sábado, 6 de novembro de 2010

Você é Consagrado?

O cristão vivo é o consagrado. É nossa distância do céu que nos torna tão insípidos: é o fim que vivifica todos os meios, e mais vigoroso será nosso movimento, se observamos esse fim com freqüência e de forma clara. Como os homens trabalham de forma incansável e se aventuram sem medo, quando pensam em um prêmio proveitoso! Como o soldado arrisca sua vida, e o marinheiro enfrenta tormentas e ondas; como eles, cheios de alegria, circundam a terra e o mar, e nenhuma dificuldade os intimida, quando pensam em um tesouro incerto e perecível! Quanta vida seria acrescentada nos esforços do cristão se ele antecipasse com freqüência esse tesouro eterno! Corremos devagar, e esforçamo-nos de forma indolente, porque nos importamos muito pouco com o prêmio! Quando o cristão saboreia constantemente o maná velado, e bebe dos rios do Paraíso de Deus, como esse manjar e néctar divinos acrescentam vida a ele!


Como, em suas orações, seu espírito será fervoroso, quando ele considerar que ora por nada menos que o céu! Observe o homem que passa muito tempo no céu e verá que ele não é como os outros cristãos. Algo do que ele viu lá em cima aparece em suas responsabilidades e em sua conversa; ainda mais, pegue esse mesmo homem logo após retornar dessas visões bem-aventuradas e perceberá facilmente que ele se sobrepuja a si mesmo, e como seus sermões são divinos. Se ele for um cristão comum, ele terá uma conversa divina, orações divinas e atitudes divinas! Quando Moisés esteve com Deus no monte, ele recebeu tanta glória de Deus que seu rosto resplandecia a ponto de as pessoas não conseguirem olhar para ele.

Amados amigos, se você apenas se dedicar a isso, essa glória também estará com você. Os homens, quando conversassem com você, veriam sua face resplandecer e diriam: "Certamente, ele esteve com Deus". Se você tivesse luz e calor, então por que não passaria mais tempo debaixo da luz do sol? Se você tivesse mais dessa graça que flui de Cristo, por que não passaria mais tempo com Cristo para ter ainda mais? Sua força está no céu, e sua vida também está no céu, e ali você deve buscá-las todos os dias, se quiser tê-las. Por falta desse recurso do céu, sua alma é como uma vela apagada, e seu serviço como um sacrifício sem fogo. Para sua oferta queimar, é preciso que busque carvão nesse altar. Para sua vela brilhar, é preciso acendê-la nessa chama e alimentá-la todos os dias com o óleo proveniente dali; fique próximo desse fogo renovador e veja como seus sentimentos ficarão revigorados e fervorosos. Como os olhos alimentam os sentimentos sensuais por meio do olhar fixo nos objetos fascinantes, também os olhos de nossa fé, por meio da meditação, inflamam nossos sentimentos em relação ao Senhor, ao mirar com freqüência essa mais sublime beleza.



Você pode exercitar suas funções de muitas outras formas, mas essa é a forma de exercitar suas bênçãos. Todas elas provêm de Deus, a fonte, e levam a Deus, o fim último, e são exercitadas em Deus, o objeto principal delas, de forma que Deus é tudo em todos. Elas vêm do céu, e a natureza delas é divina, e elas o direcionarão para o céu e o levarão para lá. E como o exercício abre o apetite e dá força e vida ao corpo, o mesmo também acontece com a alma. Pois como a lua é mais gloriosa e fica mais cheia quando fica mais diretamente face a face com o sol, também sua alma ficará mais cheia de dons e de bênçãos quando vir a face de Deus mais de perto. Seu zelo compartilhará da natureza dessas coisas que o impulsionam: portanto, o zelo que é inflamado por suas meditações sobre o céu, provavelmente, será um zelo mais divino, e a vida do espírito que você busca na face de Deus deve resultar em uma vida mais sincera e consagrada.

Se você apenas pudesse ter o espírito de Elias, e na carruagem da contemplação pudesse elevar-se nas alturas até que se aproximasse da vivificação do Espírito, sua alma e seu sacrifício arderiam gloriosamente, apesar de a carne e o mundo lançar sobre eles a água de toda sua inimizade antagônica. Pois a fé tem asas, e a meditação é a carruagem; sua responsabilidade é tornar presente as coisas ausentes. Você não vê que um pequeno pedaço de vidro, quando direcionado para o sol, condensará de tal forma seus raios e calor a ponto de queimar aquilo que está atrás dele, mas que, sem ele, esse objeto teria recebido apenas pouco calor? Oras, sua fé é o vidro que faz queimar seu sacrifício, e a meditação o posiciona diante do sol; apenas não o afaste logo, mas segure-o ali por um pouco de tempo, e sua alma sentirá o venturoso efeito.

Certamente, se conseguirmos entrar no Santo dos Santos, trazendo de lá a imagem e o nome de Deus, guardando-os em nosso coração, bem pertinho de nós, isso possibilitará que façamos maravilhas: toda responsabilidade que realizarmos será uma maravilha, e aqueles que a presenciarem prontamente dirão: "Ninguém jamais falou da maneira como esse homem fala" (Jo 7.46). O Espírito nos dominará, como aquelas línguas de fogo, e far-nos-á falar a todos sobre as obras maravilhosas do Senhor.

Autor – Richard Baxter

A Glória da Obediência de Cristo

Havia uma glória invisível em tudo o que Cristo fez e sofreu na terra. Se as pessoas a tivessem visto, elas não teriam crucificado o Senhor da glória. Entretanto, aquela glória foi revelada a alguns; os discípulos “viram a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).




Primeiro, vamos considerar a obediência de Cristo naquilo que Ele fez. Ele livremente escolheu obedecer. Ele disse: “Eu vim para fazer a tua vontade, ó Deus”, antes de haver necessidade pra Ele fazer essa vontade. Ele não era como nós, criaturas humanas, que necessariamente sempre estivemos sujeitos à lei de Deus. João Batista sabia que Jesus não tinha necessidade de ser batizado. Mas Cristo disse: “Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15). Cristo voluntariamente Se identificou com os pecadores quando foi batizado.



Deus deu-lhe honra e glória porque, pela sua obediência, a Igreja toda se tornou justa (Rm 5.19). A obediência de Cristo a cada parte da lei foi perfeita. A lei era gloriosa quando os Dez Mandamentos foram escritos pelo dedo de Deus. Ela se torna mais gloriosa ainda quando é obedecida nos corações dos crentes. Mas é apenas na mais absoluta e perfeita obediência de Cristo que a santidade de Deus na lei é vista em sua glória total. “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padecer” (Hb 5.8). O Senhor de todos, que fez a todos, viveu em estrita obediência à lei de Deus. Posto que Ele era uma pessoa singular, a Sua obediência possui a glória de Sua singularidade.



Ora, considerem a glória da obediência de Cristo demonstrada naquilo que Ele sofreu. Ninguém jamais pode medir a profundidade dos sofrimentos de Cristo. Podemos olhar para Ele sob o peso da ira de Deus, em Sua agonia e suor de sangue, nos Seus fortes gritos e lágrimas. Podemos olhar pra Ele orando, sangrando, morrendo, fazendo da Sua alma uma oblação pelo pecado. “Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo de sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes: pela transgressão do meu povo foi ele atingido” (Is 53.8). “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33). Quão glorioso é o Senhor Jesus aos olhos dos Seus redimidos!



Por causa do pecado de Adão, ele e todos os seus descendentes se acham diante de Deus sujeitos a perecer eternamente sob a ira de Deus. Enquanto, nessa condição o Senhor Jesus vem até os pecadores persuadidos, com o Seu convite: “Pobres criaturas! Como é triste a sua condição! O que aconteceu com a beleza da glória e da imagem de Deus nos quais vocês foram criados? Vocês agora têm a imagem deformada de Satanás; pior que isso, miséria eterna aguarda vocês. No entanto, olhem para cima mais uma vez; contemplem-Me! Eu me colocarei em seus lugares. Eu suportarei o peso da culpa e a punição que jogaria vocês para sempre no inferno. Eu me tornarei, temporariamente, em maldição para vocês, para que possam ter bem-aventurança eterna”.



Contemplemos a glória demonstrada no evangelho:Jesus Cristo é crucificado diante dos nossos olhos (Gl 3.1). Nós só entendemos as Escrituras à medida que vemos nelas o sofrimento e a glória da Cristo. A sabedoria do mundo não vê nada neles a não ser estultícia. “Mas, se ainda nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2Co 4.3-4).

Autor- John Owen

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Deus Designa Quem Irá Sofrer

No primeiro caso, "Deus tem designado quem irá sofrer. O sofrimento não sobrevêm por acaso, nem pela vontade do homem, mas pela vontade e pelo desígnio de Deus". Assim, Bunyan cita ITessalonicenses 3.3, "... para que ninguém seja abalado por essas tribulações. Vocês sabem muito bem que somos designados para isso". Bunyan nos relembra que não devemos pensar que o sofrimento é algo estranho para quem teme a Deus (IPe 4.12), e apela para Apocalipse 6.11, onde é dito aos mártires sob o altar, no céu, que "esperassem um pouco mais, até que se completasse o número dos seus conservos e irmãos, que deveriam ser mortos ["marque bem isto", comenta Bunyan] como eles". Um número designado de mártires! Bunyan conclui daí, "Sofrimento por justiça e por causa da justiça, é pela vontade de Deus. Deus tem designado quem deve sofrer"
"Meu Futuro Está em Tuas Mãos"
Em segundo lugar, "Deus tem designado ... quando eles sofrerão pela sua verdade aqui neste mundo. As épocas de sofrimento para esta ou aquela pessoa são determinadas, quanto ao tempo em que serão provadas por sua fé". Daí, quando Paulo estava temeroso em Corinto, o Senhor o fortaleceu em um sonho, dizendo, "Não tenha medo, continue falando e não fique calado, pois estou com você, e ninguém vai fazer-lhe mal ou feri-lo, porque tenho muita gente nesta cidade" (At 18.9-10, NVI). "O tempo do seu sofrimento", escreve Bunyan, "ainda não havia chegado". O mesmo foi dito de Jesus, " Então tentaram prendê-lo, mas ninguém lhe pôs as mãos, porque a sua hora ainda não havia chegado" (Jo 7.30). Bunyan conclui, "As épocas, portanto, e as ocasiões, mesmo para os sofrimentos do povo de Deus, não estão nas mãos do inimigo, mas nas mãos de Deus; como Davi disse, 'O meu futuro está em tuas mãos'" (SI 31.15).
Santos Sofredores São Borrifados Sobre a Terra Para Evitar que Ela Cheire Mal

Em terceiro lugar, "Deus tem designado onde este, aquele ou outro bom homem qualquer deve sofrer. Moisés e Elias, quando apareceram no monte santo, contaram a Jesus os sofrimentos que ele deveria cumprir em Jerusalém" (Lc 9.30-31). "Os santos são borrifados pela mão de Deus aqui e ali, como o sal é colocado na carne, para evitar que ela cheire mal. Eles são espalhados pelo mundo para temperar a terra; assim, da mesma forma, onde eles devem sofrer é também designado para uma melhor confirmação da verdade. Cristo disse que 'nenhum profeta deve morrer fora de Jerusalém' (Lc 13.33). Mas, por que...? Deus designou que devem sofrer ali. Assim, então, quem, quando e onde estão na vontade de Deus e, conseqüentemente, são designados por aquela vontade".
"O Tipo de Morte Com a Qual Pedro Iria Glorificar a Deus"
Em quarto lugar, "Deus tem designado ... que tipo de sofrimento pelo qual este ou aquele santo deverá passar — Deus disse que mostraria a Paulo, antecipadamente, quantas coisas ele deveria sofrer por sua causa (At 9.16). E está dito que Jesus indicou a Pedro, antecipadamente, "o tipo de morte com a qual [ele] iria glorificar a Deus" ( Jo 21.19). Assim como Deus designa a época, o lugar e as pessoas, assim também com o tipo de sofrimentos que suportamos: eles "estão todos escritos no livro de Deus; e, apesar de que a escrita nos pareça ilegível, Deus a compreende muito bem... Está designado qual dos santos deva morrer de fome; quais, à espada; os que deverão ir a cativeiro e quem deverá ser comido pelas feras. Conclua-se, então, que é aparente, pelo que vimos, que os sofrimentos dos santos são ordenados e dispostos pela vontade de Deus".
Podemos, até mesmo, ir mais além com Bunyan, quando ele mostra "por qual verdade" seus santos deverão sofrer, e ainda "através de qual mão" e "por quanto tempo". Mas perguntemos: Qual é o propósito de Deus nesta exposição da soberania de Deus no sofrimento? Ele nos diz claramente: "Eu tenho, em poucas palavras, lidado com isto ... para mostrar que nossos sofrimentos são ordenados e preparados por ele, para que vocês possam sempre, quando tiverem problemas por causa do seu nome, não cambalear ou ficar incertos, mas ficar controlados, calmos, quietos em sua mente, e digam, 'Seja feita a vontade do Senhor'. Atos 21.14".
A Misericórdia de Sofrermos e Não Sermos Torturados
Mais uma vez ele alerta contra sentimentos de vingança.
Aprenda a compadecer-se e a lastimar a condição do inimigo... Nunca nutra rancor contra eles, por causa da sua presente vantagem. "Não se aborreça por causa dos maus, nem tenha inveja dos ímpios". Provérbios 24.19. Não se aborreça, apesar de eles estragarem seu descanso. Foi Deus quem lhes ordenou que fizessem isto, para testar a sua fé e sua paciência. Não lhes deseje mal algum pelo que estão tirando de você; é a paga do trabalho deles, e logo vai parecer a eles que muito bem mereceram esta paga.... Bendiga a Deus que você não será contado com eles... Quão mavelmente, portanto, Deus lida conosco, quando escolhe afligir-nos por um pouco de tempo, para que, com bondade eterna, tenha misericórdia de nós. Is 57.7-8.71

"Não Produzem Fruto, Pois Não Há Inverno Ali"

A chave para o sofrer corretamente é ver todas as coisas nas mãos de um Deus misericordioso, bom e soberano, e "viver em Deus, que é invisível". Há mais de Deus a ser experimentado em tempos de sofrimento do que em qualquer outro tempo.
Existem coisas de Deus que podem ser observadas em um dia, e noutro, não. Seu poder em sustentar alguns, sua ira em abandonar outros; o fazer com que arbustos fiquem firmes, enquanto permite que cedros caiam; o tornar em tolice o conselho dos homens e fazer com que o diabo passe a perna em si próprio; o conceder a sua presença ao seu povo e o abandonar seus inimigos nas trevas; o revelar a retidão dos corações dos seus santificados, e a exposição da hipocrisia de outros; tudo isto são maravilhas espirituais operadas no dia de sua ira, do redemoinho e da tempestade... Temos a tendência de irmos longe demais nos dias calmos, e pensarmos que estamos bem avançados, e bem mais fortes do que realmente descobrimos estar, quando o dia da provação vem sobre nós ... Não poderíamos viver sem tais mudanças da mão de Deus sobre nós. Nossa natureza carnal cresceria excessivamente, se não tivéssemos nossos invernos no tempo apropriado. Diz-se que em alguns países as árvores crescem, mas não produzem fruto, pois não há inverno ali.
Assim, Bunyan roga ao seu povo que se humilhe debaixo da poderosa mão de Deus e que confie que tudo será para o seu bem. "Permita-me rogar-te que não ficarás ofendido, quer com Deus, quer com os homens, se a cruz sobre ti for pesada. Com Deus, pois ele nada faz sem uma causa; com o homem, pois ... são servos de Deus para o teu bem. Toma, portanto, agradecidamente, o que te vem da parte de Deus, através deles".
"Se Estiver em Seu Coração Fugir, Fuja"
Se alguém perguntar se podemos aproveitar as oportunidades para nos livrar do sofrimento, Bunyan responde:
Você pode fazer conforme estiver em seu coração. Se estiver em seu coração fugir, fuja. Se estiver em seu coração ficar firme, fique firme. Qualquer coisa, menos o negar a verdade. Aquele que foge, tem autorização para fazê-lo. Sim, a mesma pessoa tanto pode fugir como permanecer, dependendo da chamada e da obra de Deus em seu coração. Moisés fugiu, Êxodo 2.15; Moisés permaneceu, Hebreus 11.27. Davi fugiu, ISamuel 19.12; Davi permaneceu, ISamuel 24.8; Jeremias fugiu, Jeremias 37.11-12; Jeremias permaneceu, 38.17. Cristo retirou-se, Lucas 19.10; Cristo permaneceu, João 18.1-8. Paulo fugiu, 2Coríntios 11.33; Paulo permaneceu, Atos 20.22-23....
Há poucas regras neste caso. A própria pessoa está mais capacitada para julgar sua força atual, e qual a força deste ou daquele argumento em seu coração, para fugir ou ficar... Não fuja por temor servil, mas porque fugir é uma ordenança de Deus, abrindo uma porta de escape, a qual é aberta por sua providência, e o escape, aprovado pela Palavra de Deus. Mateus 10.23...
Se, portanto, quando você tiver fugido, for apanhado, não fique desgostoso com Deus ou com o homem: não com Deus, pois você é servo dele, e sua vida e você mesmo lhe pertencem; e não com o homem, pois ele nada é senão a vara de Deus, a qual foi designada, neste aspecto, para lhe fazer o bem. Conseguiu escapar? Ria. Foi apanhado? Ria. Quero dizer, regozije-se, não importa os rumos que as coisas tomarem, pois a balança ainda está nas mãos de Deus.

É isto que Bunyan quer dizer com "viver em Deus, que é invisível". Esta é a fé que torna a pessoa radicalmente livre, corajosa e intrépida na causa de Deus e da verdade. A vida de Bunyan não se ergueu da areia. Cresceu como uma grande árvore na rocha da verdade de granito, que é a soberania de Deus sobre todo o seu sofrimento

sábado, 2 de outubro de 2010

As Escrituras e a Soberania de Deus

A salvação é uma obra inteiramente do Senhor? Ou, teria Eleja feito tudo que poderia e, agora, espera pela decisão dos pecadores? As Escrituras são claras. Se a salvação dependesse da iniciativa do pecador, ninguém jamais seria salvo. "Não há quem entenda, não há quem busque a Deus" (Rm 3.11). "Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer" (Jo 6.44). O próprio Deus inspira a fé naqueles a quem Ele destinou à vida eterna (At 13.48). Após, esse inspirar, a busca começa, como em Isaías 55.6,7: "Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar". Esse texto é seguido por uma afirmação da soberania de Deus, nas palavras clássicas do versículo 11: "Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei". E, se tal paradoxo é confuso, os versos 8 e 9 talvez ajudem a explicá-lo: "Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos que os vossos pensamentos".




Deus ordena a todos que se arrependam (At 17.30) — mas, em última análise, é Ele mesmo que precisa outorgar o arrependimento (At 5.31; 11.18: 2 Tm 2.25). Embora Deus exija uma resposta de fé, é imperativo que Ele mesmo, graciosamente, incline e habilite a resposta nos corações de seus eleitos (At 18.27). O coração humano é tão depravado que, se fôssemos deixados sozinhos, nenhum de nós jamais haveria de crer. Se, por nós mesmos pudéssemos gerar a fé, certamente teríamos algo de que nos gloriar. Mas as Escrituras afirmam: "Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas" (Ef 2.8-10).



Essas verdades não estão escondidas em passagens isoladas das Escrituras, mas, conforme sugeriu Spurgeon, são "a essência da Bíblia", confirmadas em todo o texto sagrado. Desejo, entretanto, considerar uma breve passagem das Escrituras que é muito clara em falar a respeito da soberania de Deus na salvação:



"Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas. Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcessível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo" (1 Pe 1.1-5).





A escolha soberana é uma daquelas verdades que provam ser a Bíblia a Palavra de Deus. Não é uma verdade que a razão humana poderia ou acabaria inventando. A única razão pela qual alguém crê é porque a doutrina da escolha soberana está cristalinamente revelada na Palavra de Deus. Não podemos compreendê-la com nossas faculdades limitadas; precisamos tão-somente recebê-la pela fé. E temos de recebê-la. De outro modo, não estaremos atribuindo a Deus a glória que Lhe é devida como o Senhor soberano, onisciente e perfeitamente justo, que nos escolheu. Pelo contrário, em última análise, estaremos recebendo, para nós mesmos, os méritos por aquilo que, na realidade, é uma obra de Deus em nós.



John MacArthur

O Poder de Deus na Salvação

O mesmo poder que atrai o pecador a Deus é o que conduziu Cristo para fora
da sepultura e o levou ao céu (Ef 1.19). Um grande poder é manifestado na conversão, maior que o manifestado na criação. Quando Deus fez o mundo não encontrou oposição. Não tinha nada para ajudá-lo nem tinha nada para atrapalhá-lo, mas quando converte um pecador, encontra oposição. Satanás se opõe a Deus, também o coração do homem se opõe a Deus; pois o pecador está irado em relação à graça que o pode converter. O mundo foi "obra dos teus dedos" (SI 8.3). A conversão é o trabalho de "seu braço" (Lc 1.51 I.

Na criação, Deus operou somente um milagre, ele pronunciou sua palavra; mas, na conversão. Deus executa muitos milagres. O cego vê, o morto é ressuscitado, o surdo ouve a voz do Filho de Deus. Quão infinito é o poder de Jeová. Ante o seu cetro, os anjos se cobriam e se prostravam, os reis lançavam suas coroas aos seus pés. "Porque o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, é o que toca a terra, e ela se derrete" (Am 9.5). "Quem move a terra para fora do seu lugar, cujas colunas estremecem" (Jó 9.6). Um terremoto faz que a terra trema sobre seus pilares, mas Deus pode remover a terra de seu centro.

Ele pode fazer o que quiser, seu poder é tão grande quanto sua vontade. Se o poder dos homens fosse tão grande quanto suas vontades, quão terríveis seriam as coisas que fariam no mundo. O poder de Deus é de igual extensão à sua vontade. Com uma palavra pode remover as rodas e quebrar o eixo da criação. Ele pode fazer "mais do que ... pensamos" (Ef 3.20). Ele pode parar os agentes naturais. Ele calou as bocas dos leões; fez o fogo não queimar; fez as águas ficarem em pé como dois montes; ele fez que o Sol retomasse 10 graus no relógio solar de Acaz (Is 38.8). Quem pode apresentar onipotência? "Ele quebranta o orgulho dos príncipes" (SI 76.12). Ele contra-ataca seus inimigos abaixando suas bandeiras e suas faixas de orgulho, ridicularizando seus conselhos, quebrando suas forças; e tudo isso faz facilmente com um movimento de sua mão, "pelo sopro de sua boca" (SI 33.6; Is 40.24). Um olhar, um lance de seus olhos é o necessário para que Deus destrua seus inimigos: "Na vigília da manhã, o SENHOR, na coluna de fogo e de nuvem, viu o acampamento dos egípcios e alvorotou o acampamento dos egípcios" (Êx 14.24). Quem pode pará-lo em sua marcha?

Deus comanda e todas as criaturas no céu e na terra obedecem a suas ordens. Xerxes, o monarca persa, lançou correntes ao mar e as ondas as engoliram como se estivesse acorrentado às águas, mas quando Deus fala, o vento e o mar lhe obedecem. Se falar somente uma palavra, as estrelas brigam em seus cursos contra Sisera. Se ele bater o pé, um exército de anjos imediatamente se apresentará para a batalha. O que o poder do onipotente não pode fazer? "O SENHOR é homem de guerra" (Êx 15.3) "O teu braço é armado de poder" (SI 89.13).

O poder de Deus é "a força da sua glória" (Cl 1.11). É um poder irresistível. "Pois quem jamais resistiu à sua vontade?" (Rm 9.19). Contestá-lo é como se os espinhos se organizassem em marcha de batalha contra o fogo, ou, como se uma criança sensível lutasse com um arcanjo. Se o pecador for pego na rede de ferro de Deus, não há escapatória. "Nenhum há que possa livrar alguém das minhas mãos" (Is 43.13).

O poder de Deus é inexaurível, nunca passa ou se desgasta. Os homens, enquanto exercitam suas forças, se enfraquecem, mas Deus tem uma eterna renovação de força em si mesmo (Is 26.4). Embora Deus gaste suas flechas contra seus inimigos, mesmo assim não gasta sua força (Dt 32.23). "O SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga" (Is 40.28).

Thomas Watson