sábado, 6 de junho de 2015

A necessidade da Palavra Escrita - Por Wilhelmus à Brakel




Após Deus ter alargado Sua Igreja a fim de incluir Abraão e sua semente, na qual ela estava em um primeiro momento limitada até o tempo de Cristo, agradou-Lhe dar à Sua Igreja uma regra inamovível e sempiterna para a vida e doutrina, submetendo Sua vontade em forma escrita para ela. Isso não significa que, da perspectiva de Deus, tal ato era necessário, pois, mediante Sua onipotência, Ele poderia ter revelado o caminho da salvação para Sua Igreja sem a Palavra escrita e preservado a verdade no meio do Seu povo. Contudo, da perspectiva do homem, havia sim essa necessidade, para que a verdade fosse efetivamente preservada da impiedade do homem, cujo coração está inclinado para a superstição e para religião carnal, carregando dentro de si a semente de numerosas heresias.

A doação da Palavra Escrita foi também necessária para proteger a Igreja contra os ardis do diabo, já que seu objetivo é sempre utilizar a fumaça negra da heresia para manchar a verdade, sabedor de que, sem o conhecimento da verdade, não pode haver verdadeira piedade. Por fim, essa doação da parte de Deus também foi necessária para que o Evangelho pudesse vir de uma maneira mais eficiente para cada membro individual da Igreja; para que pudesse ser transmitida pelo pai aos seus filhos; e para que pudesse ser distribuída entre as nações ainda mais rapidamente. Foi necessário a Judas escrever Judas 3: “Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A Palavra escrita é uma luz para nossos caminhos (Sl 119:105). Se eles não falam de acordo com a lei e o testemunho, “é porque não há luz neles” (Is 8:20). Portanto, a existência da Palavra escrita é uma necessidade.

O Catolicismo Romano, a fim de salvaguardar suas tradições e lendas supersticiosas de modo mais eficiente, contradiz a necessidade da Escritura, apresentando os seguintes argumentos:

Argumento #1: Houve determinadas igrejas que existiram sem a Palavra escrita, sendo este o caso quando os Apóstolos inicialmente proclamaram o Evangelho entre os pagãos e estabeleceram igrejas entre eles.

Resposta: Esse foi o caso apenas por um curto período de tempo. Mesmo que não estivessem de posse imediata da Palavra escrita, eles tinham a palavra dos Apóstolos que eram infalivelmente movidos pelo Espírito de Deus. Contudo, num sentido geral, a Igreja possuía a Palavra de Deus em sua possessão, já que uma congregação particular a compartilhava com outra congregação (Cl 4:16). Os judeus que se encontravam dispersos entre os pagãos possuíam a Palavra escrita e, como sabeis, em vários lugares foram geralmente os primeiros a crer.

Argumento #2: Para o iletrado, é como se a Palavra escrita não existisse na forma escrita.

Resposta: Eles (os iletrados) ouvem a Palavra lida, bem como a citação de passagens das Escrituras por parte do ministro, e, assim, a fé deles está fundamentada sobre a Palavra escrita, da mesma forma que aqueles que são capazes de ler.

Argumento #3: O povo do Senhor é ensinado pelo próprio Senhor e, portanto, não necessitam de outra instrução (cf. Is 54:13; Jr 31:34; 1 Jo 2:27).

Resposta: (1) Pode-se igualmente argumentar que a Igreja certamente não tem necessidade de suas tradições, e, desse modo, elas devem ser necessariamente descartadas. (2) Quando Deus instrui Seu povo mediante Sua Palavra, eles estão sendo instruídos por Ele. (3) Uma coisa não exclui a outra, quando Deus concede Seu Santo Espírito através de Sua Palavra (At 10:44). A Bíblia compreende essa Palavra escrita e consiste de sessenta e seis livros, dos quais 39 foram escritos anteriormente ao nascimento de Cristo e são, pois, referidos como o Antigo Testamento (2 Co 3:14). Começa pelo primeiro livro de Moisés, geralmente chamado de Gênesis, e conclui com Malaquias. Esses livros são divididos em várias maneiras, tais como: “Moisés e os Profetas” (Lc 24:44); “Moisés, os Profetas e os Salmos” (Lc 24:44). Geralmente são divididos do seguinte modo:
1) os livros da Lei, a saber, os cinco livros de Moisés;
2) os livros históricos, de Josué a Ester, incluindo este;
3) os livros poéticos de Jó a Cantares de Salomão;
4) os profetas, consistindo dos quatro profetas maiores (de Isaías a Daniel), e os doze profetas menores, de Oséias a Malaquias.

    O Novo Testamento abrange aquelas Sagradas Escrituras que foram escritas depois do tempo de Cristo, começando com Mateus e concluindo com o Apocalipse. Elas são divididas desta forma:
    1) Os livros históricos, a saber, os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos;
    2) Os livros doutrinários, começando pela Epístola aos Romanos até à Epístola de Judas.
    3) Um livro profético, o Apocalipse de João.

      Os Apócrifos, isto é, os livros “ocultados” – não sendo lidos nas igrejas nem reconhecidos como divinamente inspirados – não pertencem à Bíblia. São escritos de origem humana dos quais há muitos hoje em dia. Foram compostos antes do tempo de Cristo, não pela mão de um profeta nem mesmo em língua hebraica, mas em grego. Não foram dados à Igreja, nem os judeus, a quem os oráculos de Deus foram confiados (Rm 3:2), os aceitam. Tais livros contêm vários erros e afirmações heréticas que contradizem os livros canônicos. Para informações mais abrangentes, é possível consultar o excelente prefácio aos livros apócrifos dos tradutores holandeses daStatenbijbel [1]. Esse prefácio confunde satisfatoriamente o Catolicismo Romano, que nos últimos tempos deseja considerar tais livros como canônicos. Uma vez que as Sagradas Escrituras são a única regra para doutrina e vida, o diabo tem como intenção ruir ou obscurecer esse fundamento com o máximo de sua habilidade mediante os instrumentos à sua disposição. Consequentemente, devemos nos comprometer a defender as Sagradas Escrituras, e para tal propósito é necessário considerar:

      1) Sua origem, tanto no tocante às causas primárias quanto às secundárias;
      2) Seus conteúdos;
      3) Suas formas;
      4) Seus propósitos;
      5) Os temas aos quais se dedicam;
      6) E sua qualidade benéfica.

      Ao considerar cada um desses elementos, devemos lidar com questões controversas que podem surgir contra as Escrituras.

      __________
      Nota:
      [1] Statenbijbel (“Bíblia do Estado”, em holândes) é a primeira tradução da Bíblia para a língua holandesa, partindo do grego, aramaico e hebraico originais. Essa tradução, publicada em 1637, foi solicitada pelo governo da República Holandesa, então protestante. 
      ***
      Fonte: The Christian’s Reasonable Service, de Wilhelmus à Brakel. Traduzida por Bartel Elshout. Editada por Joel Beek
      Tradução: Fabrício Moraes
      Divulgação: Bereianos

      sexta-feira, 5 de junho de 2015

      Mateus 11:20-24 ensina o Molinismo (Conhecimento Médio)?




      Ao teólogo Jesuíta Luis de Molina é, geralmente, atribuído a posição e origem do Molinismo, embora Fonseca e Lessius compartilhem das mesmas ideias. Eles usam textos tais como Mateus 11 para mostrar que Deus tem “Conhecimento Médio”. Em nossos dias, William Lane Craig afirma o mesmo, e a [denominação] The Baptist Faith and Message parece resumir o Molinismo: “O perfeito conhecimento [de Deus] se estende a todas as coisas, passadas, presentes e futuras, incluindo as decisões futuras de suas criaturas livres” (Artigo 2).

      O Molinismo, em poucas palavras, declara que Deus tem três tipos de conhecimento: natural, médio e livre.

      1) Conhecimento Natural é o conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis (tudo que diz respeito ao que é necessário e possível no entendimento de Deus).

      2) Conhecimento Livre é o conhecimento de Deus deste mundo atual. Por um “ato livre”, ele é capaz de conhecer o que ele conhece absolutamente (Até agora estamos bem, mas Molina diz que esse conhecimento (livre) não é alguma coisa que seja essencial em Deus).

      3) O Conhecimento Médio declara que Deus não pode conhecer os atos livres futuros dos homens da mesma maneira que ele conhece outras coisas absolutamente.

      Assim, de acordo com Molina, este Conhecimento Médio é dependente dos atos livres que os homens farão. Portanto Deus, em sua onisciência, espera pelo atos dos homens e, então, escolhe salvá-los com base em suas escolhas de serem salvos.

      Agora, voltemos ao texto da questão (que está entre outros textos-provas de Êxodo 13.17; 1 Samuel 23.8-14; Jeremias 23.21, 22; 1 Coríntios 2.8).
      Mateus 11.20-24: Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti.

      Primeiro, o Conhecimento Médio é uma não-realidade. O conhecimento de Cristo é simplesmente natural (conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis), não médio.

      Segundo, Mateus 11 apenas prova o conhecimento de Deus de contrafactuais, não conhecimento médio. Como Travis Campbell, em Conhecimento Médio: Uma Crítica Reformada, declara:

      Na melhor das hipóteses, as passagens frequentemente usadas pelos defensores do conhecimento médio provam, se provam alguma coisa, apenas “que Deus, conhecendo todas as causas, tanto as livres como as necessárias, sabe o que qualquer criatura fará em quaisquer condições. Mesmo nós sabemos que se pusermos fogo à pólvora, seguir-se-á uma explosão.” (A.A. Hodge, Outlines of Theology [Carlisle, Pa.: Banner of Truth, 1972], 148). Em outras palavras, essas passagens bíblicas nos mostram apenas que Deus conhece a natureza dos agentes livres tão bem que, fossem os agentes colocados em outras circunstâncias, Deus sabia exatamente que eles fariam. E isso não reconcilia conhecimento médio com libertarianismo, mas com compatibilismo. Mais importante ainda, é certamente possível que Deus conhece esta informação logicamente apenas posterior ao decreto divino, eliminando assim a necessidade do conhecimento médio. Portanto, há pouca, se há alguma, garantia bíblica para scientia media.

      Bastante interessante, Craig admite este ponto, dizendo:
      Desde que a Escritura não reflete sobre esse assunto, quase nenhum texto-prova pode provar que o conhecimento de Deus de contrafactuais é obtido logicamente antes de seu decreto divino. Isto é assunto para reflexão da teologia filosófica, não para exegese bíblica. Então, embora seja claramente anti-bíblico negar que Deus tenha conhecimento simples e mesmo conhecimento de contrafactuais, aqueles que negam o conhecimento médio não pode ser acusado de ser anti-bíblico (Craig, "Middle Knowledge View," 125.)

      Terceiro, os defensores do Conhecimento Médio não podem deixar de fora, como Paul Harvey diria, “o resto da história”.
      Mateus 11.25-27: Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

      O Conhecimento Médio aqui é condenado. Quando Jesus diz, “Pai, Senhor do céu e da terra”, ele está dizendo que Deus em sua soberania tinha, em seu agrado, ocultado conhecimento de alguns e revelado esse mesmo conhecimento a outros. Mateus 11 não fala sobre Deus não conhecendo qualquer coisa até que o homem fizesse alguma coisa. Pelo contrário, já as conhece e apenas não quer revelá-las até/se ele desejar. Mateus capítulo 11 está ensinando sobre o justo julgamento porvir (Mt 11.15-19). Observe que isso não aconteceu ainda, mas  Cristo sabe que irá acontecer. Isto não é conhecimento médio, mas conhecimento natural e conhecimento livre para justamente agir como Deus vê e prepara segundo sua vontade.

      Deus é soberano sobre todas as coisas (Prov. 16:33; Mat. 10:29; Rom. 11:36; Ef. 1:11 etc.), até mesmo sobre as decisões humanas (Prov. 20:24; 21:1). Embora Deus não tente ninguém ao pecado (Tiago 1:13), Ele ainda está agindo em todas as coisas, de indivíduos à nações, para o fim que Ele tem desejado (Is. 46:10-11). O propósito de Deus não depende do homem (At 17:24-26), nem Deus descobre ou aprende (1 Jo 3:20; Jó 34:21-22; Sal. 50:11; Prov. 15:3). Todas as coisas são decretadas pelo conselho infinitamente sábio de Deus (Rom. 11:33-36).

      Confissão de Fé de Westminster substancia a posição ortodoxa no Capítulo III. 1 – 3, Dos Decretos de Deus:

      I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.
      Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34.
      II. Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.
      At. 15:18; Prov.16:33; I Sam. 23:11-12; Mat. 11:21-23; Rom. 9:11-18.
      III. Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna.
      I Tim.5:21; Mar. 5:38; Jud. 6; Mat. 25:31, 41; Prov. 16:4; Rom. 9:22-23; Ef. 1:5-6.

      ***
      Sobre o autor: Dr. Joseph R. Nally, D.D., M.Div. é editor teológico no Third Millennium Ministries (IIIM).

      Fonte: Third Millennium Ministries
      Tradução: Rev. Gaspar de Souza

      quarta-feira, 3 de junho de 2015

      A manifestação da verdadeira fé - Por Pr. J Miranda


      Queridos irmãos, é bom iniciarmos uma semana falando do manifesto da fé. A manifestação da verdadeira fé é um comprometimento que nenhuma influência consegue abalar. Sem dúvida você ama sua família, seus filhos, seus pais, seu esposo ou sua esposa. Mas se você é discípulo verdadeiro, o compromisso com a salvação encontrada unicamente em Cristo é tão profundo, tão intenso e tem um alcance tal que, se for necessário, dirá nãoàqueles a quem ama por causa da obra que Cristo lhe confiou. É bem verdade que Deus em Cristo Jesus poderia chamar outro para ocupar o seu serviço, porém, ele lhe escolheu.

      John Bunyan conheceu esse sofrimento de maneira muito especial. As autoridades disseram-lhe que parasse de pregar, mas ele respondeu: "Não posso parar de pregar porque Deus me chamou para isso". A resposta foi: "Se o senhor pregar, nós o colocaremos na prisão".
      Então ele pensou consigo mesmo: "Se eu for para a prisão, quem cuidará da minha família? Ao mesmo tempo, como posso fechar a minha boca quando Deus me chamou para este ofício?".

      Bunyan foi suficientemente forte, corajoso e fiel para entregar sua família aos cuidados de Deus e permaneceu fiel e obediente ao chamado para pregar, e eles o colocaram na prisão. Bunyan cumpriu com o primeiro mandamento, amando a Deus mais que sua família: "Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”. (Êx 20:1-2) Amados, foi na prisão que ele escreveu sua magnífica alegoria, O Peregrino, que tem abençoado tantos milhões de famílias ao longo dos séculos com seu ensino sobre o caminho da salvação. Sem ele, sua família sofreu, mas Deus cuidou dela. E mediante esse sofrimento, Deus realizou obras maravilhosas na vida de incontáveis pessoas. Por isso amados, orai ao Senhor da seara e pedi que Ele mande pastores como John Bunyan, que incentive a sua igreja a amar a obra do Senhor mais que a própria família.

      terça-feira, 2 de junho de 2015

      Deus o sabe; Deus o faz – Lloyd-Jones



      Não podemos fazer melhor que recordar a nós mesmos . . . a fé que moveu o povo de Deus através dos séculos. Essa é a fé e o ensino que se pode achar, por exemplo, nos hinos de Philip Doddridge. E típico este seu grandioso hino:

      Deus de Betel,
      por cuja mão ainda sustento dás;
      nesta árdua peregrinação
      levaste nossos pais.

      Essa é a sua forte argumentação, com base última na soberania de Deus, que Deus é o Governador do universo, que Ele nos conhece um por um, e que mantemos relacionamento pessoal com Ele. Esta foi a crença de todos os heróis da fé, descritos em Hebreus 11. Isso foi o que fez com que aquela gente prosseguisse. Com bastante freqüência eles não compreendiam (o que ocorria), mas diziam: «Deus o sabe. e Deus cuida disso». Possuíam esta confiança final em que Aquele que os trouxera à existência, e que tinha um propósito para eles. não os deixaria nem os desampararia. Ele certamente os sustentaria e os guiaria ao longo da jornada inteira, até que se completasse o propósito deles neste mundo e Ele os recebesse em Sua morada celestial, onde passariam a eternidade em Sua presença gloriosa. «Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir.

      Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?» Proceda a argumentação, parte dos primeiros princípios e faça a dedução inevitável. Assim que você fizer isso, os cuidados, as aflições e a ansiedade se desvanecerão, e, como filho do nosso Pai celeste, você caminhará com serenidade e paz, rumo ao lar eterno.

      Studies in the Sermon on the Mount, ii, p. 11

      segunda-feira, 1 de junho de 2015

      Podemos repreender Satanás e os demônios?




      A prática de repreender Satanás em nome de Jesus, bem como os seus demônios que causam ou são os demônios da doença, da miséria, da prostituição, do adultério e dos vícios em geral [que são obras da carne, e não espíritos malignos Gl 5.19-21], determinando que eles vão embora da vida da pessoa vitimada por eles, é vista exclusivamente no meio evangélico pentecostal e neopentecostal. Muitas destas denominações religiosas, com algumas poucas exceções por parte dos pentecostais tradicionais da primeira fase do pentecostalismo que conservaram suas doutrinas iniciais, são aderentes do movimento de batalha espiritual, difundido mundialmente a partir da década de 1960.

      Origem do conceito de repreender demônios

      O movimento herético animista de batalha espiritual alcançou grande popularidade mediante dois romances escritos por um novelista – Frank Perretti, chamados Este Mundo Tenebroso (vols. 1 e 2), os quais relatam o renhido confronto espiritual de um grupo de cristãos contra espíritos malignos territoriais que tentavam estabelecer domínio em pequenas cidades nos Estados Unidos. Todavia, o conceito de batalha espiritual [especificamente o da quarta linha, caracterizada pela terceira fase do Espírito] envolvendo a luta com demônios, ministério de libertação, quebra de maldições e mapeamento espiritual ganhou destaque, tendo maior popularidade no Brasil, através do seu maior precursor, o teólogo Peter Wagner, que escreveu muitos artigos e livros sobre o tema. 
           
      Não obstante, algumas das principais “doutrinas” do movimento de batalha espiritual já era praticada no início do século 20. “Nas três primeiras décadas, o missionário inglês James O. Fraser, trabalhando em meio ao povo Lisu, na China, um povo envolvido com magia negra, espiritismo e animismo, utilizou estratégias como dar ordens em voz alta a Satanás e seus demônios para quebrar o domínio desses espíritos sobre os Lisu. Partindo de sua experiência no campo missionário Fraser desenvolveu na base da “tentativa e erro”, alguns métodos para combater, pela oração, a influência dos espíritos malignos que atormentavam esse povo tribal. O que convenceu Fraser de que estava no caminho certo foi que esse método “funcionava”.¹ Apesar de existir 4 linhas dentro do movimento de batalha espiritual que diferem umas das outras [os carismáticos, dispensacionalistas, batalha espiritual moderada e batalha espiritual popular da terceira fase do Espírito], contudo, todas elas são unânimes nos pontos básicos de suas “doutrinas”.  

      Jesus e as repreensões a demônios

      Geralmente, o argumento popular utilizado pelos aderentes do movimento da batalha para repreender os demônios que causam os mais variados tipos de males na vida das pessoas que são atacadas por eles, é que o próprio Jesus, o Deus filho encarnado, repreendeu os demônios, pois ele veio a este mundo para desfazer as obras do diabo (1Jo 3.8).

      Indubitavelmente, Jesus repreendeu os demônios algumas vezes em seu ministério terreno. Se estudarmos no Novo Testamento o verbo grego repreender (έπιπιμάω - epitimaõ), especificamente nos Evangelhos, iremos perceber que ele é aplicado no contexto das repreensões aos demônios somente a Jesus (no caso de repreensões aos discípulos, veja Mc 8.33; Lc 9.55; 19.39; para outros tipos de repreensões veja Mt 16.22; 19.13; 20.31; Mc 8.32; 10.13, 48; Lc 17.3; 18.15, 39; 23.40). Ele repreendeu um tipo de doença apenas uma vez, quando curou a sogra de Pedro de uma febre altíssima (Lc 4.39). Repreendeu a tempestade [o vento e o mar], que imediatamente cessou (Mt 8.26; Mc 4.39). Repreendeu os demônios para que não se revelasse aos outros quem ele era – o Filho de Deus (Mt 12.16; Mc 3.12) e, em outras circunstâncias, nos exorcismos para que ficassem calados e saíssem da vida de suas vítimas (Mt 17.18; Mc 1.25; 9.2). No livro de Atos, por sua vez, e nas cartas de Paulo, Pedro, João, Judas e Hebreus não encontramos qualquer um dos apóstolos usando o termo repreender ou ensinando a prática do mesmo. Embora vemos descrito no livro de Atos o ríspido confronto de Paulo com o falso profeta Barjesus ou Elimas, todavia, ainda assim, ele não disse: “Eu te repreendo” (At 13.4-12), conforme vemos muitos pastores e cristãos pentecostais e neopentecostais repreendendo nos cultos de libertação e no dia a dia quando se deparam com alguma situação que, no entendimento deles, seja de origem demoníaca.

      Análise teológica do termo repreender

      O motivo pelo qual não podemos estender o ato de repreender aos cristãos para cercear a ação dos demônios é em virtude da falta de evidências explícitas nas Escrituras para esta prática e porque repreender os demônios é uma prerrogativa exclusiva de Cristo, apenas, pois foi Jesus quem venceu Satanás e os demônios e os expôs publicamente a derrota triunfando sobre eles na cruz pela sua morte e ressurreição (Cl 2.15). O termo repreender neste contexto tem a ver com a obra redentora de Cristo Jesus em derrotar Satanás na cruz. É por isso que não encontramos nenhum apóstolo repreendendo Satanás e os demônios, mas, sim, utilizando outros termos para realizar exorcismos, como ordenar (At 16.18) e expelir os demônios (MT 10.1; Mc 6.7; Lc 9.1), os quais diferem do significado do termo repreender usado no contexto da obra de redentora de Jesus em vencer Satanás.  

      Jesus é Deus e Senhor sobre toda sua criação. Se os cristãos usam Jesus como modelo e quem lhes deu autoridade para repreender demônios e doenças, via de regra eles deveriam também repreender tempestades, furacões e tsunamis, uma vez que possuem autoridade e que Jesus, conforme vimos anteriormente, também repreendeu a fúria destes elementos naturais. Contudo, pelo o que sei ninguém até hoje na história foi capaz de fazer isso, nem mesmo os apóstolos; somente Jesus.

      Por outro lado, muitos cristãos podem tentar refutar esta posição recorrendo ao Evangelho de Marcus 16. 17, onde o próprio Jesus diz, segundo os cristãos pentecostais e neopentecostais:

      E estes sinais acompanharão os que creem: em meu nome [no nome de Jesus] expulsarão demônios” [ou seja, é o famoso chavão: “Em nome de Jesus, eu te repreendo demônio”, nota do autor]. (Almeida Século 21)

      Embora possa ser interpretado como uma referência aos apóstolos, é importante destacar que, tendo em vista os problemas textuais que levantam dúvidas quanto a sua autenticidade, os versículos 9-20 do capítulo 16 do Evangelho de Marcus não constam em alguns manuscritos antigos. Existem também finais diferentes para este trecho do Evangelho de Marcus em outros manuscritos. Portanto, devemos ser cautelosos antes de lançar mão desta passagem como prova irrefutável de que os cristãos podem repreender os demônios, uma vez que foram os apóstolos que receberam autoridade do próprio Jesus para tal prédica.

      O exemplo de Miguel com o Diabo

      Em Judas 9 é relatado que o arcanjo Miguel, discutindo e disputando com o diabo sobre o corpo de Moisés, não foi ousado em pronunciar contra ele injúrias, e nem disse Eu te repreendo em nome de Jesus ou, tampouco, eu te repreendo, apenas. Pelo contrário, Miguel disse: “O Senhor te repreenda”!

      O arcanjo Miguel é o mais poderoso dos anjos de Deus. Ele é o chefe do exército dos anjos de Deus. Ele é um ser sem pecado e mais poderoso que os seres humanos e está na presença de Deus. Na ocasião em que se deparou em um confronto com o diabo acerca do corpo de Moisés [é bem provável que Satanás queria roubar o corpo de Moisés para incitar Israel a idolatria], o arcanjo Miguel não se atreveu a proferir palavras infames contra ele como muitos cristãos fazem hoje por falta de conhecimento, tais como: “Você não vale nada, seu desgraçado”! Você é um leão sem dentes! Você é um cabeça rachada [chavão popular no meio pentecostal e neopentecostal, nota do autor] etc. Antes, Miguel entendia que somente Cristo Jesus e Deus Pai podem repreender Satanás, e se limitou apenas em dizer: O Senhor te repreenda (veja outro exemplo em Zc 3.1-2)!  
              
      Conclusão

      Portanto, de acordo com as Escrituras, entendemos que:

      (1) Existe a batalha espiritual, porém, a batalha espiritual bíblica, que é diametralmente oposta do que enfatiza a batalha espiritual do movimento herético e místico difundido pelo seu maior percussor – Peter Wagner.

      (2) Não foi dada autoridade aos cristãos para repreender Satanás e os demônios, entretanto, eles podem realizar o exorcismo em nome de Jesus caso se deparem com alguma pessoa possessa.

      (3) O ato de repreender [no sentido de ter derrotado] Satanás e os demônios e suas atuações é uma obra exclusiva de Jesus que ocorreu no passado, em seu ministério, morte e ressurreição e ainda ocorrerá na sua segunda vinda, quando ele derrotar Satanás e os demônios definitivamente lançando-o no lago de fogo (Ap 21.10). Satanás e os demônios já foram e são derrotados, mas ainda serão derrotados para sempre.

      (4) Ao invés dos cristãos quando forem exorcizar alguém possesso e também orar equivocadamente assim: “Eu te repreendo, Satanás; ou, em nome de Jesus, eu te repreendo desta vida Satanás”, os cristãos podem exorcizar e orar corretamente assim: Senhor Jesus, repreenda Satanás. Repreenda a ação de Satanás da vida desta pessoa libertando-a. Creio ser esta a melhor forma de se orar no caso de exorcismos.  

      Quando se viram ameaçados pelos lideres religiosos em Jerusalém, os cristãos da igreja primitiva em Atos não repreenderam algum demônio que poderia estar por trás da oposição que estavam enfrentando, [o que pode ter acontecido, uma vez que o diabo se opõe aos que evangelizam e ensinam o verdadeiro e puro evangelho de Cristo Jesus], simplesmente eles se voltaram para Deus em oração e pediram para que ele olhasse para as ameaças que receberam para não mais anunciar o evangelho (At 4.29-31).


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      Nota:
      1 Augustus Nicodemus Lopes. O que você precisa saber sobre Batalha Espiritual, pág 29.