segunda-feira, 22 de setembro de 2014

POR QUE ALGUNS ADOLESCENTES E JOVENS MESMO TENDO PAIS CRISTÃOS NÃO QUEREM MAIS IR A IGREJA?



Volta e meia e ouço alguns pais reclamando que seus filhos não querem mais ir a igreja. Lamentavelmente são incontáveis o número daqueles que choram pelo fato de seus filhos não desejarem mais cultar ao Senhor no ajuntamento dos santos. Ora, eu não quero ser simplista, mesmo porque, bem sei que existem inúmeros fatores externos e internos que colaboram para que um jovem não queira ir a igreja, todavia, acredito que um dos motivos preponderantes esteja relacionado ao fato dos pais negligenciarem o culto ao Senhor. 
Quantos não são aqueles que faltam cultos para assistirem uma partida de futebol na televisão? Ou quantos não preferem ficar em casa devido ao cansaço ou a chuva que cai sobre sua cidade? Pois é. os motivos são os mais variados não é mesmo? Se não bastasse isso, existem alguns pais que justificam a sua ansência ao culto cristão pelos seguintes motivos:
  1. É muito difícil levar um bebê para a igreja!
  1. Meu bebê não se acostuma ficar no berçário e chora muito!
  1. Você não imagina o quão complicado é arrumar uma crianca para sair de casa.
  1. Coitadinha da criança, brincou o dia inteiro, não vou acordá-la para ir a igreja.
  1. Meu filho faz muito barulho e não consigo controlá-lo, atrapalhando, assim, o culto!
  1. Não consigo segurar meu filho comigo sentado na igreja e por isso prefiro não ir!
  1. Tirar meu filho pré-adolescente da cama no domingo de manhã é algo impossível!
  1. Meu filho não gosta de ir à igreja e não tenho como obrigá-lo!
  1. Coitadinho, ir a igreja todo domingo é massante, afinal de contas ele é uma criança e precisa se divertir.
Caro leitor, eu também sei que o fato de levar os seus filhos dominicalmente aos culto não serve como garantia de  que permancerão no Senhor, entretanto, o fato de demonstrarmos com nossas atitudes que amamos a Deus e que devido isso nos reunimos com outros cristãos para adorá-lo, ensinará as nossas crianças que na escala de valores Deus vem em primeiro lugar. Em contrapartida, quando damos escusas para não irmos a igreja, contribuimos para que os nossos filhos entendam que cultuar ao Senhor não é tão importante assim. As Escrituras nos ensinam que devemos ficar alegres por irmos a Casa do Senhor. (Salmos 122:01) Nos ensina também que devemos instruir a criança no caminho que deve andar e quando for velho não se desviará dele. ( Provérbios 22:06)
Ora, veja bem, o texto diz que a criança deve ser ensinada no CAMINHO, isto é, pais não somente ensinam o que fazer, mas fazem juntos. Portanto, se você deseja que os seus filhos cresçam, e andem nos caminhos do Senhor, dê o exemplo mostrando aos seus filhos que não existe nada mais importante do que servir ao Senhor.
Pense nisso, até porque, depois não adianta chorar pelo leite derramado.
Renato Vargens

domingo, 21 de setembro de 2014

WILLIAM TYNDALE: REFORMADOR, TRADUTOR E MÁRTIR


Nascido na Inglaterra em 1494 graduou-se ainda jovem na Universidade de Oxford em 1515. Aos 30 anos de idade fez uma promessa e determinou-se a cumpri-la até o fim de seus dias.

Para um sacerdote que queria pouco mais do que um lugar tranqüilo para traduzir a Bíblia, William Tyndale teve aventuras incomuns em sua vida. Ele foi caçado pela Europa por agentes secretos e foi pego enquanto imprimia secretamente o seu Novo Testamento em inglês. Ele foi mais tarde seqüestrado por um espião e morto como um herege quando tinha pouco mais de quarenta anos. E tudo isso por ter traduzido a Bíblia para o inglês.

Seus superiores católicos não aprovavam o projeto. Eles o associaram ao crescimento protestante, que ensinava que a Bíblia, não a Igreja, era a voz de Deus na terra. De fato, Tyndale estava alinhado com o movimento protestante. É possível observar nos comentários inseridos na sua Bíblia e também através das suas cartas, uma relação muito estreita com os princípios da Reforma Protestante. Ao contrário do Catolicismo, o Protestantismo sempre esteve, desde a sua gênese, ligado profundamente à tradução da Bíblia.

DE SACERDOTE A FUGITIVO

Apesar de educado em Oxford e Cambridge, e então, ordenado como um sacerdote, tudo que Tyndale queria era traduzir a Bíblia das línguas originais, hebraico e grego, para o inglês. Como um lingüista talentoso, ele parecia ser a pessoa certa para aquela tarefa. Ele dominava pelo menos sete línguas, incluindo as línguas bíblicas antigas.

Em 1523, em torno dos seus trinta anos, ele foi a Londres e pediu permissão do Bispo Cuthbert Tunstall para iniciar o trabalho de tradução. Essa atitude revela astúcia, porque o Bispo era um intelectual e amigo de Erasmo, o teólogo holandês que havia publicado a primeira edição grega do Novo Testamento e que escreveu no prefácio que desejava que a Bíblia fosse traduzida para todas as línguas. Tunstall, entretanto rejeitou o pedido de Tyndale, aparentemente temendo que uma Bíblia que o povo comum pudesse entender encorajaria o movimento da Reforma iniciado por Martinho Lutero, que levou Tyndale a concluir que “não somente não havia lugar na soberania do palácio de Londres para traduzir o Novo Testamento, mas também não havia lugar para fazê-lo em toda a Inglaterra”.

Com o patrocínio financeiro do seu amigo, Humphrey Munmouth, um rico vendedor de tecidos, Tyndale saiu da Inglaterra no ano seguinte para encontrar um lugar seguro para trabalhar. Ele nunca mais voltaria à Inglaterra. Ele mudou-se para Hamburgo, na Alemanha, e, em agosto de 1525, havia concluído a tradução do Novo Testamento grego de Erasmo para o inglês. Tyndale conseguiu um impressor em Colônia, mas o trabalho de impressão foi interrompido quando os oponentes do movimento protestante atacaram a tipografia. Tyndale, entretanto soube dos planos deles, salvou as páginas que já haviam sido impressas e escapou. Uma impressora na cidade de Worms, onde havia uma mentalidade mais favorável à Reforma, completou o trabalho, e as 6.000 cópias foram contrabandeadas para a Inglaterra em barris de farinha e em peças de tecido.

QUEIMANDO A BÍBLIA E O TRADUTOR

O Bispo Tunstall ficou horrizado quando descobriu a respeito das Bíblias. Ele ordenou que todas as cópias na sua Diocese fossem queimadas. Então, secretamente, planejou comprar todo o resto da produção de Tyndale. “Os livros são errados e maldosos”, ele disse a um vendedor que ele acreditava estar envolvido com Tyndale, “e eu tenho a intenção de destruir todos eles”. O vendedor estava, sim, envolvido, mas era um amigo do tradutor. Tyndale concordou em vender as Bíblias e usar o dinheiro para pagar por edições melhores, que ele publicou em 1534 e 1535 

Por essa época, Tyndale estava bem encaminhado com uma tradução do Antigo Testamento. Ele completou os cinco primeiros livros da Bíblia, bem como Jonas, e os Livros de Josué a 2 Crônicas. Um de seus amigos, Miles Coverdale, concluiu a tradução do Velho Testamento, baseada na tradução de seu companheiro. Mas ele não viveu para vê-los impressos.

Tyndale passou a mudar-se constantemente para livrar-se de agentes ingleses e da Igreja enviados para prendê-lo. Enquanto vivia em Antuérpia, Tyndale foi enganado por um agente inglês que afirmava que era a fvaor do movimento protestante que começava a tomar forma. O agente convenceu Tyndale a dar uma caminhada pela cidade. Então, quando eles entraram num beco estreito, ele sinalizou para dois soldados que o esperavam. Eles pegaram Tyndale e o levaram para a prisão estadual próximo de Bruxelas, que ficava a 16 quilômetros de distância.

Em algum momento durante o ano e meio que Tyndale passou na prisão, ele escreveu uma carta que tem muita semelhança com uma das mensagens de Paulo a Timóteo e que dá a entender que ele ainda estava trabalhando na sua tradução do Antigo Testamento. Ela foi escrita em latim e enviada a uma autoridade cujo nome é desconhecido:

Eu imploro a vossa senhoria... que peça ao comissário que tenha a bondade de me enviar, dos meus bens que ele possui, um gorro mais quente, porque tenho sentido muito frio em minha cabeça... e também um casaco mais quente, porque o que tenho é muito fino; uma peça de tecido ainda para remendar as minhas calças... Mas, acima de tudo, eu imploro... para ter a Bíblia Hebraica, a gramática do hebraico e o dicionário do hebraico, para que eu possa passar o meu tempo estudando.

Tyndale foi julgado não somente por publicar o Novo Testamento em inglês, mas também por ter um pensamento semelhante ao de Lutero. Introduções e notas nas margens de sua Bíblia revelaram a sua teologia. Ele acreditava na salvação através da fé, não através da Igreja. Ele negava a existência do purgatório. Ele argumentava que a virgem Maria e os santos não intercediam por nós e que não deveríamos orar para eles.

Em agosto de 1536, Tyndale foi condenado como culpado de heresia. Dois meses depois ele foi acorrentado a uma estaca onde um executor publicamente o estrangulou com uma corda e, então, queimou o seu corpo. Suas últimas palavras foram: “Senhor, abra os olhos do Rei da Inglaterra”, e enquanto ele falava, o clima estava mudando na Inglaterra. O Rei Henrique VIII, que havia sido incapaz de assegurar a aprovação do Papa para divorciar-se de Catarina de Aragão, sua “vaca espanhola”, estava se afastando da Igreja Católica.

Um ano depois da morte de Tyndale, Bíblias que revelam forte influência do trabalho dele começaram a ser distribuídas na Inglaterra, com a aprovação do Rei. Na verdade, o trabalho de Tyndale foi a base para a tradução da maioria das traduções da Bíblia inglesa. O famoso biógrafo, David Daniell, estima que 83% do Novo Testamento na versão King James foram retirados da obra de Tyndale. Em dois anos, todas as paróquias foram encorajadas a ter uma cópia para o seu povo. E, dentro de cinco anos, as igrejas pagavam multas se não cumprissem a ordem.

“Se Deus poupar a minha vida por alguns anos, farei de tudo para que um menino que correr atrás do arado saiba mais da Bíblia do que vocês”.
William Tyndale falando ao clero

sábado, 20 de setembro de 2014

O propósito da salvação em 1 Pedro


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(1 Pedro 1.13-25)

Introdução

Após tecer um louvor de agradecimento a Deus, e, ao mesmo tempo, discorrer com virtude sobre a obra da salvação em Cristo Jesus através de uma série de afirmações indicativas (vs.3-12), Pedro, dessa vez, relaciona a santidade na vida cristã como evidência e finalidade da salvação. Se outrora o apóstolo afirmou a nossa salvação expondo algumas das principais doutrinas da graça, tais como: eleição, expiação, regeneração, santificação (vs.2-3), agora ele nos chama através de uma série de imperativos (exortações) para viver esta salvação na vida prática (1.13-25). Além de explicar para quê o cristão foi salvo, estas doutrinas da graça são, também, a base do chamado a um estilo de vida em obediência.

O esboço homilético desta seção pode ser dividido em três pontos, ou seja, o propósito da salvação consiste em: 1 Uma vida em santidade (1.13-16). 2 Uma vida com reverência (1.17-21). 3 Uma vida em amor (1.22-25).         

1. Uma vida em santidade (1.13-16)

Tendo recebido o dom da salvação em Cristo Jesus (vs.9), os destinatários de Pedro bem como os cristãos em geral não devem desprezar este inefável presente sendo negligentes na salvação. Como filhos de Deus, devemos viver em conformidade com a sua vontade, que consiste numa vida em obediência a sua Palavra (veja Mc 3.35; Jo 9.31; 1Pe 2.15). A realidade da salvação deve se expressar em santidade vivida. 

1.13 Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.

Pedro, através de uma série de imperativos (exortações), instrui os seus leitores e a todos os cristãos em como viver uma vida que glorifica a Deus. Para vivermos em santidade é necessário:

a) Dispormos a mente. A preposição por isso é uma conclusão afirmativa que antecede o tema da obra da salvação tratado nos versículos 3-12. Pedro, agora, liga a salvação com a santidade (vs.13), e, desse modo, tomando por base esta salvação que é recebida pela fé em Jesus Cristo (vs.5), exorta-nos a cingir o nosso entendimento. A expressão cingindo o vosso entendimento, ou como é na tradução literal do grego – “cingindo os lombos do vosso entendimento”1 é uma metáfora que, na época de Pedro, no século 1, era facilmente compreendida por todas as pessoas. Porém, hoje, no mundo moderno, é necessária uma explicação mais acurada do seu significado. 
  
Cingir os lombos, na antiguidade, era um hábito dos orientais. A túnica, uma roupa comum e usada na época, era uma peça larga e comprida, semelhante a um vestido longo que cobre todo o corpo. Era colocada sob o manto ou a capa e usada com um cinto sob a cintura. Esse tipo de roupa, sem o cinto, atrapalhava a pessoa a exercer algum tipo de trabalho que exigisse movimentos longos e intensos em alguma atividade física que era preciso certa agilidade. Sendo assim, para ter uma boa mobilidade e evitar empecilhos, a pessoa cingia os lombos (ou quadris), isto é, colocava o cinto sobre a túnica. Em outras palavras, a expressão moderna e equivalente para nós, hoje, seria dizer: Vamos “arregaçar as mangas ou tirar o casaco”, que indica algum trabalho ou atividade física que fôssemos exercer.

A palavra entendimento, no grego διάνοία (dianoia), se refere à mente; “significa pensar em algo e tirar as conclusões apropriadas”.2 Portanto, Pedro utiliza e aplica esta metáfora do cingir os lombos dizendo aos seus leitores e a todos os cristãos que eles devem estar com a sua mente preparada e disposta para agir colocando em prática aquilo que ouviram, ou seja, tudo o que foi dito anteriormente sobre a salvação (vs.3-12).

Aplicação prática

O entendimento, aqui, se refere ao modo pelo qual nos relacionamos com Deus através da mente que irá convergir na nossa conduta. Em vista disso, a nossa mente deve estar disciplinada e livre de qualquer coisa que possa servir de obstáculo para, assim, vivermos uma vida cristã pautada nas Escrituras e que glorifique ao Senhor. A nossa mente precisa estar subjugada aos preceitos de Deus para que possamos compreender a sua vontade para a nossa vida, discernindo entre o certo e errado, entre a verdade e a heresia, e não aos preceitos que norteiam o mundo e a vida de muitos “ditos” cristãos, como, por exemplo, o evangelho caracterizado pelo materialismo e a preocupação exacerbada com a estabilidade e a satisfação pessoal na vida.

O materialismo é uma avidez desenfreada pelo consumismo, e a preocupação exacerbada com a estabilidade e a satisfação pessoal na vida, além de serem o lema da sociedade secular, tem sido também o lema da igreja evangélica em sua maioria. O “evangelho” mundano que tais “cristãos” creem apresenta o seguinte slogan: Eu tenho que ter isso e aquilo de qualquer maneira! Portanto, vou lutar e trabalhar sobremaneira para conquistar tudo o que eu desejo ter neste mundo profetizando e barganhando com Deus! Ou: Eu só serei feliz se tiver dinheiro, uma namorada (o), uma esposa (o) e saúde!  

Todavia, o materialismo é pecado, mas a motivação pela estabilidade e satisfação pessoal não são pecado em si. No entanto, esta motivação se torna pecado quando depositamos toda a nossa esperança e as colocamos como prioridade em nossa vida em detrimento de Deus, que é a nossa prioridade (1Cor 15.19; Cl 3.1-3). O evangelho mundano caracterizado pelo materialismo e a preocupação exacerbada pela estabilidade e satisfação pessoal têm corrompido e desvirtuado a mente de muitos cristãos. Portanto, conforme a ideia no grego, era como se Pedro dissesse: Não permita que qualquer coisa tire o foco da sua mente em relação a compreender e obedecer a Palavra de Deus!

Para vivermos em santidade é necessário:

b) Sermos sóbrios. Se os cristãos devem cingir o entendimento no sentido de estar com a mente preparada, disciplinada e disposta para viver a salvação que ouviram na vida prática, Pedro prossegue exortando-os que, agora, eles devem ser sóbrios3 (4.7; 5.8).  

No grego, a expressão sede sóbrios νήφοντες (nephontes), literalmente “sendo sóbrios”, é um particípio presente ativo que, traduzido como um imperativo, seria como se eu dissesse que “estou sóbrio ou tenho autocontrole”. Esta palavra descreve uma pessoa que tem domínio próprio tanto em relação à bebida alcoólica, evitando, assim, a embriaguez e, de modo geral, a qualquer tipo de êxtase frenético que extraia a pessoa da racionalidade. Entretanto, aqui, de forma mais ampla, se refere à pessoa que não está “embriagada” por coisa alguma estando com a mente lúcida.4 Ser sóbrio, portanto, além de ser constante, firme e perseverante no pensamento acerca da esperança da salvação em Cristo Jesus, significa, também, “ser calmo, estável e controlado” 5 (veja a mesma ideia em 2Tm 4.5; 1Ts 5.6, 8). 

Aplicação prática

John MacArhtur acentua que o cristão sóbrio é responsável de modo correto por suas prioridades e não se deixa embriagar pelas distrações do mundo.Não obstante, é bem verdade que o falso evangelho mundano que corrobora o materialismo e a preocupação exacerbada pela estabilidade e satisfação pessoal e todas as suas outras “falsas doutrinas” são um tipo de "droga" que tem entorpecido muitos cristãos verdadeiros, os quais são cristãos incautos e sem discernimento espiritual.
   
Os prazeres mundanos como a bebida alcoólica, a pornografia, a fornicação (o sexo fora do casamento), o adultério, a desonestidade, a mentira, as baladas e as orgias são, também, "drogas" que tem entorpecido muitas pessoas nas quais, algumas, são até cristãos verdadeiros que, enfraquecidos pelas negligencias e omissões, se desviaram do evangelho.

O cristão verdadeiro que está entorpecido pelo falso evangelho pode ter o seu entendimento elucidado pelo Espírito Santo para o conhecimento do verdadeiro evangelho e ser liberto da "droga" chamada falso evangelho. O cristão desviado e entorpecido pelos prazeres mundanos pode, também, ser resgatado e restaurado por Deus à sobriedade sendo introduzido novamente à comunhão da igreja. Certamente o Senhor não abandona os seus! Ele cuida de nós!

Para vivermos em santidade é necessário:

c) Esperarmos na graça. Depois de instar os cristãos acerca da necessidade de serem vigilantes e equilibrados, estando com a mente livre de qualquer perturbação e inclinada para a salvação em Cristo Jesus, Pedro, dessa vez, acentua que eles devem também depositar toda a esperança que possuem na graça que será entregue quando Jesus Cristo se revelar. 

O verbo esperar, no grego έλπίσατε (elpisate), significa, basicamente “colocar a esperança”. É uma forma verbal de esperança έλπίδα (elpis) que, no versículo 3, declara que os cristãos, a partir da regeneração, já recebem a salvação, porém, de modo parcial. Esta salvação parcial, contudo, é apenas o prelúdio daquilo que ainda é esperado, ou seja, a salvação na sua plenitude no qual o versículo 5 aborda. Todavia, o verbo esperar, aqui, é seguido pelo advérbio τελειος (teleios), que pode ser interpretado de duas maneiras:  

1. Enfatizando o verbo esperar conforme traduziu a ARA por esperai inteiramente. 2. Como uma indicação ao modo pelo qual os cristãos devem viver esta esperança, isto é, com maturidade e integridade (veja o uso do advérbio τελειος (teleios) também em Tg 1.2-4). Embora estas duas interpretações sejam possíveis, contudo, seria melhor entendermos o advérbio τελειος (teleios) como uma ênfase no verbo esperar, no qual se harmoniza perfeitamente com o contexto geral da carta (3.5). Desse modo, Pedro exorta os cristãos a esperar inteiramente, que significa “depositar a esperança”. 

Logo, vemos que esta esperança descrita não consiste em uma pessoa, mas em um objeto, ou seja, “na graça”. Esta graça que nos versículos 2 e 10 está no tempo presente, não obstante aqui, é sinônimo da salvação futura (vs.4, 9). Deus, portanto, está “trazendo a graça para os cristãos na revelação de Jesus Cristo”.

A expressão revelação de Jesus Cristo ARA é uma repetição da última parte do versículo ,e tem o mesmo sentido aqui como uma referencia não a primeira vinda de Cristo, mas a sua segunda vinda em glória (1Cor 1.7-8). A obra da redenção dos pecadores eleitos será concluída quando Jesus voltar. A plenitude da salvação chegará através do livramento da presença do pecado pela glorificação do corpo e da alma. Portanto, “olhar para a volta de Cristo fortalece a fé e a esperança em tempos difíceis e concede mais da graça de Deus (Tt 2.10-13)”7    

Não obstante, a seguir, nos versos 14-16, observamos que Pedro amplia o tema da santidade na vida cristã começando uma nova série de imperativos (exortações) baseados em três pontos. Senão vejamos:

a) Um solene aviso acerca do perigo à santidade.

1.14 Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância.           

Pedro, aqui, tece uma advertência aos seus leitores históricos e a todos os cristãos. O apóstolo assevera que, uma vez que foram eleitos para a salvação em Cristo Jesus por Deus Pai (vs.2), regenerados pelo Espírito Santo para a esperança da salvação futura e uma vida em santidade (vs.3, 13), os cristãos, todavia, não devem retornar ao estilo de vida que tinham no passado quando não conheciam o evangelho, o qual era caracterizado pela prática do pecado. Sendo assim, Pedro diz o que estes cristãos “devem fazer” (imperativo positivo). Vejamos então:

i. Os cristãos devem ser obedientes. A expressão filhos da obediência “é um linguajar semita (hebraico). Significa algo como: pessoas que são cunhadas integralmente pela obediência”(veja os exemplos similares em Lc 10.6; Ef 5.8; 2Ts 2.3).  

Geralmente, os filhos obedientes “são os filhos de uma pessoa que faleceu e deixou um testamento para que recebam a herança. Os cristãos são chamados de filhos, não por nascimento, mas por adoção. Entre os gregos e romanos do século 1, a prática da adoção era bem comum. Um filho adotivo desfrutava dos mesmos privilégios que o filho natural, até mesmo a ponto de dividir a herança”. Em vista disso, Pedro chama os seus destinatários e todos os cristãos de filhos da obediência, ou, em outra tradução, de “filhos obedientes” a fim de esboçar o conceito de santidade a eles. Portanto, ser filho da obediência é viver uma vida que desemboque em obediência, que pode ser definida simplesmente como fazer a vontade de Deus (1.2).

Após delinear o que os cristãos devem fazer, Pedro, agora, diz o que eles “não devem fazer” (imperativo negativo). Senão vejamos:

ii.  Os cristãos não devem se amoldar novamente aos desejos que tinham no passado. Embora os primeiros destinatários históricos de Pedro fossem uma mescla de Judeus e gentios (1.3, 12, 14, 18, 22-23, 25; 2.9-10; 4.3), todavia, o apóstolo relembra aqui especificamente o estilo de vida dos cristãos gentios no passado antes da conversão, a fim de avisá-los do perigo de retornar a este velho estilo de vida que Deus não se agrada. Diferente dos judeus, que conheciam a lei moral, estes gentios eram pagãos e ignorantes quanto ao conhecimento da vontade de Deus revelada nas Escrituras. Por essa razão, tinham o seu modus vivendi (modo de viver) conduzido pelas mais variadas paixões9 ou “desejos pecaminosos”.

No grego, a expressão não vos amoldeis σνσχηματιςόμενοι (syschematizomenoi) é, literalmente, “não vos amoldando”, podendo ser traduzida como “não se deixem conformar” 10 ou, trivialmente, como uma exortação a “não entrar no esquema”. Esta expressão “significava assumir a forma de alguma coisa, a partir de um molde no qual se era encaixado”.11 Contudo, uma vez que foram libertos da escravidão do pecado (Ef 2.1-3), Pedro adverte estes cristãos gentios a não entrarem novamente no antigo esquema do mundo caracterizado por uma vida regida pelos prazeres carnais (veja com exemplo Êx 20.13-17).

Aplicação prática

Os cristãos foram salvos para a obediência, por isso os salvos são filhos obedientes. Como os filhos herdam a natureza dos pais, precisamos viver em santidade, pois nosso Pai é santo.

Como filhos obedientes, não podemos retroceder nem cair nas mesmas práticas indecentes que marcavam nossa conduta quando vivíamos prisioneiros do pecado. Naquele tempo, os desejos e as paixões constituíam o esquema determinante da nossa vida e a nossa norma de conduta. É incoerente, incompatível e inconcebível um salvo amoldar-se às paixões de sua velha vida12 (veja Ef 4.22-25, 28-29, 31). Que não sigamos o mau exemplo de homens ímpios e desobedientes. Antes, sejamos corajosos o bastante para rejeitar o padrão de vida que eles gostariam de impor-nos por seu exemplo e influência

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pela fé que foi entregue aos santos


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Uma das maiores necessidades da igreja de nossos dias é batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.
No versículo 3 de sua epístola, Judas alerta a igreja do perigo que corre diante de um mundo de falsos mestres e de lobos vorazes. Por esta razão o autor bíblico exorta veementemente a igreja para que entre no campo de batalha e lute pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. 
Mas, a pergunta que logo nos vem à mente é: o que seria essa fé que foi entregue aos santos e porque deveríamos batalhar por ela?
Para início de conversa, é importante notar que a palavra fé aqui em Judas não significa simplesmente um sentimento subjetivo de confiança em Cristo. Judas está usando esse termo para se referir ao corpo de doutrinas ensinadas pelos apóstolos. A fé que foi entregue aos santos, portanto, significa o arcabouço doutrinário que Deus entregou à sua igreja por meio dos apóstolos e dos profetas. Este é o chamado “fundamento dos apóstolos”.
O apóstolo Paulo afirma que a igreja do Senhor está “edificada sobre este fundamento” (Ef 2.20), e ninguém pode “lançar outro fundamento, além do que já foi posto, o qual é Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 3.10-11).
Agora, vale dizer que este Evangelho ensinado pelos apóstolos não foi produto da arte e imaginação humana. Paulo diz: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo.” (Gl 1.11-12). 
Deus mesmo revelou o evangelho aos apóstolos. Então, o que Paulo está dizendo é: eu preguei o evangelho, mas eu não inventei o evangelho. Foi-me dado por revelação de Jesus Cristo.
Deus revelou sua vontade aos profetas e apóstolos, e estes, por inspiração do Espírito Santo, registraram com fidelidade, aquilo que receberam da parte de Deus. Sendo assim, “toda Escritura é inspirada por Deus...” (2 Tm 3.16), pois “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.
Sendo assim, a fonte da autoridade suprema da Igreja, não está na igreja, não está no indivíduo, não está nos papas católicos romanos ou nos líderes neopentecostais: a fonte da autoridade suprema está em Cristo Jesus e no que a Bíblia testifica a Seu respeito. Esta é a verdade do evangelho.
Agora, o que devemos saber como Igreja do Senhor é que, pelo fato de ter sido dado por Deus, o conteúdo do Evangelho não pode ser falsificado. É por esta razão que o apóstolo Paulo diz a Timóteo: Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste...guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós (2 Timóteo 1. 13 e 14).
Veja que Paulo chama o Evangelho Apostólico de um padrão de sãs palavras. Isso significa que O evangelho é o ensino correto, a sã doutrina, a ortodoxia. Essa doutrina precisa ser mantida, precisa ser preservada. Então, cabe à igreja do Senhor se colocar em guarda e defender este precioso tesouro.
Obviamente, hoje, no século 21 nós não temos mais apóstolos. No entanto, mesmo não tendo apóstolos hoje, nós temos a tradição apostólica, a verdade do Evangelho que se encontra na Palavra de Deus.
Pense comigo: todos sabemos que a vida de Jesus durou pouco mais de trinta anos e nós não estávamos lá para ver o que aconteceu. Então, como, os fatos sobre Cristo poderiam beneficiar as gerações vindouras e não se perder nas névoas da antiguidade? 
A resposta encontra-se nos apóstolos. Eles foram escolhidos por Deus e capacitados para registrar e explicar o que Deus fez e o que Deus disse através de Jesus Cristo. Somente assim as outras pessoas poderiam ter acesso à obra consumada de Cristo. Sendo assim, o único Cristo verdadeiro é o Cristo da Bíblia por que este é o único relato autorizado da parte de Deus.
E nossa missão perante esta verdade é árdua: Temos o dever de repassar esta mensagem intacta a geração seguinte. 
Certamente, essa não é uma tarefa fácil. Lá fora há hereges querendo corromper o tesouro do evangelho. Paulo disse que de dentro da própria igreja se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles (Atos 20). 
Trata-se, portanto, de uma batalha muito séria. Tal conteúdo não pode ser danificado. Por esta razão Paulo exorta às Igrejas da Galácia dizendo que “ainda que nós (os apóstolos) ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gal 1.8).
Ninguém pode ir além daquilo que os Apóstolos nos legaram e que se encontra na Palavra da Verdade do Evangelho.
Veja que para Paulo a autoridade do verdadeiro evangelho é tão grande que não só as autoridades humanas e apostólicas estão sujeitas a ele: até mesmo os anjos devem se render a Fé que Foi entregue aos santos. Nas palavras de Martinho Lutero, “Paulo preferia ver um anjo caindo em desgraça do que ver o conteúdo do evangelho corrompido.”
Sendo assim, mesmo se um anjo bom descer do céu e pregar outro evangelho, não é correto acreditar nele. E sabe por quê? Porque os artigos da fé não mudam: Deus os revelou, eles foram escriturados e agora permanecem inalterados para sempre. O conteúdo do evangelho já está completo. O cânon está concluído. Por esta razão, a norma e o critério pelo qual todos os sistemas e opiniões humanas devem ser testados, é o Antigo evangelho dos apóstolos de Nosso Senhor. Qualquer “outro” sistema “que vá além” ou que “seja diferente” desse padrão deve ser rejeitado e reputado como falso.
Aqui caem seitas como os adventistas do Sétimo dia que têm os Escritos de Ellen White em pé de igualdade com a Palavra dos apóstolos. Aqui caem os Mórmons que carregam o outro testamento de Jesus Cristo. Aqui caem as testemunhas de Jeová que falsificaram a tradução da Bíblia Sagrada. Aqui cai a Igreja Católica Romana que tem a tradição da igreja como fonte autorizada da parte de Deus. Enfim, aqui caem todos os falsos apóstolos, paipóstolos, patriarcas ou qualquer outro líder carismático que reivindique novas revelações do Espírito Santo em nossos dias. Todos estes devem ser reputados como falsos.
Nós não podemos esquecer que o conteúdo da Fé Apostólica foi preservado à custa do sangue de milhares de mártires. Agora, nesse exato momento, a fé cristã encontra oposição por toda parte: a Bíblia  é ridicularizada nos campos universitários. A apostasia nas igrejas históricas é crescente e assustadora. Muitos de nossa geração estão abandonando a fé de nossos antepassados. E o pior: muitos dos lobos que pervertem a fé apostólica são indivíduos que se declaram crentes e são líderes de igreja.
Mas, sabe, não podemos temer nesta hora tão dramática! Devemos crer que Deus nunca permitirá que a luz do evangelho apostólico se apague em difinitivo. E foi para isso que ele nos convocou: para batalharmos pela fé e para participarmos dos sofrimentos, a favor do Evangelho de Jesus Cristo (2 Tm 1.8). 
Paulo nos alertou que os homens desses últimos dias não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos... e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas (vs. 3-4). Mas, diante de um cenário como este ele diz a Tímoteo: Prega a Palavra.
Os apóstolos e os reformadores se mostraram dispostos a morrer por esta Verdade. Nós precisamos obter este mesmo sentimento e lutar com todas as forças pela preservação desta Fé que nos foi outorgada. 
E a igreja do Senhor precisa lembrar que o dever de batalhar pela fé não pertence exclusivamente aos pastores e aos presbíteros. Batalhar pela fé é o dever de todo crente verdadeiro. E se hoje não entendermos isso e se não formos fiéis a palavra da verdade, todas as gerações futuras serão contaminadas e prejudicadas por nossa covardia em relação ao evangelho. 
Portanto, ouçamos a exortação de Chales Spurgeon que diz: “nós que recebemos o evangelho da mão dos mártires não ousamos tratá-lo como ninharia, e jamais nos assentemos ao lado de traidores que o negam... e que o Senhor graciosamente purifique sua igreja de toda doutrina falsa, de todos os falsos pregadores e de todos os que são traidores no arraial de Cristo!
E que nós, herdeiros dos santos mártires, não negociemos o conteúdo do evangelho apostólico, mesmo que isso implique na destruição de nossa vida aqui na terra. 
Avante, jovens de Cristo! Nós estamos do lado da Verdade.
***Divulgação: Bereianos

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A Bíblia é inspirada, confiável e inerrante - Por Thiago Oliveira


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A Bíblia gera muitos questionamentos e controvérsias. Muitos sempre perguntam se ela é mesmo a Palavra de Deus e argumentam que por ter sido escrita por homens, pode ter sido alterada ao longo da História. Mas então, a Bíblia é de fato a Palavra de Deus? Podemos confiar nela? Não seria ela uma obra possuidora de muitos erros? Para chegarmos a uma resposta satisfatória, devemos analisar três correntes teológicas: Liberalismo, Neo-Ortodoxia e Teologia Reformada.
O Liberalismo Teológico tem ligação com o método histórico-crítico de interpretação bíblica. Este método nega a inspiração divina e reduz as Escrituras a um compêndio da fé israelita e dos primeiros cristãos, recheado de erros e contradições. Influenciado pelo Iluminismo, o Liberalismo adquiriu um caráter antropocêntrico e relativizou questões-chaves da dogmática. Schleiermacher foi o grande expoente dessa corrente que se afastou a passos largos do ensino ortodoxo e fez com que a Igreja europeia abraçasse o mundanismo e declinasse para o Cristianismo secularizado que até hoje é uma de suas marcas.
Todavia, com o advento da Primeira Guerra Mundial, todo o ideal progressista-iluminista foi por água abaixo. As correntes de pensamento entram em crise e a Teologia não foge à regra. É justamente neste cenário que surge Karl Barth com o que chamamos de Neo-Ortodoxia ou Barthianismo. A Neo-Ortodoxia lutou contra a secularização da Igreja e defendeu que a Bíblia é a palavra de Deus revelada aos homens. 
O grande problema da corrente Neo-Ortodoxa é que ela conservou a crítica bíblia do Liberalismo, a mesma que reduziu as Escrituras a um livro de fé comum. A diferença é que os barthianos afirmam que mesmo contendo erros, a Bíblia é a Voz de Deus para a humanidade. Para sustentar essa posição, argumentam que a parte histórica é irrelevante para a fé salvífica, sendo assim, pouco importa a veracidade dos relatos bíblicos sobre a Queda, o Dilúvio, o Cativeiro Egípcio e etc.
Para a Teologia Reformada (evangélica/protestante) a Bíblia é a Palavra de Deus em sua totalidade e está isenta de erros. Desde o século XVI, de Lutero até os dias de hoje, cristãos de confissão reformada adotam o Sola Scriptura como ponto crucial da fé. Calvino (2006, p.72), o grande sistematizador da doutrina reformada fala o seguinte quanto ao questionamento da procedência divina das Escrituras:
Se, pois, quisermos firmar a nossa consciência de modo que não permaneça agitada e em perpétua dúvida, é preciso que coloquemos a autoridade da Escritura muito acima das razões ou das circunstâncias ou das conjecturas humanas; quer dizer, é preciso que a estabeleçamos como base no testemunho do Espírito Santo. Porque, ainda que, por sua própria majestade, a Escritura nos leve a respeitá-la, não obstante só começa a tocar-nos quando é selada em nosso coração pelo Espírito Santo. [...] É graças à certeza dada por uma autoridade superior que concluímos, que, sem dúvida nenhuma, a Escritura nos foi outorgada diretamente por Deus.
Com isso, Calvino defende que por ser um livro de revelação, a Bíblia precisa ser revelada a nós através de uma ação soberana do próprio Deus, na pessoa do Espírito. O mesmo processo revelacional ocorreu com os autores bíblicos que passaram por um processo de inspiração para deixar registrada a Palavra de Deus como uma fonte revelacional permanente e completa, ao ponto de não mais haver a necessidade de uma outra (i.é. nova) revelação. Tudo o que precisamos saber sobre Deus está registrado nos escritos do Antigo e do Novo Testamento. Assim, o primeiro questionamento (a Bíblia é de Fato a Palavra de Deus?) está respondido.
Dizer que a Bíblia é um livro inspirado é estar de acordo com que a mesma diz acerca de si própria (2Tm 3:16). No entanto, a inspiração não foi um ditado divino. Deus usou as características humanas de cada autor para dizer aquilo que deveria ser dito. Muitos fazem confusão com esta informação e dizem que se existe este viés de humanidade no processo de escrituração e o erro é inerente da condição humana, logo, existe a possibilidade de ter erros na Bíblia. Barth é um exímio defensor do errare humanum est. Embora isto seja verdade, não quer dizer que os homens erram sempre em tudo que fazem, muito menos concluir que o erro é necessário ao homem.
O homem é limitado por ser finito, porém a finitude não o torna falível sempre. Há de se separar onisciência de infalibilidade. Estas duas coisas estão conjuntas em Deus, não nos homens. Como afirma Sproul (2012, p. 49): “Finitude significa uma necessária limitação de conhecimento, mas não significa obrigatoriamente uma distorção do conhecimento. A confiabilidade do texto bíblico não deve ser negada com base na finitude do homem”.
Respondendo ao questionamento sobre a confiabilidade bíblica, sobretudo do Novo Testamento, o mais questionado, apelamos para dois argumentos bastante convincentes:
• Argumento Bibliográfico: Corresponde a lacuna do tempo histórico em que o livro foi escrito e o manuscrito mais antigos que temos dele. Por exemplo: O manuscrito da obra de Platão mais antigo que temos data de 1200 anos após o filósofo grego ter escrito o original. Aristóteles também escreveu 1400 anos antes da cópia mais antiga que possuímos dele. Já o intervalo do original para a cópia de um livro do NT é de apenas 100 anos, e temos esta certeza graças a descoberta arqueológica do papiro de John Rylands. Argumento Manuscritológico: Corresponde a quantidade de cópias de um presumível texto original. Quanto maior a quantidade de cópias, maiores são as chances de identificar as imprecisões. Por exemplo: Temos sete cópias manuscritas de Platão em todo o mundo. De Aristóteles temos apenas cinco cópias. Em contrapartida, contando apenas as cópias gregas, o texto do Novo Testamento é preservado em aproximadamente 5.686 porções manuscritas parciais e completas que foram copiadas a mão a partir do século I até o século XV.
Além dos manuscritos gregos, há várias traduções partindo do grego. Contando com as principais traduções antigas em aramaico, copta, árabe, latim e outras línguas, há 9 mil cópias do Novo Testamento. Isso dá um total de mais de 14 mil cópias do Novo Testamento. Além disso, se compilarmos milhares de citações dos pais da igreja primitiva dos séculos II a IV pode-se reconstruir todo o Novo Testamento com exceção de onze versículos. De modo que se não for possível confiar na Bíblia, também deve ser posto em xeque a autenticidade de toda e qualquer obra literária da Antiguidade. 
Quanto a questão dos erros, o segmento reformado é categórico: Toda a Bíblia é inerrante. Lopes (2006) diz:
Ao dizer que a Bíblia é inerrante, não estou negando que erros de copistas se introduziram no longo processo de transmissão da mesma. A inerrância é um atributo somente dos autógrafos, ou seja, do texto como originalmente produzido pelos autores inspirados por Deus. Muito embora hoje não tenhamos mais os autógrafos, pela providência divina podemos recuperar seu conteúdo, preservado nas cópias, quase que totalmente, através da ajuda de ferramentas como a baixa crítica ou a manuscritologia bíblica. A ausência dos autógrafos não torna a inerrância bíblica irrelevante, como dizem alguns. Senão temos os autógrafos para provar que eles não contêm erros, eles também não os têm para provar que contêm. Lembro que o ônus da prova é deles.
Alguns objetam com passagens bíblicas que falam sobre o movimento do sol em Josué e de catalogar morcego como ave, segundo Levítico, como se tais exemplos fossem equívocos de cunho científico. Recomemos mais uma vez as palavras de Lopes (2006):
Ao afirmar a inerrância da Bíblia não estou ignorando que, com freqüência, as teorias científicas sobre a história da terra têm sido usadas para desacreditar o relato bíblico da criação, do dilúvio e sua cosmovisão geocêntrica. Entendo, contudo, que não é correto avaliar a veracidade da Bíblia mediante padrões de verdade que são distintos do seu propósito e que se baseiam em conclusões provisórias, efêmeras e freqüentemente desmentidas a posteriori por outros estudiosos e cientistas. A Bíblia não é um livro científico, nos padrões modernos, e frequentemente se refere aos fenômenos naturais usando a linguagem descritiva do observador, como já mencionei, a qual não é cientificamente analítica.
Como observadores dos fenômenos naturais, é totalmente aceitável que haja esse tipo de informação na Bíblia. Em qualquer registro do mundo antigo teremos pessoas falando sobre o movimento do sol e catalogando animais voadores como sendo aves. Até mesmo nos filósofos gregos encontramos estas afirmações, que hoje nos soam absurdas. Todavia, inaceitável seria se naquela época eles tivessem as informações científicas que hoje temos.
Mediante a tudo o que já foi exposto, a Bíblia taxativamente provém de Deus, sendo a Sua Palavra digna de confiança e inerrante. Mesmo utilizando-se de um processo humano, ela é inspirada em sua totalidade. Assim rechaçamos o posicionamento liberal e o barthiano. Esta é a posição ortodoxa, abraçada pelas igrejas de credo reformado. Como está registrado na Confissão de Fé de Westminster Capítulo 1, artigo V:
Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações. I Tim. 3:15; I João 2:20,27; João 16:13-14; I Cor. 2:10-12.____________Referências:BEEKE, Joel R. Harmonia das Confissões Reformadas. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Volume 1, Editora Cultura Cristã,2006.LOPES, Augustus Nicodemus. Sobre a Inerrância da Bíblia. Acesso em 20/06/2014.LOPES, Augustus Nicodemus. Porque o Barthianismo foi Chamado de Neo-Ortodoxia. Acesso em 20/06/2014.SPROUL, R.C. Posso Crer na Bíblia? São José dos Campos: Editora Fiel, 2012.