sábado, 5 de maio de 2012

O Evangelho de Hoje: Autêntico ou Sintético?



Você pode não concordar com todas as afirmações de Walter Chantry, neste livro, mas uma coisa é certa: ele lhe fará examinar o conteúdo e os métodos que você tem utilizado em sua evangelização, à luz da Bíblia.
Publicado inicialmente em 1970, na Inglaterra, este livro teve uma divulgação surpreendente nos Estados Unidos. Isto porque Chantry, em sua mensagem, declara que a grande parte do que é utilizado hoje em dia como evangelismo, está tão distanciado dos princípios bíblicos, que passamos a ter um novo Evangelho “Sintético”, que não é o que foi pregado por Jesus. Acusação séria? Sim, mas digna de exame e consideração, principalmente no Brasil, onde observamos um crescimento aparente nas denominações diversas e em campanhas várias de evangelização, mas onde notamos também um descaso cada vez maior por princípios doutrinários básicos, em favor de uma “unidade” e cooperação artificiais.

Walter Chantry é um pastor batista, que ministra na cidade de Carslisle, Pennsylvania, Estados Unidos, desde 1963, quando formou-se do seminário. O seu desejo, e o nosso também, é que o amado irmão, ao ler este livro, o faça como os bereanos, que mesmo recebendo a mensagem diretamente de Paulo, examinavam “cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim”. Esperamos assim, que possamos nos tornar melhores obreiros, fiéis à causa e à mensagem do Mestre, reconhecendo sua soberania em nossas vidas e trabalhando única e exclusivamente para a Sua glória.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Era do Espírito -



A vinda do Espírito marcaria uma nova era para o mundo, e especialmente para a igreja. Há muito tempo Deus vinha anunciando através dos profetas a chegada de uma era espetacular. Essa era foi identificada como um derramamento especial do Espírito Santo. Apesar do Espírito já estar em atividade durante todo o período do Antigo Testamento, como disse Stott, “mesmo assim, alguns profetas predisseram que nos dias do Messias, Deus concederia uma difusão liberal do Espírito Santo, nova e diferente, bem como acessível a todos”5. Isaías profetizou que depois de um tempo de muita destruição para o povo de Israel, onde os palácios seriam abandonados, as cidades ficariam desertas, as torres seriam destruídas, finalmente, Deus derramaria o “Espírito lá do alto”; então, toda uma renovação aconteceria (Is 32.14-15). Esse derramar do Espírito passou a ser uma das grandes expectativas escatológicas do povo de Deus. Isaías fala ainda: “Porque derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção, sobre os teus descendentes” (Is 44.3). Ezequiel foi ainda mais específico sobre esse derramamento: “Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.27). E Joel fala da amplitude desse derramamento: “E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias” (Jl 2.28-29). Toda a expectativa sobre o derramamento do Espírito pode ser vista nas palavras de João Batista no início de seu ministério: “Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 1.8). João Batista anunciou que a profecia do Antigo Testamento, sobre o derramar do Espírito Santo, logo se cumpriria na pessoa daquele a quem ele anunciava, o Senhor Jesus Cristo. E o próprio Senhor, após a sua ressurreição, disse aos Apóstolos: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.49). Jerusalém seria o local onde finalmente o Espírito prometido viria. Bruner enfatiza a importância de Jerusalém nesse ponto: “Para receberem o Espírito Santo, os apóstolos são ordenados a não se ausentarem de Jerusalém. Jerusalém, no conceito de Lucas, será o local do penúltimo evento da história da salvação antes do último evento: a volta de Cristo”6. Jerusalém é a cidade escolhida para que a antiga profecia se cumpra, e assim, o Espírito prometido venha sobre o povo escolhido. Por isso, no dia do Pentecostes, Pedro claramente entendeu que a promessa havia se cumprido. Percebemos isso por suas palavras: “Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne” (At 2.16-17). Sobre essa base, ele teve a coragem de proclamar à multidão que o ouvia: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.38-39). O perdão dos pecados e o dom do Espírito eram promessas divinas que haviam acabado de se cumprir naquele dia. A última expressão de Pedro de que a promessa era para todos os que “Deus chamar”, aponta para o aspecto universal da promessa do Espírito. Joel já havia dito que o derramamento seria sobre todo tipo de pessoas, incluindo jovens, velhos, homens, mulheres, servos e servas (Jl 2.29). Independente de idade, sexo, raça e classe social, o dom incluía todos os que se arrependessem e cressem7. Agora Pedro começa a alargar ainda mais a tenda, pois começa a antever a possibilidade de que outros povos sejam incluídos.
Percebemos, portanto, que desde o Antigo Testamento, sempre houve uma promessa divina de enviar o Espírito Santo a fim de iniciar uma era diferente, a Era do Espírito. O Espírito viria habitar de forma mais plena e universal o povo de Deus, que não mais seria limitado a uma nação, pois englobaria pessoas de todas as tribos, raças, línguas e nações. O momento quando aquela promessa fosse cumprida seria um momento ímpar, um momento único na história da salvação.
5 John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 17.
6 F. D. Bruner. Teologia do Espírito Santo, p. 126.
7 Ver John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 20

O Espírito Santo Por: Leandro Lima


Jesus disse: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). Ele destacou a existência do Espírito como análoga ao vento, demonstrando sua invisibilidade, sua imprevisibilidade, e ao mesmo tempo sua existência real e abençoadora. A palavra vento e a palavra Espírito são exatamente a mesma na língua grega1, e, portanto, Jesus está fazendo um jogo de palavras nesse texto. Quando pensamos no Espírito como alguém semelhante ao vento, entendemos um pouco sobre quem ele é. Jesus disse: “O vento sopra onde quer”. Quem pode controlar o vento? Também ninguém pode controlar o Espírito. Em seguida disse: “Ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai”. De alguma forma, podemos senti-lo, embora não possamos vê-lo, nem entendê-lo. Todos os crentes sabem quem é o Espírito Santo. Ninguém precisa descrevê-lo para eles, até porque, ninguém conseguiria. Todo crente sabe o que é esse maravilhoso sopro de vida e de paz que preenche a vida e eleva o nosso cotidiano. Essa “doce presença” inunda a existência do filho de Deus, e o leva a ter um relacionamento tão íntimo com Deus, quanto uma criancinha pode ter com seu pai (Rm 8.15).

Por outro lado, percebe-se que há muitas distorsões a respeito da pessoa e da obra do Espírito Santo dentro do cristianismo. Se por séculos, o cristianismo pouco falou a respeito do Espírito2, o século vinte foi um verdadeiro despertar para o Espírito. Isso se deu basicamente por causa dos movimentos carismáticos que surgiram no início do século e se estenderam em sucessivas renovações até o fim do século vinte. Hoje, as igrejas pentecostais e neo-pentecostais são maioria absoluta em vários países do mundo, inclusive no Brasil. O termo “pentecostal” é uma referência aos acontecimentos do dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e eles passaram a falar em línguas estranhas (At 2). Supostos movimentos espirituais têm causado divisões e esfacelamento em denominações cristãs que tinham peso de séculos de existência. Na “onda do Espírito” as pessoas têm tido as mais diversas e até aberrantes manifestações supostamente espirituais. No outro extremo, muitos cristãos evitam todo tipo de manifestação espiritual, afastando-se completamente de tudo o que possa ter conotação carismática, e às vezes, vivem uma vida de frieza e indiferença em relação às coisas de Deus.
Nesse capítulo, consideraremos a personalidade divina do Espírito, o significado de sua vinda, o batismo realizado por ele, e a diferença que ele produz na vida das pessoas. O objetivo é resgatar o ensino bíblico e o equilíbrio sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo na teoria e na prática da vida cristã.
1 No grego é a palavra “pneuma”. No hebraico “ruach” é espírito e também é vento.
2 No início da igreja, a preocupação principal foi com a pessoa de Cristo, embora o Espírito Santo tenha recebido atenção. Durante a Reforma, a obra do Espírito Santo foi enfatizada, especialmente por Calvino, que redescobriu o papel do Espírito na aplicação da salvação. Mas nos estudos posteriores da Teologia Sistemática, a pessoa e a obra do Espírito nem sempre mereceram uma seção própria. Geralmente foi estudado junto com a Trindade ou dentro da Soteriologia. Sinclair B. Ferguson, no entanto, entende que o Espírito Santo não ficou esquecido nos escritos dos grandes teólogos, pois Calvino, Owen, Kuyper e outros se dedicaram na abordagem da doutrina do Espírito Santo, o que concordamos prontamente (Ver Sinclair B. Ferguson. O Espírito Santo. São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 9-10).

quarta-feira, 2 de maio de 2012

DEVEMOS GUARDAR O SÁBADO?






Pergunta: “Olá, venho a vocês trazer uma pergunta simples, mas que às vezes gera dúvidas em minha mente limitada, a Bíblia diz que Jesus veio cumprir a lei e ele não aboliu a lei, como fica a questão de guardar o sábado? Agradecido desde já, Deus os abençoe.” – Alciro Ventura, Santo Antônio da Platina – PR
Resposta:
Querido Alciro, excelente pergunta. Podemos, de modo bem simples e breve, resumir as Leis do Antigo Testamento em Leis Morais (ex.: Dez Mandamentos) e Leis Cerimoniais (ex.: sacrifício de animais). As Leis Morais não foram abolidas. As Leis Cerimoniais sim. Com a obra perfeita da redenção, Jesus Cristo aboliu todas as Leis Cerimoniais. É por isso que, por exemplo, não sacrificamos animais após a morte e ressurreição de nosso Salvador.
Quanto ao sábado, ele se encontra dentro das Leis Morais. Ou seja, ele não foi abolido. Contudo, precisamos entender muito bem este ponto a fim de não cairmos no mesmo erro que caíram os judeus e entendermos o sensus plenior (o sentido mais completo, pleno, ou, o significado mais profundo pretendido por Deus) desta passagem.
A guarda do sétimo dia encontra-se nos Dez Mandamentos. Está relacionada ao descanso do sétimo dia (após seis dias de trabalho). Todavia, embora se encontre dentro das Leis Morais, o sábado (no Antigo Testamento) era repleto de elementos cerimoniais, os quais foram abolidos na morte de Cristo. O aspecto moral, ou seja, que Deus espera que cessemos nossos esforços após seis dias trabalhados, isso não foi abolido. Em suma: o dia de descanso não foi abolido, mas os elementos cerimoniais envolvidos no mesmo sim. Lembrando que esse descanso envolvia devoção pessoal a Deus de um modo mais dedicado do que durante os "seis dias trabalhados".
O apóstolo Paulo afirma aos colossences (Cl 2.16-17) que ninguém deveria julgá-los por causa da comida, bebida, dia de festa, lua nova ou sábado. Por quê? Paulo diz que é pelo fato destas coisas serem sombra das coisas que haviam de vir (Cristo). Que coisas constituem a sombra? O sábado? Certamente que não. Mas os elementos cerimoniais incluídos nele e o modo supersticioso com o qual os judeus o tratavam.
Não podemos deixar de lado o fato supersticioso envolvido no sábado. Algo que deveria ser feito com devoção santa, tornou-se em algo feito supersticiosamente, como se o simples fato de não se trabalhar no sábado já fosse um culto a Deus. Calvino, comentando isso nas Institutas, afirma que, em seu tempo, muitos estavam querendo fazer isso com o domingo. Tais pessoas eram tão supersticiosas quanto os judeus da Antiga Aliança. Elas guardavam o domingo (ou sábado) simplesmente por que entendiam que é um mandamento de Deus guarda-lo, sem meditarem e compreenderem o que Deus pretendia com esse “descanso”. Fazendo assim, de nada diferiam dos antigos fariseus.
Segundo o Dicionário VINE, a raiz da palavra sábado em hebraico e grego (shabbath e sabbaton, respectivamente) tem a ver com "cessação de atividade", e não "de relaxamento ou repouso". É óbvio que, com a cessação das atividades vem o descanso. Mas esse descanso não deve estar relacionado necessariamente ao cansaço físico. Deus descansou em um shabbath (Gn 2). Embora Ele não estava cansado, Ele cessou sua atividade criadora.
Posto isso, afirmamos que o sensus plenior do sábado é destinar um dia ao descanso, à devoção ao Senhor, livrando-nos, dentre outras coisas, de nos envolvermos de tal modo com este mundo a ponto de abandonarmos completamente uma vida diária de comunhão com Deus.
Crisóstomo cria que o sábado foi substituído pelo domingo, o Dia do Senhor. Calvino, comentando 1Co 16.2 afirma que não precisamos pensar assim. Calvino diz: “É bem provável que no princípio os apóstolos retivessem o dia que já lhes era familiar, mas que, mais tarde, as observâncias escrupulosas dos judeus os forçaram a desistir dele e substituí-lo por outro [dia]. Ora, o Dia do Senhor foi escolhido em preferência a todos os demais, visto que a ressurreição de nosso Senhor pôs fim às sombras da lei. Portanto, este dia nos leva a recordar de nossa liberdade cristã”.
E é isso que vemos no Novo Testamento, os apóstolos valendo-se do domingo (o Dia do Senhor) para seus encontros de adoração.
Espero ter respondido à sua questão. Um forte abraço,
Wilson Porte Jr.
Ministro da Convenção Batista Brasileira, membro da Comunhão Reformada Batista do Brasil, pastor da Igreja Batista Liberdade, Araraquara-SP, apresentador do programa de TV "conexão", Professor de Exposição Bíblica, Grego e Hebraico no Seminário Martin Bucer, e de Teologia Sistemática, História Eclesiástica, Grego e Hebraico na Sociedade de Estudos Bíblicos Interdisciplinares (SEBI). Coordenador da SEBI-Araraquara. Bacharel em Teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e Mestre em Teologia pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (Universidade Presbiteriana Mackenzie). Casado com Rosana, pai do Natan e da Ana

Conselhos a um Pastor: Cartas reais. Postado por Solano Portela




Pb. Solano

Poderia me dar uma orientação? Estou na eminência de assumir o pastorado de uma igreja... ... será o meu primeiro ministério... . Sinto uma mistura de ansiedade, alegria e responsabilidade em saber que estarei apascentando o rebanho do Senhor, tenho orado, lido a Palavra e gostaria que o irmão me orientasse quais devem ser os primeiros passos de um novo pastor diante de sua igreja.

Firmino Oliveira
De: Solano Portela
Assunto: Uma Orientação
Meu caro irmão Firmino:

O conselho que me pede é difícil, pois nunca estive nessa situação, mas como já tenho alguns quilômetros rodados e muita observação na igreja de Cristo, aventuro-me a dar-lhe algumas orientações, certo de que esse passo que o irmão está dando - de pedir conselhos, já mostra a mão de Deus sobre a sua vida.

Gostaria de animar o querido irmão a perseverar firme na Palavra de Deus e a caminhar em santificação, seguindo sempre as palavras de Paulo a Timóteo quando orientou aquele jovem ministro a tomar cuidado dele próprio (em todos os sentidos na vida física e espiritual, bem como ser firme nos caminhos de Deus para com a família) e, subsequentemente, da doutrina do ensino, do ministério na Casa do Senhor. Nunca descuide a vida devocional e o estudo sério da Palavra, utilizando todas as ferramentas que puder ter em mãos (livros, livros, livros!). Estou presumindo que tem o treinamento pastoral completado, mas esse nunca acaba - é preciso SEMPRE estar estudando.

Espere algumas dificuldades no ministério. Deus assim indica que isso ocorrerá. No entanto, além dele dar o poder para suportá-las, as eventuais dificuldades, surgidas com alguns, não devem desviar os seus olhos do objetivo de que a igreja caminhe em paz, direcionada na trilha da sã doutrina. Procure preparar os novos convertidos e adolescentes para declararem a sua fé e não descuide das frentes de evangelização. Tente fundar um ponto de pregação, na casa de alguém que mora mais distante, que poderá se tornar mais tarde em uma congregação e assim a igreja irá crescendo. O seu ministério na igreja será formado pela pregação da Palavra mas também por vidas que deve aconselhar e visitar, bem como pela intercessão pelos membros que Deus lhe confiar.

Agora vão alguns conselhos práticos deste presbítero, que já sentou sob diversos ministérios e que acumulou um pouco de experiência, não pela perspicácia, mas pela própria idade, vivência e por intermédio de muitos erros dos quais Deus permitiu que lições fossem extraídas:

1. A saúde: Minha esposa certamente diria que eu não sou pessoa adequada para aconselhar nessa área mas isso não significa que eu não sei o que deva ser feito. Assim, apoiando-me no conselho Paulino, já aludido acima (1 Tm 4.16), cuide-se, porque cuidando de si mesmo estará cuidando de sua família e também da sua igreja. É impossível funcionarmos adequadamente quando nos sentimos mal fisicamente. Não use a prática nociva da auto-medicação, pois isso só pode piorar as situações de desconforto, a médio prazo, e, possivelmente, agravará os problemas. Muitas vezes estará lidando apenas com os sintomas, em vez de com as causas. A auto-medicação não significa cuidado adequado com a saúde. Portanto, pelo bem da sua família e da igreja cuide-se, nessa área.

2. A memória: Devemos confiar menos nela. Eu tenho anotado cada vez mais as coisas, pois vejo que já não me lembro dos detalhes com a mesma facilidade de antigamente. Na sua condição de pastor a lembrança de datas, nomes, fatos é solicitada com muita freqüência e algo inevitavelmente ficará para trás. Portanto, meu conselho é para que ande com um caderninho [hoje em dia, um iPad, serve] e anote tudo o que for pertinente. Sobretudo, nunca suba no púlpito sem anotações dos avisos que pretende dar à congregação, com todos os seus detalhes importantes. A falta disso resultará em momentos constrangedores nos quais procurará lembrar e, muitas vezes não conseguirá. Alguém da congregação virá em auxilio, mas isso não pega bem especialmente quando esse auxílio é solicitado do púlpito. Meu conselho é que, anote, anote, anote...

3. As batalhas: Escolha as batalhas que vai travar. Nem todas valem à pena. Obviamente que as que não valem à pena não terão caráter doutrinário, mas meramente administrativos ou podem ser questões sócio-culturais - que devem ser resolvidas, mas sem a avidez e intensidade das questões explicitamente apontadas nas Escrituras. As questões doutrinárias merecem, também, classificação de importância, para discernir o tempo e época correta de tratá-las. Alguns territórios de somenos importância podem ser concedidos para que outros maiores e mais importantes sejam ganhos. Antes de avançar o exército, avalie bem o terreno pisado, conheça os detalhes e as personalidades daqueles que estão nas redondezas. Acima de tudo, peça constantemente a Deus sabedoria sobre como tratar questões administrativas [vale a pena, mesmo, "expulsar" os diáconos da sala que ocupam há mais de uma década?]. Quando delegar delegue, mesmo, estabelecendo os limites da delegação, mas disposto a aceitar as ações e decisões dos que receberam a responsabilidade de decidir. Não se envolva em todos os detalhes administrativos da Igreja. Ache quem tem talento para isso e descanse, concentrando-se nos aspectos maiores do seu ministério, ainda que você ache que, se fosse você, faria algo de maneira diferente [o mundo não vai acabar, porque o portão instalado é deslizante e não de bandeira, como você acharia melhor].

4. Os Cânticos: Via de regra, a congregação precisa de uma voz forte que lidere a igreja na melodia. Na realidade, ela espera isso de quem está cantando lá na frente. Quando isso não ocorre é possível que ela fique perdida . Se o irmão não tem esse dom, ache quem tem, mas não deixe que lhe usurpem o púlpito e passem a fazer sermões e "passar pitos" na igreja - isso é função do pastor. Tenha cuidado com as letras, pois muita doutrina errada entra pelos cânticos. Não se entusiasme com algo só porque tem o nome "Jesus"
no meio. Lembre-se das palavras de Cristo que muitos dirão "Senhor! Senhor!" Não escolha melodias muito complicadas. Simplifique. O cântico congregacional é algo bonito e que envolve a todos - creio que Deus se agrada muito nele. Muito mais do que quando alguém faz um solo, ou exagera no tocar de algum instrumento, quase como um espetáculo, às vezes, chamando atenção para a própria pessoa que canta ou toca, em vez de para a música e mensagem cantada. Contudo, creio que alguns solos, duetos ou conjuntos - bem cantados e ensaiados - "com arte e júbilo" podem fazer parte da liturgia.

5. Pregação: Essa é a grande área do ministério. Pela pregação os pecadores serão alcançados e os propósitos de Deus realizados. Procure sempre falar um bom português, comunicar-se bem, exercite o seu vocabulário e a fluência verbal. Pregue com autoridade e procure alicerçar as mensagens em sã doutrina e na palavra. Essas são qualidades raras nos dias de hoje e muitos pregadores gostariam de tê-las - e nunca é tarde para obtê-las. Ainda, dentro desse tema da pregação, aconselho:

   a. Objetivo: Deixe claro, no início, o que quer ou o que pretende ensinar. A igreja seguirá melhor se souber onde o irmão quer chegar.

   b. Lições/Aplicação: É melhor transmitir poucos pontos (um ou dois; no máximo três), mas que sejam bem substanciados pelo texto exposto (ou pela Palavra de Deus, em geral). Quando se procura transmitir mais do que isso, corre-se demais e o ensino fica superficial.

   c. Duração: Procure desenvolver o sermão em 30-40 minutos. Essa é a minha luta, também, mas a atenção da congregação será melhor aproveitada quando há essa perspectiva. Quando a expectativa dela é de uma hora ou mais de sermão, já se cansa, ou se desliga de véspera. Muitos pregadores expressam com orgulho mal-disfarçado: "nunca prego menos de uma hora"! Isso alimenta o ego e podemos até argumentar que deveria existir maior interesse na exposição da Palavra de Deus, mas podemos também receber essa limitação como sendo o tempo que Deus nos Deus para trabalharmos com máxima eficiência e eficácia. Ou seja, concentrarmos-nos no que deveríamos fazer, em vez de ficar lamentando uma eventual atitude de impaciência na congregação.

   d. Introdução: Tenha introduções curtas, sempre ligadas ao propósito da mensagem. Às vezes as introduções podem virar verdadeiros sermões, mas confundem o povo, pois o sermão vem depois.

   e. Exposição: Pregue expositivamente. Escolha um texto e abra o seu entendimento para que ele possa ser internalizado nas mentes e corações de suas ouvelhas. Estude o seu contexto, suas ligações, verifique quais aspectos não são tão claros assim, para a congregação e os explique. Creio firmemente que quando Deus nos coloca na posição de pregadores da Palavra, ele nos dá insights sobre o texto fruto de nosso estudo e meditação nele, que devem ser transmitidos à congregação (não confunda! isso não tem nada a ver com novas revelações). Quando pregamos expositivamente, não significa que não erramos, mas erramos menos, porque estamos presos ao texto. A pregação tópica tem o seu lugar na igreja uma vez ou outra, mas creio que a norma deveria ser a pregação expositiva, pois todas as doutrinas podem ser ensinadas, dependendo do texto. Muitos entendem pregação expositiva como sendo pregação seqüencial (quando o pregador fica em um livro da Bíblia domingos à fio). Essa sistemática pode ser importante, mas não é mandamento divino e é possível que nem sempre essa pregação sequencial - se praticada com exclusividade, atenda as necessidades ou edifique a igreja. Utilizada de vez em quando, em uma seqüência de domingos, usados na exposição de um livro da Bíblia, é uma boa idéia.

   f. Referências paralelas: Tenha cuidado para que os textos paralelos, de apoio, não virem um sermão dentro do sermão. É possível nos perdermos quando vamos a textos que deveriam apoiar a lição principal a ser transmitidas e, quando vemos, estamos expondo outros pontos que confundem e não auxiliam. Acho que sempre ajuda estarmos nos perguntando, quando usamos outros textos fora daquele que estamos expondo ajuda a esclarecer, a ilustrar a substanciar; ou desvia a atenção dos pontos principais?

   g. Aplicação: Procure aplicações simples, pertinentes à vida dos membros, às situações vivenciadas no dia a dia. É importante mostrarmos a situação atual do mundo evangélico, das igrejas que nos cercam, dos desvios doutrinários que estão no nosso meio. No entanto, se colocarmos na maioria das vezes a aplicação nessa área, podemos gerar apenas sentimentos de auto-justiça e deixamos de atingir os corações daqueles a quem ministramos.

   h. Ilustrações: Utilize-as em profusão, mas com muito cuidado e critério - elas devem ser pertinentes ao tema e ao texto (você já deve ter ouvido pastores falarem que encontraram um membro que fez referência a um sermão ouvido há anos, e não se recordavam de nada da mensagem principal, mas a ilustração havia sido sensacional!). Ilustrações pessoais são sempre as melhores, mas seja cuidadoso e não se coloque indevidamente, como uma criatura perfeita - Paulo, que se colocava como exemplo, admitia, ao mesmo tempo que era "o principal" dos pecadores.

   i. Dicção: às vezes o sistema de som é deficiente. Procure, portanto, articular bem as palavras para que elas sejam realmente bem entendidas. Isso parece um ponto não tão importante assim, mas é importantíssimo, pois de que adianta ter o que transmitir se a congregação não consegue entender? Em algumas igrejas que freqüentei esse tem sido um problema constante: o som e a inteligibilidade da mensagem e das palavras do pastor. Não sei como enfatizar isso o suficiente (também não sei como Spurgeon consegui falar para 5.000 pessoas sem sistema de som, mas ele conseguia!). Já ouvi de várias pessoas, principalmente de idade mais avançada, dizer que não conseguem entender o pastor . Um outro casal visitante disse-me, certa vez, que conseguiu compreender uns 25% do que o pastor falou. Portanto, é preciso cuidado nisso. Procure trabalhar com quem domina o sistema de som para chegar a uma equalização que gere inteligibilidade à mensagem. Procure, igualmente, não falar com muita rapidez (isso geralmente ocorre nos dez minutos finais do sermão, quando ficamos agoniados para comprimir tudo o que queriamos dizer e que não deu tempo até aquele momento nesse caso, volto aos pontos b e c , acima transmita menos, mas transmita com mais intensidade). A rapidez na fala também prejudica a inteligibilidade, da mesma maneira que a fala lenta e pausada demais (ou com as abomináveis "pausas vocais" - "eh..", "uh...",) coloca as pessoas para dormir.

Não esqueça que todo o seu pastorado é veículo para a transmissão do verdadeiro evangelho, de "todo o conselho de Deus". Cuide de você, de sua família, dos pilares da fé cristã e do ensino Espero que essas observações ajudem. Desejo-lhe imensa felicidade no seu ministério e durante toda sua vida.
Em Cristo Jesus,

Presbítero Solano Portela