quarta-feira, 5 de março de 2014

Soberania divina e a responsabilidade humana - Por Felipe Sabino



Certas discussões reaparecem continuamente no meio cristão. A suposta tensão entre a soberania divina e a responsabilidade humana é uma delas. Ouve-se com frequência que a soberania divina, conforme entendida pela teologia reformada — particularmente na questão da salvação, mas não limitada a ela — retira a responsabilidade humana. “Se Deus é soberano e decretou tudo o que há de acontecer, nos mínimos detalhes, então o homem não é responsável pelos seus atos”, é a conclusão quase sempre proferida.
O embaraçoso é que tal palavreado não é encontrado apenas nos lábios dos arminianos, mas inclusive em lábios calvinistas. A diferença é que, enquanto o arminiano apresenta o argumento como uma refutação ao entendimento calvinista da soberania divina, certos calvinistas afirmam que o dilema é um mistério.
“Já que o homem é responsável, então Deus não é soberano da forma como vocês entendem”, argumenta o arminiano. Por sua vez, o nosso calvinista diz que “Deus de fato é soberano, mas o homem é responsável pelos seus atos”. Até aqui tudo bem. Nada mais bíblico.
Mas o nosso calvinista completaria a sua explicação com algo mais ou menos assim: “Contudo, não sabemos como Deus pode ser soberano e ao mesmo tempo o homem ser responsável pelos seus atos. Isso é um mistério. Mas temos que aceitar essas duas verdades, pois estão claramente ensinadas na Escritura”.
Com certeza não negamos que a Bíblia ensina Deus ser soberano de maneira exaustiva e o homem responsável pelos seus atos. Essas são verdades bíblicas, ensinadas de Gênesis a Apocalipse. O que não entendemos é como essas verdades não podem ser harmonizadas. Em que sentido Deus ser soberano nega o homem ser responsável? Para que isso faça sentido, como muitos teólogos já observaram, é preciso assumir (sem justificativa, muito menos bíblica) a premissa que responsabilidade implica liberdade. Ou seja, a pessoa só pode ser responsável pelos seus atos se for livre.
Assim, a queixa do arminiano seria algo assim: “Mas se Deus é soberano de maneira exaustiva, então o homem não é livre. Como então ele pode ser responsável pelos seus atos, se é necessário ser livre para ser responsável?” Mas como já dissemos, a premissa responsabilidade implica liberdade é alheia às Escrituras. Em nenhum lugar a Bíblia afirma tal coisa. Logo, não existe tensão na questão da soberania divina e a responsabilidade humana.
Visto que muitos livros já foram escritos sobre o assunto, provando que não existe contradição, mistério ou paradoxo entre a doutrina bíblica da soberania divina e responsabilidade humana, contento-me em reafirmar o que já disse: a Bíblia não afirma que o homem precisa ser livre para ser responsável pelos seus atos. O homem é responsável porque Deus o considera responsável. Ele é o Criador e Governador de todo o universo. A Ele todos devem prestar contas de suas ações. Ponto.
O que pretendo provar aqui então? Nada! Apenas chamar a atenção do leitor para uma grande ironia, quase sempre presente nessas discussões sobre “mistérios” na Escritura. Vejamos então:
Dada a verdade da soberania divina, o homem não é livre. Ou seja, ele não é livre em relação a Deus. A mão soberana e poderosa de Deus é quem determina todos os seus passos, pensamentos e situações. É considerando essa falta de liberdade que inúmeros teólogos fazem malabarismos para tentar explicar (ou não explicar) o “mistério”. Nenhuma ironia aqui.
Contudo, há outro sentido no qual o homem não é livre. A Bíblia ensina que após a Queda todo homem nasce em pecado. Ele não somente nasce em pecado, mas nasce escravo do pecado. Ele não é pecador porque peca, mas peca porque é pecador. Tamanha é a escravidão do homem que ele não pode fazer outra coisa senão pecar. Resumindo: o homem não é livre para não pecar. Ele não possui a posse non peccare, que somente o homem Adão possuiu.
Essa é uma verdade que todo crente reformado aceita. É possível encontrar inúmeras explicações dessa doutrina (bem mais elaboradas, é claro) em teólogos reformados de todas as épocas e nações.
Dito isso, eis a minha pergunta: onde está o mistério? Ou melhor, por que ninguém nunca viu um mistério aqui? Eu já li (talvez) milhares de livros e comentários, e NUNCA vi sequer uma menção do paradoxo entre o homem ser escravo do pecado e ao mesmo tempo responsável pelos seus atos. Nenhuma!
Ora, mesmo o homem convertido, regenerado pelo Espírito Santo e salvo por Cristo ainda peca e em certo sentido é “escravo” do pecado. Com certeza ele não é escravo como o incrédulo, mas o é no sentido de que nunca vai deixar de pecar enquanto peregrinar nesta terra. Só Cristo viveu uma vida sem pecado! Seria então o homem convertido alguém não responsável pelos seus atos?
Mas voltemos ao incrédulo. Por que a omissão do mistério entre os teólogos que são tão ávidos em achar mistério na questão da soberania divina e a responsabilidade humana? Seria por medo dos resultados práticos? Imagine a seguinte conversa evangelística:
“Caro amigo, a Bíblia diz que você é um pecador. Não somente isso, mas ela diz que você é escravo do pecado. Você não é livre para não pecar. Se não se arrepender e crer no Evangelho, você será condenado ao inferno. Contudo, eu não sei como Deus vai te considerar responsável pelos seus atos se você não é livre. É um mistério. Não posso explicar, mas cabe a você aceitar as duas verdades.”
Todavia, não creio que a omissão seja por esse motivo. Ela não parece ser deliberada. A minha suposição é a seguinte: não estamos tratando de predestinação, soberania ou decreto. Esses são temas que sofrem preconceitos, mesmo por aqueles que deveriam defendê-los. São resquícios de arminianismo que insistem em permanecer. Esse arminianismo residente faz com que tais pessoas façam uso de dois pesos e duas medidas ao lidar com as diversas doutrinas bíblicas.
Se a resolução de um problema envolver algo sobre predestinação, soberania e decreto, recorramos ao mistério sem hesitação. Caso contrário, não percamos tempo tentando encontrar mistério onde não existe. Sim, sequer mencionemos a tensão.
De um lado, soberania divina e responsabilidade humana. Do outro, escravidão do pecado e responsabilidade humana. Por que lidar de maneira tão diferente com questões que envolvem a relação entre liberdade e responsabilidade humana?
Uma ironia!
Fonte: [ Monergismo ]
.

segunda-feira, 3 de março de 2014

A Onisciência de Deus - Por Gordon Clark




Por Gordon Clark

Não somente o livre arbítrio é incapaz de livrar Deus da culpabilidade, e a permissão é incapaz de coexistir com a onipotência, mas o posicionamento arminiano também não consegue firmar uma posição lógica para o onisciência. Uma ilustração romantista-arminiana é a do observador posicionado num penhasco. Na estrada abaixo, à esquerda do observador, um carro dirige-se para o oeste. À direita do observador, um carro vindo do sul. Ele pode ver e saber que haverá uma colisão no cruzamento logo abaixo dele, mas a sua presciência, segundo reza o argumento, não causa o acidente. Deus, semelhantemente supõe-se, tem conhecimento do futuro sem, entretanto, causá-lo.
Tal semelhança, porém, é enganosa em vários pontos. O observador humano não pode saber realmente se a colisão ocorrerá. Embora seja improvável, é possível que ambos os carros estourem os pneus antes de chegarem ao cruzamento e se desviem. Também é possível que o observador tenha calculado mal as velocidades, e um carro poderia desacelerar e o outro acelerar, de modo a não colidirem. O observador humano, portanto, não tem presciência infalível.Nenhum desses erros pode ser assumido para Deus. O observador humano pode imaginar a possibilidade de ocorrência do acidente, e tal imaginação não torna o acidente inevitável; mas se Deus sabe, não há a possibilidade de evitar o acidente. Cem anos antes que os motoristas nascessem, não havia a possibilidade de evitar. Não haveria a possibilidade de um dos dois decidir e ficar em casa nesse dia, tomar uma rota diferente, dirigir numa velocidade diferente. Eles não poderiam tomar decisões diferentes das que tomaram. Isso significa que eles não tinham livre arbítrio ou que Deus não sabia.
Suponha-se, só por um instante, que a presciência divina, assim como as predições humanas, não cause o evento conhecido de antemão. Ainda assim, se existe a presciência, em contraste com a predição falível, o livre arbítrio é impossível. Se o homem tem livre arbítrio e as coisas podem ser diferentes, Deus não pode ser onisciente. Alguns arminianos têm admitido isso e negado a onisciência, mas isso, obviamente, antagoniza-os com o cristianismo bíblico. Há também outra dificuldade. Se o arminiano ou o romantista pretende preservar a onisciência divina e ao mesmo tempo alegar que a presciência não tem eficácia causal, ele deve explicar como a colisão foi assegurada cem anos antes, na eternidade, antes que os motoristas tivessem nascido. Se Deus não organizou o universo dessa maneira, quem o organizou?
Se Deus não o organizou dessa forma, então deve existir um fator independente no universo. E se houver tal, decorrem uma ou duas consequências. Primeira, a doutrina da criação deve ser abandonada. Uma criação ex nihilo estaria completamente no controle de Deus. Forças independentes não podem ser forças criadas, e forças criadas não podem ser independentes.  Então, segunda, se o universo não é criação de Deus, o conhecimento que Deus tem dele – passado e futuro – não pode depender daquilo que ele pretende fazer, mas da sua observação do modo como funciona. Nesse caso, como teríamos a certeza de que as observações de Deus são acuradas? Como teríamos certeza que essas forças independentes não mostrarão mais tarde uma torcedura insuspeita que falsificará as predições de Deus? E, finalmente, nessa perspectiva, o conhecimento de Deus seria empírico e não parte integral da sua onisciência, e, portanto, ele seria um conhecedor dependente. Podemos crer consistentemente na criação, onipotência, onisciência e nos decretos divinos, mas não podemos permanecer em sanidade e combinar alguma dessas doutrinas com o livre arbítrio.

***Fonte: Deus e o Mal, o problema resolvido, págs 51-53. Editora Monergismo.   
.

domingo, 2 de março de 2014

Pregação Paul Washer - O amor incondiconal de Cristo


sábado, 1 de março de 2014

8 Mulheres com quem um homem cristão não deve casar-se - Por J. Lee Grady



.


Por J. Lee Grady


Na última semana em minha coluna, 10 homens cristãos com quem as mulheres nunca deveriam casar-se se tornou viral. Mais de 1,2 milhão de pessoas compartilharam esta mensagem até agora — mais provavelmente porque tantos homens e mulheres solteiras estão seriamente pedindo diretrizes para encontrar um companheiro compatível.

Em resposta eu recebi inúmeras solicitações para compartilhar diretrizes para homens que estão procurando por esposas. Desde que estou orientando vários homens jovens agora mesmo e tenho visto alguns deles se casarem com sucesso durante os últimos anos, não foi difícil esboçar essa lista. Estas são as mulheres que eu digo aos meus filhos espirituais para evitarem:

1. A descrente. Na última coluna da semana, eu lembrei as mulheres que a Bíblia é absolutamente clara neste ponto: cristãos não deveriam casar com descrentes. 2 Co 6.14 diz: “Não vos prendais a um jugo desigual com os incrédulos; pois que sociedade tem a justiça com a injustiça? ou que comunhão tem a luz com as trevas?” Afora a sua decisão de seguir a Cristo, o casamento é a mais importante decisão que você fará. Você precisa de uma esposa que ame Jesus mais do que ela ame você. Coloque a maturidade espiritual no topo de sua lista de qualidades que você quer em uma esposa.

2. A garota material. Um dos meus jovens amigos ficou noivo de uma garota de uma família rica. Ele economizou dinheiro por meses para comprar um anel, mas quando ele propôs ela disse para ele que ele precisava voltar na joalheria para comprar um diamante maior. Ela incitou seu noivo para se endividar com um anel que servissem às suas expectativas. Ela queria um Tiffany’s lifestyle em seu orçamento da Wal-Mart. Eu adverti meu amigo de que ela estava em sérios apuros. A menos que você queira viver endividado pelo resto da sua vida, não se case com uma garota que tem os sinais do dólar em seus olhos e oito cartões de crédito em sua bolsa da Gucci.

3. A diva. Alguns garotos gostam de impressionar e fingir que são superiores às mulheres. As divas são a versão feminina deste pesadelo. Elas acham que o mundo gira em torno delas, e elas não pensam duas vezes sobre magoar alguém. Suas palavras são ásperas e seu estalar de dedos demandam que são imoderadas. Algumas dessas mulheres poderiam terminar nas posições de liderança na igreja, mas não ser enganadas por sua conversa super espiritual. Líderes reais são humildes. Se vocês não veem humildade cristã nas mulheres que vocês estão namorando, caiam fora delas e continue procurando.

4. A Dalila. Lembra de Sansão? Ele foi ungido por Deus com força super humana, mas ele perdeu seu poder quando uma mulher sedutora descobriu seu segredo e deu ao seu homem o mais famoso corte de cabelo do mundo. Assim como Dalila, uma mulher que não tem submetido sua sexualidade a Deus cegará você com seus charmes, quebrantará seu coração e “cortará” a sua unção. Se a mulher “cristã” que você conheceu na igreja se veste de forma provocante, se diverte com outros garotos, posta comentários sexualmente inapropriados no facebook ou conta para você que ela se sente bem com sexo antes do casamento, saia desse relacionamento antes que ela arme uma cilada para você.

5. A mulher contenciosa. Um jovem me contou recentemente que ele namorou uma garota que tinha sérios ressentimentos em seu coração por causa das dores passadas. “Antes eu proporia, eu contei para minha noiva que ela tinha que tratar isso”, ele explicou. “Teria sido o fim, mas houve um poderoso avanço e agora estamos noivos”. Este garoto percebeu que a amargura não resolvida pode arruinar o casamento. Provérbios 21.9 diz: “Melhor é morar num canto do eirado, do que com a mulher rixosa numa casa ampla.” Se a mulher como quem você está namorando está fervilhando com raiva e falta de perdão, sua vida juntos será arruinada com discussão, portas batendo e drama sem fim. Insista que ela obtenha oração e aconselhamento.

6. A controladora. O casamento é uma parceria, e a única forma dele funcionar é ambos marido e mulher praticarem submissão mútua de acordo com Efésios 5.21. Assim como alguns rapazes pensam que eles podem conduzir um casamento como uma ditadura, algumas mulheres tentam manipular as decisões para escapar deles. Por isso o aconselhamento pré-nupcial é tão importante! Você não quer esperar até que você tenha sido casado por duas semanas para descobrir que sua esposa não confia em você e querer exercer autoridade. 

7. A garota da mamãe. É normal para uma nova esposa chamar a sua mãe regularmente para aconselhamento e apoio. Não é normal para ela conversar com sua mãe cinco vezes por dia sobre todo detalhe do seu casamento, incluindo sua vida sexual. Isto é estranho. No entanto eu tenho aconselhado rapazes cujas esposas deixaram suas mães (ou pais) o total controle de seus casamentos. Gênesis 2.24 diz que o homem deve deixar seus pais e se unir a sua esposa. Se sua namorada não cortou o cordão umbilical, tenha cuidado.

8. A viciada. Muitas pessoas na igreja hoje não têm sido discipuladas corretamente. Muitas ainda lutam com vários tipos de vícios - álcool, drogas ilegais, medicamentos de prescrição ou pornografia - ou porque nós não confrontamos esses pecados no púlpito ou não oferecemos apoio compassivo suficiente para combatê-los. Jesus pode libertar completamente uma pessoa desses hábitos, mas você não pode querer esperar até que você esteja casado para descobrir que sua esposa não está sóbria. Você ainda pode ser chamado para se casar, mas não é sábio amarrar o nó até que sua namorada encare seus problemas de frente. 

A melhor regra a seguir na escolha de uma esposa está em provérbios 31.30: “Enganosa é a graça, e vã é a formosura; mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada.” Veja além das qualidades exteriores que o mundo diz serem importantes, e olhe o coração.
***
Tradução: Francisco Alison Silva Aquino | Original aqui.
Divulgação: Bereianos
.

A Ira de Deus - Por -Leonardo Dâmaso






1. Definição

A ira de Deus é a expressão do seu justo juízo contra o pecado e contra o pecador. “É uma manifestação da vingança divina contra os violadores da sua palavra e para quem não há manifestação da sua misericórdia”,1 a saber, os ímpios.  

Pink define a ira de Deus da seguinte maneira:

A ira de Deus é uma perfeição divina tanto como a Sua fidelidade, o Seu poder ou a Sua misericórdia. Só pode ser assim, pois não há mácula alguma, nem o mais ligeiro defeito no caráter de Deus, porém, haveria, se nEle não houvesse a Ira! A ira de Deus é a Sua eterna ojeriza por toda injustiça. É o desprazer e a indignação da divina eqüidade contra o mal. É a santidade de Deus posta em ação contra o pecado. É a causa motora daquela sentença justa que Ele lavra sobre os malfeitores. Deus está irado contra o pecado porque este é rebelião contra a Sua autoridade, um ultraje à Sua soberania inviolável.2

Vicent Cheung ressalta que a ira de Deus é a sua divina cólera contra tudo que é contrário à santidade e à retidão; é seu intenso aborrecimento para com o pecado e a impiedade.3 Em suma, a Ira de Deus, nas palavras J.I.Packer, “é a sua justiça reagindo contra a justiça”.


2. Os aspectos da Ira de Deus

a) A necessidade da sua manifestação

Deus “não pode deixar de punir o pecado”.4 Ele não pode deixar impune o pecador. Ele estaria indo contra a sua própria natureza e negando a sua santidade e justiça. Essa manifestação de Deus em punir o pecado e os pecadores é visto na Escritura como o derramar da sua Ira.

Habacuque 1.13 – "Teus olhos são tão puros, que não suportam ver o mal; não podes tolerar a maldade." (NVI)  

Não obstante, Deus é amor, é paciente e misericordioso. Entretanto, ele não é obrigado a manifestar o seu amor, a sua paciência e a sua misericórdia para com todos os homens. Mesmo Deus deixando de manifestar estes atributos, ele não deixa de possuí-los. Deus não deixará de ser amor, paciente e misericordioso porque faz parte da sua essência ser assim. Contudo, Deus não deve amor, paciência e misericórdia a nenhum dos homens porque eles não têm direito algum de exigir isso de Deus.

Por outro lado, “se Deus deixar de mostrar a sua ira, ele será injusto consigo mesmo (porque negará a sua própria santidade) e com os homens (porque não dará a eles o que merecem). Se Deus deixar de mostrar a sua ira, ele mostrará falta de caráter moral, porque a indiferença com o pecado é uma falta moral”.5  

Se Deus deixa de punir justamente manifestando a sua justiça retributiva aos pecadores obstinados dando-lhes o que castigo merecido, todavia ele estará indo contra si mesmo. Os homens nunca recebem a ira justa de Deus imerecidamente. Eles a recebem porque pecam contra Deus e são dignos dela.

Deus odeia o pecado não porque ele deseja odiá-lo, mas ele o odeia porque a sua natureza santa é impassível ao pecado. Portanto, a manifestação da ira de Deus contra o pecado e o pecador é uma necessidade imperativa. Deus odeia o pecado e, ao mesmo tempo, odeia e ama o pecador!

Provérbios 11.20a – "O Senhor abomina os perversos." (Almeida Século 21)

1 João 2.15 – "Não ameis o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele." (Almeida Século 21)

Tiago 4.4 – "Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus." (NVI)

b) A sua manifestação é imparcial

A manifestação da ira de Deus para com os todos os homens é justa e imparcial. Ou seja, não favorece um em detrimento do outro. A justiça retributiva de Deus deve ser manifestada a todos os seres racionais que infringem a sua lei porque Deus é justo e porque são dignos de receberem a punição.

Romanos 2.12 - "Todo aquele que pecar sem a lei, sem a lei também perecerá, e todo aquele que pecar sob a lei, pela lei será julgado." (NVI)

Porém, a punição da lei pode ser aplicada ao transgressor de maneira pessoal ou vicária, isto é, sobre a própria pessoa ou sobre alguém que a substitua.

No entanto, mesmo que o transgressor da lei não seja obrigado a receber a pena merecida, pois na administração divina ela não é absoluta, mas relativa; não obstante, ela pode ser transferida a alguém para que possa ser cumprida. O cumprimento da pena é imperativo. A justiça exige que o pecado seja punido sem parcialidade. Portanto, é a partir deste principio que Deus decidiu efetuar a expiação.

Ou seja, Cristo foi o substituto dos pecadores eleitos incapazes de obedecer à lei obedecendo à lei por eles, que podemos chamar de (obediência ativa), e na morte de cruz, que podemos chamar de (obediência passiva), onde Deus transferiu e puniu os pecados dos eleitos pecadores de todas as eras em Cristo na cruz, efetuando assim a sua justiça.

c) A sua manifestação é inexorável

A manifestação da ira de Deus é terrível nos seus efeitos. “Os pecadores brincam com os seus pecados como se nunca fosse acontecer nada com eles”.6 O dia do julgamento já foi determinado por Deus. Terrível será este dia para os ímpios quando a ira de Deus será manifesta implacavelmente!  
  
Apocalipse 6.15-17 – "Então os reis da terra, os príncipes, os generais, os ricos, os poderosos — todos os homens quer escravos, quer livres, esconderam-se em cavernas e entre as rochas das montanhas. Eles gritavam às montanhas e às rochas: "Caiam sobre nós e escondam-nos da face daquele que está assentado no trono e da ira do CordeiroPois chegou o grande dia da ira deles; e quem poderá suportar? " (NVI) 

Hebreus 10.30c-31 – "O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo." (ARA)
    
O povo descrito aqui não é o povo de Deus, isto é, os crentes, mas os Israelitas descrentes ou falsos crentes da época do autor a carta aos Hebreus que faziam parte da igreja. Aqui podemos perceber que o autor utiliza como exemplo para exortar e encorajar os crentes na fé, os rebeldes de Israel na época do AT que pereceram no deserto e sobre o terrível julgamento de Deus no qual estavam sujeitos. 
      
Além de Deus julgar o mundo ímpio, ele também julga o seu povo. Ou seja, a igreja composta dos verdadeiros crentes. Note o que Pedro diz acerca disso:

1 Pedro 4.17-18 – "Pois chegou à hora de começar o julgamento pela casa de Deus; e, se começa primeiro conosco, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? E, se ao justo é difícil ser salvo, que será do ímpio e pecador?" (NVI) 

Este julgamento aqui não se refere à condenação, pelo contrário. Deus julga os seus escolhidos corrigindo-os muitas vezes através das tribulações e dificuldades da vida, cujo intuito é a purificação o aperfeiçoamento deles e da igreja em geral.

d) A sua manifestação é gloriosa

A manifestação da ira divina, ao mesmo tempo em que é algo terrível para os ímpios, é cheia de glória, porque ela é a exaltação da justiça divina. Quando qualquer atributo de Deus é exaltado, o ser de Deus é glorificado. Deus se mostra glorioso cada vez que manifesta a sua justiça em ira, mas essa ira será ainda mais gloriosa no final, porque nesse dia todos haverão, para a glória de Deus, de reconhecer que Jesus Cristo é Senhor, dobrando-se humilhantemente diante dele (Fp 2.10-11)”. 6

3. Diferença entre Ira e ódio7

No caso dos seres humanos, a ira e o ódio não são distintos entre si, ambos representam a mesma coisa, isto é, um mesmo sentimento e uma mesma reação para com algo ou alguém. Porém, existe diferença entre ira e ódio em Deus. Estes dois aspectos que fazem parte da natureza divina são distintos entre si. 

“Enquanto a ira é uma manifestação positiva da justiça divina sobre os transgressores da sua lei, o ódio é um sentimento negativo, onde Deus deixa de mostrar qualquer amor pela pessoa, ou deixa de fazer alguma coisa para redimi-la”.8 Noutras palavras, Deus simplesmente não faz nada em relação à pessoa a quem ele odeia.

A manifestação da ira de Deus é causada devido ao pecado dos seres humanos que ofende a sua santidade. Por outro lado, o ódio de Deus em relação a alguém está contido nele mesmo sem que a própria pessoa odiada tenha cometido algum pecado contra ele.

O ódio de Deus aos seres humanos não é devido ao pecado deles. Contudo, pela sua própria decisão soberana, cujos motivos são desconhecidos de nós, ele decidiu odiar uns não salvando, mas deixando-os entregues aos seus pecados a fim de perecerem sendo condenados ao lago de fogo no dia do julgamento final, e amando outros decidindo elegê-los para a salvação e vida eterna. Um exemplo clássico disso é o caso de Esaú e Jacó. Observe:

Romanos 9.11-16 – "Todavia, antes que os gêmeos nascessem ou fizessem qualquer coisa boa ou má — a fim de que o propósito de Deus conforme a eleição permanecesse, não por obras, mas por aquele que chama — foi dito a ela: O mais velho servirá ao mais novo. Como está escrito: Amei Jacó, mas rejeitei Esaú. E então, que diremos? Acaso Deus é injusto? De maneira nenhuma! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão. Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus." (NVI)

Conforme é dito no texto, Deus amou Jacó para a salvação e odiou Esaú decidindo não salvá-lo deixando entregue aos seus pecados. Isto é o que podemos chamar de preterição. Ou seja, é o ato de Deus em deixar os pecadores entregues nos seus pecados não os favorecendo com a graça regeneradora, cujo fim será a morte eterna para eles.

O motivo pelo qual Deus amou Jacó e odiou Esaú é desconhecido de nós. Não foi pelas obras que porventura eles fizeram, pois antes mesmo deles haverem nascido, Deus já tinha escolhido Jacó em amor para a salvação e odiado a Esaú rejeitando-o para a salvação. Portanto, aqueles foram rejeitados e entregues por Deus aos seus pecados nunca irão crer e se converter abandonando os seus pecados.

Por isso, no dia do julgamento, estas pessoas irão receber a manifestação da ira de Deus como punição pelos seus pecados. Elas serão lançadas no lago de fogo e enxofre onde sofrerão eternamente com dores e angustias prementes sem fim!

4. A relação entre Ira e Misericórdia9

Conforme vimos, é absolutamente necessário Deus manifestar a sua justiça em ira, porém, não é necessário “que a sua justiça seja manifesta na pessoa do pecador”.10 No entanto, uma outra pessoa, que no caso, Jesus, foi quem assumiu as responsabilidade legais dos pecadores eleitos recebendo a manifestação da justiça de Deus em ira sobre si na cruz, pagando assim pelos pecados deles.

Como resultado da dívida do pecado paga por Jesus, agora os eleitos redimidos não sofrerão a manifestação da ira divina, pois a eles foi manifestada a misericórdia. Jesus desviou a ira de Deus dos pecadores eleitos para si. Por outro lado, os pecadores não eleitos pelos quais Jesus não pagou a sua dívida de pecado, irão receber a manifestação da ira divina.

Via de regra, é importante enfatizar para que possamos compreender de fato que a misericórdia é a não aplicação da punição divina, e a ira é a aplicação da justiça divina. Estes dois atributos – ira e misericórdia não podem ser aplicados em uma mesma pessoa. Portanto, misericórdia é Deus não punir, ao mesmo tempo em que quando pune disciplinando os seus filhos para o próprio bem deles, também mostra misericórdia (veja Hb 12.4-11).

5. A relação entre Ira e Amor

É lamentável vermos atualmente uma ignorância extraordinária por parte da igreja evangélica em relação ao conhecimento dos atributos de Deus! Para muitos pastores e crentes este assunto é completamente desconhecido. Quando alguns poucos conhecem acerca dos atributos de Deus, conhecem apenas sobre o seu amor, e, ainda assim, o conhecem de maneira equivocada.

No que tange a ira de divina, muitos opositores da fé reformada, especialmente grande parte dos evangélicos neopentecostais, se esquecem de que a justiça de Deus é essencial nele, e que a sua manifestação é imprescindível devido a sua santidade. Apesar de Deus ser um Deus de amor, todavia, ele não está na obrigação de amar todos os seres humanos; em contrapartida, em relação a sua justiça, ele é obrigado a manifestá-la. Mesmo que Deus não ame a todos, contudo, ele não deixa de ser um Deus de amor. O Amar de Deus é uma decisão soberana! Cabe a ele unicamente a decisão de quem amar e de quem não amar!

Porém, a manifestação da ira de Deus é absolutamente necessária devido “a sua prerrogativa de julgar o mundo, que é o violador de suas leis”.11 Deus nunca é injusto por manifestar a sua ira conforme muitos evangélicos pensam. Paulo na sua carta aos Romanos combate esta ideia errônea de se pensar que Deus é injusto em manifestar a sua ira. Veja a sua argumentação:
  
Romanos 3.5b-6 – Mas, se a nossa injustiça (pecado contra Deus) traz a lume a justiça de Deus, que diremos? Porventura, será Deus injusto por aplica a sua ir? (falo como homem.) (ARA) 
  
Se Deus não faz justiça em julgar os homens pecadores ele estará negando a si mesmo. E sabemos que isto é impossível de acontecer com o Deus que é perfeito!

6. O tempo da Ira Divina12

A justiça de Deus nem sempre é executada no momento e da maneira que pensamos que deva ser. Embora Deus seja muito paciente mesmo quando o pecado e a maldade permeiam tão veemente no mundo, ainda assim, a sua justiça é e será manifestada.

Entretanto, mesmo que a justiça de Deus não venha ser executada aqui na terra com todo o seu ápice contra os ímpios obstinados e merecedores dela, todavia, ela é manifesta através de juízos parciais e finais. Senão vejamos:

a) A manifestação parcial da Ira Divina

No Antigo Testamento, podemos ver inúmeros exemplos da manifestação não total e final, mas parcial da ira de Deus contra os que violaram os seus mandamentos (veja Js 7.1, 11, 13, 24-25; Nm 16.1-49; Gn 6.5, 13, 17, 18.25, 19.19, 23-29). Deus no presente momento traz apenas castigos de ordem temporal aos obstinados como um prelúdio anunciando acerca do castigo final e total que sobrevirá a eles no dia do julgamento. Sobre esta manifestação parcial da ira de Deus, Paulo diz:

Romanos 1.18 – "Porque do céu se manifesta (o verbo está no presente, o que implica uma constante manifestação da ira divina) a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens..." (ARA)

Salmos 7.11  "Deus é juiz justo, um Deus que se ira todos os dias." (ARC)

b) A manifestação final da Ira Divina    

Não obstante, é de vital importância enfatizar que todos os que foram e são objetos da ira parcial de Deus haverão ainda de sofrer a manifestação final e total da sua ira. A ira parcial que é manifestada na história é um prelúdio que elucida a ira final e total que se manifestará no dia do julgamento.

Todavia, no Antigo testamento, o povo já tinha consciência de que o juízo final de Deus seria num dia futuro e já determinando por ele. Observe as palavras do profeta Sofonias sobre isto:

Sofonias 1.14-15, 18 – "O grande dia do Senhor está próximo; está próximo e logo vem. Ouçam! O dia do Senhor será amargo; até os guerreiros gritarão. Aquele dia será um dia de ira, dia de aflição e angústia, dia de sofrimento e ruína, dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e negridão; Nem a sua prata nem o seu ouro poderão livrá-los no dia da ira do Senhor. No fogo do seu zelo o mundo inteiro será consumido, pois ele dará fim repentino a todos os que vivem na terra." (NVI)

Aqui, o profeta Sofonias faz menção da manifestação final e total da ira divina no último dia, quando todos irão comparecer diante do Senhor para receberem a recompensa pelos seus pecados.

No Novo Testamento, vemos também a descrição acerca dessa manifestação final e total da justiça de Deus onde será executada no dia do julgamento. Note as palavras de Paulo no seu discurso aos gregos e filósofos no areópago de Atenas:

Atos 17.30-31 – "Deus não levou em conta os tempos da ignorância, mas agora ordena que todos os homens, em todos os lugares, se arrependam, pois determinou um dia em que julgará o mundo com justiça, por meio do homem que estabeleceu com esse propósito. E ele garantiu isso a todos ao ressuscitá-lo dentre os mortos." (Almeida Século 21) 

Não há como os homens escaparem da justiça divina! Não há como escapar do julgamento daquele grande dia já reservado desde antes a fundação do mundo!

Romanos 2.8  "Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça." (NVI)

João 3.36 – "Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele." (NVI)

7. Jesus e a ira de Deus

Jesus possui três papéis com relação à ira de Deus. Um tem a ver consigo mesmo, outro tem a ver com os filhos de Deus, e outro com os ímpios.13 Senão vejamos:

a) Jesus recebeu a Ira de Deus no lugar dos pecadores eleitos

Isaías 53.5 – "Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados." (NVI)

b) Jesus salvou os pecadores eleitos da Ira de Deus
Romanos 5.9 – "Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira." (ARA)

c) Jesus é o aplicador da Ira de Deus aos ímpios

Atos 17.31 – "Pois (Deus) determinou um dia em que julgará o mundo com justiça, por meio do homem que estabeleceu com esse propósito. E ele garantiu isso a todos ao ressuscitá-lo dentre os mortos." (Almeida Século 21) 

João 5.27 – "(o Pai) deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem." (NVI) 
____________________
Notas:
[1] Heber Carlos de Campos - O Ser de Deus e os Seus atributos, Ed. Cultura Cristã.
[2] A.W.Pink. Os atributos de Deus, Ed. PES.
[3] Vicent Cheung. Teologia Sistemática.
[4] Heber Carlos de Campos - O Ser de Deus e os Seus atributos, Ed. Cultura Cristã.