sexta-feira, 12 de julho de 2013

Quem foi que não provou a morte em Mateus 16.28? Por Denis Monteiro







"Em verdade vos digo, alguns dos que aqui estão de modo nenhum provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino"  Mateus 16.28 (Cf. Mc 9.1; Lc 9.27)
Quando se cumpriu o que Jesus disse isso?
Para alguns o que Jesus disse se cumpre no Apocalipse, com o apóstolo João e sua visão. E outros interpretam que isso se cumprirá na volta de Cristo. Que pode até ser, mas propriamente dito, em primeira instância não.
Primeiro, porque esta predição não aponta para o apóstolo João e no Apocalipse.
O substantivo "alguns" aponta para uma pluralidade e não para uma única pessoa. O substantivo não diz quantas pessoas são, mas afirma que não será somente uma. Ou seja, no Apocalipse mostra que somente o apóstolo João teve a visão; nisto o texto de Mateus mostra o contrário.
Segundo, porque o que Jesus disse não é futurístico.
Devemos definir o que é Reino. Para alguns, Reino de Deus e Reino dos céus são duas coisas distintas, o que é um engano. Para uma boa compreensão, basta olhar para as parábolas que o evangelista Mateus escreve e as mesmas parábolas que o evangelista Lucas as escreve:
Mateus 13.11 "Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado;"
Lucas 8.10 "Respondeu ele: A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; mas aos outros se fala por parábolas; para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam."
Vejam que Mateus diz "Reino dos céus" e Lucas diz que é "Reino de Deus". Logo, Reino de Deus e Reino dos Céus são a mesma coisa.
Então, isso não acontecerá no futuro, propriamente dito, quando Jesus estabelecer o Seu Reino porque o Reino de Deus já está entre nós (Lucas 17.21 Cf. Mateus 3.2; 10.7).
Então quando aconteceu o que Jesus disse?
Como provado acima que tais interpretações estão equivocadas, resta-nos aceitar que Pedro, Tiago e João não passaram pela morte e viram a majestade de Cristo. A Transfiguração satisfaz as exigências do contexto (todos os sinóticos dão logo a seguir a Transfiguração: Mc. 9:1; Lc. 9:27). Mais ainda, Pedro, que era um dos que estavam lá, referiu-se à transfiguração nas mesmas palavras (II Pe. 1:16-18). [1]
De fato, não seguimos fábulas engenhosamente inventadas, quando lhes falamos a respeito do poder e da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; pelo contrário, nós fomos testemunhas oculares da sua majestade. Ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando da suprema glória lhe foi dirigida a voz que disse: "Este é o meu filho amado, em quem me agrado". Nós mesmos ouvimos essa voz vinda do céu, quando estávamos com ele no monte santo. (2 Pe 1.16-18 - NVI).
Nota:
[1] Comentário Moody (programa Theword)

Fonte: Bereianos

.
.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Nossa responsabilidade de zelar pelo evangelho - Por: John Stott






(2 Timóteo 1:12b-18)
Deixando de lado, por enquanto, a segunda parte do versículo 12, chegamos à dupla exortação de Paulo a Timóteo, nos dois versículos seguintes: “Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste” (v. 13); “guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (v. 14). Aqui Paulo se refere ao evangelho, à fé apostólica, usando duas expressões. O evangelho é tanto um padrão de sãs palavras (v. 13), como um depósito precioso (v. 14).
“Sãs” palavras são palavras “saudáveis”. A expressão grega é empregada nos evangelhos nos casos de pessoas curadas por Jesus. Anteriormente eram deformes ou doentes; agora estavam bem ou “sãs”, por não ser mutilada ou enferma, mas “sadia”, ou “completa”. É o que Paulo mencionara, anteriormente, como sendo “todo o desígnio de Deus” (Atos 20:27).
Além disso, essas “sãs palavras” foram dadas por Paulo a Timóteo num “padrão”. A palavra grega aqui é hypotyposis. A BLH traduz por “exemplo”. E o Dr. Guthrie diz que ela significa um “esboço rápido, como o faria um arquiteto, antes de lançar no papel os planos detalhados de uma construção” [15]. Neste último caso Paulo estaria sugerindo a Timóteo que ampliasse, expusesse e aplicasse o ensino apostólico. Parece-me que essa interpretação não se harmoniza com o contexto, principalmente num confronto com o versículo seguinte. A única outra ocorrência dehypotyposis no Novo Testamento encontra-se na primeira carta de Paulo a Timóteo, onde ele descreve a si mesmo como um objeto da maravilhosa misericórdia e da perfeita paciência de Cristo, como um “exemplo dos que haviam de crer nEle” (1:16). Arndt e Gingrich, que optaram por “modelo” ou “exemplo” como sendo a tradução usual, sugerem que essa palavra é empregada mais com o sentido de “protótipo” em 1 Timóteo 1:16 e com o sentido de “padrão” em 2 Timóteo 1:13. Neste caso Paulo estaria ordenando a Timóteo que conservasse como um padrão as sãs palavras, isto é, “como um modelo de ensino sadio”, aquilo que ouvira do apóstolo. Isto certamente corresponde ao ensino geral da carta e reflete fielmente a ênfase da sentença na primeira palavra, “modelo” ou “padrão”.
Assim, o ensino de Paulo deve ser uma regra ou diretriz para Timóteo, da qual este não deve se afastar. Pelo contrário, deve obedecer a essa regra, ou melhor, deve apegar-se a ele com firmeza (eche). E assim deve proceder “na fé e no amor que há em Cristo Jesus”. Isto é, Paulo não está tão preocupado com o que Timóteo deve fazer, mas sim como o modo como ele o fará. As convicções doutrinárias de Timóteo e a instrução recebida de outros, assim como as que reteve firmemente dos ensinos de Paulo, devem ser manifestas com fé e amor. Timóteo deve procurar estas qualidades em Cristo: uma crença sincera e um amor pleno.
A fé apostólica não é somente um “padrão de sãs palavras”; é também o “bom depósito” (he kale paratheke). Ou como expressa a BLH: “as boas coisas que foram entregues a você”. Sim, o evangelho é um tesouro, depositado em custódia na igreja. Cristo o confiou a Paulo; e Paulo, por sua vez, o confiou a Timóteo.
Timóteo deveria “guardá-lo”. É precisamente o mesmo apelo que Paulo lançou no final da sua primeira carta (6:20), com a única diferença de que agora ele o chama de “bom”, literalmente “belo” depósito. O verbo (phylasso) tem o sentido de guardar algo “para que não se perca ou se danifique” (AG). É empregado com a idéia de guardar um palácio contra saqueadores, e bens contra ladrões (Lucas 11:21; Atos 22:20). Fora há hereges prontos a corromper o evangelho e desta forma roubar da igreja o inestimável tesouro que lhe foi confiado. Cabe a Timóteo colocar-se em guarda.
Deveria ele guardar o evangelho com toda a firmeza possível em vista do que acontecera em Éfeso (a capital da província romana da Ásia) e seus arredores, onde Timóteo se encontrava (v. 15). O tempo aoristo do verbo “me abandonaram” parece referir-se a um acontecimento especial. É mais provável que tenha sido o momento da segunda detenção de Paulo. As igrejas da Ásia, onde trabalhara por vários anos, tornaram-se muito dependentes dele, e talvez a prisão do apóstolo lhes tenha incutido a idéia de que a fé cristã agora estava perdida. A reação deles talvez tenha sido repudiar Paulo ou recusar-se a reconhecê-lo. De Figelo e Hermógenes nada sabemos de concreto, mas a menção de seus nomes nos indica que possivelmente eles tenham sido os cabeças da oposição. De qualquer modo, Paulo via nesse afastamento das igrejas da Ásia mais do que uma simples deserção pessoal dele; era, sim, uma rejeição à autoridade apostólica. Deve ter-lhe sido algo bastante sério, principalmente porque alguns anos antes, durante a sua permanência em Éfeso por dois anos e meio, Lucas registra que “todos os habitantes da Ásia ouviram a palavra do Senhor, e muitos creram” (Atos 19:10). Agora “os que estão na Ásia” haviam voltado as costas para Paulo. A um grande despertamento seguiu-se uma grande deserção. “A todos os olhos, menos aos da fé, deve ter parecido que o evangelho estava às vésperas da extinção” [16].
Uma grande exceção parece ter sido um homem chamado Onesíforo, o qual repetidas vezes acolhera Paulo em sua casa (literalmente “reanimou-o”, v. 16) e que, em Éfeso, prestara-lhe muitos serviços (v. 18). Onesíforo permanecera, desde modo, fiel ao significado do seu nome: “portador de préstimos”. Além disso, não se envergonhara das algemas de Paulo (v. 16), o que dá a entender que não repudiou a Paulo quando preso, e que o seguiu, e mesmo o acompanhou a Roma, procurando-o até encontrá-lo no calabouço. Paulo tinha boas razões para ser grato por este amigo fiel e corajoso. Não é surpreendente, pois, que se expresse por duas vezes em oração (vs. 16, 18), primeiro por sua casa (“conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo”) e depois, especificamente, por Onesíforo (“O Senhor lhe conceda, naquele dia, achar misericórdia da parte do Senhor”).
Vários comentaristas, notadamente católicos romanos, partindo das referências à casa de Onesíforo (mencionada novamente em 4:19) e à expressão “naquele dia”, têm argumentado que Onesíforo àquela altura estava morto e que, por conseguinte, no versículo 18 temos uma oração em favor de um falecido. Isto, na verdade, não passa de uma simples e gratuita conjectura. O fato de Paulo mencionar primeiro Onesíforo e depois sua casa não dá a entender necessariamente que estejam eles separados em virtude de sua morte; é mais viável crer que fosse devido à distância: Onesíforo estava ainda em Roma, enquanto que sua família permanecia em casa, em Éfeso. “Considero que é uma oração em separado pelo homem e por sua família”, escreve o Rev. Moule, “por estarem então separados um do outro, por terras e mares...Não há necessidade alguma de interpretar que Onesíforo tivesse morrido. A separação de sua família, por uma viagem, isso é o que se depreende da passagem”. [17]
Em todo o caso, todos na Ásia, como Timóteo estava bem ciente, voltaram as costas ao apóstolo, com exceção do leal Onesíforo e de sua família. Era em tal situação de apostasia quase universal que Timóteo deveria “guardar o bom depósito” e “manter o padrão das sãs palavras”, ou seja, deveria preservar o evangelho imaculado e genuíno. Já seria uma grande responsabilidade para qualquer um, quanto mais para alguém com o temperamento de Timóteo. Como poderia então permanecer firme?
O apóstolo dá a Timóteo a base segura de que ele necessita. Timóteo não pode pensar em guardar o tesouro do evangelho com força própria; somente poderá fazê-lo “mediante o Espírito Santo que habita em nós” (v. 14). A mesma verdade é ensinada na segunda parte do versículo 12, que até aqui ainda não consideramos. A maior parte dos cristãos está familiarizada com a tradução “porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”. Essas palavras são verdadeiras e muitas outras passagens bíblicas as confirmam; quanto à estrutura linguística, foram traduzidas acuradamente. De fato, tanto o verbo “guardar” como o substantivo “depósito” são precisamente as mesmas palavras no versículo 12 e no versículo 14 e ainda em 1 Timóteo 6:20. Presume-se, então, que “o meu depósito” não é o que eu lhe confiei (minha alma ou eu mesmo, como em 1 Pedro 4:19), mas aquilo que ele confiou a mim (o evangelho).
O sentido, pois, é este: Paulo podia dizer que o depósito é “meu”, porque Cristo lho confiou. Contudo, Paulo estava persuadido de que era Cristo que iria conversá-lo seguro “até aquele dia”, quando ele teria de prestar contas da sua mordomia. Em que se baseava a sua confiança? Somente numa coisa: “eu o conheço”. Paulo conhecia a Cristo, em quem confiava, e estava convencido da capacidade dele para manter o depósito em segurança: “porque sei em quem tenho crido, e estou bem certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia” (v. 12). Cristo cuidará do depósito. E agora Paulo o está confiando a Timóteo. E Timóteo pode ter esta mesma segurança.
Aqui há um estímulo muito grande. Em última análise, é Deus mesmo quem preserva o evangelho. Ele se responsabiliza por sua conservação: “Sobre qualquer outro fundamento a obra da pregação não se sustentaria nem por um momento” [18]. Podemos ver a fé evangélica encontrando oposição em toda parte, e a mensagem apostólica sendo ridicularizada. Talvez vejamos uma crescente apostasia crescer na igreja, muitos de nossa geração abandonando a fé de seus pais. Mas não temos nada a temer! Deus nunca permitirá que a luz do evangelho apague. É verdade que ele o confiou a nós, frágeis e falíveis criaturas. Ele colocou o seu tesouro em frágeis vasos de barro, e nós devemos assumir a nossa parte na guarda e na defesa da verdade. Contudo, mesmo tendo entregue o depósito aos cuidados de nossas mãos, Deus não retirou as Suas mãos desse depósito. Ele mesmo é, afinal, o Seu melhor vigia; Ele saberá preservar a verdade que confiou à Igreja. Isto nós sabemos, porque sabemos em quem depositamos a nossa confiança, e em quem continuamos a confiar.
Vimos que o evangelho é a boa nova da salvação, prometida desde a eternidade, concretizada na História por Cristo, e oferecida à fé.
A nossa primeira responsabilidade reside na comunicação do evangelho, fazendo uso de velhos métodos ou procurando novos caminhos para torná-lo conhecido por todo o mundo.
Se assim procedermos, certamente sofreremos por ele, já que o autêntico evangelho nunca foi popular. Ele humilha muito o pecador.
E ao sermos chamados a sofrer pelo evangelho, somos tentados a adaptá-lo, a eliminar aqueles elementos que ofendem e provocam oposição, a silenciar as notas que ferem os sensíveis ouvidos modernos.
Mas devemos resistir a esta tentação. Pois, antes de tudo, fomos chamados a guardar o evangelho, conservando-o puro, a qualquer preço, preservando-o de toda corrupção.
Guardá-lo fielmente. Difundi-lo ativamente. Sofrer corajosamente por ele. Esta é a nossa tríplice responsabilidade perante o evangelho de Deus, de acordo com este primeiro capítulo.

NOTAS:
[15] - Guthrie, p. 132.
[16] - Moule, p. 16.
[17] - Moule, pp. 67,68.
[18] -Barrett, p. 97.
Fonte: John Stott, A Mensagem de 2 Timóteo, Editora ABU.
Via: [ Monergismo ]

.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Razões para o envolvimento cristão nas questões de justiça social -Por Tim Keller







A razão bíblica para a eliminação da desigualdade social encontra-se na origem e destino potencial do homem, assim como no amor universal de Deus pelo mundo (Jo 3.16; Mt 5.43-48). As raízes da civilização ocidental acham-se profundamente arraigadas na revelação bíblica de que o homem descende de um único casal (pai e mãe) e foi criado à imagem de Deus.[1] A participação comum de toda a humanidade na imago dei significa que todos os homens são herdeiros dos direitos inalienáveis da dignidade e significado intencional. Concordar com Lincoln sobre o axioma de que todos os homens foram criados iguais, mas negar a participação na imago dei significa que, em análise final, não há razão para uma responsabilidade comum entre os homens.

Em vista de o humanismo socialista ter alcançado poder, embora negando a criação do homem à imagem divina, a dignidade e igualdade humanas transformaram-se em simples slogans, muito úteis com fins de propaganda.George Orwell satirizou as consequências do socialismo, rejeitando o fundamento da igualdade em seu livro Animal Farm,[2] Djilas e, mais recentemente, A. Solzhenitsyn, descreveram as consequências históricas da sociedade ideal carente de uma base na criação divina.[3]

A relevância de longo alcance da verdade sobre as origens humanas é resumida no mandamento bíblico de amar ao próximo como a si mesmo (Lv 19.18; Mt 22.39). Todavia, o fracasso dos homens em viver como irmãos, embora a criação os tenha feito para isso, é devido ao egoísmo inerente que o pecado tornou universal. A substituição de estruturas injustas por outras mais equitativas só pode, em análise final, ser coroada de fracasso, a não ser que uma transformação bem mais profunda seja operada nos homens que as estabelecem e controlam o seu poder. Por essa razão, os evangélicos devem sempre contender que a primeira responsabilidade da igreja é a proclamação do evangelho e depender da modificação espiritual subsequente operada pelo Espírito Santo, a fim de criar uma comunidade em que o não convertido possa ver um modelo do reino de Deus.

Os interesses da justiça social devem, portanto, ser sempre mantidos numa relação subordinada ao evangelismo, que é o meio utilizado por Deus para restaurar a imagem divina através da habitação interior de Cristo (Cl 3.10). Podemos afirmar com propriedade que o alvo da humanidade é a “perfeição comunitária”[4] daqueles que se tornaram um Corpo mediante a ação incorporadora do Espírito Santo (1Co 12.13). O Deus que deu aos pecadores o seu dom mais precioso, o Filho, não pode aprovar a indiferença à matéria em que um número incontável de pessoas arrasta sua torturada existência, aguardando sem esperança que o Reino lhes seja oferecido. Por essa razão, Jesus Cristo ordena a seus seguidores que vão ao mundo inteiro e façam discípulos de todas as nações, ensinando-os a obedecerem a todos os mandamentos que lhes deu (Mt 28.19,20). Enquanto os liberais socialistas classificam as desigualdades sociais como criminosos, um insulto ao homem e a Deus,[5] os evangélicos de modo incongruente parecem aceitar com grande tranquilidade o fato de grande parte desse mesmo mundo não ter ouvido ainda a mensagem da salvação. Por outro lado, onde o evangelho foi proclamado e aceito, nova alegria e esperança substituíram o desespero predominante.[6] Os traços da imagem de Deus começaram a surgir (cf. Rm 8.28s com 2Co 3.2,18).

terça-feira, 9 de julho de 2013

UM BOM MINISTRO DE CRISTO





“Expondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido” (1Timóteo 4.6).
Certa feita tive a honra de participar de um culto em ações de graças pela jubilação de um fiel ministro de Cristo. De fato, o pastor em questão é um fiel servo de Deus, um homem zeloso pela Palavra. Na ocasião várias pessoas receberam a oportunidade para testemunhar algo do pastor jubilado. Um deles afirmou que algo que chamou a sua atenção, foi o fato de nunca ter encontrado uma pessoa sequer para expressar alguma queixa contra o pastor. De acordo com a testemunha, isso mostrava que aquele ministro era, verdadeiramente, um bom pastor.
Pressuposto errado
Creio, de coração, que a testemunha partiu de um pressuposto completamente errado. Repito: o pastor em questão é um fiel ministro e alguém que deve ser admirado. O que questiono é: O fato de não ter aparecido ninguém para se queixar é prova da fidelidade ministerial de alguém? Se é assim, então, o que podemos dizer das palavras do apóstolo Paulo a Timóteo: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Timóteo 3.12)? O que dizer, então, da afirmação de Jesus Cristo, em Mateus 5.11: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós”? E João 16.1-3: Tenho-vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis. Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus. Isto farão porque não conhecem o Pai, nem a mim”? O que dizer ainda do apóstolo Paulo e as “queixas” de muitos coríntios contra ele? A História da Igreja também é recheada de situações nas quais pastores foram alvo de grande insatisfação: Calvino em Genebra (1538) e Jonathan Edwards em Northampton (1750). Será que alguém ousaria dizer que esses dois gigantes da fé cristã foram maus pastores? Creio que não!
Jesus Cristo, no seu Sermão do Monte conforme registrado pelo evangelista Lucas, afirmou algo que vai diametralmente contra o pensamento da testemunha supracitada: “Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas” (6.26). Agradar a todas as pessoas não é a marca de um ministério bem-sucedido! Labora em erro aquele que parte do pressuposto de que a ausência de queixas e mágoas implica em bom ministério pastoral. O oposto é verdade. Com muita frequência, um bom ministro de Cristo desperta queixas, insatisfação e mágoa. No caso do pastor jubilado, com toda certeza ele despertou mágoas por defender a verdade; foi alvo de queixas por não se dobrar diante de hábitos pecaminosos de algumas de suas ovelhas; gerou insatisfação por manter a sua consciência cativa à Sagrada Escritura. É de se esperar que, por obra da graça de Deus, algumas das pessoas que se magoaram com ele no passado, tenham reconhecido que o pastor estava sendo fiel a Deus e, por isso, em depoimento reconheçam suas virtudes.

Para ser um bom pastor, é preciso...

Então, qual o parâmetro para se determinar quem é um bom ministro de Cristo? O que torna um pastor digno da alcunha de “servo bom e fiel”? A passagem de 1Timóteo 4.6 é muito interessante nesse sentido: “Expondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido”. O que tornaria Timóteo um bom pastor, alimentado com as Sagradas Escrituras e a boa doutrina? Timóteo deveria expor “estas coisas”. Que coisas? As mencionadas nos versículos anteriores (vv. 1-5):
Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado.
O caminho para se tornar um bom pastor deve passar pela fiel exposição daquilo que o Senhor revelou nas Sagradas Escrituras. No caso de Timóteo, ele seria um bom ministro de Cristo, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tinha seguido à medida que ensinasse a doutrina apostólica à igreja. O comentário de William Hendriksen é muito interessante: “‘Um ministro excelente’ é alguém que, com amorável devoção à sua tarefa, ao seu povo e, acima de tudo, ao seu Deus, adverte contra a apostasia da verdade, e mostra como se deve tratar o erro. Tal homem realmente representa (e pertence a) Cristo Jesus”.[1]

O que se requer é fidelidade

Em 1Coríntios 4.2, Paulo faz outra afirmação importante a respeito da natureza do ministério pastoral: “Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel”. Essa palavra de reveste de uma importância imensurável em uma época como a nossa. O Pr. Augustus Nicodemus chama a atenção para o fato de que, “em todo lugar, os pastores que querem seguir um modelo bíblico de ministério estão enfrentando questionamentos dos membros de suas igrejas, que tomaram como padrão e referencial de pastorado bem-sucedido” modelos antibíblicos.[2]Esse era exatamente o problema enfrentado por Paulo diante da igreja de Corinto, que fora plantada por ele.
O texto de 1Coríntios 4.2 nos ensina acerca do que o Senhor espera e exige dos seus ministros.Cada pregador, cada pastor, como mordomo da revelação de Jesus Cristo, deve ser encontradopistós, ou seja, fiel. Isso significa “pregar, ensinar e expor os mistérios de Deus da maneira que Deus os revelou e determinou que fossem transmitidos”.[3] Lembremos que, a função dos apóstolos era a de se consagrarem à oração e ao ministério da Palavra (Atos 6.4). Hoje não existem mais apóstolos, de maneira que o encargo da pregação da Palavra e a responsabilidade da consagração na oração passou aos pastores, como deduzimos da ordem de Paulo a Timóteo: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina”(2 Timóteo 4.2). Sendo assim, um bom pastor deve ser fiel no cumprimento da sua principal função, que é a pregação, e, ao pregar, deve ser fiel na transmissão exata daquilo que o Senhor revelou nas Sagradas Escrituras, nem mais nem menos.
Ainda de acordo com o Pr. Augustus Nicodemus, se há algo que pastores fiéis não fazem é falsificar, adulterar e diluir a Palavra, para poderem ganhar adeptos e admiradores.[4] Esse era o desejo de Paulo. Ele queria ser fiel, pois sabia que era isso que o Senhor exigia dele. Pouco importava para Paulo o sucesso externo. Pouco importava se as pessoas o amariam. Ele queria apenas receber louvor da parte do Senhor. Ele desejava apenas “ser encontrado fiel”. Esse “ser encontrado” aponta para o dia do juízo, “quando Deus haverá de julgar as intenções e motivos do coração e aferir a fidelidade dos obreiros”.[5]
Diferentemente dos coríntios, a única coisa que o Senhor exigia de Paulo era fidelidade. Pensando nisso, quais são as exigências que muitas vezes são feitas aos pastores? O que é exigido da parte da igreja está em harmonia com aquilo que é exigido pelo Senhor Deus? Como devemos avaliar um obreiro? Por não encontrar ninguém que se queixe dele? Pela dureza? Por não passarem a mão na cabeça daqueles que estão em erro? Pelo número de visitas? Ou por aquilo que Deus espera e exige deles? Pela fidelidade? Por buscarem a glória de Deus? Por insistirem em que abandonem seus pecados? Resta-nos aguardar o dia do julgamento e o resultado da avaliação divina.
Queira o Senhor que nossas igrejas compreendam essa verdade e, assim, julguem os seus pastores pelos parâmetros estabelecidos pelo próprio Deus em Sua Palavra inerrante, inspirada e autoritativa.
Encerro com a oração de um puritano do século 17. Faço dela a minha sincera oração ao Senhor:
Ó MEU SENHOR,
Que meu ministério não tenha somente a aprovação dos homens,
ou meramente conquiste a estima e as afeições das pessoas;
Mas opera a obra da graça em seus corações,
chama os teus eleitos,
sela e edifica os regenerados,
e envia bênçãos espirituais sobre suas almas.
Salva-me de presumir que sou muito e de buscar fazer a minha vontade;
Rega os corações daqueles que ouvem a tua Palavra,
que aquilo que é semeado em fraqueza possa germinar em poder;
Faz com que, enquanto aqui, tanto eu quanto aquele que me ouvem
vejamos a ti na luz especial da fé,
e, depois daqui, na chama da glória infinita;
Torna cada sermão meu um meio de graça para mim mesmo,
e ajuda-me a experimentar o poder de teu amor agonizante,
pois teu sangue é bálsamo,
tua presença é felicidade,
teu sorriso é o céu,
tua cruz é o lugar onde verdade e misericórdia se encontram.
Considera as dúvidas e desencorajamentos de meu ministério
e livra-me de considerar-me importante;
Suplico perdão pelos meus muitos pecados, omissões, infirmezas,
como homem, como ministro;
Envia tuas bênçãos sobre meu trabalho fraco e indigno,
e sobre a mensagem da salvação entregue;
Esteja com teu povo,
e que tua presença possa ser a porção deles e a minha.
Na pregação, que minhas palavras não sejam meramente elegantes e educadas,
meu raciocínio polido e refinado,
meu desempenho não seja débil e sem tato,
mas que eu possa exaltar a ti e humilhar os pecadores.
Ó Senhor de poder e graça,
todos os corações estão em tuas mãos, os acontecimentos à teu dispor,
imprime o selo da tua toda-poderosa vontade sobre meu ministério.[6]
SOLI DEO GLORIA!

[1] William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. pp. 187-188.
[2] Augustus Nicodemus Lopes. Uma Igreja Complicada. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p. 11.
[3] Ibid. p. 130.
[4] Ibid. p. 131.
[5] Ibid.
[6] Arthur Bennett (Ed.). The Valley of Vision: A Collection of Puritan Prayers & Devotions. p. 186. Tradução: Márcio Santana Sobrinho. Extraído do site: http://www.monergismo.com.

A falsa "unidade" e o dever da separação - Por C. H. Spurgeon




  
Em tempos antigos, quando algumas das Igrejas de Cristo começaram a livrar-se do jugo do Papado que pesava sobre seus pescoços, o argumento usado contra a reforma era a necessidade de manter a unidade. "Você precisa ser paciente com esta ou aquela cerimônia e com este ou aquele dogma; não importa quão anticristão e profano. Você precisa ser paciente quanto a isso, 'esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz'".

Assim falou a velha serpente naqueles dias antigos: "A Igreja é una; ai daqueles que semeiam o cisma! Pode até ser verdade que Maria tenha sido posta no lugar de Cristo, que as imagens são adoradas, que vestimentas e trapos podres são reverenciados, e que o perdão é comprado e vendido para crimes de todo tipo; pode ser que a assim chamada igreja tenha se tornado uma abominação e uma moléstia sobre a face da terra; mas ainda assim, ' esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz ', você deve curvar-se, reprimir o testemunho do Espírito de Deus dentro de você, esconder a Sua verdade sob um alqueire, e deixar a mentira prevalecer."

Este foi o grande sofisma da Igreja de Roma. Porém, quando ela não pôde mais seduzir os homens falando de amor e união, ela passou a usar o seu tom mais natural de voz, e amaldiçoou diretamente, a torto e a direito, de todo coração: e manteve a maldição até que ela mesma expire!

Irmãos, não havia nenhuma força no argumento dos Papistas. Efésios 4:3 insta para que nos esforcemos em manter a unidade do Espírito, mas não nos diz para manter a unidade do mal, a unidade da superstição, ou a unidade da tirania espiritual. A unidade do erro, da falsa doutrina, da tirania dos bispos, pode incluir o espírito de Satanás; não temos nenhuma dúvida disso; mas que esta seja a unidade do Espírito de Deus nós negamos veementemente. A unidade do mal nós devemos demolir com todas as armas que nossas mãos puderem agarrar. A unidade do Espírito, a qual devemos manter e nutrir, é outra coisa completamente diferente.

Lembrem-se que somos proibidos de fazer o mal para que venha o bem. Mas conter o testemunho do Espírito de Deus dentro de nós, esconder qualquer verdade que tenhamos aprendido pela revelação de Deus, refrear-nos de testemunhar pela verdade de Deus e da Sua Palavra contra o pecado e a tolice das invenções dos homens, todos estes seriam pecados dos mais imundos. Não ousamos cometer o pecado de extinguir o Espírito Santo, ainda que seja com a intenção de promover a unidade.

Certamente a unidade do Espírito nunca requer algum apoio pecaminoso; ela não é mantida suprimindo a verdade, e sim apregoando-a por toda parte. A unidade do Espírito tem como sustentação, dentre outras coisas, o testemunho de santos espiritualmente iluminados com relação à fé que Deus revelou em Sua Palavra. Aquela unidade, é uma unidade totalmente diferente que amordaçaria nossas bocas e nos transformaria em gado imbecilmente dirigido, para ser alimentado e depois abatido ao bel prazer de mestres sacerdotais.

Dr. McNeil disse, acertadamente, que dificilmente um homem pode ser um Cristão sério em nossos dias sem ser um controversista. Somos enviados hoje como ovelhas para o meio de lobos. Pode haver acordo? Somos acesos como luminares no meio da escuridão. Poder haver conciliação? Não foi o próprio Cristo que disse,"Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada"? Vocês compreendem como esse é o mais verdadeiro método de esforçar-se para manter a unidade do Espírito; porque Cristo o homem de guerra, é Jesus o Pacificador; mas para a criação de paz duradoura, espiritual, as falanges do mal devem ser destruídas, e a unidade das trevas arrojada em tremor.

Peço sempre a Deus que nos preserve de uma unidade na qual a verdade seja considerada sem valor, na qual princípios deem lugar à políticas, na qual as virtudes nobres e varonis que adornam o herói Cristão tenham que ser completadas por uma afetação efeminada de amor. Que o Senhor possa nos livrar da indiferença para com a Sua Palavra e vontade; porque isso cria a unidade fria de massas de gelo unidas em um iceberg, esfriando o ar por milhas ao redor, a unidade dos mortos enquanto dormem nas sepulturas, lutando por nada, porque não têm parte nem herança em tudo aquilo que pertence aos viventes. Há uma unidade que raramente é quebrada: a unidade dos demônios que, sob o serviço do seu grande mestre e senhor, nunca discordam nem disputam. Protege-nos desta terrível unidade, ó Deus dos céus! A unidade dos gafanhotos que têm um objetivo comum, com a sua glutonaria que arruína tudo ao seu redor; a unidade das ondas de fogo de Tofete, que arrasta miríades para a miséria mais profunda. Disso também, ó Rei dos céus, livra-nos para sempre!

Que Deus perpetuamente nos envie algum profeta que clame em alta voz para o mundo: "Sua aliança com a morte será anulada, e seu acordo com inferno não permanecerá". Que sempre tenhamos alguns homens, mesmo que sejam ásperos como Amós, ou austeros como Ageu, que denunciem sempre de novo qualquer associação com o erro e qualquer acordo com o pecado, e declarem que estas coisas são abomináveis para Deus.

Nunca imaginem que a contenda santa seja uma violação de Efésios 4:3. A destruição de todo tipo de unidade que não está baseada na verdade é uma preliminar necessária à edificação da unidade do Espírito. Precisamos primeiro derrubar estas paredes feitas de argamassa ruim – estes muros cambaleantes construídos pelo homem – para que possa haver espaço para as excelentes rochas dos muros de Jerusalém colocadas umas sobre as outras para uma permanente e duradoura prosperidade.


Fonte: Charles H. Spurgeon – True unity promoted (Sermon 603)
Via: Bom Caminho | Congregação Puritana Livre - SP