domingo, 19 de julho de 2015

Se há eleitos, há eleição! - Por Charles H. Spurgeon


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Ora, se as pessoas são chamadas de eleitas, então deve haver eleição. Se Jesus Cristo e seus apóstolos são acostumados a chamar os crentes pelo título de eleitos, certamente acreditamos que eles o sejam, a menos que o termo nada signifique. Jesus Cristo disse: 

"Não tivesse o Senhor abreviado aqueles dias, e ninguém se salvaria; mas, por causa dos eleitos que ele escolheu, abreviou tais dias." (Marcos 13:20) 

"Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; pois surgirão falsos cristos e falsos profetas, operando sinais e prodígios, para enganar, se possível, os próprios eleitos." (Marcos 13:22)

"E ele enviará os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da extremidade da terra até à extremidade do céu." (Marcos 13:27)

"Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?" (Lucas 18:7) 

Em conjunto com mais outras passagens que poderiam ser selecionadas, onde tanto o termo "eleito", ou "escolhido", ou "preordenado", ou "apontado" é mencionado; ou a frase "minhas ovelhas" ou alguma designação similar, mostrando que o povo de Cristo é distinto do resto da humanidade.

Mas vocês têm concordâncias, e eu não vou lhes dar mais problemas com textos. Através das epístolas, os santos são constantemente denominados "os eleitos". Em Colossenses encontramos Paulo dizendo: "... pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia". Quando ele escreve a Tito, ele mesmo se chama, "Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus". Pedro diz: "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai". E se você vai para João, descobrirá que ele é afeiçoado ao termo. Ele diz: "O presbítero à senhora eleita"; e ele fala da nossa "irmã, a eleita". E sabemos onde isso está escrito: "Aquela que se encontra em Babilônia, também eleita". Eles não se envergonhariam desse termo hoje em dia; não tinham medo de falar disso. 

Atualmente esse termo tem sido revestido de uma diversidade de sentidos, e as pessoas têm mutilado e estragado a doutrina, e assim transformado-a numa verdadeira doutrina de demônios, tenho que admitir; e muitos do que se chamam crentes, têm que se intitular antinomistas. Não obstante esse fato, por que eu me envergonharia disso, se o homem o corrompe? Amamos a verdade divina tanto na tormenta quanto na bonança. Se há um mártir pelo qual temos amor antes de ele ser torturado, deveríamos amá-lo mais ainda quando ele está livre. Quando a verdade divina é desenvolvida na tribulação, não a chamamos de falsidade. Não a apreciamos para vê-la na tribulação, porque podemos discernir como deveria ser, mutatis mutandis, se ela não tivesse ido para a masmorra e torturada pela crueldade e pelas maquinações humanas. Se você vir a ler algumas das epístolas dos Pais da Igreja, você os descobrirá sempre se referindo ao povo de Deus como "eleito". Realmente, nas conversas do dia a dia, o termo usado entre as igrejas dos cristãos primitivos para uma outra era "eleito". Eles frequentemente usavam o termo para os demais, demonstrando que era geralmente aceito que todo o povo de Deus era manifestamente "eleito".

Mas vamos agora para os versículos que provam a doutrina de modo afirmativo. Abram suas Bíblias em João 15:16, e vejam que Jesus Cristo escolheu seu povo, pelo que diz:"Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda." E no versículo 19: "Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia." E no capítulo 17, versículos 8 e 9: "porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste. É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus".

Vá para Atos 13:48: "Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna." Eles poderiam ter omitido essa passagem, se quisessem, mas ela diz: "destinados para a vida eterna" no original tão patente quanto possível; e não nos importamos sobre os diferentes comentários existentes por aí. Vocês por pouco não precisam ser lembrados de Romanos 8, porque eu acredito que todos já estão bem familiarizados com esse capítulo e atualmente o entendem. Nos versículos 29 e seguintes ele diz: 

"Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?" 

Seria desnecessário repetir o contexto do nono capítulo de Romanos. Tão certo quanto aquela [doutrina] se encerra na Bíblia, nenhum homem será capaz de provar o Arminianismo; tão certo quanto aquela [doutrina] está lá escrita, nem as mais violentas deturpações da passagem vão ser capazes de exterminar, das Escrituras, a doutrina da eleição. Permitam-nos ler versos como esses: "E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço." Então leia no versículo 22,"Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão" Então vá para Romanos 11:7: "Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos" No quinto versículo do mesmo capítulo, lemos: "Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça"

Vocês, sem dúvida, vão se lembrar da passagem de I Coríntios 1:26-29: "Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus." Novamente, lembrem-se da passagem de I Tessalonicenses 5:9: "porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo"

Então vocês têm meu texto, que creio ser o bastante; mas, se precisam de mais, poderão encontrá-las com mais vagar, se já tiverem removido sua desconfiança de que essa doutrina seja verdadeira.

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Fonte: spurgeon.org
Tradução: Josemar Bessa
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sábado, 18 de julho de 2015

Deuses falsos – a idolatria não está longe .


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O coração é uma fábrica de ídolos. - João Calvino
O homem se afasta daquele que o fez quando acima dele coloca o que ele próprio fez. - Agostinho
Geralmente, quando tratamos de idolatria, associamos de forma quase imediata o culto prestado as imagens feitas por homens, associamos tais cultos a religiões pagãs ou a um cristianismo corrompido, como o do Catolicismo Romano. Na verdade, têm importância a frase de Friedrich Nietzsche: “Há mais ídolos que realidades no mundo”.[i]
Como dizia Calvino, nosso coração é uma fábrica de ídolos. Na verdade, nosso comprometimento com o pecado é um ato de idolatria, ainda que não estejamos diante de um poste ídolo como nos tempos antigos, estamos prestando culto e obediência a um ídolo ou ídolos do nosso coração. A idolatria, sem sombra de dúvida, é o pecado mais presente em nossa vida, nos diz Timothy Keller:
Nossa sociedade atual não é fundamentalmente diferente dessas antigas culturas. Cada uma delas é dominada por seu próprio conjunto de ídolos. Cada uma tem o seu “sacerdócio”, seus totens e rituais. Cada uma delas tem seus templos – sejam eles torres empresariais, spas, academias, estúdios ou estádios – onde os sacrifícios têm de ser feitos para que as bênçãos da boa vida sejam obtidas e os desastres sejam evitados. Quais são os deuses da beleza, do poder, do dinheiro, e do sucesso, se não os assumiram proporções míticas em nossa vida individual e em nossa sociedade? Podemos não ajoelhar fisicamente diante de uma estátua de Afrodite, mas muitas jovens de hoje são levadas a depressão e disfunções alimentares por uma preocupação obsessiva com a imagem. Podemos não queimar incenso a Ártemis, mas, quando o dinheiro e a carreira são elevadas a proporções cósmicas, realizamos algo como um verdadeiro sacrifício de criança, negligenciando a família e a comunidade para conquistar um lugar mais elevado no mundo empresarial e angariar mais riqueza e prestigio.[ii]
Ao sondarmos nosso coração com as lentes das Sagradas Escrituras, é fato concluirmos que toda idolatria do coração é promovida por autocomiseração, hedonismo e egoísmo. Quando não realizamos algo para glória de Deus isso é um ato idolátrico, porque tem um propósito último que não é Deus. Quando o homem firma um compromisso consigo mesmo que exclui Deus de seu bem, satisfação e felicidade, ele está contido nas amarras da idolatria, seus ídolos são seus sonhos, seus prazeres, seus bens, seu dinheiro, seu sexo, sua beleza, seu ego, sua vaidade. Todo aquele que não vive para a glória de Deus é um idolatra.            Diante disso, precisamos identificar as causas e o que nos levam a idolatria, como isso se desenvolve em nosso coração e como combater os ídolos do nosso coração. Na verdade qualquer coisa em nossa vida pode se tornar fonte de idolatria, até mesmo bênçãos que Deus nos deu podem ser tornar um ídolo. O desejo de Deus é que nosso coração esteja nele e não nas coisas. O desejo de Deus é que desfrutemos de suas bênçãos com santo temor. Quando digo temor não digo que devemos ser restritos em nos alegrarmos com o que Deus nos dá, não é isso, mas, digo que devemos sondar as motivações dos nossos corações.            Ao lidarmos com isso é necessário que entendamos que, por motivos legítimos, podem-se gerar atitudes idolátricas, exemplo: o desejo sexual é um motivo legítimo para se fazer sexo, mas, como prescreve a Bíblia, apenas dentro do casamento. Sexo fora do casamento, seja ele adultério ou fornicação, e ainda, pornografia e masturbação, são distorções do plano de Deus para a sexualidade humana como fato legítimo. É um ato idolátrico. Onde o prazer exalta-se em detrimento da vontade de Deus prescrita nas Escrituras. Outro exemplo, alguém pode desejar um bom emprego e ganhar um bom salário, mas, qual o fim supremo desse desejo? Será ser uma pessoa reconhecida e famosa, ou venerada e prestigiada por sua boa condição financeira? Ou cuidar bem da família, ajudar os mais necessitados, usar seus talentos para abençoar outras pessoas? O motivo pode ser legítimo, mas qual o fim último do desejo? Se não é a glória de Deus, é pecado, é idolatria.
A idolatria, um ato cultual            Ao palmilharmos no Antigo Testamento veremos que muitas vezes o povo de Deus cometeu atos absurdos de idolatria, tais como; o bezerro de ouro (Êx 32.4) que foi feito quando Moisés subiu ao monte e os bezerros feitos por Jeroboão (2 Rs 10.29). Algo interessante mencionarmos com relação aos cultos, tanto de Israel, quanto dos povos que o circundavam, são alguns fatores relacionados a sua estrutura:
       a) Um lugar sagrado       b) Preceitos e mandamentos       c) O sacerdócio       d) Os sacrifícios
De forma íntima todas essas questões também estão ligadas a idolatria do nosso coração. O lugar sagrado é o ambiente que eleva o ídolo, que o exalta, que o adora. Os preceitos nos dizem claramente que, ao sucumbirmos a idolatria, estamos seguindo algum tipo de preceituação que não é a Palavra de Deus, estamos seguindo falsos deuses, falsos ensinos. O sacerdócio nos fala daquele que conduz o culto, comumente somos nós mesmos, quando pecamos deliberadamente contra Deus, quando violamos seus mandamentos e como rebeldes insubordinados, dizemos com nossa atitude pecaminosa que Deus não nos é suficiente. Os sacrifícios são nossos atos, nossa oferta ao ídolo, nossa fidelidade ao pecado. Existem mais alguns fatores que precisamos listar.
A exigência de todo ídolo – amor, confiança e obediência
Todo ídolo requer do homem três coisas: Amor, confiança e obediência. Em muitas passagens a Bíblia usa de forma metafórica os modelos de comportamentos para com os ídolos, nós os amamos, confiamos e obedecemos. Um exemplo bíblico que podemos usar aqui em relação ao amor é a história descrita no livro do profeta Oseias, sua mulher dada à prostituição ilustra Israel que adulterou o relacionamento de aliança com YHWH. Os ídolos nos cativam em amor, um amor platônico, cego, vazio, enganoso, amor que não satisfaz e é aí que muitas vezes desabrocha o vício, seja ele nas drogas, sexo, pornografia, dinheiro, poder. O segundo fator é a confiança, exercemos “fé” ou algum tipo de segurança no ídolo, uma falsa certeza. O ídolo é enganoso. Mentiroso! Falso! O terceiro ponto é a obediência que está ligada ao que falamos acima, sobre preceitos e mandamentos que vão de encontro a vontade revelada de Deus nas Escrituras, essa obediência ao ídolo nos torna incrédulos para com Deus, não cremos na providência divina, mas, na força do braço, do homem, do sistema, isso é idolatria.
As amarras da idolatria – sexo, poder e dinheiro
Temos aqui os três ídolos modernos que ocupam os templos dos corações pós-modernos – Sexo, dinheiro e Poder. Como podemos ver, tais ídolos são presentes em nossa época de forma evidente, não preciso exemplificar muito aqui para que você saiba do que estou falando. Com base em que recursos as grandes indústrias investem em propaganda e marketing? Sexo, dinheiro e poder. Quais as chamadas de comerciais das cervejarias? Mulheres seminuas, saradas, sugestionando-se aos homens que assistem o comercial. O que alimenta a jogatina no nosso país? O desejo por dinheiro! O que alimenta o tráfico de drogas em nosso país? O Dinheiro! O que leva jovens universitárias virarem prostitutas de luxo? Dinheiro! Como disse o Apóstolo Paulo, o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Veja bem, não é o dinheiro em si, mas o amor a ele. O motivo de buscar dinheiro é legítimo, precisamos de dinheiro, mas, os meios usados de forma apaixonada são manifestações idolátricas. 
Por último fica o poder. O desejo de sobressair-se, de ser notório, poderoso, acima dos demais, concentrador de forças controladoras. Isso se manifesta em várias instâncias; no casamento, no namoro, na igreja, no trabalho, na convivência social. A questão aqui não é ter o poder, você pode ser um chefe na sua empresa, ou conseguir um doutorado, ou passar num concurso muito concorrido. A questão é o comportamento não condizente com o evangelho, que nos ensina a sermos humildes, pobres de espírito, reconhecendo que tudo que temos e somos é pela graça de Deus e não por simples mérito nosso, se conseguimos algo foi porque Deus nos dotou de capacidade. Ao nos portarmos de forma orgulhosa e soberba estamos cometendo idolatria, porque a soberba destrona a Deus e nos coloca no lugar que só cabe a ele.
O motivo da nossa existência 
A primeira pergunta do Catecismo Menor de Westminster diz:
Qual é o fim principal do homem?Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.
Para lutarmos contra os ídolos do nosso coração devemos seguir alguns conselhos das Escrituras.
Sonde o seu coração – "Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice." 1 Coríntios 11.28
Peça a Deus que esquadrinhe suas intensões – "E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno." Salmos 139.24
Onde está o seu maior prazer? – "Tenho desejado a tua salvação, ó Senhor; a tua lei é todo o meu prazer." Salmos 119.174
Quem são os seus conselheiros? – "Também os teus testemunhos são o meu prazer e os meus conselheiros." Salmos 119.24
A quem você está servindo? – "Ao Senhor teu Deus temerás; a ele servirás, e a ele te chegarás, e pelo seu nome jurarás." Deuteronômio 10.20
Conclusão
A vida cristã de fidelidade ao Senhor requer de nós uma adoração permanente, como dizia Spurgeon “Se somos fracos na nossa comunhão com Deus, somos fracos em tudo”. A idolatria é uma ameaça permanente ao povo da aliança, contanto nos vale a advertência bíblica.
"E serviram aos seus ídolos, que vieram a ser-lhes um laço"Salmos 106.36
_________Notas:[1] Crepúsculo dos Ídolos, Friedrich Nietzsche. [2] Deuses Falsos, Timothy Keller, ed. Thomas Nelson

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O SIGNIFICADO DE "MINISTÉRIO" NA TRADIÇÃO REFORMADA - Dr. Michael S. Horton

















Embora tivesse “ido à frente” aceitar a Cristo somente há um mês atrás, Bob, que recentemente encerrara sua carreira na NFL (Liga Nacional de Futebol Americano), tinha acabado de informar seu grupo de discipulado que havia sido chamado para o ministério. De fato, na semana seguinte ele se juntaria a um comerciante que também decidira que havia sido chamado para o ministério. Juntos, eles formariam uma equipe evangelística para o meio esportivo.
Uma história familiar para aqueles dentre nós que foram criados num círculo evangélico, este relato fictício ilustra a importância prática da pergunta “O que é ministério?”
O verbo “chamar”(kalein) e o substantivo “chamado” (klesis) têm uso abundante e, até certo ponto, variado no Novo Testamento. Ser “chamado” é ser afetuosamente convidado por Cristo a vir e receber vida eterna. Mas nem todo o que ouve esse convite universal responde; o Espírito Santo deve conduzir o eleito a Cristo através de um verdadeiro despertar da morte espiritual. Lázaro nunca poderia ter saído do túmulo simplesmente pelo convite de Cristo, à parte da ação poderosa de Deus internamente, restaurando vida. Da mesma forma, “ninguém pode vir a Mim”, disse Jesus, “a menos que o Pai, que Me enviou, o traga; e Eu o ressuscitarei no último dia” (Jo. 6:44).
Jesus não somente chamou pecadores ao arrependimento (Mt. 9:13); Ele chamou os doze para serem Seus discípulos (Mt. 4:21). Ele não somente chamou e justificou os que foram predestinados (Rm.8:30), mas chamou alguns do Seu povo para serem seus representantes e supervisores da sua igreja.

Mas o que dizer do sacerdócio de todos os crentes?
Um dos temas centrais da Reforma, claro, era o feliz anúncio no Novo Testamento que, nas palavras de Lutero, “O nome e ofício de sacerdote são comuns a todos os cristãos”. No Éden, Adão era ministro de Deus, mas falhou em preservar o templo de Deus do engano do maligno. No deserto, Deus separou entre os de Israel, sacerdotes que O serviriam e O representariam junto ao povo. Deus disse a Moisés “Ajunta-me setenta homens dos anciãos e superintendentes do povo; e os trarás perante a tenda da congregação, para que assistam ali contigo. Então descerei e ali falarei contigo; tirarei do Espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles: e contigo levarão a carga do povo, para que não a leves tu somente.” (Nm. 11:16-17). E ainda assim, há o anseio por algo maior: “Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o Seu Espírito” (vs. 29). Desde cedo na história vemos o destino futuro de Israel como “reino de sacerdotes e nação santa” (Ex. 19:6).
Mais tarde, através dos profetas, Deus puxa a cortina ainda mais: “E acontecerá depois que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias” (Jl 2:28-29). Cumprido no Pentecostes, como Pedro proclamou em seu sermão (At. 2:17), esta profecia refere-se ao dia quando toda a Igreja será cheia com o Espírito e cada crente será um sacerdote, de modo que o mundo saberá que Jesus é o Cristo.
Assim, a promessa feita a Israel não é inválida mas é, na verdade, cumprida na Igreja do Novo Testamento: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz, vós, sim, que antes não éreis povo, mas agora sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” (1 Pd. 2:9-10).
Portanto, o sacerdócio do Velho Testamento está revogado, como a sombra é substituída pela realidade sólida: Cristo sendo o único mediador entre Deus e os homens (1 Tm. 2: 5). Unidos com Cristo, o definitivo Profeta, Sacerdote e Rei, todos os crentes compartilham do sacerdócio do Salvador na medida em que proclamam o Cordeiro de Deus e o perdão uns para com os outros. Assim, os crentes são ordenados, “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados” (Tg. 5:16). Todos os crentes são “chamados” e “sacerdotes” desde que a cortina do templo foi rasgada de alto a baixo e agora cada crente se encontra no Santo Lugar. Porque está coberto com a justiça de Cristo, o crente agora se encontra onde antes somente o Sumo Sacerdote poderia permanecer. Assim como o Espírito Santo estava sobre Moisés, e depois sobre os setenta anciãos e profetas através dos quais Ele deu a revelação de Deus em Cristo, assim hoje o Espírito está sobre e verdadeiramente dentro de cada um de nós. O verdadeiro Israel de Deus tornou-se testemunha de Cristo “em Jerusalém e em toda Judéia e Samaria, e até os confins da Terra” (At. 1:8).

Quando os reformadores acusaram o sacerdócio romano de um retorno as sombras do Velho Testamento (infância), entendendo que a realidade tinha vindo em Cristo (maturidade), eles estavam, em essência, expondo novamente o Livro de Hebreus.
Lutero bradou, “Cada cristão verdadeiro deveria saber que não existe nenhum sacerdote externo, visível, exceto aqueles aos quais o diabo tem levantado e exaltado através de mentiras de homens”.
Mas embora esta doutrina libertadora tenha sido usada para subverter o sacerdotalismo romano, ela tem sido adulterada para distorcer o conceito bíblico de ministério. Nós freqüentemente esquecemos que a Reforma foi um conflito contra dois movimentos: Roma e os Anabatistas ou “sectarismo”.
Embora criticando noções de uma casta sacerdotal com status e poderes elevados em virtude da ordenação deles, os reformadores eram, da mesma forma, severos nas suas críticas de um “livre-para-tudo” no qual, como Calvino colocou, “tudo está em confusão”. Os pregadores ambulantes, auto nomeados, e seus entusiastas foram “misturando-se aqui e ali, de forma incerta, sem designação, concentrando-se em um lugar e abandonando suas igrejas a bel-prazer”. Sobre tais “fanáticos” Calvino acusou: “em seu orgulho, eles desprezam o ministério dos homens e até as próprias Escrituras, para conseguir o Espírito. Eles então, orgulhosamente, tentam espalhar todos os enganos que Satanás lhes sugere, tais como revelações particulares do Espírito”. Tais são os libertinos e indivíduos desvairados como eles. Quanto mais ignorante um homem é, maior é o orgulho com o qual ele está cheio. “Assim, pessoas com nenhuma qualificação, que se impõem sobre a Igreja, são fanáticos, guiados por um espírito maligno. Existem muitos, por exemplo, que se ufanam de serem movidos a agir pelo Espírito, e se vangloriam de um chamado particular de Deus, quando o tempo todo eles são incultos e totalmente ignorantes”. Nós temos confundido sacerdócio com ministério, como se o sacerdócio de todos os crentes significasse que todos os crentes são ministros. Assim, juntamente com o sacerdotalismo romano, o sectarismo fanático foi também evitado a todo custo.
Mas se todos os crentes são sacerdotes, isto não significa que não há diferença entre um ministro ordenado e uma pessoa leiga? A esta questão os reformadores responderiam “sim e não”. Sim, não há diferença em termos de pessoa. Um ministro e uma pessoa leiga são igualmente justificados e chamados para a vida eterna, co-herdeiros com Cristo em igual medida.
Tornadas eficazes mais pelo ministério de Cristo do que por qualquer virtude da ordenação, as orações dos ministros não são mais poderosas do que aquelas de uma pessoa leiga. Deus não concede atenção especial aos ministros. Eles não têm um telefone vermelho em seus gabinetes, nenhuma linha direta especial com Deus, que o resto do rebanho de Cristo não usufrua. Não obstante, existe uma diferença entre ofício e vocação. Assim como um médico não é um advogado, a pessoa leiga não é um ministro

Aqui é onde, na minha opinião, nós temos nos afastado neste assunto. Temos confundido sacerdócio com ministério, como se o sacerdócio de todos os crentes significasse que todos os crentes são ministros.
Certamente este não é o entendimento de Lutero e Calvino sobre o sacerdócio de todos os crentes.Outra vez, diz Lutero:
Pois embora todos sejamos sacerdotes, isto não significa que todos nós possamos pregar, ensinar e governar. Certamente alguns da congregação devem ser eleitos para tal ofício. E aquele que tem tal ofício não é um sacerdote por causa de seu ofício, mas um servo de todos os outros, que são sacerdotes. Quando ele não mais estiver habilitado para pregar e servir, ou se ele não mais quiser fazê-lo, ele uma vez mais, se torna parte da congregação comum de cristãos. Seu ofício é transferido para outra pessoa e ele se torna um cristão como qualquer outro. Este é o modo de se distinguir entre o ofício da pregação ou ministério, e o sacerdócio geral de todos os cristãos batizados.
A distinção reside não por causa da pessoa do ministro, mas por causa do serviço da Palavra e sacramentos. Calvino diz, “Cristo age pelos ministros de tal maneira que Ele deseja que suas bocas sejam reconhecidas como Sua boca, e seus lábios como Seus lábios”.
Como as confissões reformadas nos lembram, o ministério não depende da integridade do ministro. Mesmo se eventualmente descobrir-se que ele era um incrédulo, ele foi usado por Cristo como um agente de redenção para seu povo. De fato, até Judas exerceu um ministério efetivo como um discípulo de nosso Senhor. É o Espírito Santo agindo através da Palavra e dos sacramentos, não o próprio ministro, que é responsável pelo sucesso do ministério.
Assim, em oposição às seitas que seguiram após os antigos donatistas, combatidos por Agostinho, a segunda confissão Helvética declara: “Mesmo ministros maus devem ser ouvidos. Além disso, nós detestamos fortemente o erro dos donatistas que consideram a doutrina e administração dos sacramentos eficazes ou não, de acordo com a boa ou má vida dos ministros (XVIII)”.
Será então, que retornamos à época em que se fazia diferença entre vocação sagrada e secular?
O pietismo evangélico tem criado um ambiente não muito diferente do paralelo medieval, separando os cristãos em “trabalho secular”e “serviço cristão de tempo integral”. Adivinhe qual é mais importante! Como a vasta rede de comunicação das comunidades monásticas da Idade Média, a identidade evangélica dos nossos dias parece determinada por uma rede de ministérios paraeclesiásticos e por uma multidão de personalidades carismáticas que freqüentemente recebem poder quase ilimitado e incontestável enquanto são bem sucedidos. Como o monasticismo medieval estava freqüentemente em conflito com a igreja e autoridade institucional (somente para ele próprio se tornar institucionalizado), o evangelicalismo contemporâneo parece, da mesma forma, possuir um aspecto anti-igreja. Criados como supostos “movimentos do Espírito”, em oposição ao “igrejismo”, seitas e ministérios paraeclasiásticos também acabam se tornando instituições. E, uma vez mais, como o monasticismo medieval, vocações verdadeiramente significantes, são consideradas como aquelas associadas aos interesses religiosos.
Foi deste tipo de dualismo que muitos de nós foram libertados nas recentes décadas. “Tudo na vida é sagrado”, ouvimos. “Todo cristão é um ministro”. Adotando a teologia reformada como uma saída das suposições da subcultura evangélica sobre a superioridade do “serviço cristão de tempo integral”, muitos estão começando a fazer distinções cuidadosas não somente entre sacerdócio e ministério, mas também entre o secular e o sagrado. Dizer que limpar uma casa ou defender um caso judicial não é um ministério e é então, uma atividade secular, ao invés de sagrada, faz de tais trabalhos inferiores ou não espirituais, somente se aceitarmos o dualismo que sustenta as versões de espiritualidade medievais e evangélicas contemporâneas. O que a Reforma restabeleceu foi a apreciação bíblica pelo comum tanto quanto pelo santo, pelo secular tanto quanto pelo sagrado, não um conflito dos dois. Calvino encorajou artistas a acharem temas na natureza, ao invés de tentarem imaginar o mundo invisível, e a contribuição do movimento para as artes e ciências é amplamente reconhecida. É bom ser um construtor, um pintor, um doutor, ou um zelador. Estes são chamados divinos, então como podemos chamá-los de inferior?
Enquanto o dualismo pietista, como seu antecedente medieval, transforma “secular’ e “sagrado” em categorias “inferiores” e “superiores”, e a crítica popular contemporânea deste dualismo nega a distinção completamente, a reforma considerou as duas como diferentes em seu significado, não em seu objetivo.
Cavar uma vala ou pregar um sermão, se bem feitos, glorificam a Deus, mas o primeiro é bem feito porque Deus tem dado ao trabalhador comum, dons gerais que ele também dá aos incrédulos. O primeiro pertence à esfera da criação, graça comum e o reino da cultura. O último é bem feito não somente por causa de dons comuns de eloqüência e intelecto, mas por causa da iluminação especial do Espírito. Está na esfera da redenção, graça salvadora e do reino de Cristo.
Até que os reinos deste mundo sejam transformados imediatamente em reino de nosso Deus e Seu Cristo, no retorno de nosso Senhor, estas duas esferas são distintas. O reino da cultura floresce quando homens e mulheres são fiéis aos seus chamados seculares, enquanto o reino de Cristo prospera quando seus ministros estão pregando a Palavra fielmente, administrando os sacramentos e guiando o rebanho no caminho da justiça.
As duas tarefas têm lugar neste mundo, glorificam a Deus e conduzem a fins proveitosos, mas são diferentes em vários aspectos.

A igreja não consiste somente de oficiais, mas da totalidade de seus membros. É este grupo de crentes, sacerdotes por batismo e ainda trabalhando em vocações seculares, que escolhem ministros para servi-los. Então os ministros são tratados com dignidade por causa de seu dever sagrado, não por causa da sua pessoa. “Cristo designa pastores para sua Igreja”, disse Calvino, “não para dominar mas para servir”. Porque nós somos tão lentos para crer e porque nossa razão, consciência e vontade não oferecem nenhum vestígio de esperança, é que precisamos de uma Palavra externa pregada a nós.
Como mencionado antes, Calvino e os outros reformadores criam que o próprio Cristo fala através da Palavra pregada e dos sacramentos. Isto é o que significa a maravilhosa promessa do nosso Senhor: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra (a confissão de Pedro de que Cristo é o Filho de Deus) edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus” (Mt. 16: 17-19).
“Ministros do Evangelho” Calvino escreveu, “são porteiros do reino dos céus, porque carregam suas chaves. A chave está posta nas mãos dos ministros da Palavra”. Calvino até recomenda confissão privada de pecado para os ministros, não por causa de supertição concernente a sua pessoa, mas porque isto é parte do ministério da Palavra.
Qualquer crente pode ouvir confissão de seus irmãos de fé e anunciar-lhe o perdão divino no nome de Cristo, mas o ministro é especialmente escolhido por Deus e Sua Igreja para esta função.
Enquanto o legalismo da confissão auricular (a prática de confessar pecados em particular para um padre como uma condição necessária para ser absolvido) foi rejeitada por Calvino, o costume em si era encorajado como um ministério privado da Palavra pelo qual a graça e o Evangelho de Deus poderia ser “confirmado e selado” (ver Institutas 3.4.1-23).
De acordo com o historiador John T. McNeil, “Calvino interpreta Mateus 16:19 (“Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus”) e João 20:23 (“Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos”), como autorizando ministros a perdoar pecados e absolver almas. “O penitente deveria tomar vantagem disto”.
Esta absolvição era normalmente declarada no culto público depois da confissão pública, mas também poderia ser feita em privado com o ministro se pudesse ajudar a trazer consolação. Pública e privadamente, os ministros carregam as chaves do reino e, pelo exercício fiel de seus ofícios, abrem prisões.
Todos os documentos confessionais reformados, como o luterano, concordam neste ponto. A Confissão de Westminster declara “A esses oficiais estão entregues as chaves do Reino do Céu. Em virtude disso eles têm, respectivamente, o poder de reter ou cancelar pecados" (Capítulo 30). Eles não têm este poder em si mesmos, mas em seus ofícios enquanto proclamam o evangelho e administram os sacramentos. O aspecto adicional deste ministério, na visão reformada, é a disciplina eclesiástica. Mesmo a censura, a prática da instrução privada, a admoestação e a advertência ao crente impenitente e ao incrédulo, são designados não para condenar, mas para abrir as portas do Reino dos Céus. Quando os ministros ignoram a condição espiritual de seus membros, eles não estão “deixando isto para o Senhor”, mas estão falhando em exercer o ministério do Senhor.
Ao mesmo tempo, ao invés de “dominar sobre seu povo”, eles devem servir “sem opressão e contenda” como a Segunda Confissão Helvética apresenta, no seu capítulo 18: “Pois o apóstolo testifica que a autoridade na Igreja foi dada a ele pelo Senhor para edificação e não para destruição (2 Co. 10:8). E o próprio Senhor proibiu que se arrancassem as ervas daninhas da seara do Senhor, porque o trigo poderia ser arrancado junto com elas (Mt. 13:29)”.
Isto não significa, é claro, que somente ministros podem advertir e evangelizar incrédulos e seus companheiros de ministério. Na verdade, a boa nova do Pentecostes é que o Espírito nos fez testemunhas de Cristo, uma nação de evangelistas. E também, Paulo encoraja Timóteo especificamente “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (2 Tm. 4:5). O ministério formal da Palavra é confiado àqueles que são chamados exclusivamente para esta tarefa, mas todos somos igualmente chamados para sermos cristãos e nossa identidade missionária é inerente a nossa união com Cristo, a “Luz do mundo”. Somos preparados pelos ministros para sermos responsáveis agentes cristãos neste mundo, preparados para dar resposta da nossa esperança para qualquer pessoa. Isto entretanto, não significa que devemos desprezar nosso chamado secular e buscar ministérios evangelísticos, pois este é o trabalho da igreja e seus oficiais eleitos.

O resultado das concepções evangélicas contemporâneas de ministério é que, ironicamente, elas são unânimes em conceder o poder ao ministro ao invés de ao ministério.Como o padre católico romano, o ministro contemporâneo do evangelho é freqüentemente considerado como o instrumento efetivo da redenção.!” . Teria sido tão poderoso se o orador fosse o apóstolo Paulo, que reconhecia que ele não era tão eficaz no discurso público como os “super-apóstolos”? Será que o testemunho teria sido tão eficaz se o ex-zagueiro tivesse dito, com o apóstolo “Ainda encontro na minha vida cristã que as coisas que odeio faço com freqüência?! desventurado homem que sou!” . E a música teria sido tão “ungida” se tivesse sido cantada por uma daquelas pessoas bem-intencionadas, mas singularmente mal dotadas, da pequena igreja do interior, ao invés do artista famoso que visitou a igreja central da cidade, semana passada?
Cada crente é chamado para evangelizar, assim Bob e seu amigo não precisam abandonar suas vocações com o objetivo de evangelizar. Além disto, a igreja é a instituição ordenada de Deus para o evangelismo. Note a distinção aqui entre indivíduos e instituições: cada crente evangeliza individualmente, mas nem toda instituição é evangelística. Cristo tem muitos irmãos e irmãs, mas somente uma igreja. Cristãos, trabalhando numa linha de montagem, podem ganhar seus parceiros de trabalho para Cristo, com o passar do tempo, mas a fábrica não se tornará uma instituição evangelística.

Talvez a defesa mais freqüentemente citada da posição “todo crente é um ministro” seja Ef. 4:11-16. “E ele (Cristo) mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor”.
Como o pastor reformado e professor T. David Gordon claramente demonstra, esta passagem tem sido muito mal usada na abordagem contemporânea do ministério. 1 Isto é devido, em parte, a uma tradução infeliz da Nova Versão Internacional (NIV), a Nova Versão King James (NKJV) e outras traduções recentes ou paráfrases. Enquanto as traduções mais antigas, especialmente a Versão Autorizada Inglesa (KJV), traduz o versículo 11 “E Ele concedeu uns, apóstolos; e uns, profetas; e uns, evangelistas; e uns, pastores e mestres”, as traduções mais recentes dificilmente deixam de conter as suas pressuposições sobre a natureza do “ministério”. O Professor Gordon demonstra cuidadosamente a superioridade da tradução mais antiga. Considerando o sujeito implícito em todas as três orações (“os dotados”), o uso de katartismon (“unindo ou organizando em uma comunhão visível”, e não “equipando”), e o uso de ergon diakonias ("a obra do ministério"), não há base para a noção de que Paulo vê a importância do ministério em termos da preparação do leigo para a “verdadeira obra” do ministério. Além disso, esta posição se opõe a muitas passagens que claramente distinguem o chamado de um ministro do chamado cristão geral que pertence a todos os crentes. Pelo contrário, ministros são concedidos por Cristo de forma que eles possam edificar o rebanho pelo fiel exercício de seus ofícios.
Creio que é totalmente justificado o alerta que o Professor Gordon faz aqui, contra os efeitos práticos do igualitarismo americano. “Aqueles que se preparam para o ministério (e as instituições que os preparam)”, ele escreve, "estão desviando seus esforços daquelas habilidades associadas com o ministério distintivo da Palavra (a exegese da linguagem original) e dirigindo-as para habilidades organizacionais, administrativas e motivacionais (coercivas?)."
Os papéis litúrgicos podem divergir vastamente, substituindo o “apelo” da missa romana por aquele substituto evangélico, mas em ambos os casos, o profissional se torna um meio de graça pessoal (ou, pelo menos, um meio de entretenimento, informação ou exortação). Como B.B. Warfield sugeriu ao se referir aos pregadores que seguiam o evangelismo pragmático de Charles Finney, “o evangelista torna- se o sacramento”.
O teólogo reformado alemão John Williamson Nevin (1803-86) queixou-se que no reavivalismo, a transformação do púlpito e da mesa da ceia num palco é um desvio teológico. “O pregador sente a si mesmo’, escreveu Nevin, “e está disposto a fazer com que a congregação também o sinta; mas Deus não é sentido na mesma proporção”. Chega de sugerir que nós podemos ter uma genuína teologia reformada enquanto adotamos um estilo evangélico! Se sua igreja tem um palco e o púlpito e a mesa da ceia estão subjugados por projetores suspensos, filmes, bateria, isso já é uma declaração da teologia do ministério que adotam, mesmo antes do culto começar! “A ação” não pode ser dissociada de sua base teológica.

Ao menos Roma, de algum modo, associa seu “sacerdotalismo” ao ministério sacramental, mas formas ilegítimas de evangelicalismo consideram o "ministério" da miss, do ex-zagueiro, da antiga celebridade e dos animadores de auditório como um meio efetivo de graça, por causa do poder do “ministro”. Ao invés do ministro ordenado ser tratado como um intermediário, como em Roma, cada crente se torna “um ministro” e lhe é permitido exercer seu ministério baseado em critérios mundanos (carisma, talento musical, familiaridade com a última novidade na cultura pop) em lugar de num sadio conhecimento da Palavra de Deus. Não é de se admirar que o resultado seja uma igreja mundana.
Muito freqüentemente, o poder tem pouco a ver com a mensagem e tudo a ver com o carisma, fama, personalidade ou outra característica puramente humana. “Ele é um orador poderoso”, nós ouvimos; “puxa, que testemunho poderoso!”; “Ela cantou uma música poderosa
Muitos realmente crêem, nestes dias, que o poder reside no assim chamado “ministro”, não no ministério da Palavra e do sacramento. Um “grupo de ministério musical” vem cantar na nossa igreja enquanto está numa turnê e rapidamente o culto se torna “comovente” e o “Espírito realmente age”, o culto se torna “avivado”. Mas quando o pastor, se levanta no domingo seguinte e simplesmente prega e administra a ceia, juntamente com a pública leitura das Escrituras, o cântico congregacional, a pública confissão de pecados, a declaração de perdão, o credo e as orações, tudo volta ao normal. Superlativos à parte, o que está implícito aqui é que Deus esteve lá semana passada quando o ministério “verdadeiro” (ênfase do tradutor) aconteceu.
Como ministros, nós encorajamos este tipo de coisa quando adotamos “testemunhos” e “músicas especiais” no nosso culto, tirando a atenção dos meios ordinários de graça. No final das contas, isto separa o Espírito da Palavra, apesar da sinceridade da confissão das pessoas.
Basta ler os anúncios de “precisa-se’” para pastores nos periódicos cristãos ou a lista das qualificações exigidas pelo comitê encarregado da contratação do pastor. A pessoa deve ser amigável, extrovertida, cheia de habilidade para tratar com pessoas. Deve ser motivadora, líder e uma "equipante" (o que realmente significa um administrador e programador), e ter uma esposa que possa preencher o papel de “primeira dama”. Muito melhor se ela tocar órgão. Entretanto, o que dizer sobre a sua profundidade teológica e a confissão de fé que subscreve? Ele realiza um trabalho de exegese do original nos seus sermões, ou ele confia nas notas e referências de outros? Ele gasta bastante tempo estudando e de joelhos? Será que ele é apto para cuidar das necessidades espirituais específicas de seus membros?
No fim da contas, nós queremos uma celebridade, técnico, ex-zagueiro, animador, orador, terapeuta,diretor executivo, tudo embrulhado em uma só pessoa. Não admira que o índice de desemprego entre pastores esteja tão fora de controle! Em outras palavras, nós realmente cremos, a despeito daquilo que professamos, que o que conta é o ministério do pastor Bob ao invés do ministério de Cristo através da Palavra e dos sacramentos. A eficácia, mensurada em termos mundanos, repousa agora sobre o ministro, ao invés de no ministério. Embora mais insidiosa, esta é uma forma de sacerdotalismo tão perigosa quanto a proposta por Roma. Esvaziando a importância do ministério da Palavra e sacramentos, nós não salvamos o sacerdócio de todos os crentes; nós simplesmente substituímos uma forma de sacerdotalismo por outra.
O que significa então ser “chamado” para o ministério?
Na tradição reformada, bem como na luterana, uma pessoa não é chamada para o ministério somente tendo como base um chamado interno do Espírito. Contrário ao “entusiasmo” anabatista, que não somente atacava o sacerdotalismo romano, mas tendia a negar os meios físicos e terrenos em favor das intuições diretamente dirigidas pelo Espírito, os reformadores insistiam que Deus falava nesta instância, tanto quanto em todas as outras, através de tais meios. Enquanto a religião sectária faz diferença entre o indivíduo e a igreja, como categorias de “carne” e “espírito” respectivamente, a fé evangélica histórica rejeita esta anarquia e insiste em relacionar o individual ao corporativo (e não somente o invisível, mas também ao visível) corpo de Cristo. Nesta posição, uma pessoa não é verdadeiramente chamada para o ministério até que haja uma satisfação das qualificações da igreja, explicitamente preceituada nas Escrituras. Pois a igreja é “a coluna e o baluarte da verdade” (1 Tm. 3:15), e os ministros tem o ofício sagrado de ser aio para a noiva de Cristo através da sua jornada terrena. “Até a minha chegada”, Paulo instrui o jovem Timóteo, “aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino. Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto. Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1 Tm. 4:13-16).

Isto é tão legítimo para diáconos e presbíteros, quanto para ministros. Presbíteros devem ser irrepreensíveis e sóbrios, “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tt. 1:5-9). Como isto está longe da prática freqüentemente usada de eleger presbíteros por razões mundanas.
Calvino também se preocupou com esta ameaça nos seus dias: “Isto claramente contradiz a ordem e as regras básicas do cristianismo, crer que as pessoas ricas e importantes por suas posições e nome, deveriam ser eleitas para oficiais da igreja”. Também com freqüência, igrejas elegem oficiais por causa de suas experiências em negócios ou habilidade na área de marketing, editoração, finanças e assim por diante. Depois eles se perguntam porque suas igrejas se tornam corporações e o gabinete pastoral se torna seu escritório. Se queremos seguir as instruções de Paulo para selecionar nossos oficiais, nossas igrejas terão de prosperar sob o ministério da Palavra.
Mas Deus não somente chama presbíteros como ministros leigos para cuidar da condição espiritual da igreja; Ele indicou diáconos para serem ministros leigos no atendimento das necessidades físicas da congregação. Os diáconos foram escolhidos, primariamente, para liberar os apóstolos do peso das tarefas financeiras e administrativas. Os doze apóstolos conheciam o chamado deles quando disseram “Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da Palavra” (At 6:1-4). À medida que os apóstolos foram substituídos neste dever, “crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé” (vs.7).
Ministros, portanto, são chamados para serem inteiramente dedicados ao ministério da Palavra e sacramentos. Este é o motivo pelo qual eles se esforçam para aprender as línguas originais das Escrituras e a entender sua mensagem essencial, com a ajuda de seus mentores eruditos, da antiguidade e contemporâneos. Presbíteros, e mesmo diáconos, devem ser também treinados, mas eles são leigos com vocações ordinárias no mundo. Mas todos os oficiais somente são genuinamente “chamados” para o ministério quando a voz do Pastor é ouvida através de sua igreja. Ou seja, quando um candidato que foi preparado para tal serviço recebe um “chamado” de uma congregação particular e do presbitério regional, ele é finalmente chamado para o ministério por Deus. Sectários podem consideram isto como apagar o Espírito, mas é o desígnio de Deus claramente descrito nas Escrituras. Longe de inibir a liberdade, este padrão na verdade preserva contra a tirania de pregadores carismáticos que reivindicam autoridade apostólica ou uma “unção” separada da supervisão da igreja.
E Bob?
Por fim, voltamos a nossa cena inicial, com Bob anunciando ter sido chamado para o ministério. Geralmente me acho envergonhado pelo zelo dos novos convertidos que têm seus pés preparados com prontidão para pregar as boas novas. Mas, da mesma forma como o conhecimento nunca deve servir para encobrir a falta de zelo, assim também o zelo nunca deveria ser a capa da ignorância. O desejo de Bob em compartilhar o Evangelho é encorajador, mas será que ele não se deixou levar por uma visão errônea de ministério?
Recentemente, um amigo meu me disse quantos casos ele tem de membros de sua igreja que lhe pedem conselho sobre se deveriam entrar para o ministério. “Eu realmente quero servir ao Senhor e buscar os perdidos”, eles dizem. “Eu não quero ficar na periferia; eu quero ser um discípulo verdadeiramente compromissado”. Meu amigo responde “parabéns, você é um cristão!”. Freqüentemente, nosso senso de “chamado” para o ministério nada mais é do que o senso de nosso chamado para pertencer a Cristo. Em outras palavras, é um chamado para a fé, e não para uma vocação particular. Todos nós somos chamados para uma contínua santificação e crescimento em Cristo. Todos nós somos ordenados a aprender mais de Deus e de Sua obra salvadora em Cristo, crescendo em nosso conhecimento. Nenhum crente está isento da obra do Espírito de mortificar o velho homem e ressuscitar seu ser para uma nova vida. E todo cristão, se genuinamente chamado para pertencer a Cristo, deseja ver o perdido reconciliado com Deus. Estas não são qualificações exclusivas dos ministros; elas são características do cristão! Ministros não são pagos para ser discípulos de Cristo por nós, mas para nos guiar na verdade e justiça.
É possível que Bob seja chamado para o ministério da Palavra e do sacramento, mas isso não significa que esteja agindo corretamente. Primeiro, ele deve consultar seu pastor e procurar cuidado de seu presbitério (ou em um regime congregacional, dos presbíteros simplesmente, ou em um regime episcopal, o bispo).
Sob o cuidado da igreja, ele será guiado através de anos de treinamento teológico requerido para o exercício responsável deste chamado e após a conclusão bem-sucedida, ele será testado. Paulo requer isto, mesmo de diáconos, quanto mais de pastores! Depois de passar no exame, ele estará então disponível para o convite de uma igreja. Uma vez que receba esse convite, a convicção inicial que ele tinha do chamado do Espírito é confirmado pela igreja e ele é, verdadeiramente, chamado para o ministério.
Mas este procedimento é bastante diferente do cenário descrito no parágrafo inicial. Lá, Bob estava convencido de que seu chamado para o ministério significava que ele e outro leigo, um homem de negócios, poderiam começar um ministério evangelístico. Mas, como vimos, isto não é determinado em parte alguma das Escrituras.
Da mesma forma, as atividades evangelísticas de Bob não justificam a criação de uma instituição que não seja a igreja. Ele e seu amigo são livres, tanto para seguirem suas vocações seculares e expandir o reino através do evangelismo, como outros cristãos, quanto para abandonar suas vocações seculares e começar o processo de serem chamados para o ministério da Palavra e do sacramento.
Embora este entendimento de ministério pareça mais complicado, ele simplifica em grande parte nossas questões práticas. Ele não somente liberta muitos que pensam que o zelo cristão que possuem tenha de ser expresso através do ministério, para seguirem suas vocações seculares, mas também nos encoraja a olharmos para nossos ministros como verdadeiros representantes de Cristo, guardados do servir às mesas, para que possam dedicar-se a oração e ao ministério da Palavra.
Notas:
1 T. David Gordon, Journal of the Evangelical Theological Society 37/1 (March 1994), 69-78.
Nota sobre o Autor:
Dr. Michael Horton é vice presidente do Conselho da Aliança Evangélica Confessional e professor adjunto de Teologia Histórica do Seminário Teológico de Westminster na Califórnia. Dr. Horton é graduado pela Biola University (B.A.), Westminster Theological Seminary in California (M.A.R.) and Wycliffe Hall, Oxford (Ph.D.), escritor de vários livros já traduzidos para o português, como "A Face de Deus", "O Cristão e a Cultura" e autor de artigos para livros em coletâneas como: "Religião de Poder" e "Reforma Hoje".

quinta-feira, 16 de julho de 2015

UMA PALAVRA AOS PASTORES DESANIMADOS - Por James A. Thomson
















Os ministros que têm uma atitude desanimada para com seu trabalho deveriam ler novamente estas palavras:“acaso é para vós outros cousa de somenos que o Deus de Israel vos separou da congregação de Israel, para vos fazer chegar a si, a fim de cumprirdes o serviço do tabernáculo do Senhor e estardes perante a congregação para ministrar-lhes?”(Nm 16.9). O que tinha feito o Senhor a estes homens?

Primeiro, o Senhor “separou” os ministros da congregação do povo do Senhor. O Senhor os colocou a parte, quando os escolheu dentre os seus irmãos.

Segundo, “para vos fazer chegar a Si”. Todo o povo do pacto de Deus habitava na sua presença e usufruía da sua comunhão. Mas de um modo especial, o Senhor trouxe estes ministros para perto de Si. Eles foram privilegiados em pôr de lado seus trabalhos normais e devotar-se a buscar a sua face, a conhecer a sua palavra. “Nos consagraremos à oração e ao ministério da Palavra” (At 6.4).

Estas coisas o Senhor fez aos ministros. Qual então, deveria ser sua função? Era basicamente dupla. Primeiro, eles deviam “cumprir o serviço do tabernáculo do Senhor”. Sob a disposição da Velha Aliança, isto significava as várias cerimônias, oferendas e deveres ligados ao tabernáculo.

Depois, em segundo lugar, “deviam estar perante a congregação para ministrar-lhe”. O ministro recebia a Palavra do Senhor e então a entregava fielmente ao povo. O ministro ficava como mensageiro de Deus e pregava a palavra viva de Deus. Ele diligentemente aplicava aquela Palavra para eles em seus casos e vidas específicos.

O problema era que os “ministros” a quem se refere Números 16 tinham tudo isto como “uma pequena coisa”. Eles eram escolhidos pelo Senhor, separados para o seu serviço, incumbidos da administração do tabernáculo, encarregados da pregação da Palavra de Deus – tudo isso, e eles consideravam “coisa de somenos!” O episódio sugere lições importantes para nós hoje.

Uma visão pobre do ministério não é precisamente culpa da igreja ou da sociedade. Sugerimos que os ministros do evangelho devem recordar seu honroso chamado com mais freqüência. Como Paulo, eles fariam bem em “Glorificar seu ministério” (Rm 11.13). Possa o Senhor da igreja que é o Senhor de tudo, renovar seus servos em seu alto e nobre chamado! Possa ele encher seus corações com fogo e suas colunas dorsais com aço! Possam os ministros não verem a si mesmos, “ajudantes de carreira” na sociedade, nem como “gerente de pessoal” na igreja, mas possam eles verem-se a si mesmos como escolhidos, ungidos e honrados pelo Senhor.

O ministério é uma honra advinda do Senhor Jesus Cristo. Uma visão bíblica do ministério da Nova Aliança deve começar com Efésios 4.11: “E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres”... “Para o trabalho do ministério”. O pastor–mestre é um dom do Senhor que ascendeu, para a Sua igreja. Como I Tm 1.12 coloca: "Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério". Que honra advinda de Cristo Jesus, ser colocado no ministério e depois ser habilitado para realizar a obra da sua graça! John Brown podia dizer que o ministro é ”por Cristo designado, dirigido, sustentado e recompensado“. Que honra inexprimível ser tão completamente dependente do Senhor da Glória!

Um dos ministros da Nova Inglaterra olhou para trás com humildade quando se comparou a Davi no Salmo 78.70: “Também escolheu a Davi, seu servo, e o tomou dos redis das ovelhas”. “O idoso pregador não viu qualquer razão por que o Senhor o teria tirado do seu ”aprisco“ e o honrou com um ministério frutífero para muitas almas. Se qualquer ministro mantiver este avançado conceito, que o Senhor o elevou ao ministério por sua graça, isto fará muito para mantê-lo afastado de uma visão pobre do pregar.

Jonathan Edwards pregou um memorável sermão, “A Verdadeira Excelência de um Ministério do Evangelho”. Ali ele mostrou como Jesus havia honrado João Batista, (Jo 5.35): “Ele era a lâmpada que ardia e alumiava”. E assim, solicitou Edwards, todo ministro deve lutar para brilhar, pois Cristo “aprecia grandemente” seus ministros. Edwards também chamou a atenção para os filhos de Eli que não cumpriram seu ofício. “Eu o escolhi dentre todas as tribos de Israel para ser meu sacerdote, para subir ao meu altar, para queimar o incenso e para trazer a estola sacerdotal perante mim; Por que pisais aos pés os meus sacrifícios?” (I Sam2. 28,29 a). Vemos nestes filhos de Eli o mesmo coração existente em Coré, o coração que vê levianamente a grande honra do serviço para o Senhor.

O ministro de Cristo deveria olhar para o seu ofício com o mesmo apreço com que o próprio Mestre o faz. Fazer qualquer coisa menos é desonrar seu nome e ter uma visão pobre do privilégio que lhe é conferido. O ministério é um nobre chamado. Paulo não hesitou em dizer: “Eu magnífico o meu ofício”. Jeremiah Burroughs escreveu: “A obra do ministério é uma grande obra... Cristo a considera uma coisa importante... oh, que aqueles, então, que estão no ministério considerem isto uma obra poderosa e importante, como uma tarefa solene”. Se Moisés diz que é uma grande coisa, e Paulo supremamente, Cristo, então quem somos nós para ter visão pobre do ministério cristão? Dr. Martin Lloyd–Jones deixou um exemplo encorajador para os ministros. Ele deixou uma carreira médica promissora e ainda testificou ao longo de sua vida que não viu isto com sacrifício. Ao contrário, sentiu-se profundamente privilegiado em ter sido chamado para ser ministro do evangelho. Através dos anos, muitos pregadores desanimados chegaram à sacristia da capela de Westminster e saíram com uma visão elevada do ministério e não menos do seu próprio ministério.

Em sua exposição de Efésios, Dr. Lloyd–Jones afirma: “Este é o significado e o propósito do ministério. Esta é a minha função como um pregador e mestre, fui chamado para fazer isto. Passei meu tempo lendo este livro e tentando expô-lo. Esta é a razão porque vocês devem vir e ouvir”. Oh, que todos os ministros possam manter esta atitude com relação ao ministério e não hesitar em dizer assim ao seu povo! Faria um grande bem para nós relembrar o que Latimer disse uma vez para um homem que cinicamente afirmou que pregar “de nada adianta”. Latimer replicou: “Esta é uma resposta perversa, mui perversa”.

O ministro deve clamar ao Senhor para revigorá-lo com um devotamento paciente para a grande obra. Se existe uma porção da Escritura inerrante para a qual ele deve voltar-se, é I Co 4: “Assim, pois importa que os homens nos considerem como ministros e despenseiros dos mistérios de Deus... nos tornamos espetáculo... somos loucos por causa de Cristo... desprezíveis... sendo injuriados... caluniados... escoria de todos” (I Cor 4.1-13). Aqui está um ministro que sabe, ele próprio, ter sido designado por Cristo e comissionado com os mistérios do evangelho. Que grandiosa coisa! E, contudo, que coisa pequena é aos olhos do mundo – algumas vezes também aos olhos da igreja. Que pode fazer e dizer o ministro? “O que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel”.

No final, o que importa é a fidelidade ao Senhor. “Quem é, pois o servo fiel e prudente, a quem o senhor confiou os seus conservos para dar-lhes o sustento a seu tempo? Bem aventurado aquele servo a quem seu senhor, quando vier, achar fazendo assim” (Mat 24.45,46).

O ministro, porém, pode perguntar: “Senhor, se tu tens me enviado e eu estou falando fielmente, por que esta grande obra parece não ser bem sucedida?”. Aqui o ministro deve permanecer com Paulo:“Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus... cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho” (I Cor 3.6,8). O Senhor da seara o enviou para plantar, mas não para ver uma vasta colheita? Então, seja devotado à honra de plantar e regar para o Senhor. Spurgeon uma vez colocou assim: “Sua esfera pode ser muito limitada. Isto não importa; mas importa que você seja fiel ao Senhor”. Ministro seja devotado a sua grande obra, pois não há “coisa pequena” a ser encontrada, fazendo o que o Senhor o enviou a fazer.

Como em nossos dias veremos um retorno a uma visão elevada do ministério? Deveria começar com o próprio ministro. Ele deve ter a ousadia dada por Deus para permanecer diante do povo de Deus, sabendo em sua própria consciência que ele é um ministro de Cristo. “Ele me enviou para falar e mostrar para vocês grandes coisas da sua Palavra. Por isto é que vocês devem ouvir”.

Hoje não vemos o parlamento sentado aos pés de um Owen. O povo de Boston não se extasia mais com as palavras de um Jonh Cotton. Mas, os ministros ainda são honrados quando verdadeiramente servem a Cristo. Possam os servos do Senhor magnificar seus ofícios por suas vidas santas, por sua pregação poderosa e por seu devotamento à maior obra de todas! Possam as igrejas apreciá-los altamente, em amor, por causa do trabalho que realizam (I Ts 5.13)!

terça-feira, 14 de julho de 2015

QUEM É A PEDRA? Por William Hendriksen



















O significado é: VOCÊ É PEDRO, ISTO É, ROCHA, E SOBRE ESTA ROCHA, ISTO É, SOBRE VOCÊ PEDRO, EDIFICAREI MINHA IGREJA. 'E eu disse a você, você é Kepha, e sobre esta kepha edificarei minha igreja'. Jesus, pois, está prometendo a Pedro que ele está para edificar sua igreja sobre ele! Eu aceito este ponto de vista.


Havendo dito isso, é necessário qualificar essa interpretação da seguinte forma. Jesus promete edificar sua igreja:

a. Não sobre Cefas como ele era por natureza, mas sobre ele considerado como um produto da graça. Por natureza esse homem era, em certo sentido, débil, muito instável, como já se indicou. Pela graça se tornara a mais corajosa, entusiasta e eficaz testemunha da verdade que o Pai lhe revelara com respeito a Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo. Foi nesse sentido que Jesus usou Pedro para edificar - reunir e fortalecer - sua igreja.

b. Não sobre Cefas considerado completamente isolado, mas sobre Cefas como o 'primeiro entre iguais' (Mt 10.2), isto é, sobre 'Pedro assumindo sua posição com os onze' (At 2.14). A autoridade que em 16.19 é delegada a Pedro é em 18.18 delegada aos Doze (ver também Jo 20.23). De fato, no exercício dessa autoridade a congregação local não deve ser desconsiderada (18.17).

Quando o Senhor disse as palavras registradas aqui em 16.18,19, ele certamente não quis dizer que Pedro agora podia começar a 'dominar' sobre os demais discípulos. Os demais não o entendiam dessa forma (18.1; 20.20-24), e Jesus certamente rejeitou tal interpretação (20.25-28; cf. Lc 22.24-30). Se Pedro mesmo houvesse concebido sua autoridade ou a de outros como a de um ditador, como poderia haver escrito uma passagem tão bela como 1Pedro 5.3?

c. Não sobre Cefas como fundamento primordial. No sentido primário ou básico do termo, só há um único fundamento, e esse fundamento não é Pedro, e, sim, o próprio Jesus Cristo (1Co 3.11). Num sentido secundário, porém, é inteiramente legítimo falar dos apóstolo, inclusive Pedro, como o fundamento da igreja, porque esses homens sempre estavam desviando a atenção de si mesmos para Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador.

William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: Mateus. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. pp. 204-205.