sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Sabedoria Vinda de Deus

Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida. Peça-a, porém com fé, sem duvidar, pois aquele que duvida é semelhante à onda do mar, levada e agitada pelo vento. Não pense tal pessoa que receberá coisa alguma do Senhor, pois tem mente dividida e é instável em tudo o que faz. (Tg 1: 5-8)


Sempre se diz que a vida não fica mais fácil quando nos tornamos seguidores de Cristo. Nós continuamos a ter muitos dos problemas partilhados pelo resto da humanidade. Eles são os produtos das imaginações perversas e dos estilos de vida dos não-Cristãos, o que nós já fomos antes de Deus nos ter salvado pelo Evangelho. Nós também contribuímos para a triste condição do mundo, e na medida em que ainda pensamos e nos comportamos como não-cristãos, continuamos a contribuir para isto. Contudo, agora que Jesus Cristo nos foi revelado, e a nossa justificação e adoção nele foi manifesta, ainda que permaneçamos no mundo, não somos mais do mundo. Por esta razão, acrescentando-se aos problemas que são comuns à humanidade, agora enfrentamos também perseguições daqueles que odeiam ao nosso Mestre. Nossos pensamentos e ambições são redirecionados para promoverem a verdade e a honra de Deus, mas não é assim que o mundo vê.
Contudo, a vida se torna mais fácil quando cremos em Jesus Cristo. Talvez para aqueles que eram particularmente jovens, tolos, ou corretos em si mesmos como os não-cristãos, a vida parece se tornar mais difícil quando eles subitamente acordam para a verdade sobre a sua própria depravação, a condição decaída do mundo e o estilo de vida contracultural dos discípulos de Cristo. Mas para aqueles de nós que alcançaram alguma medida de consciência espiritual no caminho da conversão, e se deleitaram na miséria da vida sem Cristo por algum tempo, não há nada mais feliz que a vida cristã. Nós estamos morrendo por dentro, mas Jesus Cristo nos segurou e injetou a sua ressurreição em nós. Nós éramos perdedores espirituais e criminosos, mas ele nos fez vencedores e conquistadores nEle. É claro que agora o mundo nos odeia e nos trata como inimigos e desordeiros, mas a eterna glória da vida em Jesus Cristo de longe excede o peso do sofrimento momentâneo de viver como filhos de Deus em um mundo de demônios.
O mundo é hostil aos Cristãos, mas Deus não nos deixa desamparados nem sem recursos espirituais para vencer. Ainda que pareça que muitos problemas possam ser contornados com dinheiro e poder, e ainda que Deus seja sempre capaz de livrar o Seu povo por meio de forças miraculosas, no decorrer de providência normal Ele nos faria enfrentar as nossas dificuldades com inteligência. Deus quer que compreendamos a mente dEle, e assim é apropriado para nós termos um desejo correspondente, para que, como Moisés, nós digamos a Ele: “Ensina-nos os teus caminhos”. Na medida em que vimos a conhecer a palavra de Deus e a saber como aplicá-la a nossa situação, mais e mais iremos compreendê-LO e concordar com Ele. Vamos aprender a pensar com Ele pensaria, a decidir como Ele decidiria e nos comportarmos como Ele se comportaria. Vamos aprender que a maneira de Deus é diferente da dos homens, e que a Sua maneira é de longe melhor e muito mais sábia. Na vida muitas coisas parecem úteis e necessárias, mas o que nós mais precisamos é da sabedoria de Deus.
Deus irá nos conceder sabedoria quando orarmos pedindo por ela. Não há necessidade de uma explicação complicada. Apenas peça a Ele, e Ele lhe dará. A Bíblia ainda insiste que em que nós peçamos com fé. Na realidade não existe outra maneira de pedir, mas a questão nos traz uma grande lição, porque a fé implica numa postura definida para com Deus que não pode ser confundida com atitudes impróprias sobre Ele. Se você tiver de pedir com fé, isto quer dizer que você não pode estar amargo e amedrontado em face aos problemas. Você não pode se ressentir com Deus e ao mesmo tempo Lhe pedir ajuda. A oração que agrada a Deus e que é efetiva deve ser o resultado de uma teologia ou doutrina sã, uma compreensão intelectual da verdade sobre Deus. Aqui a Bíblia requer que a pessoa compreenda e creia em alguma coisa sobre Deus, a saber, que ele é generoso com sua sabedoria para com o Seu próprio povo. Quando precisamos de sabedoria vinda de Deus, você a pode obter, e você pode ter bastante dela. Mas você tem que vir e pedir, e quando você vier, tem que acreditar que Deus é o Deus generoso que a Bíblia diz que é.
Deus nunca aprova a dúvida, mas sempre a condena. Contudo existem autores e professores cristãos que nos dizem que duvidar é natural, e que a dúvida em última instância nos ajuda a crescer na fé. Esta não é a perspectiva da Bíblia. É claro que a dúvida é natural à humanidade decaída, mas neste sentido o assassinato e o estupro também são naturais. Se não há razão para sermos tolerantes com o assassinato e o estupro, existe ainda menos razão para o sermos com a dúvida. E quando Seus discípulos duvidaram dEle, Jesus não disse, “Olhem para dentro desta dúvida e considerai-a. Vão adiante com ela. Vejam o meu Pai e a mim como mentirosos por um pouco mais. Isto ajudará vocês a crescerem!” Não, Ele os detonou por causa da dúvida deles. Ele os repreendeu e os fez sentir mal quanto à dúvida.
A tentativa de embelezar a dúvida é a maneira pecaminosa de o homem justificar as suas limitações, de atrasar a correção, e até mesmo se recusar ao arrependimento. Nunca devíamos dizer a um assassino em série: “Vá e mate algumas pessoas mais e dê vazão à sua maneira de pensar. Reflita no que fez você assim. Mate mais gente para que possa entender as suas motivações. Tome tempo para resolver isto e você se tornará uma pessoa melhor por isso. Assassinato vai te ajudar a crescer em santidade!” Não, nós vamos exigir que ele pare imediatamente. Vamos tratá-lo como criminoso e trancá-lo, e até mesmo executá-lo. Mas algumas pessoas querem que pensemos que a dúvida é saudável. Isto é um engano. A dúvida é um pecado que está relacionado até mais de perto com o nosso distanciamento de Deus – até mais que o assassinato ou o estupro. Qualquer pessoa que embeleze isto é um cúmplice, um criminoso espiritual. Você cresce em santidade parando de matar. Você cresce na fé matando a dúvida.
Jesus Cristo nos ordenou que ensinássemos às nações. O mundo está procurando as soluções para os seus problemas. Poderíamos dizer que o mundo está procurando em todos os lugares errados, mas a situação deles é de fato pior que isto. Eles nem mesmo estão lutando pelo lado certo, ou olhando na direção certa. O primeiro problema é a rebelião deles contra Deus, e todos os outros problemas deles são somente subprodutos desta transgressão fundamental. E então nós ensinamos aos não-cristãos, “Não importa o que você enfrente hoje, você é miserável e está morrendo porque o seu pecado te separou de Deus. Colocar uma atadura em cima de um câncer corrosivo não irá curá-lo. Você tem que confessar os seus pecados e voltar para Deus através de Jesus Cristo. Então, você pode se aproximar dEle com uma fé resoluta e pedir a Ele que lhe conceda a Sua sabedoria e que lhe ensine os Seus caminhos. Esta é a única esperança para você, e a única esperança para a humanidade.”

Tradução: Claudino Marra
Revisão: Jazanias de Oliveira

A Prioridade da Obediência


Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. (1 Samuel 15.22)


Todos nós conhecemos a história. O Rei Saul recebeu a ordem de não tomar despojos dos amalequitas, mas destruir tudo, incluindo os animais. Quando o profeta Samuel descobriu que Saul tinha poupado muitos animais para o seu próprio uso, ele o condenou firmemente por sua desobediência. O Rei Saul tentou justificar suas ações dizendo que tinha guardado os melhores dos animais a fim de usá-los para as ofertas de sacrifício a Deus. Pouco impressionado, Samuel fala no lugar de Deus: “Obedecer é melhor do que o sacrificar”. E como resultado da “rejeição” de Deus por Samuel, Deus rejeitou Samuel — seu reino seria tomado e dado a outro.
Mas observe as palavras de Samuel — Obedecer é melhor do que o sacrificar”. Sem dúvida, em certo nível, e pensando nisso à luz da revelação mais completa do Novo Testamento, percebemos que se não há sacrifício para o pecado, não temos nada em absoluto. Nesse sentido, não existe nada mais importante que o sacrifício.
Mas não é isso o que Samuel tinha em mente. Saul tinha oferecido sacrifício ao Senhor — e isso é algo bom! Mas nessa ocasião Deus rejeitou o sacrifício. A adoração de Saul era inaceitável. Por quê? Porque a desobediência de Saul ao mandamento de Deus mostrou que sua “adoração” era uma farsa. Deus não aceitará a adoração do desobediente.
Dois pontos principais de aplicação emergem a partir disso. Primeiro, Deus espera que o obedeçamos, e nos considera responsáveis aqui. Deus não oferece sugestões. Ele dá mandamentos. E nós, suas criaturas, somos obrigados a obedecê-lo. Não devemos selecionar e escolher — devemos obedecer!
Segundo, não devemos fingir que adoramos a Deus, se não obedecemos aos seus mandamentos. Podemos ir com a maré — ir na igreja, dar o dízimo, cantar os hinos, orar — mas se formos desobedientes, nossa adoração não será aceitável.
Isso é fascinante e de significado imenso, e é um corretivo muito necessário para o nosso pensamento natural. Quando pecamos — desobedecemos à Palavra de Deus — nossa tendência, em vez de se arrepender, é justificar esse pecado envolvendo-nos ainda mais fortemente na adoração. Asseguramo-nos de ir à igreja. Cantamos os hinos de coração. Damos dinheiro extra na hora das ofertas. E, talvez inconscientemente, queremos pensar que tudo isso compensa o pecado, que de alguma forma nossa boa adoração compensará a nossa desobediência. Mas podemos estar certos que Deus não é tão facilmente enganado. Nem ele é tão facilmente subornado.
Mais tarde na história de Israel o profeta Isaías condenou a nação por sua adoração. Ele condenou seus sacrifícios e ofertas — tudo o que Deus ordenou! Mas era tudo uma farsa, um ritual vazio e insincero, pois eram um povo desobediente.
No Novo Testamento o apóstolo faz o mesmo. Ele diz aos coríntios que a sua observância da Ceia do Senhor tinha trazido sobre eles o desprazer e a disciplina de Deus. A forma como eles estavam tratando uns aos outros na congregação era pecadora, e assim, a adoração deles era indigna de Deus. Aqui novamente a adoração é de acordo com o mandamento de Deus, mas foi rejeitada por causa de desobediência.
Tudo isso para dizer que Deus espera sinceridade na adoração. Não ousemos brincar com ele. Não podemos selecionar e escolher quais leis obedeceremos. E tendo desobedecido a Deus, não finjamos adorá-lo. Deus exige sinceridade na adoração!

Tradução: Felipe Sabino—  janeiro de 2012.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Em que a ascensão de Cristo nos beneficia?






Primeiro, a ascensão de Cristo nos beneficia porque temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo (1Jo 2.1). Nosso Senhor Jesus está no céu defendendo a nossa causa, para que sempre, seja do que for que Satanás nos acusar em nossa consciência ou se atrever a fazer acusação contra nós diante do Pai, Jesus Cristo, Filho de Deus e nosso advogado impecável, está pronto para defender e apresentar seu próprio sangue por nós. Pense sobre isso. Cristo é o nosso parceiro de oração no céu. Ele intercede por nós diante do trono (Rm 8.34). 
Segundo, a ascensão de Cristo nos beneficia porque agora temos a nossa própria carne no céu; nossa vida está escondida com Cristo que habita em glória acima (Cl 3.3-4). A carne de Cristo no céu é uma garantia de que a nossa vai estar lá também algum dia. A nossa esperança não é uma eternidade como alma desencarnada, mas um corpo humano material real, ressuscitado, na presença de Deus para sempre. O corpo de Cristo é o primeiro lá, mas não o ultimo. 
Terceiro, a ascensão de Cristo nos beneficia porque temos o Espírito Santo como um resultado. Como o próprio Jesus explicou aos seus discípulos: "Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei" (Jo 16.7). Isso não era um golpe no seu próprio ministério terreno, mas Jesus entendia que, como homem, ele estava limitado a um só lugar ao mesmo tempo. Porém, uma vez que subisse ao céu, ele poderia enviar outro Consolador (Jo 14.16) para nos dar poder do alto e estar conosco para sempre. 
Você pode não pensar sobre a ascensão de novo por algum tempo, então medite sobre esta doutrina comigo por mais dois minutos. Pense nas implicações da ascensão de Cristo. A ascensão significa que estamos no céu, neste momento. Por meio da união com Cristo, nós realmente não somos cidadãos deste mundo. Colossenses diz-nos para fixar a mente nas coisas lá de cima, porque nossa vida está escondida com Cristo, que habita lá (3.2-3). 
A ascensão de Cristo implica também que "pedir a Jesus que entre em seu coração" não significa convidar um amigo ou tipo de reconfortante de terapeuta para dentro de sua vida. Isso significa - se estamos usando frase não bíblica de uma maneira bíblica - que estamos expressando o nosso desejo de sermos um com o rei do universo. O Jesus que mora dentro de nosso coração está sentado, à direita de Deus Pai Todo-Poderoso. 
Mais surpreendente de tudo, a ascensão significa que Deus concedeu todo governo, poder, autoridade e domínio (Ef 1.21-22) a um homem. Talvez seja por isso que Tolkien fez tal afirmação em O Senhor dos Anéis para enfatizar que um homem se sentaria no trono de Gondor, e a raça dos homens reinaria mais uma vez. Jesus Cristo está exercendo o domínio que o homem foi feito para ter desde o início (Gn 1.28). Por causa da ascensão de Cristo, nós sabemos que a encarnação continua, a humanidade de Cristo vive no céu, o Espírito vive em nosso coração. E um ser humano divino e de carne governa o universo. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Vocacionados Para Glória de Deus


Uma nova Reforma acontecerá não com um Martinho Lutero ou um grande líder mundial carismático, mas com milhares de cristãos simples com o espírito cooperador de Lutero. Deus deseja verdadeiros colaboradores. Lutero, Calvino, Knox, Edwards, Spurgeon e outros tiveram sua valiosa importância para Deus e para o mundo como grandes líderes cristãos, mas um servo de Cristo não trabalha primordialmente para se destacar como um grande líder reformador; apenas faz seu trabalho com a motivação correta de glorificar a Deus, como os reformadores fizeram. Se Deus em sua graça quiser exaltar um dos seus servos, isso pertence só à Sua soberana vontade. Os grandes reformadores não trabalharam para tornarem-se grandes por si, mas tão somente viveram de acordo com a vontade de Deus, através do sacrifício, da fé, da humildade, da disciplina e motivação correta, daí puderam ser úteis para Deus no mundo, e seus frutos permanecem.
Neste exato momento o Espírito Santo está se movendo sobre todas as nações e levantando um novo exército de pessoas comuns, de simples discípulos, de obreiros normais, de somente servos. Milhares de homens e mulheres, apenas simples seguidores de Cristo levaram, levam e levarão a Palavra de Salvação para pessoas em todos os lugares. Como ouvirão se não há quem pregue? Aqueles que levam a mensagem da Cruz de modo humilde e anônimo têm o poder de levar a Palavra do Salvador onde ninguém levou. O Senhor quer trabalhadores comuns que façam sua parte sem desejar destacarem-se por isso, mas que tão-somente cumpram sua tarefa, missão e chamado. Deus pode fazer nascer uma comunidade cristã em um dia ou em uma semana ou um mês, o que normalmente levaria um ano aos olhos de incrédulos. Deus levanta pessoas improváveis em lugares improváveis para chamar seus eleitos e reunir sua amada Igreja. O Senhor não despreza os mais desprezíveis e insignificantes servos do seu povo. Ele trabalha com pequenos átomos para revolucionar comunidades inteiras. É preciso clamar a Deus por sua visão, sem a qual não haverá ânimo verdadeiro.
É normal para o mundo pensar em termos de status e títulos; o mundo busca reconhecimento e destaque. E isso tem influenciado muitos cristãos. A busca pelo reconhecimento é uma armadilha sedutora. Ouça: Deus ama o menor e mais simples discípulo, Ele não vê superficialmente, mas vê o coração e visita com alegria os quebrantados. Não há necessidade maior do que ser um simples servo de Cristo para Deus. O Pai deseja um relacionamento de verdade com seus filhos, nada mais. Não coloque seu orgulho, auto-suficiência e tradição entre seu relacionamento real com Deus. Cristo quer servos integralmente, sem hipocrisias e sem reservas. Lembrando que nossa capacidade vem de Deus. — Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus. 2 Coríntios 3:5.
Faça o que poucos fazem: o básico, o fundamental. Quanto mais um servo de Cristo quer ser útil, mais ele descobre como é difícil ser simples. É fácil desviar-se do caminho com muitas luzes ofuscando a visão. Mas ninguém pode impedir você de seguir seu chamado, nem legiões de demônios ou homens. Junte-se ao exército de servos anônimos e morra como um desconhecido indigente para o mundo, se necessário, mas não busque glórias humanas. Busque em primeiro lugar a aprovação dAquele que vê em secreto. Busque servir a Deus em lealdade, com diligência, amor, abnegação e finalidade. Isto é o mais simples e difícil.
Tenha fidelidade ao seu chamado e à verdade. Aceite com humildade e alegria o lugar determinado por Deus, quer este lugar seja de destaque ou não. Sirva sem murmuração, mas com alegria de coração. O Senhor deu dons a indivíduos de carne e osso para que sirvam, para que multipliquem, frutifiquem. Não se torne negligente, mau e infiel. Os campos estão prontos para a colheita, é preciso visão para enxergar e vocação para ouvir e obedecer. — Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. João 15:14.
Que Deus capacite você a usar sua vocação para glória dEle.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A hipocrisia e mentira dos falsos líderes - Por: João Calvino







Espíritos sedutores (1Tm 4.1-3). Paulo está se referindo a profetas ou mestres, aplicando-lhes esse título porque se vangloriavam de possuir o Espírito, e ao procederem assim estavam causando impressão sobre o povo. Em geral, é deveras verdade que todas as classes de pessoas falam da inspiração de um espírito, mas não o mesmo espírito que inspira a todos. Pois às vezes Satanás passa por espírito mentiroso na boca dos falsos profetas, com o fim de iludir os incrédulos que merecem ser enganados [1 Rs 22.21-23]. Mas todos quantos atribuem a Cristo a devida honra falam pelo Espírito de Deus, no dizer de Paulo [1 Co 12.3]. Esse modo de expressar-se teve sua origem na reivindicação feita pelos servos de Deus, a saber, que todos os seus pronunciamentos públicos lhes vieram por revelação do Espírito; e, visto que eram os instrumentos do Espírito, lhes foi atribuído o nome do Espírito. Mais tarde, porém, os ministros de Satanás, através de uma falsa imitação, como fazem os símios, começaram a fazer a mesma reivindicação em seu favor, e da mesma forma falsamente assumiram o mesmo nome. Eis a razão por que João diz: "provai os espíritos, se realmente procedem de Deus" [1 Jo 4.1].

Além do mais, Paulo explica o que quis dizer, acrescentando: e doutrinas de demônios, o que eqüivale dizer: "atentando para os falsos profetas e suas doutrinas diabólicas". Uma vez mais digamos que isso não constitui um erro de somenos importância ou algo que deva ser dissimulado, quando as consciências dos homens são constrangidas por invenções humanas, ao mesmo tempo que o culto divino é pervertido.

Pela hipocrisia, falam mentiras. Se esta frase for considerada como uma referência aos demônios, então falar mentiras será uma referência aos seres humanos que falam falsamente pela inspiração do diabo. Mas é possível substituí-la por: "através da hipocrisia dos homens que falam mentiras". Evocando um exemplo particular, ele diz que falam mentiras hipocritamente, e são marcados com ferretes em sua consciência. E devemos observar que essas duas coisas se relacionam intimamente, e que a primeira flui da segunda. As más consciências que são marcadas com o ferrete de seus maus feitos lançam mão da hipocrisia como um refúgio seguro, a saber, engendram pretensões hipócritas com o fim de embaralhar os olhos de Deus. Aliás, esse é o mesmo expediente usado por aqueles que tentam agradar a Deus com ilusórias observâncias externas.
E assim, a palavra hipocrisia deve ser entendida em relação ao presente contexto. Ela deve ser considerada primeiramente em relação à doutrina, e significando que gênero de doutrina é esse que substitui o culto espiritual de Deus por gesticulações corporais, e assim adultera sua genuína pureza, e então inclui todos os métodos inventados pelos homens para apaziguar a Deus ou obter seu favor. Seu significado pode ser assim sumariado: em primeiro lugar, que todos os que introduzem uma santidade forjada estão agindo em imitação ao diabo, porquanto Deus jamais é adorado corretamente através de meros ritos externos. Os verdadeiros adoradores "o adorarão em espírito e em verdade" [Jo 4.24]. E, em segundo lugar, que esse culto externo é uma medicina inútil por meio da qual os hipócritas tentam mitigar suas dores, ou, melhor, um curativo sob o qual as más consciências ocultam suas feridas sem qualquer valia, a não ser para agravar ainda mais sua própria ruína.


Proibindo o matrimônio. Havendo descrito a falsa doutrinação em termos gerais, ele agora toma nota de dois exemplos específicos dela - a proibição do matrimônio e de certos alimentos. Tal atitude tem sua origem na hipocrisia que abandona a genuína santidade e então sai em busca de algo mais à guisa de dissimulação. Pois aqueles que não se abstêm da soberba, do ódio, da avareza, da crueldade e de coisas afins, tentam adquirir justiça por seus próprios esforços, abstendo-se daquelas coisas que Deus deixou para o nosso livre uso. A única razão por que as consciências são sobrecarregadas por tais leis é porque a perfeição está sendo buscada à parte da lei de Deus. Isso é feito pelos hipócritas que, procurando transgredir impunemente aquela justiça interior que alei requer, tentando ocultar sua perversidade interior por meio de observâncias externas, com as quais se encobrem como com véus.
Isso se constituía numa clara profecia do perigo que não seria difícil de se observar, se os homens atentassem para o Espírito Santo que fez registrar uma advertência tão distinta. Não obstante, percebemos que as trevas de Satanás geralmente prevaleciam, de tal sorte que a clara luz dessa perfeita e memorável predição não deixou de cumprir-se. Não muito depois da morte dos apóstolos levantaram-se osencratitas ~ que derivaram seu nome do termo grego, continência —, ostacianistas*, os catarístas, Montanocom sua seita e finalmente os maniqueus, que sentiam extrema aversão por carne como alimento e pelo matrimônio, e condenavam a ambos como sendo profanos. Ainda que tenham sido repudiados pela Igreja em razão de sua arrogância em pretenderem obrigar os demais a sujeitarem-se a seus pontos de vista, não obstante tornou-se evidente que, mesmo aqueles que os resistiram, cederam aos seus erros mais do que lhes era conveniente. Esses de quem estou falando agora não tiveram intenção de impor uma nova lei aos cristãos, contudo atribuíam mais importância a observâncias supersticiosas, como abstinência do matrimônio e de carne como alimento. Tal é a característica do mundo, sempre imaginando que Deus pode ser cultuado de uma forma carnal, como se ele mesmo fosse carnal. A situação se tornava gradualmente pior, até que um estado de tirania se fez prevalecente, ao ponto de o matrimônio não mais ser lícito aos sacerdotes ou monges, ou que em todos ou em certos dias não comerem carne. Por conseguinte, temos boas razões para hoje crer que essa profecia se aplica aos papistas, visto que obrigam o celibato e a abstinência de alimentos mais rigorosamente do que a obediência a qualquer dos mandamentos de Deus. Acreditam que podem escapar da acusação de torcer as palavras de Paulo, fazendo-as aplicar-se aos tacianistas, aos maniqueus ou a grupos afins, como se os tacianistas não pudessem tê-la evitado da mesma forma, voltando as censuras de Paulo contra os catafrinenses e contra Montano, o autor dessa seita; ou como se os catafrinenses não pudessem facilmente fazê-la retroceder contra os encratistas como culpados em seu lugar. Aqui, porém, Paulo não está preocupado com pessoas, e, sim, com os pontos de vista que elas defendiam; e mesmo que surgisse uma centena de seitas diferentes, todas elas laborando sob a mesma hipocrisia em exigir a abstinência de alimentos, todas estariam incorrendo na mesma condenação.Portanto, debalde se faz que os papistas evoquem os antigos hereges como sendo eles os únicos alvos da condenação paulina. E mister que vejamos bem se porventura não são igualmente culpados. Alegam que são distintos dos encratistas e maniqueus, porquanto não proíbem de forma absoluta o matrimônio e alimentos, senão que obrigam a abstinência de carne somente em certos dias, e exigem um voto de celibato somente aos monges, sacerdotes e freiras. Mas essa é uma desculpa completamente frívola, porquanto fazem a santidade consistir dessas coisas e estabelecem um culto a Deus falso e espúrio, bem como escravizam as consciências humanas com uma compulsão da qual devem estar totalmente livres.No quinto livro de Eusébio há um fragmento dos escritos de Apolônio no qual, entre outras coisas, repreende Montano por ser o primeiro a dissolver o matrimônio e a estabelecer regras para o jejum. Ele não diz que Montano proibisse universalmente o matrimônio ou certos alimentos. É suficiente impor às consciências humanas uma obrigação de se fazer essas coisas e cultuar a Deus através de sua observância. Proibir coisas que são de livre uso, seja em termos universais, seja em casos especiais, é sempre uma tirania diabólica. Mas isso se tornará ainda mais óbvio à medida que certos tipos de alimentos aparecerem na próxima cláusula.


Os quais Deus criou. É mister que notemos bem a razão apresentada por que devemos viver contentes com a liberdade que Deus nos concedeu no uso dos alimentos. E porque Deus os criou para esse fim. Eles proporcionam o maior contentamento a todos os piedosos, por saberem que todos os tipos de alimentos que comem lhes são postos nas mãos pelo Senhor, para que desfrutem deles de modo puro e legítimo. Como é possível que os homens excluam o que Deus graciosamente concedeu? Podem, porventura, criar alimentos? Ou podem, porventura, invalidar a criação de Deus? Lembremo-nos sempre de que Aquele que criou é também o mesmo que nos faz desfrutar de sua criação, e é debalde que os homens tentem proibir o que Deus criou para o nosso uso.

Deus criou o alimento para ser recebido, ou seja, para o nosso usufruto. Ele, porém, acrescenta: com ações de graças, pois o único pagamento com que podemos retribuir a Deus por sua liberalidade para conosco é dando testemunho de nossa gratidão. E assim, ele expõe a uma maior execração os perversos legalistas que, mediante novas e precipitadas sanções, obstruíam o sacrifício de louvor que Deus especialmente requer que lhe ofereçamos. Além do mais, não é possível haver ações de graças sem sobriedade e moderação, e não é possível haver genuíno reconhecimento da benevolência divina por parte de alguém que impiamente a insulta.

Fonte: [ O Calvinista ]
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