os exemplos dos que desejaram enfrentar perigos extremos em prol de seu país ou de amigos, com o intuito de adquirir a tranquilidade e segurança de outros por meio de sua própria morte. Uma coisa é alguém expor-se aos perigos motivado pela pressão da necessidade e em resposta a uma chamado especial de Deus; outra é matar-se. Tampouco deve ser considerado suicida (autocheir) quem entrega sua vida por outro, pois então, ao entregar Cristo sua vida por nós, teria ele sido suicida (autocheir) (o que ninguém diria).

XXVI. O ato dos que destroem seus navios (como às vezes ocorre com marinheiros que, reduzidos a uma situação extrema, ateiam fogo a seu próprios navios para que não se vejam sob a tirania dos inimigos; nem os instrumentos militares, em seu poder, sejam revertidos pelo inimigos à destruição e seu país nativo e para que as mesmas ações inflijam dano ao inimigo, eliminando-se juntamente com o navio), embora seja aprovado por certos teólogos (ou afastado da esfera do suicídio (autocheiria), porque não se destinavam à sua própria destruição, mas à matança do inimigo e para o bem de seu país); não obstante, de modo algum é aprovado por nós e por muitos outros. Por meio deste ato, direta e voluntariamente, trazem a morte sobre si mesmos como uma causa física e moral; e assim não podem escapar ao crime de auto-homicídio (autophonon). Além disso, nele contrariam a confiança em Deus, limitando sua providência, como se nele não existissem mil maneiras de escape mesmo quando presumimos que estamos cercados de todos os lados. Opõem-se à prudência cristã porque comparam uma certa e presente destruição com uma chance e um evento incertos, e atribuem maior peso àquela. Poderia, se bem que quase vencidos, sair-se superiores; o inimigo poderia poupar suas vidas; alguns poderiam salvar suas vidas nadando ou de alguma outro maneira. Opõem-se à força, pois constitui bravura não abandonar vilmente nosso posto desesperando da vitória ou da segurança, mas lutar até o último suspiro. Opõe-se ao amor e à bondade para com as pessoas desvalidas: os idosos, os fracos, os doentes, as crianças - a quem os próprios inimigos poderiam poupar e em sua maioria costumam poupar. Portanto, tais pessoas não podem ser absolvidas na culpa, segundo a regra do apóstolo (não praticar males para que venham bens); nem pode alguma lei, seja de guerra ou do Estado, fazer oposição à sanção divina. Embora tais atos às vezes possam ser escusados um tanto, contudo não podem ser escusados de todo, quer digam que os pratiquem como pessoas privadas que como servos públicos. Não pode a autoridade pública obrigar-nos em oposição à autoridade divina. Tampouco pode alguma desvantagem feita ao inimigo ou vantagem ao país ser tão grande que absolva a consiciência aqui. Nem pode a intenção de injuriar o inimigo ser totalmente abstraída do certíssimo conhecimento de destruir-se juntamente com o inimigo e de trazer sobre si morte indubitável.

XXVII. É bom retribuir a Deus o que dado por ele, mas quando isso é exigido de nós como devolvido de maneira devida; no entanto, não quando nem é exigido nem devolvido da maneira devida. Admitimos que a morte é às vezes melhor que a vida; porém infligida por outros, não buscada por nós mesmos. A morte pode ser licitamente desejada, porém não buscada. Assim como a vida é recebida só pela vontade divina, assim também não deve ser entregue a não ser por sua ordem. É bravo desprezar aquele terribilíssimo mensageiro (to phoberotaton) de Deus; porém, precipitar-se sobre ele voluntariamente é temerário e insano (o que Aristóteles, Nichomachaen Ethics 3.8 [Loeb, 19:163-171]), ensina que não e bravura, mas covardia). E também o amor pelo país, a segurança de outros e o anelo pela imortalidade, que podem impelir à brava sujeição à morte enviada contra nós, não devem ter a mesma influência em levar-nos a convidá-la quando não enviada.

XXVIII. Uma coisa é suportar a morte, deixar-se matar; sim, inclusive apresentar-se a ela bravamente ante o chamado de Deus. Outra coisa é matar-se. O primeiro caso, em algumas circunstâncias, é lícito, e Cristo, os mártires e os heróis fizeram algo semelhante; porém não igualmente o segundo caso.

XXIX. "Dar o próprio corpo para ser queimado", no dizer de Paulo (1Co 13.3), não é um ato temerário e destituído de valor, pela qual alguém voluntaria e desnecessariamente se expõe à morte em prol da causa de Deus. Antes, é um ato necessário e santo, pelo qual ele enfrenta o martírio atendendo ao chamado de Deus e não recusa tal chamado, ou mentindo, ou negando a verdade pelo amor da família ou do mundo, quando lhe cabe por sorte ser levado aos tribunais dos pagãos pelos inimigos do evangelho.

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Fonte: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, Livro II, Ed. Cultura Cristã, págs. 153-156.

segunda-feira, 4 de março de 2013

A supremacia de Deus - Por: Arthur W. Pink



Numa de suas cartas a Erasmo, disse Lutero: "As tuas idéias sobre Deus são demasiado humanas". Provavelmente o renomado erudito se ofendeu com aquela censura, ainda mais que vinha do filho de um mineiro; não obstante, foi mais que merecida.
Nós também, embora não ocupando nenhuma posição entre os líderes religiosos desta era degenerada, proferimos a mesma acusação contra a maioria dos pregadores dos nossos dias, e contra aqueles que, em vez de examinarem pessoalmente as Escri­turas, preguiçosamente aceitam o ensino de outros. Atualmente se sustentam, em quase toda parte, os mais desonrosos e degra­dantes conceitos do governo e do reino do Todo-poderoso. Para incontáveis milhares, mesmo entre cristãos professos, o Deus das Escrituras é completamente desconhecido.
Na antigüidade, Deus queixou-se a um Israel apóstata: "... pensavas que (eu) era como tu..." (Salmo 50:21). Semelhan­te a essa terá que ser a Sua acusação contra uma cristandade após­tata. Os homens imaginam que o que move a Deus são os senti­mentos, e não os princípios. Supõe que a Sua onipotência é uma ociosa ficção, a tal ponto que Satanás desbarata os Seus desígnios por todos os lados. Acham que, se Ele formulou algum plano ou propósito, deve ser como o deles, constantemente sujeito a mu­dança. Declaram abertamente que, seja qual for o poder que Ele possui, terá que ser restringido, para que não invada a cidadela do "livre-arbítrio" humano, e o reduza a uma "máquina”. Re­baixam a toda eficaz expiação, a qual de fato redimiu a todos aqueles pelos quais foi feita, fazendo dela um mero "remédio" que as almas enfermas pelo pecado podem usar se se sentem dis­postas a fazê-lo; e enfraquecem a invencível obra do Espírito Santos, reduzindo-a a um "oferecimento" do evangelho que os pecadores podem aceitar ou rejeitar a seu bel-prazer.
O Deus deste século vinte não se assemelha mais ao Soberano Supremo das Escrituras Sagradas do que a bruxuleante e fosca chama de uma vela se assemelha à glória do sol do meio-dia. O Deus de que se fala atualmente no púlpito comum, comentado na escola dominical em geral, mencionado na maior parte da lite­ratura religiosa da atualidade e pregado em muitas das conferên­cias bíblicas, assim chamadas, é uma ficção engendrada pelo ho­mem, uma invenção do sentimentalismo piegas. Os idolatras do lado de fora da cristandade fazem "deuses" de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idolatras que existem dentro da cris­tandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possí­vel senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus. Um Deus cuja vontade é impedida, cujos desígnios são frustra­dos, cujo propósito é derrotado, nada tem que se lhe permita chamar Deidade, e, longe de ser digno objeto de culto, só merece desprezo.
A distância infinita que separa do todo-poderoso Criador as mais poderosas criaturas é um argumento em favor da supremacia do Deus vivo e verdadeiro. Ele é o Oleiro, elas são em Suas mãos apenas o barro que pode ser modelado para formar vasos de honra, ou pode ser esmiuçado (Salmo 2:9), como Lhe apraz. Se todos os habitantes do céu e todos os moradores da terra se juntassem numa rebelião contra Ele, não Lhe causariam perturba­ção e isso teria ainda menor efeito sobre o Seu trono eterno e inexpugnável do que o efeito da espuma das ondas do Mediter­râneo sobre o alto rochedo de Gibraltar. Tão pueril e impotente é a criatura para afetar o Altíssimo, que as próprias Escrituras nos dizem que quando os príncipes gentílicos se unirem com Israel apóstata para desafiar a Jeová e Seu Ungido, "aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles" (Salmo 2:4).
Muitas passagens das Escrituras afirmam clara e positivamen­te a absoluta e universal supremacia de Deus. "Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é Senhor, o reino, e tu te exaltaste sobre todos corno chefe... e tu dominas sobre tudo..." (1 Crônicas 29:11-12). Observe-se, diz "dominas" agora, e não diz "dominarás no milênio". "Ah! Senhor, Deus de nossos pais, porventura não és tu Deus nos céus? Pois tu és Dominador sobre todos os reinos das gentes, e na tua mão há força e poder, e não há quem te possa resistir" (nem o pró­prio diabo) (2 Crônicas 20:6). Perante Ele, presidentes e papas, reis e imperadores, são menos que gafanhotos. "Mas, se ele está contra alguém, quem então o desviará? O que a sua alma quiser isso fará" (Jó 23:13). Ah, meu leitor, o Deus das Escrituras não é um falso monarca, nem um mero soberano imaginário, mas Rei dos reis e Senhor dos senhores. "Sei que tudo podes, e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido (Jó 42:2, ou, segundo outro tradutor, "nenhum dos teus propósitos pode ser frustrado". Tudo que designou fazer, Ele o faz. Realiza tudo quanto decretou. "Mas o nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz" (Salmo 115:3). Por que? Porque "não há sabedoria nem inteligência, nem conselho contra o Senhor” (Provérbios 21:30).
As Escrituras retratam vividamente a supremacia de Deus sobre as obras de Suas mãos. Toda matéria inanimada e todas as criaturas irracionais executam as ordens do seu Criador. Por Sua vontade dividiu-se o Mar Vermelho e suas águas se levantaram e ficaram eretas como paredes (Êxodo 14); e a terra abriu suas fauces e os rebeldes carregados de culpa foram tragados vivos pelo abismo (Números 14). À Sua ordem o sol se deteve (Josué 10), e, noutra ocasião, voltou atrás dez graus do relógio de Acaz (Isaías 38:8). Para exemplificar Sua supremacia, mandou corvos levarem alimento a Elias (1 Reis 17), fez o ferro flutuar (2 Reis 6:5), manteve mansos os leões quando Daniel foi lançado na cova des­sas feras, fez que o fogo não queimasse os três hebreus que foram arrojados às chamas da fornalha. Assim, "Tudo o que o Senhor quis, ele o fez nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos" (Salmo 135:6).
O perfeito domínio de Deus sobre a vontade dos homens também demonstra a Sua supremacia, Pondere o leitor cuidadosa­mente sobre Êxodo 34:24, Exigia-se que todos os varões de Israel saíssem de casa e fossem a Jerusalém, três vezes por ano. Viviam entre gente hostil, que os odiava por se terem apropriado das suas terras. Então, o que é que impedia aos cananeus aproveitarem a oportunidade e, durante a ausência dos homens, matarem as mu­lheres e as crianças e se apossarem de suas fazendas? Se a mão do Onipotente não estivesse até mesmo sobre a vontade dos ímpios, como poderia Ele ter feito esta promessa, de que ninguém sequer cobiçaria suas terras? Ah, "Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; a tudo quanto quer o inclina" (Provérbios 21:1). Mas, poder-se-ia objetar, não lemos uma e outra vez nas Escrituras sobre como os homens desafiavam a Deus, re­sistiam à Sua vontade, transgrediam os Seus mandamentos, menosprezavam as Suas advertências e faziam ouvidos moucos a todas as Suas exortações? Certamente que sim; B isto anula tudo que dissemos acima? Se anula, então é evidente que a Bíblia se contradiz, Mas isso não pode ser. A objeção se refere simples­mente à iniqüidade do homem em rebelião contra a Palavra de Deus, escrita ao passo que mencionamos acima o que Deus se propôs em Si mesmo. A regra de conduta que Ele nos dá para seguirmos não é cumprida perfeitamente por nenhum de nós; os Seus "conselhos" eternos são realizados nos mínimos detalhes.
O Novo Testamento afirma com igual clareza e firmeza a absoluta e universal supremacia de Deus. Ali se nos diz que Deus "... faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade" (Efésios 1:11). A palavra grega traduzida por "faz" significa "fazer eficazmente". Por esta razão, lemos: "Porque dele por ele, e para ele, são todas as coisas; glória pois a ele eternamente. Amém" (Romanos 11:56). Os homens podem jactar-se: de que são agentes livres, com vontade própria, e de que têm liberdade de fazer o que querem, mas as Escrituras dizem aos que se jactam: ".... vós que dizeis: hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos... em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser (Tiago, 5:13-15).
Há aqui, pois, um lugar de repouso para o coração. A nossa vida não é, nem produto do destino cego, nem resultado do acaso caprichoso, mas todas as suas minudências foram prescritas desde toda a eternidade e agora são ordenadas por Deus que vive e reina. Nem um fio de cabelo de nossa cabeça pode ser tocado, sem a Sua permissão. "O coração do homem considera o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos" (Provérbios 16:9). Que segurança, que poder, que consolo isso deveria dar ao cristão real! "Os meus tempos estão nas tuas mãos..." (Salmo 31:15). Portanto digo a mim mesmo: "Descansa no Senhor, e espera nele..." (Salmo 37:7).
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domingo, 3 de março de 2013

Os cânticos como manifestação da plenitude do Espírito. Por Rev. Hermisten Maia




Na perspectiva reformada, evitam-se elementos externos estranhos ao culto com o objetivo de fixar a mensagem. Todo recurso para fixá-la deve obedecer a padrões bíblicos e estar adequadamente harmonizado ao culto. É o Espírito quem age. Emoção não produzida pela Palavra não se harmoniza com o culto por não ser produzida por Deus.

No culto a música deve ser entendida não simplesmente como meio de impressão - que age no corpo, nas emoções e no intelecto -, mas também, e principalmente, de expressão, como veículo para o texto. Portanto, mais do que um agente de preparação para o culto, ela é também uma oferta que deve ser oferecida como fé.

Paulo mostra que o cântico é uma expressão da adoração cristã marcada pela plenitude do Espírito Santo. A genuína adoração é operada pelo Espírito Santo em nós. O Espírito que falou através de Davi, inspirando-o a escrever, é o que nos ilumina, na adoração a Deus (At 4:25): "...enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais" (Ef 5:18-19).

É difícil, senão impossível, determinar com precisão a diferença entre essas três palavras, empregadas também em Colossenses 3:16, e estabelecer a distinção na adoração cristã, considerando que elas também eram empregadas no culto pagão. Segundo nos parece, o que estabelece o contraste da adoração cristã nesse texto é que esta é promovida pelo Espírito Santo, com coração sincero e de modo espiritual. Portanto, os três termos parecem resumir a variedade e harmonia dos cânticos cristãos sob o impulso e direção do Espírito em fidelidade à Palavra revelada de Deus.

Em Efésios 5:18, Paulo contrasta a embriaguez com o enchimento do Espírito. Portanto, em vez de se procurar a excitação desenfreada da bebida, ou a embriaguez como recurso para fugir dos problemas através do entorpecimento da mente, deve-se buscar o discernimento do Espírito para compreender a vontade de Deus, que deve ser o grande objetivo de nossa existência (Ef 5:17). O enchimento do Espírito exige consciência, não a perda do controle através do exacerbamento da emoção em detrimento da razão. O ato de cantar infindavelmente pode se tornar em um meio de excessivo estímulo emocional que nos conduziria à embriaguez mental e emocional, tornando-nos presas fáceis de manipulações. É de lamentar que a música venha sendo usada frequentemente com esse propósito.

Para que o contraste ficasse bem claro, Paulo não usa para o enchimento do Espírito o verbo "embriagar" - que envolve a diminuição da consciência e dos reflexos, além de ser uma expressão que barateiaria a mensagem e seria inadequada para se referir ao Espírito Santo. Paulo menciona um enchimento consciente e voluntário. A expressão "do Espírito" condiz-nos a emoções santas; a emoção mundana limita toda a vida ao corpo, substituindo a alegria do Espírito pela intoxicação alcoólica. O cristão, ao contrário, busca o sentido da plenitude da sua existência na plenitude do Espírito. "Sendo assim cheios com o Espírito, os crentes não somente serão estabelecidos e alegrados, mas também darão jubilosa expressão a seu vivificante conhecimento da vontade de Deus." [1]

O enchimento do Espírito pressupõe o selo e o batismo definitivos do Espírito; por isso mesmo, não se confunde com eles (Ef 1:13, 4:30, 1Co 12:13). O batismo e o selo do Espírito são realidades efetivas para os crentes em Cristo; já o enchimento é um dever de cada cristão que reconhece sua eleição eterna para a salvação em santificação (Ef 1:4, 2Ts 2:13). A ideia expressa em Efésios 5:18 é a de ter o Espírito em todas as áreas da vida, de forma plena e abundante. 

Sobre isso, quatro observações devem ser feitas:

1 - O verbo "encher" (pleroo) está no imperativo; portanto, o "enchimento" não é facultativo, mas uma ordem expressa de Deus; é desobediência voluntária não se esforçar por buscar esse enchimento.

2 - O verbo está no presente, expressando ordem imperativa e também indicando uma experiência que se renova de forma permanente e contínua, mediante a qual vamos sendo, cada vez mais, dominados por ele, passando a ter a mente, o coração e a vontade - o homem integral - submetidos ao Espírito. Por isso, Efésios 5:18 pode ser parafraseado deste modo: "Sede constantemente, momento após momento, controlados pelo Espírito". Hoekema (1913-1988) observa que "o imperativo presente ensina-nos que ninguém pode, jamais, reivindicar ter sido cheio do Espírito de uma vez por todas. Estar sendo continuamente cheio do Espírito é, de fato, o desafio de uma vida toda e o desafio de cada dia". [2]

3 - O verbo está no plural, logo, a ordem é para todos os cristãos, a Igreja, não apenas para os líderes. É um mandamento explícito, não uma opção de vida cristão que pode ser seguida ou não.

4 - O verbo está na voz passiva, indicando que o sujeito da ação é passivo; Deus é o autor do enchimento. Nessa progressividade espiritual, contudo, haverá sempre a participação voluntária do cristão que, consciente de suas necessidades espirituais, procurará cada vez mais intensamente submeter-se à influência do Espírito, recorrendo aos recursos fornecidos por Deus para o aperfeiçoamento piedoso (2Pe 1:3-4). Na sequência, Efésios mostra os frutos práticos e concretos desse "enchimento". Paulo, portanto, está dizendo que a solução para qualquer problema em nossa vida passa pelo enchimento do Espírito.

Embora os cânticos não sejam a única expressão da vida cheia do Espírito, vamos contudo nos limitar a falar sobre essa questão, embora Paulo também mencione a comunhão santa  e o louvor sincero (Ef 5:19; sf. tb. Cl 3:16). Nossa comunhão não é partidária: contra ou a favor do pastor ou dos diáconos. É, antes, gerada pelo Espírito, manifestando-se numa conversa santa que produz edificação mútua (Cl 3:16, Ef 4:29, Tt 2:8, Sl 141:3, Cl 3:8).

Notas:
[1] - William Hendriksen, Exposição de Efésios, p. 299.
[2] - Salvos pela graça, p. 58.

Sobre o autor: Hermisten Maia Pereira da Costa é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Mestre e doutor em Ciências da Religião, é bacharel em Teologia e possui formação em Filosofia e Pedagogia. Autor de A inspiração e inerrância das Escrituras: uma perspectiva reformada (Cultura Cristã) e Calvino de A a Z (Vida), entre outras obras, ele coordena o Departamento de Teologia Sistemática no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, em São Paulo. Também leciona na Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) e na Faculdade de Teologia do Centro Universitário de Maringá (PR).

Fonte: Fundamentos da Teologia Reformada, Rev. Hermisten Maia, Editora Mundo Cristão, pags. 124-126. Divulgação: Bereianos

sábado, 2 de março de 2013

Expiação Limitada - Por Rev. Ronald Hanko




Os calvinistas creem na expiação limitada, isto é, que Cristo não morreu por todos os homens, mas somente pelos eleitos. Por expiação limitada, contudo, não queremos dizer que o valor ou poder da morte e sangue de Cristo sejam limitados, mas somente que ele morreu por um número “limitado” de pessoas.
É melhor não falar de expiação limitada, mas de expiação particular. A palavra particular enfatiza a verdade bíblica que Cristo morreu somente por algumas pessoas particulares, e não por todos sem exceção.

Cremos na expiação particular ou limitada por causa das muitas passagens da Escritura que ensinam que Cristo morreu, não por todos, mas por muitos (Is. 53:11; Mt. 20:28; Mt. 26:28; Hb. 9:28); isto é, ele morreu por seu povo (Is. 53:8; Mt. 1:21), por suas ovelhas (João 10:14, 15, 26-28) e por sua igreja (Atos 20:28).

Não cremos que as passagens que falam de “todos” ou “o mundo” contradigam de alguma forma aquelas que falam de um número limitado. A Palavra de Deus não pode se contradizer. O que tais passagens ensinam é que Cristo morreu por todos os homens sem distinção, não por todos os homens sem exceção. Em outras palavras, tais passagens ensinam que Cristo morreu por todos os tipos de homens (1Tm. 2:1-6), por todos que estão nEle (1Co. 15:22), ou pelo “mundo” de seu povo, isto é, por seus eleitos de toda nação (compare João 3:16 e João 17:9).

Somente a expiação limitada exalta a Cristo como Salvador. A idéia que Cristo morreu por todos os homens, mas que muitos não serão salvos, degrada a obra salvífica de Cristo. Esse ensino na verdade diz que Cristo não fez o suficiente no seu sofrimento e morte para a nossa salvação, e que algo mais é necessário (geralmente a livre escolha da pessoa). Ele diz que Cristo morreu por todos, mas que alguns ainda irão para o inferno. Se isso fosse verdade, o sangue de Cristo teria sido derramado em vão por alguns, e sua morte seria inútil para eles. Então, sua morte não teria sido realmente um resgate, uma expiação, ou uma satisfação pelo pecado, nem teria nos reconciliado com Deus.

Se Cristo morreu por todos os homens, e, todavia, alguns ainda não são salvos, e se a diferença é a livre escolha da pessoa, então o que realmente importa na nossa salvação não é a morte de Cristo, mas a nossa escolha.

Então, nossa salvação depende não dele, mas de nós. Que Deus não permita pensarmos tais coisas sobre a morte de Cristo ou sobre nós mesmos!

O ensino de que Cristo morreu por seu povo eleito, aqueles a quem o Pai lhe deu, significa que ele fez tudo o que era necessário para a salvação deles mediante seu sofrimento e morte, e que nada mais é necessário. Assim, sua morte é realmente uma expiação, reconciliação, pleno pagamento pelo pecado, resgate e satisfação. Ele realmente salva, e salva completamente, aqueles por quem morreu.

A expiação limitada diz que Cristo não torna a salvação simplesmente possível. Ele é um Príncipe e Salvador. Glórias a Deus!

Fonte: Doctrine according to Godliness, Ronald Hanko, Reformed Free Publishing Association, p. 155-156. Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
Via: Monergismo

sexta-feira, 1 de março de 2013


Por quem Cristo morreu?                   Por Denis Monteiro


Uma refutação ao artigo publicado no Blog do Ciro

O pastor Ciro, em seu blog, argumentou em favor da doutrina arminiana da expiação universal. O texto base para seu argumento foi Romanos 5.6-10; 12,15,18 e 19. 

Segundo a sua explicação, o texto de Romanos 5.12,15,18 e 19 mostra uma conexão com a doutrina da expiação universal. Segue abaixo algumas explicações dele: 

Pr. Ciro - Versículo 18: "por uma só ofensa [a de Adão] veio o juízo sobre todos os homens para condenação [...] por um só ato de justiça [realizado pelo Senhor Jesus] veio a graça sobre todos os homens para a justificação de vida". O termo "todos", aqui, à luz do contexto imediato, refere-se, sem dúvidas, à totalidade da humanidade pecadora.

O pastor Ciro, falando em contexto, está negando a passagem anterior. O verso 17 explica o verso 18. Paulo diz que "pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo." (Romanos 5:17). Perceba que no versículo 18 Paulo explica como ocorreu este ato de condenação por uma só ofensa veio o juízo sobre todos. Mas o mais interessante do verso 17 é sobre os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça. Como o verso 18 diz que veio, graça sobre todos, sendo que no verso 17 diz que a graça recebem? (vs 17) 

Perceba que quem recebe a graça, recebe o dom da justiça como descrito no verso 18 para justificação e vida. 

Se Cristo morreu por todos, logo todos estão justificados diante de Deus, eles receberam reconciliação e perdão de seu delito. A doutrina da justificação, segundo o que explica Paulo, é pela fé "receberam a abundância da graça" (vs 17). Paulo descreve em Romanos 3.28 e Gálatas 2.26 que a justificação vem por intermédio da fé. 

Se "muitos" significa "todos" (vs 18) logo, toda a humanidade está justificada diante de Deus e já receberam o dom da graça e reinarão com Cristo (vs 17). 

Mas como descrito em Romanos 5.17 aquele que recebe (gr. lambano) este recebe a justiça de Deus, assim como descrito em Rm 3.28 e Gl 2.26, pela fé o crente recebe a justificação. 

Logo, o "todos" de Rm 5.18b são os "muitos" que receberam a Cristo e assim foram justificados. 

Pr. Ciro - Por outro lado, pela mesma lógica, todos os que crerem, considerando que Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11; Tg 2.1). 

Mas uma vez me deparo com um argumento de que Deus não faz acepção de pessoas. Mas como entender que Deus não faz acepção de pessoas? Mas antes de explicar sobre este questionamento, quero fazer uma reflexão: Segundo a teologia arminiana a eleição ocorre, a partir do momento que Deus olha no futuro e vê a fé de tal pessoa e a mesma é salva mediante uma fé prevista. Mas como isso pode ser possível, sendo que Deus não faz acepção de pessoas?

Mas voltando ao questionamento, a palavra acepção no grego é prosopolepsia, ou seja, segundo o termo grego indica que Deus não leva em consideração as circunstâncias externas do gênero e nem seus méritos, como ocorria, segundo Tiago descreve: "Porque, se entrar na vossa reunião algum homem com anel de ouro no dedo e com traje esplêndido, e entrar também algum pobre com traje sórdido. E atentardes para o que vem com traje esplêndido e lhe disserdes: Senta-te aqui num lugar de honra; e disserdes ao pobre: Fica em pé, ou senta-te abaixo do escabelo dos meus pés, não fazeis, porventura, distinção entre vós mesmos e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos." (Tiago 2:2-4)

Então, concordo que Deus não faz acepção de pessoas, Deus escolhe incondicionalmente baseado unicamente em sua gloriosa vontade, como diz em Romanos 9: "Todavia, antes que os gêmeos nascessem ou fizessem qualquer coisa boa ou má — a fim de que o propósito de Deus conforme a eleição permanecesse, não por obras, mas por aquele que chama." (Romanos 9:11). Deus não leva em consideração cargo, obras ou qualquer coisa parecida. Deus escolhe mediante sua livre graça e amor. 

O verso 19 não é preciso explicar pelo o fato de que, como foi provado acima, a condenação de "muitos" é igual a "todos", mas a graça que veio sobre "todos" são os "muitos" que recebem a Cristo, como descreve o texto da Ceia: "E lhes disse: Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos." (Marcos 14:24).

Algumas passagens citadas pelo Ciro, como Jo 3.16; 1Tm 2.4, são explicadasneste artigo.

Pr. Ciro - Embora o Senhor Jesus tenha provado a morte por toda a humanidade (Hb 2.9).

Segundo a interpretação do Ciro, Hebreus 2.9 diz que Cristo morreu por toda a humanidade, por ter sofrido a morte[..] em favor de todos. Mas será que "todos" são toda a humanidade? Veja o que diz o verso 10: "Aquele para quem e por quem todas as coisas existem, desejando conduzir à glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o autor da salvação deles." 

Ou seja, àqueles por quem Cristo morre é aperfeiçoado e leva à glória. Ou será que todos são filhos e estão sendo aperfeiçoado? 

A palavra "todos" no grego "pas" significa que Cristo morreu por classes de pessoas e não todas as pessoas de todas as classes, como descrito em Apocalipse 5.9: "com teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação."

Logo, Hebreus não prova que Cristo morreu por toda a humanidade, e sim, pelos filhos de Deus.

O pastor Ciro comete um erro interpretativo enorme. Segundo a sua argumentação Romanos 5.6,8 apoia que Cristo morreu por todos os homens. 

Romanos 5.6 "De fato, no devido tempo, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios." 

Romanos 5.8 "Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores." 

Veja que os ímpios por quem Cristo morre, são àqueles por quem Deus prova seu amor, nós os que éramos pecadores.