sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Vitória na Aflição! - C. H. Spurgoen



Ó inimiga minha, não te alegres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; se morar em trevas, o SENHOR será a minha luz" - Miquéias 7.8



SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.

Cinco características de uma Falsa Paz - John Owen (1616-1683)



1. Qualquer paz que não traga com ela ódio ao pecado que tem perturbado sua paz é falsa
A paz que Deus fala à alma sempre traz com ela um sentimento de vergonha, e um santo desejo de mortificar seus desejos pecaminosos. Se olhar para Cristo, a Quem seu pecado traspassou (se não fizer isso não haverá nem cura e nem paz) você deve prantear (veja Zac. 12:10). Quando você vai a Cristo buscando cura, sua fé repousa em um Salvador ferido e traspassado. Ora, se fizer isso na força do Espírito Santo, ser-lhe-á dado ódio pelo pecado que tem perturbado sua paz. Quando Deus nos dá a paz a alma se envergonha dos diversos modos como o pecado tem estragado nossa paz com Deus (Ez. 16:59-63).
E possível estarmos perturbados pelas consequências do pecado, mesmo sem odiarmos o próprio pecado. Na sua perturbação você pode estar buscando a misericórdia de Deus e ao mesmo tempo se apegando ao pecado que ama. Por exemplo:   sua consciência o convence de estar amando o mundo. Esse modo de buscar misericórdia nunca lhe trará paz verdadeiramente sólida. As palavras de Deus: "Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele" (1 João 2:15) perturbam sua paz. Na sua perturbação, você se volta para Deus para que Ele cure sua alma, porém está mais preocupado com as consequências do seu amor pelo mundo do que com o mal desse amor. Esse é um mau sinal! Talvez seja salvo; no entanto a não ser que Deus por Suas ações especiais o faça realmente odiar o pecado, você terá pouca paz nesta vida.
2. Qualquer paz que não seja acompanhada pela ação do Espírito convencendo do "pecado e da justiça e do juízo" é uma falsa paz.
A Palavra de Deus nunca fala de paz "somente em palavras", ela vem no poder do Espírito Santo. A paz de Deus de fato cura a ferida. Quando nos damos a nós mesmos uma falsa paz, não passará muito tempo até que o pecado que havia perturbado nossa paz apareça outra vez.
Como regra geral, Deus espera que Seus filhos aguardem até que estejam certos que Ele lhes deu a paz. Como disse o profeta Isaías: "Esperarei no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei" (Is. 8:17). Deus pode curar a ferida do pecado num instante. Contudo, às vezes, como um médico, Ele gasta tempo limpando a ferida completamente para que ela se cure adequadamente. Aqueles que dão uma falsa paz para si mesmos nunca têm tempo para esperar que Deus faça Sua obra completa. Tais pessoas correm para Deus buscando paz e presumem que ela foi concedida no momento em que a pediram. Não há aquele esperar para que o Espírito de Deus cure a ferida do pecado completamente.
A paz de Deus dulcifica o coração e dá gozo à alma. Quando Deus fala paz, Suas palavras não são apenas verdadeiras, mas elas fazem bem à alma. "Sim, as minhas palavras fazem o bem" (Miq. 2:7). Quando Deus fala paz, ela guia e guarda a alma de modo que não retorne à insensatez (Sal. 85:8). Quando as pessoas falam paz para si mesmas, o coração não é curado do mal e, elas continuam num estado de transvio. Quando Deus fala paz, vem junto uma percepção tal do Seu amor, que a alma se sente obrigada a mortificar os desejos pecaminosos.
3. Toda e qualquer paz que trate do pecado de um modo superficial é uma falsa paz Como já vimos antes, esta é a queixa que Jeremias fez dos falsos profetas do seu tempo. "Paz, paz" eles dizem, "quando não há paz" (Jer. 6:14). Da mesma maneira, algumas pessoas fazem da cura de suas feridas pecaminosas uma obra fácil. Olham para algumas promessas das Escrituras e pensam que estão curadas. Uma promessa das Escrituras só pode efetuar o bem quando misturada com a fé. (Heb. 4:2). Não se trata de um mero olhar para a palavra de miseri¬córdia e, pronto, isso traz a paz. O olhar precisa estar misturado com a fé até que você a tenha apropriado para si. De outra maneira, qualquer paz que tenha obtido é uma falsa paz. Neste caso não vai demorar muito até que sua ferida se abra novamente e você fique sabendo que ainda não está curado.

4.      Qualquer paz que trate do pecado de uma maneira parcial é falsa -
O cristão sincero não buscará apenas estar em paz com seus desejos pecaminosos que mais o perturbam. Tentar lidar com o pecado que mais o atormenta, sem lidar também com aqueles pecados que o perturbam menos, realmente seria tratar do pecado com parcialidade. Qualquer paz que pareça vir de se lidar com o pecado dessa maneira é falsa. Só podemos esperar a paz de Deus quando tivermos respeito igual por todos os Seus mandamentos. Deus nos justifica de todos os nossos pecados. Deus nos manda abandonarmos todos os nossos pecados. Ele é um Deus de olhos puros e não pode olhar para a iniqüidade.
5.      A paz de Deus é uma paz que nos humilha como aconteceu no caso de Davi (veja Sal. 51:1)
Pense na profunda humilhação sentida por Davi quando Natan  lhe trouxe a palavra perdoadora de Deus (2 Sam. 12:13).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Aprendo com Lutero que a oração é uma linda aventura! ( I )


(Do 1º ao 5º Mandamento)
Lutero: Sempre oro sobre os Dez Mandamentos. Pego um ponto depois do outro, para que fique inteiramente livre para a oração (o quanto isso for possível), fazendo de cada mandamento um quádruplo, ou uma coroa torcida quatro vezes, ou seja: Tomo cada mandamento primeiro como um ensinamento, como ele na realidade o é em si mesmo, e reflito o que nosso Senhor Deus nele exige de mim com tanta seriedade; por outro, faço dele uma ação de graça; em terceiro lugar, uma confissão, e em quarto, uma oração, a saber, da seguinte maneira, com pensamentos e palavras deste tipo:
O Primeiro mandamento:
“Eu sou o Senhor teu Deus”, etc. “Não terás outros deuses além de mim”, etc.
Aqui penso em primeiro lugar que Deus exige de mim e me ensina a confiar nele de coração em todas as coisas, e que ele, muito seriamente, deseja ser meu Deus. E como tal devo considerá-lo, sob pena de perder a eterna bem-aventurança. E meu coração em nada mais deve basear-se ou confiar, seja em algum bem, honra, sabedoria, poder, santidade ou qualquer criatura.
Em segundo lugar, sou grato à sua insondável misericórdia, por se voltar tão paternalmente para mim, homem perdido, oferecendo-se a si mesmo sem ser solicitado nem procurado e sem qualquer merecimento meu, para ser meu Deus, aceitar-me, e por querer ele ser meu consolo, proteção, auxilio e força em todas as aflições. Isso que nós pobres e cegos seres humanos temos procurado diversos deuses e ainda os procuraríamos, caso ele mesmo não se fizesse ouvir de forma tão manifesta e se nos não oferecesse em nossa linguagem humana, querendo ser nosso Deus. Quem, por tudo isso, lhe pode agradecer o bastante para sempre e eternamente?
Em terceiro lugar, confesso e professo meu grande pecado e ingratidão, de ter desprezado, de maneira tão vergonhosa, doutrina tão bela e dádiva tão valiosa por toda minha vida, e de ter provocado sua ira de forma tão horrível com inúmeras idolatrias; isso me dói e peço misericórdia. Em quarto lugar, peço e falo: Deus meu e Senhor, ajuda-me por tua graça que eu, a cada dia, consiga aprender e compreender melhor este teu mandamento e possa em confiança sincera, agir de acordo. Protege meu coração, para que não me torne tão esquecido e ingrato, não procure outros deuses nem consolo em quaisquer criaturas, mas permaneça de todo o coração unicamente contigo, meu único Senhor. Amém, querido Senhor Deus e Pai, amém.
O segundo mandamento:
“Não abusarás do nome do Senhor teu Deus”, etc.
Primeiro aprendo daí que devo manter glorioso, santo e belo o nome de Deus, e, por meio dele, não jurar, imprecar, mentir; não ser presunçoso nem procurar a própria dignidade ou nome, mas, em humildade invocar, adorar, exaltar e glorificar o seu nome. E deixo que toda minha honra e glória esteja no fato de ele ser meu Deus e de eu ser sua pobre criatura e servo indigno.
Por outro lado, agradeço pela dádiva maravilhosa que ele me concedeu: De me ter revelado e concedido seu nome; de eu poder me gabar do seu nome e me deixar chamar de servo e criatura de Deus, etc.; e de seu nome ser meu refúgio como um castelo forte (conforme diz Salomão), no qual o justo se refugia e é protegido (Provérbios 18.10).
Em terceiro lugar, confesso e professo meu vergonhoso e grave pecado que cometi contra este mandamento em minha vida: Não só deixei de invocar, de exaltar e de glorificar o seu santo nome, mas também me mostrei ingrato por essa dádiva, dela abusando para toda sorte de infâmia e pecado, jurando, mentindo, enganando, etc. Disso me arrependo e imploro misericórdia e perdão, etc.
Em quarto lugar, suplico auxílio e força, para doravante poder aprender bem esse mandamento. Peço que me guarde dessa vergonhosa ingratidão, o abuso e pecado contra seu nome, e, ao invés, seja achado agradecido e no devido temor e glorificação de seu nome. E como disse acima com referência ao pai-nosso, da mesma forma recomendo mais uma vez: Caso o Espírito Santo intervier nesses pensamentos e começar a pregar em eu coração com ricos e iluminados pensamentos, dê-lhe a honra, então, e deixe de lado esses pensamentos preconcebidos; fique quieto e escute aquele que o sabe fazer melhor do que você; e o que ele pregar, isso grave e tome nota. E haverá de contemplar maravilhas na lei de Deus (como diz Davi, Salmo 119.18).
O terceiro mandamento:
“Lembra-te de santificar o dia de descanso”
Aqui tomo conhecimento, em primeiro lugar, de que o dia de descanso é uma lei, destinado não para o ócio nem para o prazer carnal, mas para ser por nós santificado. Mas não é por nossa obra e atuação que ele é santificado; porque nossas obras não são santas; é santificado pela palavra de Deus, pois só ela é pura e santa, e santifica a tudo que com ela está em contato, seja tempo, lugar, pessoa, trabalho, descanso, etc. Pois através da palavra também as nossas obras se tornam santas, conforme diz S. Paulo em 1 Timóteo 4.4s: Toda criatura é santificada através da palavra e da oração.

Por esse motivo vejo nisso que no dia de descanso eu devo, em primeiro lugar, ouvir e refletir sobre a palavra de Deus, e na mesma palavra então agradecer e louvar a Deus por todas as suas bênçãos, bem como orar por mim e por todo mundo. Quem assim procede no dia de descanso, esse o santifica. Quem não o faz, age pior do que aqueles que nele trabalham.
Em segundo lugar, agradeço nesse mandamento pela grande e bela bênção e graça de Deus de nos ter concedido sua palavra e pregação, mandando-nos praticá-las em especial no dia de descanso. Esse tesouro, não há coração humano que o possa valorizar o bastante, pois sua palavra é a única luz nas trevas desta vida, e é uma palavra da vida, de consolo e de toda bem-aventurança. E onde não estiver presente a querida e salutar palavra, ali há só terrível e assustadora escuridão, engano, sectarismo, morte, toda sorte de infelicidade e tirania do diabo, como todos os dias vemos diante dos nossos olhos.
Em terceiro lugar, confesso e professo meu grande pecado e vergonhosa ingratidão de ter passado os dias de descanso de forma tão infame em minha vida, desprezando de maneira tão lastimável sua palavra cara e preciosa; de ter sido preguiçoso, indisposto e enfastiado de ouvi-la, isto para não falar de que jamais a procurei de coração nem por ela agradeci. Deixei, portanto, que meu Deus em vão pregasse para mim e desprezei o tesouro precioso, pisando-o com os pés. E ele o tolerou de minha parte por exclusiva bondade divina, e nem por isso deixou de continuar a pregar para mim e de me chamar para a bem-aventurança de minha alma, com todo amor e toda a fidelidade paterna e divina; por isso lamento e peço misericórdia e perdão.
Em quarto lugar, rogo por mim e por todo mundo que o Pai amado nos queira conservar junto à sua santa palavra, não a tire de nós por causa do nosso pecado, de nossa ingratidão e negligência; queira ele proteger-nos contra espíritos sectários e falsos mestres, e nos enviar bons e fiéis obreiros para a sua seara, isto é, pastores e pregadores leais e devotos; ele também nos dê a graça de, em humildade, ouvirmos, aceitarmos e fazermos jus a essa palavra que é sua própria palavra, e de agradecermos e louvarmos de coração por isso; e assim por diante.

O quarto mandamento:
“Honrarás a teu pai e tua mãe”
Primeiramente, aprendo aqui a reconhecer em Deus o meu Criador e como me criou de forma tão maravilhosa com corpo e alma; que dos meus pais me deu a vida, e lhes deu o coração de me servirem como fruto do seu corpo na medida em que lhes foi possível, que me alimentaram, conservaram, cuidaram e educaram com muito zelo, preocupação, risco, esforço e trabalho. E até este momento ele me guardou e muitas vezes também ajudou como sua criatura, em corpo e alma, contra inúmeros perigos e dificuldades, como se a cada momento me criasse de novo. Pois o diabo nem por um momento sequer deixa de nos invejar a vida.
Por outro lado, agradeço ao rico e bondoso Criador, por mim e todo o mundo, por ter, com esse mandamento, instituído e preservado o crescimento e a conservação do gênero humano — a vida familiar e a vida pública. Pois sem essas duas instituições ou regimes o mundo não poderia persistir nem por um ano, porque sem o regime secular não há paz; e onde não há paz, não pode haver vida familiar; onde não há vida familiar, não podem ser gerados nem educados filhos, e paternidade e maternidade teriam que acabar completamente. Mas para isso está aí esse mandamento, mantendo e guardando a ambos, vida familiar e vida política, determinando obediência para filhos e súditos, cuidando também para que ela realmente seja prestada. Ou então, onde isso não acontecer, ele não o deixa impune. Caso contrário, os filhos há muito que teriam solapado toda a vida familiar com sua desobediência, e os súditos teriam acabado com a vida política através de tumultos, porque seu número é muito maior que o de pais e regentes. Por essa razão também essa bênção é inestimável.
Em terceiro lugar, confesso e professo minha lastimável desobediência e pecado pelo fato de ter infringido esse mandamento do meu Deus: Não honrei meus pais, nem fui obediente; indignei e ofendi-os com freqüência; aceitei seu castigo paternal com impaciência e resmunguei contra eles; desconsiderei sua leal admoestação, preferindo o convívio irresponsável de malandros perversos. Isto que Deus mesmo não permite que esses filhos desobedientes escapem e tenham vida longa, como, pois, muitos há que por causa disso morrem e sucumbem de modo vergonhoso antes de alcançarem idade adulta. Pois quem não obedece a pai e mãe, tem que obedecer ao carrasco ou senão perder cruelmente sua vida pela ira de Deus, etc. Por tudo isto lamento e peço misericórdia e perdão.
Em quarto lugar, rogo por mim e por todo mundo que Deus nos queira conceder sua graça e derramar ricamente sua bênção sobre a vida familiar e vida política; que doravante nos tornemos devotos, honremos os pais, sejamos obedientes às autoridades, resistamos ao diabo e não sigamos sua incitação à desobediência e tumulto; que, portanto, ajudemos ativamente a melhorar o lar e o país, e manter a paz, em honra e louvor a Deus, para o nosso próprio proveito e todo bem; e que reconheçamos essas suas dádivas e sejamos gratos por elas. Aqui deve acompanhar também a intercessão pelos pais e autoridades: Que Deus lhes conceda entendimento e sabedoria de nos liderarem e governarem de forma pacífica e venturosa. Ele os guarde da tirania, de excessos e de fúrias desenfreadas. Que os livre disso, para que honrem a palavra de Deus, não provoquem perseguições nem causem injustiça a alguém, porque essas dádivas elevadas se têm que alcançar através da oração, como o ensina S. Paulo em Colossenses 4.2. Senão o diabo acaba tomando conta e atua de modo perverso e desenfreado.
E se você também for pai ou mãe, então agora é a ocasião de não se esquecer de si mesmo, nem dos seus filhos e da sua criadagem. Peça com seriedade que o querido Pai o colocou na dignidade do seu nome e ofício e quer que você também seja chamado e honrado como pai. Peça-lhe, pois, com seriedade que lhe conceda a graça e a bênção de dirigir e alimentar sua mulher, seus filhos e sua criadagem de forma divina e cristã; que lhe dê sabedoria e força de bem educá-los; e a eles, um bom coração e boa vontade de seguirem seus ensinamentos e de lhe obedecerem. Pois tanto as próprias crianças como o seu desenvolvimento são dádivas divinas, tanto que saiam bem e permaneçam bem. Caso contrário um lar nada será senão um chiqueiro, sim, uma escola de malandros, como se observa entre a gente ímpia e devassa.

O quinto mandamento:
“Não matarás”
Aqui aprendo, em primeiro lugar, que Deus deseja de mim que eu ame meu próximo, de forma que não lhe cause nenhum dano em seu corpo, seja em palavras, seja em atos; não me vingue nem o prejudique com minha raiva, impaciência, inveja, ódio ou qualquer malevolência, mas saiba que tenho a obrigação de ajudá-lo e dar-lhe conselho adequado em todas as suas necessidades físicas. Pois com esse mandamento Deus me incumbiu da guarda do corpo do meu próximo, e determinou, por sua vez, a meu próximo que guarde o meu corpo, como fala Siraque: A cada um de nós ele confiou o seu próximo.
Por outro lado, agradeço aqui por este indizível amor, providência e fidelidade para comigo: por ter levantado esta tão grande e forte guarda e muralha ao redor do meu corpo, fazendo com que todas as pessoas tenham a obrigação de me poupar e me proteger, assim como também eu tenho esta mesma obrigação para com todas as demais pessoas. Ele também cuida de sua observância, e onde ela não se realiza, Deus estabeleceu a espada para castigo daqueles que não o cumprem. Caso contrário, não existisse esse seu mandamento e instituição, o diabo haveria de perpetrar tamanho morticínio entre nós pessoas humanas, que ninguém poderia viver em segurança por uma hora sequer, como de fato acontece quando Deus se indigna e pune o mundo desobediente e ingrato.
Em terceiro lugar, confesso e lastimo aqui a maldade minha e do mundo: Não só a terrível ingratidão por este seu paternal amor e cuidado para conosco, mas — e isto é o mais vergonhoso — o fato de não conhecermos tal mandamento e ensino, tampouco dele querermos tomar conhecimento; desprezamo-lo, como se nada tivesse a ver conosco ou como se dele nenhum proveito pudéssemos ter. E ainda andamos despreocupados, e nem sequer deixamos que nossa consciência se impressione com o fato de, à revelia deste mandamento, desprezarmos, abandonarmos, sim, perseguirmos e lesarmos o nosso próximo, ou até o matarmos em nosso coração, agindo conforme a nossa ira, raiva e toda maldade, como se estivéssemos agindo bem e corretamente.
A verdade é que está na hora da lamentação e do clamor sobre nós facínoras malvados e gente cega, selvagem e má, que nos pisamos, batemos, esfolamos, mutilamos, mordemos e devoramos mutuamente como animais enfurecidos, e não nos deixamos intimidar o mínimo por esse sério mandamento de Deus; e assim por diante.
Em quarto lugar, peço que o Pai amado nos queira ensinar a reconhecer esse seu santo mandamento e ajudar com que também procedamos e vivamos de acordo: Que nos proteja a todos daquele homicida que é o mestre e exemplo de todo morticínio e dano (João 8.44). Que conceda sua graça abundante para que as pessoas (e nós com elas) sejam amáveis, mansas e bondosas entre si, perdoem-se sinceramente e cada um suporte a falha e defeito do outro de forma cristã e fraternal. E assim vivam em boa paz e união, como no-lo ensina e de nós exige esse mandamento.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Falsificações da Verdade - Martyn Lloyd-Jones (1899-1981)



Temos vivido dias enganosos. Muitos têm sido enganados por falsificações, por fatos que aparentemente são reais, a tal ponto que, por eles, vão às ultimas conseqüências. Mas não são verdadeiros, são falsos, e esta é uma característica do diabo, de satanás, o pai da mentira, o pai da falsificação. E neste contexto as seitas são exatamente o que aparenta ser verdadeiro e por isso têm enganado a tantos. Como diagnosticar estas seitas?
Primeiro, seria bom dizer que o surgimento de seitas no meio dos evangélicos é demonstração de que a igreja não está bem. Muitos estão com problemas graves e têm procurado a igreja, mas não têm visto solução para si mesmos; creio que aqui deva ser colocado o tradicionalismo evangélico, a ortodoxia (que, diga-se de passagem, é necessária) morta, a superficialidade cristã, a falta de conversão verdadeira, o comodismo, tudo isso tem feito as pessoas buscarem outro aconchego.
No entanto é fato real que a grande maioria das pessoas está em busca de solução para os seus problemas, uma vida melhor, vida de paz, sem problemas, sem doença, mas são avessas às exortações, às recomendações de santificação; estão buscando pão como nos dias de Jesus. "Vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comeste dos pães e vos fartastes" (Jo.6:26). Aqui é que entra a seita, pois ela oferece ao povo exatamente aquilo que ele necessita (quer). E se você repreende alguém, recebe esta advertência: "Veja o bem que estou recebendo! Se me faz bem, deve ser de Deus!" Ou seja, se traz sucesso, solução, fez-me mudar de vida e traz felicidade, deve ser de Deus.
É exatamente aí que satanás arma sua cilada e já tem dominado muitas vidas. Lembrem-se que muitas organizações que ridicularizam o cristianismo podem ajudar as pessoas e fazê-las felizes. Lembro aqui os psiquiatras e psicólogos ateus. Eles podem trazer resultados muito bons, sem nada de orientação cristã. O próprio espiritismo tem trazido solução para muitas vidas; a yoga, o pensamento positivo e outros. Se você acha que tudo o que traz o bem pessoal é de Deus, saiba que já está caído diante do diabo.

Como saber então se é de Deus? Como diagnosticar o problema?
Seria bom inicialmente afirmar que o que importa ao homem não é o que ele sente, mas o seu relacionamento com Deus. Qualquer orientação que me faça ficar satisfeito, quando a minha relação com Deus está ruim, isto é do diabo. Era esta a situação dos fariseus.
Mas há outros testes práticos que gostaria de colocar.
O modo como vem a "bênção". Eles ensinam que se você obedecer a uma fórmula, pré-estabelecida, a bênção virá, a felicidade, a paz, a cura. E sempre é uma fórmula alheia às Santas Escrituras. Geralmente a idéia de uma visão que alguém teve, e daí é elaborado o sistema. Elas podem até citar as Escrituras, mas ao acaso, texto fora do contexto, e isso é transformado em pretexto. Compare isso com as grandes confissões de fé e credos do cristianismo. São todos sinopses da Palavra de Deus. Ali é enfatizada a grandeza e extensão da Bíblia. Como é diferente das seitas que apresentam apenas uma fórmula, uma fórmula mágica. ( Na igreja: ir a igreja, ou ler a Bíblia, ou orar).
Testemunho Pessoal. Outro aspecto que é característico de uma seita é o testemunho pessoal. O que os sectários destas seitas falam é sobre sua vida, o que era e o que são agora. Que eram assim até entrarem para esta "igreja", o seu problema está resolvido. Não ensinam as doutrinas fundamentais do cristianismo. Enfatizam apenas uma fórmula. Vejam que eles, ao enfatizarem seus testemunhos, começam com eles e terminam com eles, e não com Jesus como Senhor, apesar de citá-lO.
Apenas o prático. Eles enfatizam apenas o que é prático. Negligenciam a doutrina. Dizem: "Vocês precisam é de algo prático". Na verdade, porém, o que estão querendo dizer é que não é importante a doutrina. Mas não era assim que Paulo fazia na epístola aos Efésios; ele escreve os três primeiros capítulos nos quais a doutrina não é prática, é pura doutrina. E só depois do capítulo quatro ;e que a torna prática. Ou seja, primeiro o fundamento doutrinário, depois a prática. A ordem inversa é de grande perigo. É o que acontece com essas seitas.Quero aqui realçar o perigo dentro das nossas igrejas. Hoje há uma tendência em se desvalorizar a doutrina. Teologia, doutrina, tudo soa muito intelectual, sofisticado (creio até que em algumas circunstâncias é verdade) e por isso é negligenciado. Há risco de seitas no nosso meio.
Você é que pode fazer. Apesar de falar no Espírito Santo, não se acha que Ele é que vai realizar em nós o que Deus quer. Eles sempre afirmam que é você que pode fazer. Esquecem que é Deus que opera em nós tanto o querer como o efetuar. Daí surgir a jactância, o orgulho, a satisfação própria. Há muita arrogância, pois são eles que conseguem realizar. A mudança foi devido a uma atitude tomada, uma conseqüência do seu esforço próprio. "Eu era assim, mas agora consegui isto..." Não estão entregues à vontade de Deus, mas seus interesses é que prevalecem. Este perigo também está em nossas igrejas e os que agem assim estão esquecidos do que disse Paulo: "operai a vossa salvação com temor e tremor"(Fl.2:12) - Mas eles dizem "não há nada o que temer". Deus nos livre deste pecado da arrogância. É Deus que opera em nós a mudança. O mérito é dEle!
Fórmula Simples. Uma outra característica é que "a fórmula é muito simples". Eles chegam a dizer que é um desperdício estudar tanto as epístolas, quando eles têm uma fórmula tão simples. As seitas têm todas as características dos remédios dos charlatães e toda a sua propaganda. "Eis aí o remédio que cura todos os males". O pior é que não afirmam apenas que podem resolver todos os problemas, mas que podem resolver com facilidade. Mas não é isto que ensina o apóstolo Paulo quando diz: "em tudo somos atribulados, mas não angustiados, perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos..." Podemos ser vitoriosos, é verdade, mas não é fácil. Por isso ele disse também: "Nossa luta não é contra a carne e o sangue..." Temos de lutar contra poderes terríveis. Essa idéia de "fácil" é falsa à luz do Novo Testamento.
Cura e Benção imediatamente. Nesta linha de pensamento, outra característica semelhante das seitas é que elas oferecem a CURA, a BÊNÇÃO, "imediatamente". Já notou isso? É o método do "atalho", e por isso conseguem tantos adeptos. Mas o que nos ensina o Novo Testamento é que estamos num mundo difícil, pecaminoso, dominado pelo diabo e seus anjos. Por isso precisamos de toda a armadura de Deus. Precisamos ser fortalecidos "com poder pelo Seu Espírito no homem interior" (Ef.3:16). O homem moderno afirma: "Eu pensava que o cristianismo resolveria todos os meus problemas e endireitaria tudo imediatamente, mas agora me dizem que devo lutar, vigiar, orar, jejuar, suar... Não quero nada disso! Quero algo que solucione rápido o meu problema". As seitas respondem: "Certo, naturalmente". Observem que as seitas não ensinam crescimento na graça e conhecimento de Cristo; não falam em "operai a vossa salvação com tremor e temor"(2Pe.3:18).Qualquer coisa que ofereça "atalhos" espirituais não é cristianismo da Bíblia. Mas as seitas perguntam: "O que você está precisando? Qual o seu problema?" E responde: "Venha. Nós podemos ajudá-lo". E oferecem o remédio barato, fácil e rápido. Saúde, cura física, a bênção que soluciona todos os seus problemas.Mas o método do Evangelho é muito diferente. A primeira coisa do Evangelho é o CONHECIMENTO DE DEUS. Está é a grande mensagem da Bíblia. Por que Cristo veio ao mundo? "Para conduzir-nos a Deus", responde o apóstolo Pedro (1Pe.3:18). O Evangelho não começa com as minhas dores e penas, minhas necessidades de orientação ou minha aflição. Começa por conhecer a Deus. Este é o objetivo do Cristianismo. "A vida eterna é esta" - Qual? Que eu não me aflija mais, ou que fique livre daquilo que me deprime? Não! - "que te conheçam a ti só, por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo a quem enviaste"(Jo.17:3). Se eu estiver correto com este pensamento, as outras coisas estarão resolvidas. O objetivo do Cristianismo é levar-nos ao conhecimento de Deus e do Senhor Jesus Cristo.
Sem ênfase na santidade. As seitas não mencionam isto e também não falam de santidade. Podem até proibir muitas coisas nocivas, e dessa forma fabricar fariseus satisfeitos consigo mesmos. Mas a santidade não é algo negativo, e sim positivo - "Sede santos, pois Eu Sou Santo" diz o Senhor. Não é apenas vitória sobre pecados particulares, mas é de fato ser santo. Eles não enfatizam isso.
Ênfase no agora. Outra coisa que as seitas não falam é sobre a "esperança da glória". O Novo Testamento nos fala da glória vindoura. Mas as seitas se propõem a ajudar as pessoas enquanto elas estiverem neste mundo, sem enfocar o futuro. "VOCÊ", você é que está no centro, eles estão enfatizando a experiência e não falam da glória do céu, nem do "NOVO CÉU E NOVA TERRA, ONDE HABITA A JUSTIÇA".(2Pe.3:13).
Enfim, as seitas ficam apenas num estreito círculo no qual o homem está girando, girando e repetindo constantemente a mesma coisa. A "bênção" oferecida pelas seitas é bem diferente do que o Evangelho oferece.
Abomino as seitas. Elas não passam no teste que é a Pessoa de Cristo. Todo movimento ou ensino que não faça do Senhor Jesus Cristo e Sua morte na cruz e Sua gloriosa ressurreição, uma necessidade absolutamente central, não é cristã e sim manifestação das "astutas ciladas do diabo". Ou seja, qualquer ensino ou movimento que diga que você pode Ter esta ou aquela benção sem primeiro crer no Senhor Jesus Cristo como o Filho de Deus, como Salvador de sua alma e Senhor de sua vida, e que sem Ele você não é nada, é uma negação das Escrituras, do cristianismo. Se o ensino ou movimento inclui maometano, budista, judeu e lhe oferece a bênção sem que eles reconheçam e confessem que Cristo, e somente Cristo, é o Filho de Deus e que Ele, somente Ele, pode salvar o pecador, porque ele morreu pelos nossos pecados, NÃO É CRISTÃO! Essa bênção fora do evangelho é negação do cristianismo e devemos rejeitá-la. Não há acesso a Deus, não há conhecimento de Deus como Salvador e Libertador, exceto por meio de Cristo. As seitas são um insulto a Deus, a Jesus Cristo, não têm direito de existir. Se você acha que Jesus não é suficiente, e que deve ir após as seitas em busca de ajuda e "bênção"(cura, prosperidade...), você O está negando; você O está insultando. São as astutas ciladas do diabo.
A fé que sustentou, fortaleceu e abençoou os santos no transcurso dos séculos, e que tem resistido a todos os testes que se podem conceber, é suficiente. Você não tem necessidade de seguir alguma idéia nova, moderna, que só passou a existir no século passado, ou neste. VOLTE PARA A VELHA HISTÓRIA, sempre nova e verdadeira. Volte para a fonte e origem de todas as bênçãos; volte para o Deus eterno e Seu Filho, nosso glorioso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. E o Espírito entrará em seu ser, e todas as suas necessidades serão supridas

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Onde os desejos são purificados – J. I. Packer


- Desejar a Deus -

O ensino em análise afirma que desejar e contemplar o nosso Salvador e Deus na reciprocidade do amor é a atividade mais importante e nobre da vida. No desenvolvimento desse pensamento, são feitas duas afirmações: primeira, os cristãos frequentemente perdem a alegria deste relacionamento por sua própria negligência e preocupação com outras coisas; segunda, Deus às vezes não nos deixa sentir a sua presença e amor, que nos concede em outras ocasiões, para nos ensinar lições sobre paciência e pureza de coração que, do contrário, não aprenderíamos.

Uma diversidade de abordagens foram desenvolvidas com o objetivo de articular estas verdades. Vamos observar rapidamente algumas delas.

A importância de se distanciar do que deseja o coração tem sido frequentemente expressada em termos de retirar-se para o "deserto" de solidão, onde os desejos são purificados. O mesmo ponto foi observado no Ocidente por meio do direcionamento dos cristãos à renúncia de todas as distrações que se sobrepõem ao "cone" ou "ápice" de sua alma, e, no Oriente, mediante a exigência da "apatheia" (que não significa impassibilidade interior, mas o domínio próprio que redireciona a paixão para a busca de Deus).

Agostinho, Bernardo e Thomas à Kempis; e puritanos, como Richard Sibbes, Richard Baxter, Thomas Goodwin e John Owen, com muitos outros antes e depois deles, mapearam os caminhos do pensamento e da oração que separam o desejo do apelo magnético deste mundo para atrelá-lo mais firmemente a Deus, em Cristo.

Por um lado, o relacionamento entre a meditação verbal e a petição, e, por outro, a contemplação e o entregar-se pós - e não - verbal ao Senhor, a quem se conhece, confia e ama, foi explorado por mestres do "casamento espiritual", que desenvolveram a analogia da linguagem e comunhão do amor entre os sexos e a aplicaram ao relacionamento de uma pessoa com Deus.

Na mesma relação, os cistercienses, franciscanos e outros enfatizaram as ligações entre a contemplação amorosa de Deus e a ação compassiva entre homens e mulheres, enquanto Jonathan Edwards, em seu livro Tratado sobre a Compaixão Religiosa, estabelece testes que mostram se sentimentos fortes em um contexto de devoção são ou não autenticamente espirituais (resultantes da obra do Espírito Santo no coração).

Toda esta instrução procura, de qualquer forma, indicar o caminho que conduz àquela satisfação em Deus, que é o supremo valor e glória da vida.