sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Barro Nas Mãos do Oleiro

No livro de Jeremias, Capitulo 18, Deus conduz o profeta a visitar uma olaria e observar o trabalho de um oleiro. A visão do profeta, serviria de mensagem para toda nação de Israel: Deus, O Oleiro. Israel, o barro. A roda do oleiro, o tempo. A voz de Deus, foi audível, naquele lugar. O trabalho dos oleiros, na confecção de vasos de barro, nunca mudou. É o mesmo, através dos séculos. A mensagem, portanto, a ser transmitida, permanece. O que Deus, nos fala através dessa metáfora? O Barro: Em seu estado bruto, não serve para manuseio, na roda de oleiro. Precisa, passar por todo um processo, se tornar elástico, para modelagem: Colhe-se o barro, penera, mistura com água, deixa de molho (para livrar das impurezas) e é pisado até sair todas as bolhas de ar(enfraquecem o vaso na hora de passar pelo forno). No forno, o barro, enfim, se torna mais resistente. O Vaso: Do barro fomos criados (Gn 2:7) e ao barro tornaremos (Ec 12:7). Vivemos, portanto, para o objetivo de sermos levados "a casa do Oleiro". Um digno destino. A olaria, simboliza, o Reino de Deus. Algumas porções de barro, se tornam, "vasos de honra" (II Tm 2:21). Carregam tesouros (IICor 4:7). Algumas, vasos de desonra (Rm 9:21): Passaram pelo Oleiro, porém, estão a carregar coisas impuras, ilícitas, produtos de roubo, morte e destruição. Relaciono estes, aos apostatas, pessoas que deixaram "o primeiro amor", no afã de se tornarem, servos de Mamon. Vasos de desonra. Ainda existe, um terceiro e triste destino para um vaso: ser quebrado. "...Deste modo quebrarei eu a este povo, e a esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se..." Jr 19: 11. A quebra do vaso, pelas mãos de Jeremias, tinha o propósito de alertar as pessoas de seus graves pecados. Simbolizava julgamento. Israel, passara, de vaso de honra, para desonra e por fim seria destruída. A utilidade (ou inutilidade) do vaso, define sua longevidade. Que tipo de vaso, estamos sendo? O ser humano, pecador, cheio de impurezas, barro, no estado bruto, chega a "Olaria" para ser trabalhado. Somos escolhidos (At 9:15), purificados (Jo 17:17), provados (Sl 11:5) e aprovados (IITm 2:15). O Oleiro: Com destreza e paciência, molda o barro, que, na roda de oleiro, é totalmente dependente D'Ele. Se deixa moldar. Se, ao tomar forma de vaso, o barro, se despedaçar, O Oleiro, torna a juntar a massa e faz outro vaso, ainda melhor. Ele não abandona o vaso, despedaçado em suas mãos. Deus, anseia que entremos na olaria, no Seu Reino. Só assim o barro ganha forma. Um material, pobre e fácil, tornado excelente. "Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro para que a excelência do conhecimento seja de Deus e não de nós" II Cor 4:7. Um paradoxo: Seres humanos, frágeis, tornando-se instrumentos nas mãos de Deus.E nesse processo, Ele perdoa, a todo que se fizer servo. Ele revigora as forças do abatido, animando-o a prosseguir. Como o vaso, que quebra na roda de moldar e recebe nova vida. Que Deus em Cristo, nos faça recordar, sempre, que eramos barro, destinados a perdição: Arrastados pela água, ressecados pelo sol, levados pelo vento. O Oleiro, nos recolheu. Entregues em suas mãos, nos tornamos vasos. Moldados para o serviço. Louvado seja O Oleiro! Por:Wilma Rejan

Combatendo Consistentemente o Erro - João Calvino (1509-1564)

- Ensina essas coisas e exorta (1 Tm 6.2). O que o apóstolo tem em mente é que essas coisas devem ser ensinadas com persistente ênfase, e quer que a exortação acompanhe o ensino. E como se houvesse dito que esse gênero de ensino deve ser reiterado diariamente, e que os indivíduos necessitam não só de instrução, mas também de estímulo e intimação por meio de exortações freqüentes. Se alguém ensina uma doutrina diferente (v. 3). A palavra no grego é um verbo composto e pode ser traduzido: "ensinar outras coisas". Mas não há dúvida sobre o seu significado; o apóstolo está condenando todos os que não aceitam esse tipo de ensino, mesmo que não se oponham aberta e irrestritamente à sã doutrina. É possível não professar um erro ímpio e público, e no entanto corromper a doutrina da piedade através de sofismas ostentosos. Porque, quando não há progresso ou edificação procedente de algum ensino, o afastamento da instituição de Cristo já está concretizado. Mas ainda que Paulo não esteja falando dos confessos originadores de doutrinas ímpias, e, sim, acerca de mestres fúteis e destituídos de religião, que do egoísmo ou avareza deformam a simples e genuína doutrina da piedade, não obstante percebemos quão aguda e veementemente ele os ataca. E não é de estranhar, pois é quase impossível exagerar o volume de prejuízo causado pela pregação hipócrita, cujo único alvo é a ostentação e o espetáculo vazio de conteúdo. Torna-se, porém, ainda mais evidente, à luz do que segue, a quem precisamente ele está responsabilizando aqui. Pois a próxima cláusula - e não consente com as sãs palavras - é tencionada como uma descrição de homens desse tipo, desviados por tola curiosidade, comumente desprezam tudo o que é benéfico e sólido e se entregam a excentricidades extravagantes, à semelhança de cavalos obstinados. E o que é isso senão a rejeição das sãs palavras de Cristo? São chamadas sãs em virtude de seu efeito de conferir-nos solidez, ou porque são qualificadas para promover a solidez. E com a doutrina da piedade tem o mesmo sentido. Pois ela só será consistente com a piedade se nos estabelecer no temor e no culto divino, se edificar nossa fé, se nos exercitar na paciência e na humildade e em todos os deveres do amor. Portanto, aquele que não tenta ensinar com o intuito de beneficiar, não pode ensinar corretamente; por mais que faça boa apresentação, a doutrinação não será sã, a menos que cuide para que seja proveitosa a seus ouvintes. Paulo acusa a esses infrutíferos mestres, primeiro de insensatez e de fútil orgulho. Em segundo lugar, visto que o melhor castigo para os interesseiros é condenar todas as coisas nas quais, em sua ignorância, se deleitam, o apóstolo diz que eles nada sabem, embora estejam inchados com argumentos inúmeros e sutis. Não têm nada sólido senão só vácuo. Ao mesmo tempo, o apóstolo adverte a todos os piedosos a não se permitirem que se desviem por esse gênero de exibição fútil, mas que, ao contrário, permaneçam firmes na simplicidade do evangelho. Apaixonado por questionamentos (v.4). Eis uma comparação indireta entre a solidez da doutrina de Cristo e essa 'paixão'. Pois quando esses questionadores sutis tiverem se cansado com seu enfadonho assunto, que resultado terão eles de revelar a todos os seus esforços, a não ser que o seu mal se agrave crescentemente? Não só se desgastam por nada, mas sua insensata curiosidade provoca essa 'paixão'. E daqui segue-se que estão muito longe de beneficiar razoavelmente com o seu ensino, como devem proceder os discípulos de Cristo. Paulo tem boas razões para mencionar juntos, questiona-mentos e contendas de palavras, porque, pelo primeiro termo, ele não quer dizer o tipo de questão que nasce de um moderado e sóbrio desejo de aprender ou que contribui para aclarar explanações de pontos úteis; mas, ao contrário, o tipo de questão que hoje é discutido nas escolas da Sorbone, com o intuito de exibir habilidade intelectual. Ali, uma questão leva a outra, porque não há fim para elas, quando todos se precipitam em sua vaidade, procurando saber mais do que deveriam, e isso gera infindáveis contendas. Assim como as densas nuvens, no tempo de calor, não se dissipam sem trovoada, assim também essas escabrosas questões inevitavelmente prorrompem em discussões sem fim. Ele dá o nome de [logomaquias— questões de palavras] às disputas contenciosas em torno de palavras, quando devia ser em torno do que é real, as quais são, como comumente se diz, sem conteúdo ou fundamento. Caso alguém investigue atentamente o tipo de questões que ardentemente preocupam aos sofismas, descobrirá que dali nada nasce que seja real, senão o que é forjado do nada. Em suma, o propósito de Paulo era condenar todas as questões que nos envolvem em acirradas disputas sobre assuntos dos quais nada resulta. Dos quais procede inveja. Ele mostra, à luz de seus resultados, como deveríamos evitar a curiosidade ambiciosa; pois a ambição é a mãe da inveja. E sempre que a inveja estiver no comando, ali também surgirá violência, confusões, contendas e os demais males que Paulo enumera aqui. O apóstolo acrescenta que tais coisas procedem de homens de mente corrompida e privados da verdade (v. 5). E cristalinamente óbvio que aqui ele está censurando os sofistas que não se preocupavam com a edificação [da Igreja] e convertiam a Palavra de Deus em trivialidade e numa fonte de controvérsias engenhosas. Se o apóstolo apenas realçasse que, com isso, a doutrina da salvação ficaria destituída de sua eficácia, tal coisa, por si só, seria uma intolerável profanação; mas sua reprovação é muito mais pesada e grave, pois ele mostra os males perniciosos e as pragas nocivas resultantes disso. Desta passagem devemos aprender a detestar a sofistica como algo inconcebivelmente nocivo à Igreja de Deus. Supondo que a piedade é fonte de lucro. O significado consiste em que a piedade é equivalente a lucro ou é uma forma de produzir lucro, porque, para esses homens, todo o cristianismo deve ser aquilatado pelos lucros que ele gera. E como se os oráculos do Espírito Santo houvessem sido transmitidos não com outro propósito, senão de servir à sua avareza; negociam com eles como.se fossem mercadoria à venda. Paulo proíbe aos servos de Cristo qualquer gênero de transação com tais homens. Ele não só proíbe a Timóteo de imitá-los, mas lhe diz que os evitasse como se fossem peste maligna. Ainda que não se opusessem abertamente ao evangelho, e o confessassem, não obstante a companhia deles era infecciosa. Além disso, se a multidão nos visse com familiaridade com tais pessoas, haveria o risco de que usassem nossa amizade para insinuar-nos em seu favor. Portanto, devemos empenhar-nos ardentemente por levar as pessoas a entenderem que somos completamente diferentes deles, e que nada temos em comum com eles.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um Evangelho Falso - João Calvino (1509-1564)

Espanta-me (Gl 1.6-9). O apóstolo começa com uma reprimenda, ainda que algo um tanto mais brando do que mereciam. Prefere, porém, dirigir sua ira contra os falsos apóstolos, como veremos. Ele acusa os gaiatas de apostasia, não só em relação ao ensino do apóstolo, mas em relação a Cristo mesmo. Pois só poderiam conservar a Cristo através do reconhecimento de que é por meio de seu benefício que nos tornamos livres da escravidão da lei. Mas a necessidade de cerimônias que os falsos apóstolos estabelecem é frontalmente contrária a isso. Por isso estavam afastados de Cristo, não porque rejeitassem inteiramente o Cristianismo, mas porque, numa corrupção de tal proporção, só lhes fora deixado um Cristo fictício. Assim também hoje, os papistas decidiram conservar um Cristo pelas metades e um Cristo mutilado, e nada mais, e estão, portanto, separados de Cristo. Estão saturados de superstições, as quais são frontalmente opostas à natureza de Cristo. Deve-se observar criteriosamente que estamos separados de Cristo quando aceitamos o que é inconsistente com seu ofício mediatorial; porquanto a luz não pode misturar-se com as trevas. Pela mesma razão, ele o chama outro evangelho, ou seja, outro evangelho além do genuíno. E no entanto os falsos apóstolos alegavam pregar o evangelho de Cristo; mas, ao mutilá-lo com suas próprias invenções, destruíam a força motriz do evangelho para em seguida defender um evangelho falso, corrompido e espúrio. O apóstolo usa o verbo no tempo presente, como se, até então, estivessem, por assim dizer, apenas em processo de queda. É como se dissesse: "No entanto, não digo que já estais separados. Se esse fosse o caso, teria sido muito mais difícil voltardes ao caminho. Agora, porém, enquanto vos achais ainda no caminho, retrocedei; não deis sequer um passo adiante." Algumas versões trazem: "daquele que vos chamou pela graça de Cristo", subentendendo o Pai. Mas a redação que temos adotado é mais simples. Ao dizer que foram chamados por Cristo através da graça, é como se o apóstolo reprovasse sua ingratidão. Desertar-se do Filho de Deus é algo por si só desonroso e desditoso; mas desertamo-nos dele, quando ele nos chamou graciosamente para a salvação, é algo muito mais terrível, visto que sua bondade para conosco, tendo como resposta nossa ingratidão, intensifica ainda mais a gravidade do pecado. Tão depressa. Ele põe ênfase na perversidade da inconstância dos gaiatas. Não existe ocasião que justifique nossa deserção de Cristo; mas os gaiatas eram muito mais censuráveis diante do fato de que voltaram atrás no momento em que Paulo os deixou. Portanto, assim como sua ingratidão se revelara quando pela primeira vez o apóstolo a confrontou com a graça da vocação, assim agora ele intensifica sua leviandade ao mencionar o tempo decorrido. O qual não é outro. Há quem apresente a seguinte explicação: "Embora não exista outro evangelho" - como se fosse uma freada contra alguém que cresse na existência de outro evangelho. No que tange à explicação das palavras, faço-a de uma forma mais simples, ou seja: o apóstolo fala desdenhosamente do ensino dos falsos apóstolos como sendo a única causa de confusão e destruição. Parafraseando: "O que eles propõem? Sobre que bases atacam a doutrina que tenho anunciado? Simplesmente vos perturbam e destroem o evangelho. É tudo o que sabem fazer." Mas isso vem a ser a mesma coisa, pois admito que essa expressão corrige o que ele disse acerca de outro evangelho. Ele declara que tal coisa não era o evangelho, senão uma mera sublevação. Tudo o que eu quis dizer é que, em minha opinião, 'outro' significa 'outra coisa'. Como às vezes dizemos: "Isso não significa outra coisa, senão que sua intenção é enganar." E querem perverter. Ele os culpa de um segundo crime, ou seja, de fazer injúria a Cristo, querendo destruir o seu evangelho. E esse é um crime em extremo terrível; pois a destruição é pior que a corrupção. E ele os acusa com boas razões. Quando a glória de justificar uma pessoa é transferida para outro, e uma armadilha se arma para as consciências, o Salvador não mais permanece firme e o ensino do evangelho é arruinado. Pois devemos sempre tomar o máximo cuidado com os artigos primordiais do evangelho. Aquele que os ataca c um destruidor do evangelho. Ao adicionar as palavras, de Cristo, isso pode explicar-se de duas formas: ou que ele [o evangelho] veio de Cristo, como seu Autor, ou que ele simplesmente exibe a Cristo. Mas não há dúvida de que o apóstolo, com esse termo, pretendia descrever o verdadeiro e genuíno evangelho, o único que deve ser considerado como evangelho. Mas ainda que nós... Aqui o apóstolo se ergue com grande ousadia para defender a autoridade de seu ensino. Em primeiro lugar, ele declara que a doutrina que ele tinha pregado é o único evangelho, e que é uma atitude ímpia tentar subvertê-lo. Caso contrário, os falsos apóstolos poderiam objetar: "Nós também queremos manter o evangelho incorruptível, nem sentimos por ele menos reverência que a que tu sentes." Justamente como hoje os papistas proclamam quão santo lhes é o evangelho, e beijam a própria palavra [evangelho] com a mais profunda reverência. Mas quando chega o momento de provar tal coisa, promovem feroz perseguição à doutrina do evangelho em sua pureza e simplicidade. Portanto, Paulo não se satisfaz com essa declaração geral, senão que define o que o evangelho é e o que ele contém e pronuncia que seu ensino é o genuíno evangelho, para que não se vá buscá-lo em qualquer outra fonte. Que costume é esse de professar o evangelho sem saber o ele significa? Para os papistas, que se deixam dominar pela fé implícita, tal coisa pode ser suficiente. Mas para os cristãos não existe fé onde não haja conhecimento. A fim de que os gaiatas, que ao contrário estavam dispostos a obedecer ao evangelho, não vagueassem sem rumo sem encontrar firme fundamento em que se apoiassem, Paulo lhes ordena a permanecerem na doutrina que ele lhes ensinara. Ele exige uma confiança tal em sua pregação, que pronuncia uma maldição sobre todos aqueles que ousassem contradizê-lo. Era-lhe também necessário começar consigo mesmo. E assim ele antecipa uma calúnia por parte de seus desafetos: "Tu queres ter tudo o que procede do que recebeste, e sem hesitação, só porque te pertence." Para mostrar que não há nisso o menor fundamento, o apóstolo é o primeiro a resignar o direito de promover qualquer coisa contra este ensino. Ao proceder assim, ele não se sujeita aos demais, senão que, como é justo, põe a todos juntamente consigo numa só categoria, para que todos se sujeitassem à Palavra de Deus. Com o fim de fulminar os falsos apóstolos ainda mais violentamente, ele evoca os próprios anjos. Também não diz simplesmente que não deveriam ser ouvidos caso anunciassem algo diferente, mas declara que devem ser tidos como seres execráveis. Alguém pode concluir que era totalmente errôneo envolver os anjos numa controvérsia acerca de doutrina; mas qualquer um que considere a questão apropriadamente verá que ele tinha que proceder assim. Com toda certeza é impossível que os anjos celestiais ensinem qualquer coisa além da pura verdade de Deus. Mas quando havia controvérsia concernente à fé na doutrina que Deus revelara sobre a salvação dos homens, ele não considerava como suficiente refutar o julgamento humano sem também evocar o mais elevado julgamento angelical. E assim, não é supérfluo que o apóstolo pronuncie um juízo de anátema sobre os anjos, caso ensinassem algo mais, ainda quando seu argumento tenha por base uma impossibilidade. Pois tal hipérbole contribuiu para aumentar a autoridade da pregação de Paulo. Ele percebeu que tanto ele como seu ensino eram atacados mediante o uso de nomes famosos. Então responde que nem mesmo os anjos têm autoridade para prejudicá-lo. Isso de forma alguma constitui uma ofensa aos anjos. Eles foram criados para realçar a glória de Deus por todos os meios possíveis. Portanto, se alguém, com esse mesmo intuito piedoso, os deprecia, não detrai um mínimo sequer de sua dignidade. Desse fato, porém, não só retemos a imensa majestade da Palavra de Deus, mas também nossa fé recebe um extraordinário revigoramento, quando, em confiança na Palavra de Deus, podemos triunfar sobre a tendência de falar mal dos anjos. Quando o apóstolo diz: que o mesmo seja maldito, "que vós" deve ser subentendido. Falamos sobre a palavra 'anátema' em 1 Coríntios 12.3. Aqui ela denota maldição. Como vos dissemos antes. Ele agora omite toda menção de si mesmo ou dos anjos, e repete em termos gerais que é ilícito que qualquer mortal transmita algo mais além do que aprendeu. Notem-se bem as palavras: que tendes recebido. Pois o apóstolo está sempre a insistir que não deviam considerar o evangelho como algo desconhecido, nutrindo incerteza em suas imaginações, de forma leviana, mas que deviam alimentar uma inabalável convicção e viver sinceramente convencidos de que o que lhes foi transmitido, e eles o abraçaram, era o genuíno evangelho de Cristo. Pois nada pode ser menos consistente com fé do que opinião. O que dizer, pois, se uma pessoa está em bancarrota só porque não sabe qual ou de que sorte é o evangelho? Portanto, o apóstolo lhes diz que considerassem como demônios aqueles que ousassem apresentar um evangelho diferente do dele, significando por outro evangelho um ao qual acrescentaram-se idéias estranhas ao evangelho. Pois o ensino dos falsos apóstolos não era inteiramente contrário ou mesmo diferente do de Paulo, mas era corrompido por falsas adições. Os subterfúgios dos papistas são infantis quando se esquivam das palavras de Paulo, dizendo, primeiramente, que a totalidade de seu ensino não mais existe, e que não temos como saber o que tal ensino contém a menos que os gálatas que o ouviram ressuscitassem dos mortos como testemunhas; e, em segundo lugar, que nem todo gênero de adição é proibido, a não ser aqueles outros evangelhos, os únicos que são condenados. A doutrina de Paulo pode ser aprendida mui claramente através de seus escritos, uma vez que sintamos necessidade de conhecê-la. A luz desse evangelho é evidente que todo o papado é uma terrível subversão. Finalmente, é evidente, à luz do presente caso, que qualquer doutrina diferente da proclamação de Paulo é espúria. Portanto, os sofismas não os ajudarão em nada.

Quando Deus escolhe - João Calvino ( 1509-1564)

Introdução ao Salmo 18 Todos nós sabemos por quais dificuldades e por obstáculos quase intransponíveis Davi assumiu o reino. Ainda ao tempo da morte de Saul ele era um fugitivo e, por assim dizer, fora-da-lei, e exausti­vamente passou sua vida em temor e em meio a infindas ameaças e perigos de morte. Depois de Deus o ter, com sua própria mão, colocado no trono real, ele foi imediatamente acossado por tumul­tos e insurreições por parte de seus próprios súditos; e ante as facções hostis, sendo superiores a ele em poder, às vezes chegava ao ponto de sentir-se completamente sucumbido. Inimigos externos, em con­trapartida, o tentaram severamente até à sua velhice. A tais calami­dades jamais teria subrepujado não fora ele sempre socorrido pelo poder de Deus. Havendo, pois, obtido muitas e notáveis vitórias, ele não canta, como os homens sem religião costumam fazer, um cântico em sua própria honra, mas exalta e magnifica a Deus como o Autor dessas vitórias, fazendo uso de um encadeamento de ter­mos notáveis e apropriados, e num estilo de inexcedível grandeza e sublimidade. Este Salmo, pois, é o primeiro dentre aqueles em que Davi celebra, em suaves melodias, a imensurável graça que Deus sempre demonstrou para com ele, tanto ao introduzi-lo na posse do reino quanto a partir daí a sustentá-lo em sua possessão. Ele tam­bém mostra que seu reinado era uma imagem e tipo do reino de Cristo, com o fim de ensinar e assegurar aos fiéis que Cristo, a des­peito de todo o mundo e de toda a resistência que este sempre lhe faz, ele seria, pelo tremendo e incompreensível poder do Pai, sempre vitorioso. Ao mestre de música, de Davi, servo de Jehovah, aquele que cantou a Jehovah as palavras deste cântico no dia em que Jehovah o libertou da mão de seus inimigos e da mão de Saul. Temos que determinar cuidadosamente o tempo específico em que este Salmo foi composto, como ele nos mostra que Davi, quan­do seus negócios foram conduzidos ao estado de paz e prosperi­dade, não se deixou intoxicar com extravagante regozijo como se dá com os homens sem religião que, quando obtêm o livramento de suas calamidades, descartam de suas mentes a lembrança dos bene­fícios divinos e se precipitam em grosseiros e degradantes prazeres, ou erigem sua torre e obscurecem a glória de Deus com sua soberba e vangloria desprovidas de conteúdo. Davi, segundo o relato da história sagrada [2 Sm 22], cantou este cântico ao Senhor quando já se achava desgastado pela idade, e quando, ao ser libertado de todas as suas tribulações, desfrutava de tranqüilidade. A inscrição aqui concorda com esse relato e, à luz do que está declarado ali, concluímos que ela não foi imprópria e incorretamente prefixada para este Salmo. Davi põe em relevo o tempo quando ele era canta­do, isto é, depois de Deus o ter libertado de todos os seus inimigos, para nos mostrar que ele estava, então, em perfeita e pacífica posse de seu reino, e que Deus o assistira não apenas uma vez, nem contra apenas um gênero de inimigos; visto que seus conflitos eram de tempo em tempo renovados, e o fim de uma guerra era o começo de outra; sim, muitos exércitos amiúde insurgiam-se contra ele a um só tempo. Desde a criação do mundo, dificilmente encontrare­mos nele outro indivíduo a quem Deus haja provado com tantas e com tão variadas aflições. Visto que Saul o havia perseguido com mais crueldade e com maior ferocidade e determinação do que to­dos os demais, seu nome, por essa conta, é aqui expressamente mencionado, ainda que, na cláusula precedente, o salmista haja falado, em termos gerais, de todos os seus inimigos. Saul não é expresso por último como se houvera sido um de seus últimos inimigos, pois sua morte se dera cerca de trinta anos antes desse tempo; e desde esse evento, Davi desbaratara muitos inimigos estrangeiros, e também reprimira a rebelião de seu próprio filho Absalão. Mas, persuadido de que era uma singular manifestação da graça de Deus em seu favor, e eminentemente digno de ser lembrado o fato de que ele havia por tantos anos escapado de incontáveis mortes, ou, melhor, que ao longo dos dias em que ele vivera sob o reinado de Saul, Deus havia operado, por assim dizer, tantos milagres em seu livramento, então ele com razão menciona e celebra em particular seu livramento das mãos desse implacável inimigo. Ao denominar-se de servo de Deus, ele indubitavelmente pre­tendia testificar de sua vocação ao ofício de rei, como se quisesse dizer: Não usurpei o reino temerariamente, fazendo valer minha própria autoridade, mas simplesmente agi em obediência ao orácu­lo celestial. Aliás, em meio às tantas tormentas que iria enfrentar, era um apoio muitíssimo necessário estar bem certo em sua própria mente de nada ter empreendido além do que Deus havia designa­do; ou, melhor, isso foi para ele um céu pacífico e um refúgio se­guro em meio a tantos tumultos e estranhas calamidades.2 Não há nada mais miserável do que uma pessoa, em adversidade, que entra em desespero por agir segundo o mero impulso de sua própria mente e não em obediência à vocação divina. Davi, pois, tinha sobejas razões para desejar que se fizesse notório que não foi movido de ambição que veio a tomar parte naqueles renhidos combates, os quais lhe foram tão dolorosos e difíceis de suportar, e que não havia intentado nada ilícito, nem usara de meios perversos, mas que sem­pre estivera em prontidão diante da vontade de Deus, a qual lhe serviu de luz a guiá-lo em sua vereda. Este é o ponto que nos é muitíssimo proveito sabermos, a fim de não esperarmos viver total­mente isentos de dificuldade, ao seguirmos o chamado divino; ao contrário, preparemo-nos para aquele doloroso e desagradável esta­do de luta em nossa carne. Portanto, a designação, servo, nesta pas­sagem, bem como em muitas outras, se relaciona com seu ofício público; justamente como, quando os profetas e apóstolos se de­nominam de servos de Deus, temos uma referência ao seu caráter oficial. E como se tivesse dito: Não sou rei por minha própria inici­ativa, senão que fui escolhido por Deus para ocupar essa posição por demais elevada. Ao mesmo tempo, devemos notar particular­mente a humildade de Davi, o qual, embora distinguido por tantas vitórias e sendo o conquistador de tantas nações e possuidor de tão imensa dignidade e riquezas, não atribui a si nenhuma outra honra senão a de Servo de Deus! Como se pretendesse demonstrar que con­siderava mais dignificante ter realizado fielmente os deveres do ofício com o qual Deus o investira do que possuir todas as honras e excelências do mundo.

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Uma geração perversa busca sinais" (Mc 8.12) - João Calvino (1509-1564).

Visto que os judeus pedem sinais etc.(1 Co 1.22-24). Isto explica as sentenças anteriores, ou seja: Paulo está mostrando de que maneira a pregação do evangelho é tida como loucura. Contudo, ele não só explica, mas também o expande, dizendo que os judeus fazem mais do que reputar o evangelho como algo de pouco valor, pois eles, além disso, o detestam. "Os judeus", diz Paulo, "querem ter a evidência do poder divino, ante seus olhos, na forma de milagres. Os gregos amam o que possui o encanto da sutileza e se agradam da engenhosidade humana. Nós, na verdade, pregamos o Cristo crucificado, e, à primeira vista, não há nisto nada de extraordinário senão fraqueza e loucura. Portanto, ele não passa de pedra de tropeço para os judeus ao vê-lo aparentemente esquecido por Deus. Quando os gregos ouvem como foi que se procedeu a redenção, acreditam ouvir uma fábula." Em minha opinião, Paulo quer dizer pelo termo gregos não simplesmente os pagãos ou gentios, mas todos aqueles que eram educados nas ciências liberais, ou que eram de projeção em razão de sua inteligência superior. Todavia, por meio de sinédoque, todos os outros estão igualmente incluídos aqui. Em seguida, ele descreve uma distinção entre, judeus e gregos. Quando os judeus agrediam Cristo em seu extravagante zelo pela lei, eles trovejavam numa tormenta de fúria contra o evangelho - assim como os hipócritas sempre o fazem quando estão lutando por suas próprias crenças equivocadas (=superstitionibus). Os gregos, por outro lado, intumescidos de orgulho, desprezavam-no como sendo algo insípido. O fato de Paulo encontrar culpa nos judeus por serem tão solícitos na busca de sinais, não significa que, em si mesmo, seja errôneo desejá-los. Ele mostra, porém, onde estavam errados, à luz dos seguintes pontos: (1) em sua repetida insistência em exigir milagres, estavam, em certo sentido, prensando Deus sob suas leis; (2) através do embotamento de seu entendimento, queriam manter contato palpável com Deus por meio de milagres públicos; (3) sendo hipnotizados pelos próprios milagres, olhavam para eles com estupor; (4) em resumo, nenhum milagre poderia satisfazê-los, senão que a cada dia esperavam, ansiosos, ver um novo. Pois Ezequias não é censurado porque prontamente consentiu ser reanimado por meio de um sinal (2 Rs 19.29; 20.8). Mesmo Gideão não foi reprovado, embora buscasse um duplo sinal (Jz 6.37,39). No entanto, em contrapartida, Acaz é condenado porque rejeitou o sinal que lhe foi oferecido pelo profeta (Is 7.12). Portanto, por que os judeus estavam errados ao buscarem milagres? Porque não os buscavam para um bom propósito; não punham nenhum limite às suas exigências; não estavam fazendo bom uso deles. Pois enquanto a fé deve ser auxiliada pelos milagres, eles simplesmente se esforçavam por encontrar uma maneira de permanecerem em sua descrença. Enquanto que, para Deus, é ilícito sacrificar a lei, em seu monstruoso desejo eles não sabiam o que era abuso. Enquanto os milagres devem guiar-nos ao conhecimento de Cristo e da graça espiritual de Deus, para os judeus isto não passava de obstáculo. Por essa razão, também, Cristo os repreende, dizendo: "Uma geração perversa busca sinais" (Mc 8.12). Porquanto não havia limites para sua curiosidade e suas persistentes exigências; e assim que obtinham milagres, nenhum era o melhor para eles. Tanto gregos como judeus. Paulo mostra, por meio desta antítese, quão pessimamente é Cristo recebido, e que isto não é oriundo de alguma falha que porventura haja nele, nem tampouco pela natural inclinação do gênero humano, senão que sua causa consiste na perversidade daqueles que não haviam sido iluminados por Deus. Pois nenhuma pedra de tropeço impede os eleitos de Deus de virem a Cristo a fim de encontrar nele a certeza da salvação. Paulo contrasta poder com pedra de tropeço que advém da humildade de Cristo, como também confronta sabedoria com loucura. A essência disto é, pois, a seguinte: "Eu sei que nada, a não ser os sinais, pode ter algum efeito na obstinação dos judeus, e que na realidade só uma fútil espécie de sabedoria pode aplacar a atitude desdenhosa dos gregos. Não devemos, contudo, dar demasiada importância a este fato, visto que não importa o quanto nosso Cristo ofende os judeus com a ignomínia de sua Cruz e seja tratado com o máximo de desprezo pelos gregos; não obstante, ele é para todos os eleitos, de todas as nações, o poder de Deus para a salvação, para remover essas pedras de tropeço, e a sabedoria de Deus para afastar tudo o que se disfarça (=larvam) em sabedoria." Porque a loucura de Deus. Quando o Senhor trata conosco, de certa forma parece agir estapafurdiamente em razão de sua sabedoria não transparecer; não obstante, o que aparenta ser absurdo excede em sabedoria a toda a argúcia humana. Além do mais, quando Deus oculta seu poder e parece agir como se fosse frágil, o que se imagina ser fragilidade é, não obstante, mais forte do que todo o poder humano. Entretanto, devemos sempre observar, ao lermos estas palavras, que existe aqui uma concessão, segundo fiz notar um pouco antes. Pois alguém pode notar mui claramente quão impróprio é atribuir a Deus, seja loucura ou fraqueza; mas era indispensável que se usassem essas expressões irônicas ao rebater-se a insana arrogância da carne, a qual não hesita em espoliar a Deus de toda a sua glória.