segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Os Sinais de um Homem Carnal – Richard Baxter (1615-1693)

1. Quando um homem em seu desejo de agradar seu apetite, não faz isto visando um objetivo mais elevado, ou seja, a sua preparação para o serviço de Deus, mas somente para seu próprio prazer (claro que ninguém faz tudo conscientemente visando o serviço de Deus. Entretanto, uma vida gasta no serviço de Deus é ausente do prazer carnal, de maneira geral).

2. Quando ele procura mais ansiosa e diligentemente a prosperidade do seu corpo do que de sua alma.

3.Quando ele não se abstêm de seus prazeres, mesmo quando Deus os proíbe ou quando ferem sua alma, ou quando as necessidades de sua alma clamam que os deixe. Mas ele tem que ter seu prazer, não importa o que lhe custe; e é tão persistente nisto, que não o pode negar.

4. Quando os prazeres da carne excedem os deleites em Deus, Sua Santa Palavra e caminhos, e as expectativas de prazer infinito. E isto não só na paixão, mas na estima, escolha e ação. Quando ele prefere estar em um jogo, ou festa, ou outro entretenimento, ou adquirindo boas pechinchas ou lucros do mundo, do que viver na vida de fé e amor, que seria um modo santo e divino de viver.

5. Quando os homens fixam suas mentes em planejar e estudar para fazer provisão para os prazeres da carne e isto ocupa o primeiro lugar em seus pensamentos e lhe é prazeroso.

6. Quando eles conversam, ou ouvem, ou lêem mais coisas agradáveis à carne do que àquelas que deleitam o espírito.

7. Quando eles amam a companhia de pessoas carnais, mais do que a comunhão dos santos, nos quais eles poderiam ser exercitados no louvor ao Seu Criador.

8. Quando eles consideram que o melhor lugar para viver e trabalhar é onde eles podem satisfazer sua carne. Eles preferem estar onde têm coisas fáceis e onde nada falta para o corpo, do que em lugares onde têm muito melhor ajuda e provisão para a alma, apesar da carne ser atormentada por isso.

9. Quando ele está mais disposto a gastar dinheiro para agradar sua carne, do que para agradar a Deus.

10. Quando ele não acredita ou gosta de nenhuma doutrina exceto a "crença-fácil" (isto é, a fé que não requer obediência aos ensinos bíblicos) e odeia a mortificação, que classifica como "legalismo" muito rígido. Por estes sinais e outros semelhantes, podemos facilmente conhecer o homem carnal

domingo, 4 de dezembro de 2011

Namoro misto, pecado?

    Muitos crentes têm o seu coração dividido entre a paixão por uma pessoa descrente e o amor a Deus. O principal objetivo deste estudo visa ajudar jovens crentes que se encontram envolvidos em namoro com descrentes.


Namoro Vantagens e Perigos

    A Bíblia nada nos fala sobre namoro, a razão é porque nos tempos bíblicos os costumes eram outros, o pai era quem escolhia a noiva para seu filho.Uma vantagem no namoro de hoje é o conhecimento mútuo e a liberdade para poder acabá-lo.Um perigo se encontra nas carícias íntimas e um outro em achar que se pode namorar o quanto mais, melhor. Os prejuízos acarretados por uma pessoa assim reflete em uma imagem bastante depreciada, tempo sacrificado, constante exposição à sensualidade.

Namoro misto e separação

    Separação: um dos princípios básicos das Escrituras. Baseando-se nos princípios de separação existe uma exigência divina em que os crentes não devem ter uma comunhão íntima com os não-crentes (Gn 12.1; 2Co 6.14-18).Paulo indica que pessoas diferentes, ou seja, um crente e um descrente, que se encontram ligados entre si, sujeitos as mesmas obrigações e responsabilidades, constitui uma união não aprovada por Deus, um par desigual.Na relação entre crente e descrente o que se requer é: nada de jugo desigual, sociedade, comunhão, harmonia, união ou ligação.Existem relacionamentos que são aprovados entre o crente e o descrente: amizade comum, transação comercial, profissional, grêmios culturais e esportivos em colégios, etc. Da mesma forma os não aprovados: sociedade comercial, casamento, comunhão espiritual.
    Em uma amizade íntima de um crente com um descrente há três grandes perigos:
  1. Esse tipo de amizade desenvolve uma forte influência de um para com o outro.
  2. O crente sente-se de várias formas tentado a se comportar de forma não recomendável para acompanhar o seu amigo descrente.
  3. Esse tipo de amizade toma muito tempo do crente. O namoro desigual colide com outros princípios bíblicos.
    E Mais três princípios: Namoro Misto e o Propósito das Ações
    Um namoro cheio de propósitos puros gera automaticamente atitudes corretas (1Sm 10.7b). O propósito de todo namoro deve ser o casamento e quando esse propósito não está na mente dos namorados, então o namoro fica distorcido.

Namoro Misto e a Pureza do Crente

    No namoro, o sexo mesmo sendo entre crentes, constitui-se em uma das áreas mais delicadas da vida cristã. Sabemos que o sexo em si não é de forma alguma pecaminosa, pois foi dado por Deus, porém este deve ser praticado exclusivamente entre casados. Entre o casal de namorados há sempre uma forte atração sexual. Deve-se cuidar com carinhos que no início são sempre ingênuos, logo avançam e transformam-se em intimidades sexuais.Paulo incita aos crentes a fugirem de toda sorte de imoralidade. Existe uma probabilidade bem grande do crente contaminar a sua pureza com o descrente. Deus exige que seus filhos mantenham-se incontaminados e o descrente dificilmente contribui para isso.
Namoro Misto e o Bom Testemunho

    O namoro misto para o crente, provoca mau testemunho e sofrimento para sua igreja. Ele afeta o testemunho para com os de fora, ocorrendo então vários comentários e cobranças para com o crente. Para com os de dentro o crente pode influenciar recém-convertidos a seguirem o seu exemplo. Paulo nos fala que o crente deve ter um testemunho digno para com todos.

Argumentos???

    Muitos procuram arranjar bons argumentos para lhes servirem de "tábua de salvação". Entre os vários estão:
    "Eu não namoro para casar", porém esquecem que estão deturpando o significado do namoro.
    "Eu não consigo acabar o namoro", muitos culpam a Deus por não conseguirem terminar tal namoro, porém esquecem que 'Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças'. O problema é evidenciado na falta de forças para enfrentar a vida sem aquele namoro. O que estes devem fazer é: primeiro, acabá-lo; segundo, e depois serem capacitados a suportar as consequências. Talvez alegam que gostam mais da namorada ou namorado e não suportaria ficar longe dela, amando mais a ela do que a Cristo; ou alegam que a namorada o ama tanto e sofreria com o seu fim. Mas Cristo nos amou muito mais, sendo cuspido por amor de nós, esbofeteado no rosto, humilhado e escarnecido publicamente e ainda como se não bastasse morreu em uma cruz, tudo por amor a você.
    "Estou evangelizando a minha namorada", mas esquecem que se não estão obedecendo a Deus, como esperar que ela o faça?
    "Muitos namoros desiguais já deram certo", porém se esquecem que fatos isolados não nos dão condições para conclusões definidas. Algumas vezes é a misericórdia de Deus por esse filho, apesar do namoro irregular.
    "Dificilmente conseguirei um crente para namorar e casar", porém esquecem do poder e do cuidado de Deus por seus filhos e que Ele pode providenciar tudo, inclusive uma namorada.
    "Já sou muito fiel em outras áreas", dizendo assim se esquecem que Cristo quer que guardemos todos os seus mandamentos.
    "Já fui disciplinado, agora é que eu namoro mesmo", mas esquecem que a disciplina é para o crente sentir o peso do pecado e voltar para os passos de Cristo; reagir negativamente é acrescentar pecado sobre pecado.

Vale a Pena?

    Os que namoram descrentes e acham que sinceramente não estão cometendo pecado algum, torna-se necessário fazer uma avaliação sobre este assunto da vida cristã baseado nas seguintes perguntas:
  • Tem examinado as Escrituras?
  • Tem orado?

nbsp;   Os que usam os argumentos apenas como mera desculpa se encontram bem mais complicados diante de Deus, pois estão sendo hipócritas e Cristo falou claramente contra esse tipo de pessoa.
    

nbsp;   Uma pergunta pode ser feita: Vale a pena correr o risco de desagradar a Deus com um namoro misto?

    Os riscos possíveis seriam:

  • Entristecer o Espírito Santo;
  • Sofrer disciplina diretamente de Deus;
  • Provocar sofrimento a Igreja em geral e irmãos em particular;
  • Sofrer disciplina da Igreja; mostrar-se indigno do Senhor Jesus Cristo;
  • Vir a casar-se com o descrente, comprometendo sua futura felicidade;
  • Os filhos desse casamento misto serão orientados de uma maneira confusa.
    

    Outra pergunta seria: Vale a pena praticar algo que é, no mínimo, duvidoso?
    A Palavra de Deus diz que aquele que pratica o que se tem dúvida é condenado. Em suma: ele está pecando perante Deus. Não um pecado que é passageiro, sendo por um breve momento cometido, e sim um pecado consciente, contínuo, prolongado.

    O melhor é que o servo do Senhor aguarde por uma serva de Cristo. Saiba que é para sua felicidade e testemunho do servo fiel.

Por Pr. Cleverson de Abreu Faria

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Vitória na Aflição! - C. H. Spurgoen



Ó inimiga minha, não te alegres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; se morar em trevas, o SENHOR será a minha luz" - Miquéias 7.8



SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.

Cinco características de uma Falsa Paz - John Owen (1616-1683)



1. Qualquer paz que não traga com ela ódio ao pecado que tem perturbado sua paz é falsa
A paz que Deus fala à alma sempre traz com ela um sentimento de vergonha, e um santo desejo de mortificar seus desejos pecaminosos. Se olhar para Cristo, a Quem seu pecado traspassou (se não fizer isso não haverá nem cura e nem paz) você deve prantear (veja Zac. 12:10). Quando você vai a Cristo buscando cura, sua fé repousa em um Salvador ferido e traspassado. Ora, se fizer isso na força do Espírito Santo, ser-lhe-á dado ódio pelo pecado que tem perturbado sua paz. Quando Deus nos dá a paz a alma se envergonha dos diversos modos como o pecado tem estragado nossa paz com Deus (Ez. 16:59-63).
E possível estarmos perturbados pelas consequências do pecado, mesmo sem odiarmos o próprio pecado. Na sua perturbação você pode estar buscando a misericórdia de Deus e ao mesmo tempo se apegando ao pecado que ama. Por exemplo:   sua consciência o convence de estar amando o mundo. Esse modo de buscar misericórdia nunca lhe trará paz verdadeiramente sólida. As palavras de Deus: "Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele" (1 João 2:15) perturbam sua paz. Na sua perturbação, você se volta para Deus para que Ele cure sua alma, porém está mais preocupado com as consequências do seu amor pelo mundo do que com o mal desse amor. Esse é um mau sinal! Talvez seja salvo; no entanto a não ser que Deus por Suas ações especiais o faça realmente odiar o pecado, você terá pouca paz nesta vida.
2. Qualquer paz que não seja acompanhada pela ação do Espírito convencendo do "pecado e da justiça e do juízo" é uma falsa paz.
A Palavra de Deus nunca fala de paz "somente em palavras", ela vem no poder do Espírito Santo. A paz de Deus de fato cura a ferida. Quando nos damos a nós mesmos uma falsa paz, não passará muito tempo até que o pecado que havia perturbado nossa paz apareça outra vez.
Como regra geral, Deus espera que Seus filhos aguardem até que estejam certos que Ele lhes deu a paz. Como disse o profeta Isaías: "Esperarei no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei" (Is. 8:17). Deus pode curar a ferida do pecado num instante. Contudo, às vezes, como um médico, Ele gasta tempo limpando a ferida completamente para que ela se cure adequadamente. Aqueles que dão uma falsa paz para si mesmos nunca têm tempo para esperar que Deus faça Sua obra completa. Tais pessoas correm para Deus buscando paz e presumem que ela foi concedida no momento em que a pediram. Não há aquele esperar para que o Espírito de Deus cure a ferida do pecado completamente.
A paz de Deus dulcifica o coração e dá gozo à alma. Quando Deus fala paz, Suas palavras não são apenas verdadeiras, mas elas fazem bem à alma. "Sim, as minhas palavras fazem o bem" (Miq. 2:7). Quando Deus fala paz, ela guia e guarda a alma de modo que não retorne à insensatez (Sal. 85:8). Quando as pessoas falam paz para si mesmas, o coração não é curado do mal e, elas continuam num estado de transvio. Quando Deus fala paz, vem junto uma percepção tal do Seu amor, que a alma se sente obrigada a mortificar os desejos pecaminosos.
3. Toda e qualquer paz que trate do pecado de um modo superficial é uma falsa paz Como já vimos antes, esta é a queixa que Jeremias fez dos falsos profetas do seu tempo. "Paz, paz" eles dizem, "quando não há paz" (Jer. 6:14). Da mesma maneira, algumas pessoas fazem da cura de suas feridas pecaminosas uma obra fácil. Olham para algumas promessas das Escrituras e pensam que estão curadas. Uma promessa das Escrituras só pode efetuar o bem quando misturada com a fé. (Heb. 4:2). Não se trata de um mero olhar para a palavra de miseri¬córdia e, pronto, isso traz a paz. O olhar precisa estar misturado com a fé até que você a tenha apropriado para si. De outra maneira, qualquer paz que tenha obtido é uma falsa paz. Neste caso não vai demorar muito até que sua ferida se abra novamente e você fique sabendo que ainda não está curado.

4.      Qualquer paz que trate do pecado de uma maneira parcial é falsa -
O cristão sincero não buscará apenas estar em paz com seus desejos pecaminosos que mais o perturbam. Tentar lidar com o pecado que mais o atormenta, sem lidar também com aqueles pecados que o perturbam menos, realmente seria tratar do pecado com parcialidade. Qualquer paz que pareça vir de se lidar com o pecado dessa maneira é falsa. Só podemos esperar a paz de Deus quando tivermos respeito igual por todos os Seus mandamentos. Deus nos justifica de todos os nossos pecados. Deus nos manda abandonarmos todos os nossos pecados. Ele é um Deus de olhos puros e não pode olhar para a iniqüidade.
5.      A paz de Deus é uma paz que nos humilha como aconteceu no caso de Davi (veja Sal. 51:1)
Pense na profunda humilhação sentida por Davi quando Natan  lhe trouxe a palavra perdoadora de Deus (2 Sam. 12:13).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Aprendo com Lutero que a oração é uma linda aventura! ( I )


(Do 1º ao 5º Mandamento)
Lutero: Sempre oro sobre os Dez Mandamentos. Pego um ponto depois do outro, para que fique inteiramente livre para a oração (o quanto isso for possível), fazendo de cada mandamento um quádruplo, ou uma coroa torcida quatro vezes, ou seja: Tomo cada mandamento primeiro como um ensinamento, como ele na realidade o é em si mesmo, e reflito o que nosso Senhor Deus nele exige de mim com tanta seriedade; por outro, faço dele uma ação de graça; em terceiro lugar, uma confissão, e em quarto, uma oração, a saber, da seguinte maneira, com pensamentos e palavras deste tipo:
O Primeiro mandamento:
“Eu sou o Senhor teu Deus”, etc. “Não terás outros deuses além de mim”, etc.
Aqui penso em primeiro lugar que Deus exige de mim e me ensina a confiar nele de coração em todas as coisas, e que ele, muito seriamente, deseja ser meu Deus. E como tal devo considerá-lo, sob pena de perder a eterna bem-aventurança. E meu coração em nada mais deve basear-se ou confiar, seja em algum bem, honra, sabedoria, poder, santidade ou qualquer criatura.
Em segundo lugar, sou grato à sua insondável misericórdia, por se voltar tão paternalmente para mim, homem perdido, oferecendo-se a si mesmo sem ser solicitado nem procurado e sem qualquer merecimento meu, para ser meu Deus, aceitar-me, e por querer ele ser meu consolo, proteção, auxilio e força em todas as aflições. Isso que nós pobres e cegos seres humanos temos procurado diversos deuses e ainda os procuraríamos, caso ele mesmo não se fizesse ouvir de forma tão manifesta e se nos não oferecesse em nossa linguagem humana, querendo ser nosso Deus. Quem, por tudo isso, lhe pode agradecer o bastante para sempre e eternamente?
Em terceiro lugar, confesso e professo meu grande pecado e ingratidão, de ter desprezado, de maneira tão vergonhosa, doutrina tão bela e dádiva tão valiosa por toda minha vida, e de ter provocado sua ira de forma tão horrível com inúmeras idolatrias; isso me dói e peço misericórdia. Em quarto lugar, peço e falo: Deus meu e Senhor, ajuda-me por tua graça que eu, a cada dia, consiga aprender e compreender melhor este teu mandamento e possa em confiança sincera, agir de acordo. Protege meu coração, para que não me torne tão esquecido e ingrato, não procure outros deuses nem consolo em quaisquer criaturas, mas permaneça de todo o coração unicamente contigo, meu único Senhor. Amém, querido Senhor Deus e Pai, amém.
O segundo mandamento:
“Não abusarás do nome do Senhor teu Deus”, etc.
Primeiro aprendo daí que devo manter glorioso, santo e belo o nome de Deus, e, por meio dele, não jurar, imprecar, mentir; não ser presunçoso nem procurar a própria dignidade ou nome, mas, em humildade invocar, adorar, exaltar e glorificar o seu nome. E deixo que toda minha honra e glória esteja no fato de ele ser meu Deus e de eu ser sua pobre criatura e servo indigno.
Por outro lado, agradeço pela dádiva maravilhosa que ele me concedeu: De me ter revelado e concedido seu nome; de eu poder me gabar do seu nome e me deixar chamar de servo e criatura de Deus, etc.; e de seu nome ser meu refúgio como um castelo forte (conforme diz Salomão), no qual o justo se refugia e é protegido (Provérbios 18.10).
Em terceiro lugar, confesso e professo meu vergonhoso e grave pecado que cometi contra este mandamento em minha vida: Não só deixei de invocar, de exaltar e de glorificar o seu santo nome, mas também me mostrei ingrato por essa dádiva, dela abusando para toda sorte de infâmia e pecado, jurando, mentindo, enganando, etc. Disso me arrependo e imploro misericórdia e perdão, etc.
Em quarto lugar, suplico auxílio e força, para doravante poder aprender bem esse mandamento. Peço que me guarde dessa vergonhosa ingratidão, o abuso e pecado contra seu nome, e, ao invés, seja achado agradecido e no devido temor e glorificação de seu nome. E como disse acima com referência ao pai-nosso, da mesma forma recomendo mais uma vez: Caso o Espírito Santo intervier nesses pensamentos e começar a pregar em eu coração com ricos e iluminados pensamentos, dê-lhe a honra, então, e deixe de lado esses pensamentos preconcebidos; fique quieto e escute aquele que o sabe fazer melhor do que você; e o que ele pregar, isso grave e tome nota. E haverá de contemplar maravilhas na lei de Deus (como diz Davi, Salmo 119.18).
O terceiro mandamento:
“Lembra-te de santificar o dia de descanso”
Aqui tomo conhecimento, em primeiro lugar, de que o dia de descanso é uma lei, destinado não para o ócio nem para o prazer carnal, mas para ser por nós santificado. Mas não é por nossa obra e atuação que ele é santificado; porque nossas obras não são santas; é santificado pela palavra de Deus, pois só ela é pura e santa, e santifica a tudo que com ela está em contato, seja tempo, lugar, pessoa, trabalho, descanso, etc. Pois através da palavra também as nossas obras se tornam santas, conforme diz S. Paulo em 1 Timóteo 4.4s: Toda criatura é santificada através da palavra e da oração.

Por esse motivo vejo nisso que no dia de descanso eu devo, em primeiro lugar, ouvir e refletir sobre a palavra de Deus, e na mesma palavra então agradecer e louvar a Deus por todas as suas bênçãos, bem como orar por mim e por todo mundo. Quem assim procede no dia de descanso, esse o santifica. Quem não o faz, age pior do que aqueles que nele trabalham.
Em segundo lugar, agradeço nesse mandamento pela grande e bela bênção e graça de Deus de nos ter concedido sua palavra e pregação, mandando-nos praticá-las em especial no dia de descanso. Esse tesouro, não há coração humano que o possa valorizar o bastante, pois sua palavra é a única luz nas trevas desta vida, e é uma palavra da vida, de consolo e de toda bem-aventurança. E onde não estiver presente a querida e salutar palavra, ali há só terrível e assustadora escuridão, engano, sectarismo, morte, toda sorte de infelicidade e tirania do diabo, como todos os dias vemos diante dos nossos olhos.
Em terceiro lugar, confesso e professo meu grande pecado e vergonhosa ingratidão de ter passado os dias de descanso de forma tão infame em minha vida, desprezando de maneira tão lastimável sua palavra cara e preciosa; de ter sido preguiçoso, indisposto e enfastiado de ouvi-la, isto para não falar de que jamais a procurei de coração nem por ela agradeci. Deixei, portanto, que meu Deus em vão pregasse para mim e desprezei o tesouro precioso, pisando-o com os pés. E ele o tolerou de minha parte por exclusiva bondade divina, e nem por isso deixou de continuar a pregar para mim e de me chamar para a bem-aventurança de minha alma, com todo amor e toda a fidelidade paterna e divina; por isso lamento e peço misericórdia e perdão.
Em quarto lugar, rogo por mim e por todo mundo que o Pai amado nos queira conservar junto à sua santa palavra, não a tire de nós por causa do nosso pecado, de nossa ingratidão e negligência; queira ele proteger-nos contra espíritos sectários e falsos mestres, e nos enviar bons e fiéis obreiros para a sua seara, isto é, pastores e pregadores leais e devotos; ele também nos dê a graça de, em humildade, ouvirmos, aceitarmos e fazermos jus a essa palavra que é sua própria palavra, e de agradecermos e louvarmos de coração por isso; e assim por diante.

O quarto mandamento:
“Honrarás a teu pai e tua mãe”
Primeiramente, aprendo aqui a reconhecer em Deus o meu Criador e como me criou de forma tão maravilhosa com corpo e alma; que dos meus pais me deu a vida, e lhes deu o coração de me servirem como fruto do seu corpo na medida em que lhes foi possível, que me alimentaram, conservaram, cuidaram e educaram com muito zelo, preocupação, risco, esforço e trabalho. E até este momento ele me guardou e muitas vezes também ajudou como sua criatura, em corpo e alma, contra inúmeros perigos e dificuldades, como se a cada momento me criasse de novo. Pois o diabo nem por um momento sequer deixa de nos invejar a vida.
Por outro lado, agradeço ao rico e bondoso Criador, por mim e todo o mundo, por ter, com esse mandamento, instituído e preservado o crescimento e a conservação do gênero humano — a vida familiar e a vida pública. Pois sem essas duas instituições ou regimes o mundo não poderia persistir nem por um ano, porque sem o regime secular não há paz; e onde não há paz, não pode haver vida familiar; onde não há vida familiar, não podem ser gerados nem educados filhos, e paternidade e maternidade teriam que acabar completamente. Mas para isso está aí esse mandamento, mantendo e guardando a ambos, vida familiar e vida política, determinando obediência para filhos e súditos, cuidando também para que ela realmente seja prestada. Ou então, onde isso não acontecer, ele não o deixa impune. Caso contrário, os filhos há muito que teriam solapado toda a vida familiar com sua desobediência, e os súditos teriam acabado com a vida política através de tumultos, porque seu número é muito maior que o de pais e regentes. Por essa razão também essa bênção é inestimável.
Em terceiro lugar, confesso e professo minha lastimável desobediência e pecado pelo fato de ter infringido esse mandamento do meu Deus: Não honrei meus pais, nem fui obediente; indignei e ofendi-os com freqüência; aceitei seu castigo paternal com impaciência e resmunguei contra eles; desconsiderei sua leal admoestação, preferindo o convívio irresponsável de malandros perversos. Isto que Deus mesmo não permite que esses filhos desobedientes escapem e tenham vida longa, como, pois, muitos há que por causa disso morrem e sucumbem de modo vergonhoso antes de alcançarem idade adulta. Pois quem não obedece a pai e mãe, tem que obedecer ao carrasco ou senão perder cruelmente sua vida pela ira de Deus, etc. Por tudo isto lamento e peço misericórdia e perdão.
Em quarto lugar, rogo por mim e por todo mundo que Deus nos queira conceder sua graça e derramar ricamente sua bênção sobre a vida familiar e vida política; que doravante nos tornemos devotos, honremos os pais, sejamos obedientes às autoridades, resistamos ao diabo e não sigamos sua incitação à desobediência e tumulto; que, portanto, ajudemos ativamente a melhorar o lar e o país, e manter a paz, em honra e louvor a Deus, para o nosso próprio proveito e todo bem; e que reconheçamos essas suas dádivas e sejamos gratos por elas. Aqui deve acompanhar também a intercessão pelos pais e autoridades: Que Deus lhes conceda entendimento e sabedoria de nos liderarem e governarem de forma pacífica e venturosa. Ele os guarde da tirania, de excessos e de fúrias desenfreadas. Que os livre disso, para que honrem a palavra de Deus, não provoquem perseguições nem causem injustiça a alguém, porque essas dádivas elevadas se têm que alcançar através da oração, como o ensina S. Paulo em Colossenses 4.2. Senão o diabo acaba tomando conta e atua de modo perverso e desenfreado.
E se você também for pai ou mãe, então agora é a ocasião de não se esquecer de si mesmo, nem dos seus filhos e da sua criadagem. Peça com seriedade que o querido Pai o colocou na dignidade do seu nome e ofício e quer que você também seja chamado e honrado como pai. Peça-lhe, pois, com seriedade que lhe conceda a graça e a bênção de dirigir e alimentar sua mulher, seus filhos e sua criadagem de forma divina e cristã; que lhe dê sabedoria e força de bem educá-los; e a eles, um bom coração e boa vontade de seguirem seus ensinamentos e de lhe obedecerem. Pois tanto as próprias crianças como o seu desenvolvimento são dádivas divinas, tanto que saiam bem e permaneçam bem. Caso contrário um lar nada será senão um chiqueiro, sim, uma escola de malandros, como se observa entre a gente ímpia e devassa.

O quinto mandamento:
“Não matarás”
Aqui aprendo, em primeiro lugar, que Deus deseja de mim que eu ame meu próximo, de forma que não lhe cause nenhum dano em seu corpo, seja em palavras, seja em atos; não me vingue nem o prejudique com minha raiva, impaciência, inveja, ódio ou qualquer malevolência, mas saiba que tenho a obrigação de ajudá-lo e dar-lhe conselho adequado em todas as suas necessidades físicas. Pois com esse mandamento Deus me incumbiu da guarda do corpo do meu próximo, e determinou, por sua vez, a meu próximo que guarde o meu corpo, como fala Siraque: A cada um de nós ele confiou o seu próximo.
Por outro lado, agradeço aqui por este indizível amor, providência e fidelidade para comigo: por ter levantado esta tão grande e forte guarda e muralha ao redor do meu corpo, fazendo com que todas as pessoas tenham a obrigação de me poupar e me proteger, assim como também eu tenho esta mesma obrigação para com todas as demais pessoas. Ele também cuida de sua observância, e onde ela não se realiza, Deus estabeleceu a espada para castigo daqueles que não o cumprem. Caso contrário, não existisse esse seu mandamento e instituição, o diabo haveria de perpetrar tamanho morticínio entre nós pessoas humanas, que ninguém poderia viver em segurança por uma hora sequer, como de fato acontece quando Deus se indigna e pune o mundo desobediente e ingrato.
Em terceiro lugar, confesso e lastimo aqui a maldade minha e do mundo: Não só a terrível ingratidão por este seu paternal amor e cuidado para conosco, mas — e isto é o mais vergonhoso — o fato de não conhecermos tal mandamento e ensino, tampouco dele querermos tomar conhecimento; desprezamo-lo, como se nada tivesse a ver conosco ou como se dele nenhum proveito pudéssemos ter. E ainda andamos despreocupados, e nem sequer deixamos que nossa consciência se impressione com o fato de, à revelia deste mandamento, desprezarmos, abandonarmos, sim, perseguirmos e lesarmos o nosso próximo, ou até o matarmos em nosso coração, agindo conforme a nossa ira, raiva e toda maldade, como se estivéssemos agindo bem e corretamente.
A verdade é que está na hora da lamentação e do clamor sobre nós facínoras malvados e gente cega, selvagem e má, que nos pisamos, batemos, esfolamos, mutilamos, mordemos e devoramos mutuamente como animais enfurecidos, e não nos deixamos intimidar o mínimo por esse sério mandamento de Deus; e assim por diante.
Em quarto lugar, peço que o Pai amado nos queira ensinar a reconhecer esse seu santo mandamento e ajudar com que também procedamos e vivamos de acordo: Que nos proteja a todos daquele homicida que é o mestre e exemplo de todo morticínio e dano (João 8.44). Que conceda sua graça abundante para que as pessoas (e nós com elas) sejam amáveis, mansas e bondosas entre si, perdoem-se sinceramente e cada um suporte a falha e defeito do outro de forma cristã e fraternal. E assim vivam em boa paz e união, como no-lo ensina e de nós exige esse mandamento.