terça-feira, 7 de julho de 2015

Casamento, divórcio e novo casamento


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2) CRISTÃOS CASADOS COM NÃO CRISTÃOS (7.12-24)


Na primeira parte desse capítulo (vs.2-7), vimos que Paulo argumenta sobre os direitos conjugais em relação ao casamento (Gn 2.24). Em seguida, ele se dirige aos solteiros, divorciados e às viúvas da igreja (vs.8-9); depois orienta os casais (vs.10-11). Agora, as últimas pessoas a receber o conselho do apóstolo são os crentes casados com incrédulos. Paulo escreve: Aos mais digo eu (vs.12a).

Nesse trecho, Paulo não discorre sobre o casamento misto, ou seja, o casamento entre um cristão e um incrédulo. O ensino do apóstolo sobre isso é claro: o casamento deve ser no Senhor (7.39). Por ter um modo de vida diametralmente contrário ao do não cristão, e para que inúmeros problemas conjugais sejam evitados, Paulo orienta que o cristão deve se casar com cristão (2Co 6.14-15).

A igreja de Corinto era uma igreja nova. Algumas pessoas se converteram ao evangelho depois de casadas. De repente, apenas a mulher se converteu e o marido permaneceu incrédulo, ou apenas o marido se converteu e a mulher permaneceu incrédula. Essa é a problemática que Paulo trata aqui.[22] Diante disso, os coríntios fomentam mais uma pergunta: Devemos permanecer casados com cônjuges incrédulos? Paulo responde que sim! Ele atesta que devem permanecer casados (7.12-13). Por que ele diz isso? Conforme dissemos anteriormente, Jesus não abordou todos os detalhes acerca do casamento, divórcio e novo casamento.

Jesus se dirigiu especificamente ao povo Judeu, nessas questões (veja Mateus 5.31-32; 19.1-12; Marcos 10.1-12; Lucas 16.18). Era normal o judeu se casar com judeu, e não com pessoas de outras nações. Naquela época, o evangelho estava restrito a Israel, e, por isso, Jesus não vivenciou a realidade dos relacionamentos mistos, isto é, o casamento entre cristãos e não cristãos, o qual se tornou comum após o Evangelho se espalhar entre o mundo gentílico.

Com efeito, em 1 Coríntios 7, Paulo não contradiz o ensino de Cristo sobre o divórcio, mas expande o assunto. Ele trata de alguns detalhes que Jesus não abordou nos evangelhos, tal como o casamento misto e outras razões para o divórcio que não fosse apenas o adultério. É provável que alguns crentes da igreja de corinto estivessem imaginando que, por serem casados com incrédulos, estavam de certa forma se contaminando. Porém, a verdade é exatamente o oposto disso (vs.14). 

É um ato de desobediência um cristão casar-se com um incrédulo. Mas se a pessoa se torna cristã depois de ter se casado, ela não pode usar esse acontecimento como base para separação. Pelo contrário, ela precisa exercer a influência que tem como cristã para mudar e transformar o seu lar e ainda levar o seu cônjuge à conversão. Paulo está dizendo que a conversão não altera as nossas obrigações sociais.[23]

a) O poder do casamento (vs.14)

Paulo escreve que, no casamento misto, o cônjuge incrédulo é santificado na convivência com o marido ou com a esposa crente. Por causa disso, os filhos desse casal não seriam impuros, mas santos. Evidentemente, a santificação do cônjuge incrédulo não se refere à salvação, pois, se fosse o contrário, ele não seria denominado de incrédulo. A santificação que Paulo tem mente aqui é matrimonial e familiar, não pessoal ou espiritual. O casamento não é um meio de conversão. O marido ou a esposa que é crente santifica o casamento, traz benefícios para a sua família. Sendo assim, o cônjuge incrédulo fica exposto à influência do Evangelho.

O apóstolo não está dizendo que a esposa ou o marido descrente torna-se moralmente santo por meio do cônjuge crente. O homem não é capaz de santificar o seu próximo. O apóstolo quer dizer que, através do cônjuge crente, o marido ou a esposa descrente é, de algum modo, influenciado pela santidade do cônjuge crente.

A conduta do cônjuge descrente “é afetada pela conduta do cônjuge cristão. O cônjuge não cristão concorda em viver com a pessoa cristã em quem habita o Espírito de Deus, cumpre as obrigações que advém da instituição do casamento (Gn 2.24) e conserva intacto seu casamento em obediência aos preceitos de Jesus (Mt 19.6). Os dois vivem num ambiente santificado, porque o lar é consagrado pela leitura, aplicação da Palavra de Deus e pela oração”.[24] Calvino escreve que a piedade de um faz o casamento mais santo do que a impiedade do outro para torná-lo impuro.[25] Ou seja, a santidade de um cônjuge exerce uma influência santificadora maior do que a possível corrupção que advém do outro. O inverso também se aplica: a pessoa não santificada é, de certa maneira, influenciada pelos preceitos do mundo que se opõe aos preceitos de Deus.

Adiante, Paulo também declara como santos os filhos que nasceram antes ou depois da conversão de um dos cônjuges. A santificação dos filhos aqui também é familiar, e não “espiritual e moral”. Ele deixa latente que os filhos são santificados com base na fé do pai ou da mãe que é cristão. Eles não são considerados impuros pela ausência de fé do cônjuge incrédulo. A fé prevalece sobre a supressão da fé na família.

Porém, mesmo santificados pelo cônjuge crente, o marido ou a esposa descrente e os filhos, ainda assim, necessitam ser convertidos ao Evangelho para serem, de fato, crentes. Baseando-se no contexto histórico de 1 Coríntios, vemos que Paulo está enfrentando um grupo de ascetas gnósticos que consideravam o sexo como algo pecaminoso, até mesmo dentro do casamento. É bem provável que ele esteja defendendo a “santidade” da relação sexual e a santidade dos filhos em casamentos mistos.   

Quando a fé cristã entra em um lar descrente, ela deve ser uma ponte de novas bênçãos, e não de novas desavenças. O fato de um cônjuge incrédulo viver com um cônjuge crente possibilita a esse cônjuge incrédulo conhecer o evangelho e ser abençoado por ele. O cônjuge incrédulo é trazido para mais perto de Deus ao conviver com um cristão na mesma casa.[26]  

b) A dissolução do casamento (vs.15-16)

Paulo enuncia que, se o cônjuge descrente quiser se divorciar, o cônjuge crente deve permitir. O apóstolo afirma que, nessa condição, ambos os cônjuges não estão obrigados a insistir no casamento. Por conseguinte, Paulo esclarece sua instrução com uma pergunta: Pois, como sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, como sabes, ó marido, se salvarás tua mulher? (Almeida Século 21)

Se o cônjuge incrédulo discorda da fé do cônjuge crente, e se recusa a conviver numa atmosfera cristã, optando pelo divórcio, o cônjuge crente fica livre para dissolver o casamento. Anteriormente, Paulo orientou a mulher cristã a não se divorciar do seu marido (vs.10-13). Porém, se a esposa ou o marido incrédulo, obstinado, quer romper o casamento, a melhor decisão é concordar com a separação para conservar a paz na família, uma vez que o bem estar dos filhos está em jogo nestas situações. 

MacArthur observa que alguns poderiam estar relutantes quanto a deixar o cônjuge não salvo partir, o qual queria ir embora e estava criando discórdia no lar – achando que poderiam evangelizar o cônjuge, insistindo no propósito de vê-lo convertido. Paulo diz não haver essa certeza e diz ser melhor separar-se e ficar em paz, caso o companheiro não salvo queira acabar com o casamento desse modo.[27]  
                     
Além do adultério, Paulo destaca a segunda condição exceptiva para o divórcio – a saber – o abandono inexorável. Antes de adentrarmos nesse assunto, acredito ser importante analisarmos mais detidamente Mateus 5.31-32, 19.3-9; Marcus 10.2-12 e Lucas 16.18, a fim de compreendermos melhor a primeira condição exceptiva para o divórcio.

Em ambas as passagens, Jesus ressalta que o novo casamento é proibido, e que o divórcio só é permitido em caso de relações sexuais ilícitas [adultério e vários tipos de pecados sexuais], conforme relata Mateus 5.31-32. Segundo a narrativa de Mateus 19.7-9, os fariseus interpretavam Deuteronômio 24.1-4 erroneamente. Lá, Moisés não promove nem desencoraja o divórcio explicitamente. Não era um mandamento de divórcio, mas uma limitação ao segundo casamento na eventualidade de um divórcio. Embora considerasse a legitimidade do divórcio quando um homem encontrasse coisa indecente (Dt 24.1) em sua esposa [pecado sexual, de acordo com a interpretação de Jesus no versículo 9 de Mateus 19], Moisés não deu um mandamento sobre o divórcio.[28] 
          
John Frame enfatiza que Deuteronômio 24.1-4 é um precedente legal (jurisprudência) [veja o capítulo 13], que descreve uma determinada situação (vs.1-3) e, então, estabelece um mandamento que tem ligação com essa situação (vs.4). Os versículo 1-3 são uma cláusula “se”, estabelecendo a hipótese, e o versículo 4 é a cláusula “então”, indicando a consequência.[29]  

MacArtur, por sua vez, realça que Deuteronômio 24.1-4 não ordena, não louva, não desculpa e nem mesmo sugere o divórcio. Pelo contrário, reconhece que o divórcio ocorre e é permitido apenas em bases muito restritas. O caso apresentado aqui se destinava a comunicar o fato de que o divórcio produz contaminação se não fosse pelo motivo de adultério. O que constitui essa contaminação? Somente uma coisa é possível: a mulher foi contaminada ao casar-se novamente porque não havia motivo para o divórcio. Portanto, quando se casou de novo, tornou-se adúltera e tão contaminada que seu primeiro marido não pode recebê-la de volta. O divórcio ilegítimo faz com que o adultério prolifere.[30]  

Na época de Jesus, havia uma veemente discussão teológica entre os rabis Shammai e Hillel e seus discípulos acerca dos motivos corretos para o divórcio. Havia divergência de opinião entre ambos. Os Sahamaítas eram rígidos na interpretação da lei, e permitiam o divórcio somente em caso de adultério. Os epígonos de Hillel assumiam uma posição mais liberal e pragmática, e permitiam o divórcio por motivos triviais. Portanto, em sua discussão teológica com os fariseus sobre o divórcio, Jesus enfatiza que o mesmo somente é permitido em caso de infidelidade conjugal. Quem se divorcia por motivos banais incorre em pecado (Mt 19.9).

Não obstante, o segundo motivo exceptivo para o divórcio é o abandono inexorável. Essa expressão é abrangente, e não se limita apenas na partida de um dos cônjuges. Oabandono inexorável envolve “omissão, negligência, desamparo e desdém” que um dos cônjuges demonstra para com o outro. 

Hipoteticamente falando, o homem que não cumpre o seu papel de marido como um dos provedores do lar por ociosidade ou malandrice, que não zela pelo bem-estar físico e emocional da sua esposa e dos seus filhos, sendo omisso no amor para com eles, é considerado um “desertor inflexível”.   

Imagine uma mulher cristã que seja casada com um descrente que a agrida fisicamente de forma constante, e não demonstra arrependimento algum por esse crime? Pelo contrário, esse homem é inflexível e ainda ameaça matar ou agredir ainda mais sua esposa se ela o denunciar à polícia. Imagine, ainda, uma mulher cristã que seja casada com um descrente que seja viciado em drogas? Além de vender os objetos do lar para sustentar o vício, esse homem, sob o efeito alucinógeno de entorpecentes, também agride fisicamente sua esposa. 

Imagine, mais uma vez, que um dos cônjuges, quer seja descrente, crente ou falso crente [visto que um crente verdadeiro é passível de ruir em pecados hediondos por um tempo], se revele bissexual ou pervertido sexualmente? É possível um homem ou mulher, na fase do namoro, ocultar determinados pecados, desvios de comportamento e perversões sexuais que são revelados somente mais tarde, no casamento, onde ambos os cônjuges se conhecerão plenamente. Finalmente, imagine que um dos cônjuges vá embora, de repente, e nunca mais volte, desaparecendo? O que o cônjuge abandonado deve fazer? Primeiro, expor sua situação à igreja e solicitar orientação pastoral; segundo, formalizar o divórcio diante do estado. Uma vez que foi o incrédulo quem optou pelo divórcio, o crente apenas confirma a situação, requerendo que o Estado ateste o status quo.

Tendo em mente as situações supracitadas, o que o cônjuge prejudicado deve fazer, sabendo que o casamento tornou-se praticamente insustentável? Indubitavelmente, Deus "deseja" a reconciliação, e não o divórcio, até mesmo em caso de adultério. John Frame expressa que o fato de o divórcio ser permitido por imoralidade sexual não significa que isso seja ordenado, necessário ou até mesmo desejável. Até mesmo nessa situação, Deus odeia o divórcio e ama a reconciliação. No entanto, sendo esse o caso, não é pecado se divorciar.[30]      
  
Porém, existem circunstâncias em que o divórcio é a melhor solução para obter-se a paz e até necessário para resguardar a vida do marido ou da esposa de condições intoleráveis. Conforme sintetizei, negligência em zelar pelo bem estar da esposa e dos filhos, ociosidade, malandrice, agressão física e perversão sexual, são tipos de abandono ou deserção do casamento. Sendo assim, um novo casamento é permitido para ambos os cônjuges [o culpado e o inocente], pois o divórcio cancela as obrigações do casamento original (1Co 7.15).

John H. Gerstner salienta que a cláusula exceptiva do adultério ensinada por Cristo não negou, por implicação, o ensino de Paulo sobre o abandono, e Paulo, positivamente, ensinou o que Cristo não negou. Não há discordância entre o ensino de Jesus e o ensino de Paulo.[31] 
        
A limitação de Jesus acerca do adultério como a razão para o divórcio não é incongruente com a adição de Paulo sobre o abandono inexorável como outra razão para o divórcio. Nos Evangelhos, Jesus menciona a base ativa para o divórcio, e Paulo esboça a base passiva. Cristo ensina que o cônjuge traído pode legar a carta de divórcio. Quem toma a iniciativa do divórcio é a parte inocente.

Paulo, por sua vez, amplia o assunto, sublinhando que a iniciativa do divórcio advém não do cônjuge abandonado, mas daquele que o abandonou. O cônjuge abandonado apenas reconhece o fato. Jesus esboça que é a parte inocente é quem toma a iniciativa do divórcio de forma voluntária. Paulo, entretanto, fala que a parte inocente é quase que “coagida” a se divorciar por conta do abandono da parte culpada.
               
Confissão de Fé de Westminster, no capítulo 24, parágrafo 5 e 6, corrobora o adultério e o abandono inexorável como os únicos motivos para o divórcio e um novo casamento. Senão vejamos:

No caso de adultério depois do casamento, à parte inocente é lícito propor divórcio (Mt 5.31,32), e, depois de obter o divórcio, casar com outrem, como se a parte infiel fosse morta (Mt 19.9; Rm 7.2,3). Posto que a corrupção do homem seja tal que o incline a procurar argumentos a fim de indevidamente separar aqueles que Deus uniu em matrimônio, contudo nada, senão o adultério, é a causa suficiente para dissolver os laços do matrimônio, a não ser que haja deserção tão obstinada que não possa ser remediada nem pela Igreja nem pelo magistrado civil (Mt 19.6-8; 1Co 7.15). 
  
Se os votos conjugais não são mais consistentes por conta da infidelidade sexual e do abandono inflexível, o qual é caracterizado por abusos físicos e verbais, e pela lacuna em munir o sustento do lar, “a igreja pode declarar o casamento original nulo e sem efeito, deixando os parceiros livres para se casarem novamente. Como diz a CFW, a “deserção” deve ser tal que não possa ser solucionada nem pela igreja nem pelo magistrado civil. A igreja deve reconhecer o divórcio nesses casos apenas quando todas as soluções disponíveis já falharam”.[32]

CONCLUSÃO

Peter Wagner [33] elenca cinco aplicações práticas do texto em voga:

1) Leve o dom do celibato a sério. Celibato é dom.

2) Se você anseia pelo casamento é porque não tem dom de celibato (7.8).

3) Se você não tem o dom do celibato, case-se. O casamento é uma bênção e digno de honra entre todos. E o próprio criador quem disse: Não é bom que o homem esteja só(Gn 2.18). Paulo diz que é melhor casar do que viver abrasado (7.9).

4) Se você está para se casar, certifique-se que o seu futuro marido ou esposa seja uma pessoa convertida (7.39). Se você está casado com uma pessoa incrédula, faça todos os esforços necessários para manter o seu casamento (7.16).

5) Se você quer que o seu casamento seja feliz, nunca deixe de dar a seu cônjuge toda a satisfação sexual que ele precisa e tem direito (7.3-5).
   
Em contrapartida, sugiro que os casais cristãos que se divorciaram por motivos triviais que não são justificados pelas Escrituras e se casaram novamente, confessem o pecado de terem se divorciado injustamente e de terem desobedecido às Escrituras contraindo um novo matrimônio. Arrependidos, esses casais devem seguir suas vidas em seu novo casamento na presença de Deus. 

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NOTAS:
22. Hernandes Dias Lopes. 1 Coríntios, pág 135.
23. Ibid.
24. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 318.
25. Calvino. 1 Coríntios, pág 217.
26. Hernandes Dias Lopes. 1 Coríntios, pág 136.
27. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1537.
28. Ibid, pág 1241.
29. John Frame. A doutrina da vida cristã, pág 734.
30. Ibid, pág 738.
31. John Gerstner. The early writings, pág 96.
32. John Frame. A doutrina da vida cristã, pág 743.
33. Peter Wagner. Se não tiver amor, pág 60.

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Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Pequeno Excerto da Obra A Doutrina Protestante das Escrituras - Por Cornelius Van Til


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PEQUENO EXCERTO DA OBRA THE PROTESTANT DOCTRINE OF SCRIPTURE [A DOUTRINA PROTESTANTE DAS ESCRITURAS], DE CORNELIUS VAN TIL


1. A NECESSIDADE DA REVELAÇÃO NATURAL

A fim de apresentar a inter-relação existente entre a revelação de Deus nas Escrituras e Sua revelação na natureza, devemos primeiramente tratar da necessidade da Revelação Natural. É costume apresentar a necessidade da Revelação Sobrenatural devido ao fato de não existir, em toda a extensão da natureza, nenhum tipo de revelação a respeito da graça. Contudo, é igualmente verdadeiro que a revelação da graça operar-se-ia num vácuo caso não se operasse na natureza, revelando, assim, a Deus. É impossível reconhecer o sobrenatural por aquilo que é, a menos que o natural também o seja: ambos devem ser reconhecidos mediante a luz da revelação sobrenatural de Deus. Tudo aquilo que o homem faz em relação à natureza, ele o faz como uma forma de manutenção ou de transgressão do pacto de graça que Deus estabeleceu com o homem. Dessa forma, tanto o cientista no seu laboratório quanto o filósofo em seu estudo estão lidando com seus materiais, quer como mantenedores do pacto ou como seus transgressores. Todos os atos do homem, todos seus questionamentos, todas suas afirmações – de fato, todas as suas negações em qualquer domínio de seus interesses, são pactualmente condicionadas.

2. A AUTORIDADE DA REVELAÇÃO NATURAL

Naturalmente, se, de fato, todos os atos humanos realizados tanto no que concerne à natureza quanto às Escrituras são pactualmente condicionados, isso se dá porque Cristo se comunica com o homem de forma ubíqua, e Se comunica sempre com absoluta autoridade. O cientista pode ou não reconhecer este fato. Se ele não é um cristão, ele há de argumentar que o fato de Cristo possuir autoridade, uma absoluta autoridade no que diz respeito ao seu procedimento científico, é algo que destrói totalmente a própria ideia de ciência. Ele há de argumentar que a ideia de ciência pressupõe liberdade por parte do cientista para conceber quaisquer hipóteses que julgue se encaixar aos fatos. Qualquer autoridade absoluta – como aquela mencionada anteriormente – também exclui (no raciocínio do cientista) a ideia de que as palavras de Cristo podem e devem ser testadas pelos fatos e pela ordem dos fatos, isto é, pelas leis naturais já conhecidas pelos homens, a partir de seus experimentos e experiências prévias. “Suponha”, o cientista talvez diga, “que eu tenha de trabalhar sob a absoluta restrição da ideia de uma Providência redentora e soberana de Deus, tal como ensinado pela Bíblia – isto seria contra a ideia de um universo absolutamente aberto. Assim, minha hipótese teria que ser de uma natureza tal que esteja em total concordância e mesmo subordinada à ideia dessa Providência soberana. Isso excluiria quaisquer novidades e descobertas na ciência. Tudo já estaria de antemão fixado. Por outro lado, a ideia de uma Providência redentora que abarcasse todas as coisas exigira, de minha parte, a aceitação, de bom grado, da possibilidade de Deus, arbitrariamente, Se manifestar na ‘unidade’ da natureza que a ciência descobriu mediante árduos esforços, e, dessa forma, destruísse essa ‘unidade’ com inserções miraculosas. Teríamos, então, que aceitar que todos os fatos com os quais lidamos são, essencialmente, criações arbitrárias de Deus. Portanto, teríamos que interpretar a ideia de ‘lei’ científica como sendo subserviente àquela lei do relato bíblico acerca do pecado e redenção, a qual é controlada pelo fiat do Deus soberano. Isso não pode ser assim, e, portanto, não aceitaremos tal coisa!

Dito de outro modo, a metodologia científica que não é definitivamente baseada sobre a história redentiva da Bíblia é baseada, na verdade, sobre a suposição de que, de um lado, o universo deve ser totalmente aberto e, de outro, que ele deve ser totalmente fechado. Aludindo a essa ideia, Morris Cohen diz que a ciência necessita tanto da ideia do universo aberto quanto da ideia do universo fechado, mas delas necessita não como elementos constituintes, antes, como conceitos que se limitam reciprocamente.

Caso o homem não possua a autoridade de Cristo no campo da ciência, ele passa a considerar a si mesmo como a autoridade definitiva, como a retaguarda de seu esforço. A controvérsia entre aquele que guarda o pacto e aquele que o quebra nunca se dá, exclusivamente, a respeito de um fato particular ou a respeito de certo número de fatos. É sempre, e ao mesmo tempo, sobre a natureza dos fatos. Além disso, atrás do argumento a respeito da natureza dos fatos, há ainda o argumento sobre a natureza do homem. Por mais restrito que o debate entre o crente e o cético possa ser a qualquer momento, em última análise há sempre duas cosmovisões em desacordo entre si. De um lado, é um homem que vê a si mesmo como incapaz de encontrar uma interpretação inteligível da experiência sem referência a Deus como seu Criador e a Cristo como seu Redentor. De outro lado, é o homem que está certo de que ele não pode encontrar qualquer interpretação desse tipo. Ele supõe que reside junto a ele o poder de fazer um juízo universal negativo acerca da natureza de toda a realidade.

Consequentemente, o cientista que é um cristão possui o dever de mostrar ao seu amigo e colega que não é cristão que, a menos que este último esteja disposto a se posicionar a partir da narrativa cristã com respeito ao mundo que tem sido redimido por meio de Cristo, não há nada para ele, a não ser o fracasso. O labor científico é totalmente ininteligível a não ser que seja francamente baseado sobre a ordem disposta no universo de fatos criados por Cristo, o Redentor.

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Autor: Cornelius Van Til
Fonte: WTSBooks
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos

sábado, 4 de julho de 2015

A Pregação dos Pioneiros no Brasil: Uma Análise Preliminar Alderi Souza de Matos*





O presente artigo analisa a importância do discurso verbal no protestantismo em geral e na tradição reformada ou calvinista em particular. Mais especificamente, trata de alguns aspectos relacionados com a pregação dos primeiros pastores e missionários presbiterianos que atuaram no Brasil. O artigo inicia com algumas considerações acerca do tema na história do movimento reformado, tanto europeu quanto norte-americano, com ênfase especial ao puritanismo. Em seguida, são abordados vários aspectos referentes à formação recebida pelos primeiros missionários presbiterianos que trabalharam no Brasil e a influência que exerceram sobre as primeiras gerações de ministros nacionais. O enfoque principal do estudo recai sobre a prática da publicação de sermões nos primeiros tempos da obra presbiteriana no Brasil, como um meio de suprir de material homilético de boa qualidade as igrejas isoladas e carentes de obreiros do interior. O artigo se detém de modo especial no levantamento de um antigo periódico evangélico brasileiro voltado especificamente para a publicação de sermões, o Púlpito Evangélico (1888-1900), produzido pelos missionários da Igreja do Sul dos Estados Unidos, a PCUS. Sem entrar na análise homilética e teológica dos sermões propriamente ditos, a pesquisa destaca as principais características do valioso periódico e faz uma classificação temática de quase 150 sermões publicados pelo mesmo.


INTRODUÇÃO

Desde o século 16, a ênfase à palavra falada e escrita tem sido um dos elementos mais distintivos da mentalidade protestante. Em contraste com o catolicismo, com a sua grande complexidade simbólica e ritualística, a espiritualidade protestante clássica é despojada, comedida, austera. Carentes de outras formas de expressão, os protestantes acabaram dando uma ênfase maciça à comunicação verbal através de seus escritos, de seus hinos e de suas pregações. A antipatia da mentalidade protestante pelo ritual pode ser vista até mesmo na área sacramental. Além de aceitarem apenas dois sacramentos, os herdeiros da Reforma dão ênfase não aos elementos materiais em si (pão, vinho, água), mas ao seu significado espiritual, e o fazem por meio de muitas explicações, de um discurso elaborado.

Mais especificamente, os protestantes valorizam a “Palavra”, isto é, a Escritura Sagrada. Outra vez em contraste com a Igreja Católica, que baseia as suas convicções no tripé composto por Escritura, Tradição e Magistério, o protestantismo se concentra de modo especial na Bíblia, embora não deixe de ter as suas próprias formas de tradição e magistério eclesiástico. A Escritura se torna, no universo protestante, o ponto focal da teologia, do culto e da vida espiritual. Todos os aspectos da vida cristã, quer individual, quer comunitária, são analisados e entendidos com referência à Palavra de Deus.

A centralidade da “Palavra” e da “palavra” se evidenciou em muitas áreas, mas especialmente no culto, a manifestação mais visível e concreta da vida da igreja. Em virtude da sua importância capital, a Escritura precisava ser estudada, interpretada e ensinada. Daí a tremenda ênfase dada ao púlpito e à pregação na vida das igrejas da Reforma.[1] Os pastores passaram a ser designados especificamente como os “ministros da Palavra” (minister verbum Dei ou minister verbi divini). Suas funções mais importantes eram pregar a Palavra e ministrar os sacramentos. Na tradição reformada ou calvinista, a “fiel exposição da Palavra” passou a ser a primeira e a mais importante das marcas da igreja. Essas ênfases foram levadas pelos missionários aos países em que trabalharam.

O objetivo deste artigo é fazer uma análise introdutória da pregação dos primeiros obreiros presbiterianos do Brasil, tanto estrangeiros quanto nacionais. Inicialmente são feitas algumas considerações sobre a pregação na tradição reformada, na Europa e nos Estados Unidos. Em seguida, são abordadas a formação teológica e as práticas de pregação dos pioneiros presbiterianos no Brasil. Finalmente, é feito um levantamento geral do primeiro periódico presbiteriano brasileiro voltado para a publicação de sermões, O Púlpito Evangélico (1888-1900), destacando-se as suas principais características e o seu conteúdo.

1. A pregação na tradição reformada

A Escritura e a pregação foram fundamentais para todas as igrejas da Reforma, mas se tornaram especialmente importantes no protestantismo suíço. Ulrico Zuínglio adquiriu notoriedade em Zurique exatamente em virtude de sua vibrante pregação bíblica, estimulada pela leitura do Novo Testamento em grego e latim publicado por Erasmo de Roterdã. João Calvino distinguiu-se por sua impressionante erudição bíblica e por seu valioso trabalho como intérprete, pregador e expositor das Escrituras. Seus herdeiros mantiveram essa ênfase, insistindo na necessidade de um ministério bem preparado. Os pastores reformados, nos diferentes países em que esse movimento se implantou, recebiam sólido treinamento bíblico e teológico a fim de serem preparados para a sua tarefa mais essencial. A Academia de Genebra, fundada por Calvino em 1559, da qual Teodoro Beza foi o primeiro reitor, tinha como principal finalidade o preparo de pastores para as igrejas reformadas da França, dando ênfase, entre outras coisas, ao desenvolvimento de habilidades nas áreas exegética e homilética. Com o tempo, surgiram universidades reformadas que se tornaram padrão de excelência nesses campos. São exemplos disso as Universidades de Leyden (Holanda), Heidelberg (Alemanha) e Edimburgo (Escócia).

A pregação reformada atingiu um dos seus pontos culminantes com o advento do puritanismo britânico. O século que se seguiu ao início do reinado de Elizabete (1558) foi uma das grandes eras do púlpito em todos os tempos. Thomas Fuller observou que o segredo da enorme influência do puritanismo na vida da Inglaterra foi a notável habilidade revelada pelos pregadores puritanos no púlpito.[2] Praticamente todos os grandes teólogos puritanos foram também pregadores destacados. Dentre eles podem ser citados os ingleses Thomas Cartwright, Richard Hooker, William Perkins, Richard Sibbes, Thomas Goodwin, Richard Baxter, John Owen e John Bunyan, e os escoceses John Knox, Andrew Melville, Samuel Rutherford, William Guthrie, Alexander Peden, James Renwick e Thomas Boston.[3] Esses pregadores criaram o chamado estilo “simples” de pregação, que visava atingir tanto a mente quanto o coração dos ouvintes. Esse estilo era simples no sentido de ser inteligível, tocante e direto, sendo ao mesmo tempo cheio de vivacidade através do uso habilidoso de imagens extraídas da Bíblia e da vida diária.[4]

Essa ênfase em um ministério bem treinado e na importância da pregação foi levada pelos reformados para a América do Norte. Desde o início da colonização, os calvinistas criaram colégios (“colleges”), que visavam prioritariamente a preparação dos seus ministros. Os primeiros foram os de Harvard, em Massachusetts (1636); Yale, em Connecticut (1701); Princeton, em Nova Jersey (1746); Queens/Rutgers, em Nova Jersey (1764); e Dartmouth, em New Hampshire (1769). Os grandes pregadores americanos dos séculos 17 e 18 foram todos influenciados pela tradição puritana: Roger Williams, Francis Makemie, Cotton Mather, William Tennant, Theodore Frelinghuysen, Jonathan Edwards, Samuel Davies e John Witherspoon, entre outros.[5] Sendo o puritanismo a mais influente tradição religiosa da América do Norte, pode-se imaginar quão grande foi o impacto da sua pregação na formação espiritual e cultural dos Estados Unidos.

Em muitos aspectos, Jonathan Edwards (1703-1758) tipifica os grandes pregadores da época, a começar do aspecto físico. Nos quadros que o representam, ele invariavelmente enverga o traje característico de pregador: toga preta, colarinho e peruca branca. Acima de tudo, Edwards foi o grande representante americano do estilo “simples” de pregação. Seus sermões, cuidadosamente preparados e memorizados, preocupavam-se em expor as grandes verdades bíblicas e aplicá-las ao coração e à vida dos fiéis. Não deixa de ser notável o fato de que o primeiro avivamento ocorrido durante o seu ministério na Igreja Congregacional de Northampton verificou-se quando ele pregava uma série de sermões sobre a justificação pela fé (1734).

Em distinção dos puritanos e de outros grupos reformados, os presbiterianos norte-americanos acabaram criando a sua própria tradição. Em 1788, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos estava plenamente formada, com a criação da sua Assembléia Geral. Nas décadas seguintes, ocorreu uma série de acontecimentos marcantes. Em primeiro lugar, o fenômeno dos avivamentos, particularmente o chamado Segundo Grande Despertamento, contribuiu para o extraordinário crescimento da igreja. O historiador Sydney Ahlstrom informa que no início do século 19 havia aproximadamente 13.500 membros comungantes em cerca de 500 igrejas; em 1820, 70.000 membros em 1.300 igrejas, e em 1837 (o ano da criação da Junta de Missões Estrangeiras), 226.000 membros em 2.865 igrejas.[6]

Em segundo lugar, houve uma polarização na igreja entre dois grupos: a “Velha Escola” e a “Nova Escola”. Esta, concentrada principalmente em Nova York e na Nova Inglaterra, era partidária do avivamento e de um calvinismo atenuado, ao passo que a primeira, predominante em Nova Jersey, na Pensilvânia e no sul, via o avivamento com suspeitas, por causa de seus excessos e de suas ênfases teológicas, e era forte defensora da ortodoxia de Westminster. Essas preocupações levaram a Velha Escola a criar, em 1812, o Seminário de Princeton, cujo primeiro professor foi Archibald Alexander (1772-1851). Esse escocês-irlandês, ao buscar uma orientação intelectual e teológica para a nova instituição, voltou-se, não para a tradição derivada de Jonathan Edwards, mas para o escolasticismo de François Turretin (1623-1687), vigoroso defensor do calvinismo clássico em Genebra. Ahlstrom observa que, até ser substituída em 1873 pela Teologia Sistemática de Charles Hodge, a Institutio Theologiae Elencticae[7] de Turretin, associada às confissões suíças e aos padrões de Westminster, “proporcionou tanto estrutura quanto conteúdo para a mensagem que centenas de formandos do seminário levaram a todo o país e a muitos campos missionários no exterior”.[8]

Os outros grandes seminários do norte, como Western (Pensilvânia), McCormick (Illinois) e Lane (Ohio) tinham essencialmente a mesma orientação. O mesmo se pode dizer dos principais seminários presbiterianos do sul, Union (Virgínia) e Columbia (Carolina do Sul), que igualmente abraçaram a ortodoxia calvinista. Seus principais professores foram, respectivamente, os conhecidos teólogos conservadores Robert Lewis Dabney (1820-1898)


* O autor é mestre em Novo Testamento (S.T.M., Andover Newton Theological School, Newton Centre, EUA) e doutor em História da Igreja (Th.D., Boston University School of Thelogy). É professor de história da igreja no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo, e historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Igreja segue caminhando - Por: Ronaldo Lidório


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Há, sem dúvida, abundantes motivos de preocupação com a Igreja em nossos dias. Em solo brasileiro, o mercantilismo da fé invadiu púlpitos, livros e corações. A prosperidade material, em lugar da santidade e serviço cristão, se tornou o sonho de vida vendido nas prédicas diárias. Os títulos hierárquicos da fé são criados na busca por autoridade e destaque de egos enquanto -- talvez seja o pior -- a Palavra é manipulada para fins pessoais e, não raramente, ilícitos.

Não discordo das vozes de preocupação ou das lágrimas de angústia por uma Igreja que tem se encantado com as luzes deste mundo, perdeu a simplicidade cristã e, em muitos casos, se conformou com o presente século, aplaudindo-o de pé.

Porém, vejo que, apesar de vivermos dias maus, há motivos de tremenda alegria e regozijo no Senhor, pois sua Igreja segue caminhando. E observar o cuidado do Senhor ao preservar o caminhar da Igreja -- mesmo ao transitar por ruas esburacadas e esquinas escuras -- é terapêutico para a alma e estimulante para a fé.

Nos últimos tempos, encantei-me com várias destas pessoas que fazem parte da Igreja “caminhante”. Lembro-me daquele pastor assembleiano que encontrei no Rio de Janeiro que, encarecidamente, pedia ajuda para subir o morro do Alemão, visto que andava de muleta por ter levado um tiro na última vez que o fez. Desejava subir novamente o morro para pregar a Palavra de Deus. Recordo-me com cores vivas também daquele mecânico de Brasília, tomado pela alegria da conversão após trinta anos de sofrimento nas drogas, e que agora não conseguia completar uma frase sequer sem falar de Jesus. Também o Sr. João, leigo e semianalfabeto, que se embrenhou nas matas amazônicas para pregar a Palavra e evangelizar -- sozinho -- seis aldeias indígenas, sem preparo, sustento ou reconhecimento, mas por amor ao Cristo vivo. Não poderia me esquecer de nossos teólogos que andam na contramão das tendências da época e, mesmo debaixo de críticas e risos, não deixam de nos apontar o caminho da Palavra e da fé. E o que mais poderíamos falar dos pastores e líderes com cabeças já embranquecidas que, após uma vida inteira de fidelidade ao Senhor e à sua Igreja, nos inspiram a seguir o mesmo caminho? E aqueles que gastam a vida, economias e forças para dar voz e uma mão amiga aos caídos à beira do caminho? É também formidável perceber que, a cada semana, em solo brasileiro, milhões se apinham em templos das mais variadas espécies para praticar a comunhão e, com sede de Deus, buscá-lo enquanto se pode achar.

Dentre as maravilhas de Deus em manter a sua Igreja viva em meio a um mundo cujas cores são fortes e atraentes, penso em três fatos que, apesar de simples, são para mim emblemáticos.

Em primeiro lugar, após ter voltado da África para o Brasil, e por estar aqui desde 2001, percebo por onde passo a presença de verdadeiras testemunhas do Senhor Jesus. Homens, mulheres, crianças e idosos que não param de falar de Cristo, distribuir panfletos com mensagens bíblicas, realizar encontros nas praças e seguir de casa em casa; pessoas que são impulsionadas a falar de Jesus a partir do que têm experimentado em suas próprias vidas -- sincera transformação. Não há um lugar que passo que não tenha uma marca -- mesmo que simples, ou às vezes até fora de contexto -- da determinação de se falar daquele que fez algo novo e maravilhoso em nossa vida. Jesus está no coração da Igreja e, frequentemente, também em seus lábios.

Em segundo lugar, recebi um pacote de cartinhas de crianças da escola dominical de uma igreja no interior de Minas. Várias delas afirmavam estar orando por nós -- missionários -- para que não nos desviássemos do nosso chamado. Naquela manhã pensei: fazemos parte de um Corpo que possui crianças que oram, escrevem suas orações e, ainda, nos exortam a não nos esquecermos do sentido da nossa vida!

Por fim, o amor à Palavra. Muitos crentes a buscam, separam tempo para estudá-la, ouvi-la e comunicá-la. Em muitos cultos o momento mais sublime é o momento da Palavra. Olhos se concentram, pessoas se ajeitam nos bancos. A Bíblia é segurada com interesse enquanto canetas anotam explicações e aplicações em caderninhos ou papéis improvisados. Há algo diferente quando “ela” é aberta.

Sim, a franca evangelização, crianças que oram e o amor à Palavra não minimizam o quadro agonizante de uma Igreja que precisa de urgente e franca reforma de vida. Mas são alguns, dentre muitos outros, sinais de que esta Igreja segue caminhando, e o fará até o dia final quando seremos chamados -- os que dormem e aqueles que vivem -- para ouvirmos a doce voz do Senhor: “servo bom e fiel”...

O reverendo Francisco Leonardo Schalkwijk, ao impetrar a bênção ao fim de cada culto, sutilmente adiciona uma frase que nos lembra a diferença entre aqueles que se chamam Igreja e aqueles que o são: “Que a graça do nosso Senhor e Salvador seja com toda a Igreja “que sinceramente ama o Senhor Jesus”, agora e para todo o sempre, amém”. Para ele há na igreja aqueles que são de fato Igreja -- amam sinceramente a Cristo -- e aqueles que frequentam cultos, reuniões e púlpitos. Escutei a mesma verdade da boca de um indígena crente em Cristo, da etnia Ixkariana do Amazonas quando afirmou que “ser cristão é conhecer a Jesus, amá-lo, viver como ele e falar dele”.

Como muitos outros, fui criado em um lar evangélico e nasci ouvindo hinos cristãos clássicos. Um deles dizia: “Nas lutas e nas provas a Igreja segue caminhando...” e, após as estrofes que falam da luta contra o pecado, o diabo e o mundo, o hino encerra como atestando o inimaginável: “a Igreja sempre caminhando”.

Nos encontros evangélicos internacionais o Brasil é sempre citado, e quase sempre de forma emblemática e entre frases estereotipadas. Alguns afirmam o grande avivamento que por aqui ocorre, a semelhança de outros poucos países do mundo onde o número de evangélicos cresce tão rapidamente. Outros denunciam as teologias oportunistas e exploratórias que são usadas em nosso meio para falsificar a presença e a atuação de Cristo. Não raramente alguém me pergunta, como brasileiro, o que acho. A resposta sai quase de forma automática: somos tudo isso e muito mais. Em meio a este emaranhado de iniciativas, das mais sinceras às mais questionáveis, cria-se um ambiente fluido e confuso para nós. Porém, devemos lembrar que o Senhor não vê como vê o homem. Aquele que separa o joio do trigo conhece a sua Igreja, a ama e a sustenta.

Proponho um exercício espiritual enquanto caminhamos.

- Preocupar-nos um pouco menos com as loucuras feitas em nome de Cristo e um pouco mais com o nosso próprio coração, para que não venhamos a ser desqualificados.

- Olharmos mais para os desejos do Senhor sabendo que, para isto, precisaremos quase sempre estar na contramão do mundo.

- Observarmos a beleza da presença transformadora de Cristo em sua Igreja e tantos motivos de alegria, em tantas vidas verdadeiramente transformadas, e não somente os fartos motivos de agonia e indignação.

- Para cada palavra de crítica à Igreja -- autocrítica, se assim quiser -- termos uma palavra ou duas de encorajamento, para nosso irmão ao lado e para nosso próprio coração.

- Ouvirmos com zelo e temor os profetas que nos denunciam o erro, bem como os pastores que nos encorajam a caminhar.

- Não perdermos de vista Jesus Cristo, Cordeiro de Deus e vivo entre nós, para que a tristeza advinda da Igreja não nos impeça de experimentar a alegria do Senhor.

Louvado seja o Senhor Jesus Cristo por ser ele, com sua autoridade e amor, e não nós, em nossa fraqueza e desamor, que faz com que a Igreja -- que a ele pertence -- siga caminhando.


• Ronaldo Lidório é missionário presbiteriano ligado à APMT e à Missão AMEM, entre os indígenas da Amazônia.
Fonte: [ Ultimato ]
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quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Verdadeiro Prazer na Adoração - Por John Owen



Muitas pessoas gostam de frequentar cultos de adoração a Deus. Contudo, esse gosto, em si, não é necessariamente um sinal de verdadeira espiritualidade. Temos que perguntar o que é que causa esse gosto. Então descobriremos a diferença entre uma verdadeira mudança espiritual e a mera renovação moral do caráter.

Algumas pessoas podem sentir-se grandemente atraídas pela realização exterior do culto  pregação eloquente, música agradável, cerimônia solene (Ezequie1 33:31,32; João 5:35). É certo que é preciso que haja zelo e ordem no culto que realizamos, mas a pessoa que pensa espiritualmente não está interessada só nessas coisas. Na verdade, essa pessoa tem consciência do perigo de que essas coisas sejam uma distração que nos afasta do culto real. Dois homens podem gostar do mesmo jardim: um, por causa do seu colorido e do seu aroma; o outro, por conhecer de perto a natureza e os benefícios do uso das flores e das ervas. A mentalidade espiritual é como este último.

A satisfação derivada de um culto religioso pode provir do sentimento de dever cumprido. Algum conforto pode ser auferido da ideia de que talvez a frequência aos cultos possa diminuir a culpa por pecados cometidos e conhecidos.

Até crentes se portam de maneiras espirituais por reconhecê-las como deveres, porém há diferença entre cumprir um dever para obter algum conforto, e fazê-lo porque com isso se pode conhecer melhor a Deus.

A razão pela qual alguns podem auferir algum conforto da frequência aos cultos, embora não tenham mentalidade espiritual, é que eles acreditam que com isso conseguem crédito perante Deus (Romanos 10:3). Sua ideia de justiça é de algo que eles próprios constroem. A pessoa sente certo prazer resultante de aparentemente contribuir dessa maneira para o seu próprio crédito.

Outros podem auferir prazer do seu comportamento religioso simplesmente porque secretamente gostam de ser considerados tipos melhores de pessoas. Pode ser que alguns se orgulhem de serem considerados devotos. Isso pode ser especialmente verdadeiro em todo sistema religioso no qual, na competição entre uns e outros, é pela boa reputação que consegue progresso espiritual.

Finalmente, eu penso que devo insistir em que, no caso de alguns, o prazer pelas observâncias religiosas surge de ideias supersticiosas que podem afetar o pensamento em todas as religiões  tanto falsas como verdadeiras. As pessoas podem usar a religião como uma espécie de seguro contra a possibilidade de lhes sobrevir alguma desgraça, se a negligenciarem. Quase não preciso dizer que nenhuma pessoa que pensa espiritualmente busca conforto do culto por essa razão.

O ponto que eu quero defender é que é possível a pessoa sentir-se bem com um comportamento religioso por razões erradas. Grande parte dos cultos que se realizam no mundo é inaceitável para Deus. Em seguida, vou querer examinaras razões pelas quais a pessoa que pensa espiritualmente tem prazer no culto.

As pessoas que têm mentalidade espiritual encontram tanto gozo em todos os aspectos da adoração a Deus que não querem ficar sem ela. É por isso que tem havido tantos mártires  eles preferiam morrer a parar de adorar. Muitas vezes Davi expressou a saudade que as pessoas que pensam espiritualmente experimentam quando lhes é negada a oportunidade de adorar (Salmos 42: 1-4; 63:1-5; 84: 1-4). Além disso, o amor que Jesus Cristo tinha pelas atividades de adoração não é posto em dúvida (João 2: 17).

De que maneiras os que pensam espiritualmente auferem seu prazer da participação nos deveres do culto religioso? Como é que essas maneiras diferem das experiências do incrédulo, que também pode encontrar alguns benefícios no culto? Quero sugerir diversas áreas nas quais há diferenças significativas entre estas duas classes de pessoas.

Aquelas em cuja vida ocorreu uma verdadeira mudança espiritual têm prazer nas atividades de adoração porque vêem que a sua fé, o seu amor e o seu gozo em Deus são estimulados por meio delas. Tais pessoas não realizam meras formalidades. Simplesmente praticar alguma ação na presença de Deus não tem valor em si (Isaías 1: 11; Jeremias 7:22,23). Tudo o que Deus nos manda fazer não é simplesmente para que o façamos, mas porque fazê-lo é o meio de avivar o amor, a confiança, o prazer e o temor a Deus. É isso que a mentalidade espiritual experimenta. Para os que a têm, a adoração é o meio de incitar maior amor a Deus.

As pessoas que não têm experiência de renovação espiritual nada mais podem fazer do que realizar formalidades. A tragédia é que esse comportamento insulta o próprio Deus que elas pensam agradar, pois Ele odeia a formalidade vazia. Mas não há nada mais que tais pessoas possam fazer. A força da sua própria incredulidade indica que não há nada senão formalidade em sua adoração (I saías 29:13,14).

Para evitarem essa atuação vazia na adoração, os crentes verdadeiros se preparam para auferir o maior benefício de tais ocasiões. Eles sabem que a fé é o único meio de se aproximarem de Deus; que o amor é o único meio de Lhe obedecerem; que a reverência e o prazer espiritual são os únicos meios de viverem junto dEle. Os que se beneficiam da adoração vêm prestá-la esperando fazer uso de todas estas atividades da alma. Vir ao culto sem saber por quê, sem cuidar como adorar, não é só deixar de beneficiar-se da experiência, mas, de fato, é distanciar-se ainda mais de Deus.

Jamais vi prosperar espiritualmente um crente que negligenciasse a adoração pública. Portanto, seria bom pensar um pouco mais na natureza da verdadeira adoração. O propósito de Deus ao chamar-nos para a adoração é que a nossa fé e o nosso amor sejam alimentados. Isso não acontece automaticamente. Precisamos preparar-nos antes de vir ao culto. Também precisamos usar nossas mentes e nossos corações enquanto adoramos (Eclesiastes 5:1,2). Facilmente podemos distrair-nos muito e preocupar-nos mais com a forma exterior do que com o verdadeiro sentido e poder. Precisamos certificar-nos de que os nossos cultos de adoração contenham só aquelas coisas que Deus pede em Sua Palavra. Qualquer prazer que se possa auferir de cerimônias religiosas não claramente requeridas de nós, não provém de fé, e sim de fantasia!

Admito que pode haver mais prazer no ministério de alguns oficiantes do culto do que de outros. Isso não se deve tanto a diferenças de educação ou de maneiras entre eles, e sim da adequação dos dons espirituais de uns às nossas necessidades melhor que a de outros. Mas essas diferenças do efeito do culto sobre nós de quando em quando não alteram o fato de que a verdadeira adoração está em que ela desperta e revigora a fé e o amor dos que foram renovados espiritualmente. Para todos os outros o único prazer possível na adoração é o prazer de apreciar aexcelência de alguma habilidade puramente humana.

Uma segunda razão para haver prazer na adoração, prazer experimentado pelos que foram renovados espiritualmente, é que as atividades do culto (pregação, oração, louvor, comunhão, etc.) são meios pelos quais os crentes experimentam realmente a presença de Deus. Nós nos aproximamos de Deus na expectativa de que a fé e o amor sejam estimulados; porém quando a expectação se cumpre, o prazer aumenta.

Por meio da adoração a alma renovada espiritualmente recebe certeza do amor de Cristo. É isso que o Espírito Santo faz por nós (Romanos 5 :5), e Ele o faz por meio das atividades do culto.

Na adoração o crente renascido ouve Cristo bater à porta do coração (João 14:23; Apocalipse 3:20). A adoração é o jardim onde Cristo vem encontrar-se com aqueles que Ele ama (Cantares de Salomão 7: 12). As lembranças de outrora, do tempo em que a alma teve esta experiência recebida de Cristo, aumentarão o prazer experimentado em todas as ocasiões subseqüentes.

Vir ao culto cheio de outros pensamentos, ou ignorando quais pensamentos deveríamos ter, será dar surgimento à mornidão, à frieza e à indiferença. Devemos sobressaltar-nos ao encontrarmos esses sinais de decadência em nossos corações.

Finalmente, os que foram renovados espiritualmente podem ter prazer na adoração porque sabem que esse é o meio de glorificar a Deus, sendo esse o principal propósito do culto. Jesus deixou isso claro na oração modelo que ensinou aos Seus discípulos para que dela fizessem uso (Mateus 6:9-l3). Essa oração está cheia do desejo de que a glória de Deus seja manifestada na terra. A nossa segurança e a nossa prosperidade espiritual como crentes depende de ser atendida essa oração. O nosso amor a Deus é que nos motiva a anelar que a Sua glória seja vista. Por isso os crentes se deleitam em fazer qualquer coisa que manifeste essa glória.

Quem não vier ao culto com esse desejo não obterá dessa ocasião nenhum prazer, senão o pobre prazer de supor que o seu culto o glorificará aos olhos de Deus — o que, como já vimos, não acontece.

Extraído do livro Pensando Espiritualmente, John Owen, Editora PES, pp. 65-72 (Recomendamos a leitura deste livro)