quarta-feira, 18 de junho de 2014

9 segredos que a esposa do seu pastor gostaria que você soubesse


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Por Christina Stolaas


Ela está sempre lá. Às vezes, no fundo, às vezes com um sorriso de boas-vindas na frente, às vezes notada e apreciada, às vezes sendo silenciosamente julgada. A esposa do seu pastor; a força poderosa por trás da maioria dos líderes da igreja, muitas vezes é rotulada como um "mistério" pelo resto da igreja. Isso não tem que ser assim.

E se nós apenas pedíssemos a esposa de nosso pastor abertamente, honestamente, mesmo anonimamente, para compartilhar alguns de seus segredos? E se a gente as convidasse a compartilhar seus corações e nos dizer o que gostariam que a igreja soubesse?

Eu fiz uma simples pergunta aberta a um grupo de esposas de pastores em estados diferentes, de diferentes denominações, com vários anos de serviço, "Se você pudesse dizer a igreja algumas coisas sobre o seu papel como esposa de um pastor, o que você gostaria de dizer?"

As mulheres selecionadas são as esposas dos ministros de música, líderes das crianças, pastores seniores e pastores de jovens. Alguns deles servem em igrejas com uma grande equipe e orçamentos ainda maiores, outros em igrejas mais recentemente plantadas, e até mesmo algumas esposas de pastores a mais tempo e que mal sobrevivem em congregações. Apesar de tais fundos diferentes, suas respostas eram estranhamente similares, e, em muitos casos, quase idênticas.

Eu me sentei para o café, troquei e-mails e tive longas conversas com muitas pessoas que livremente compartilharam seus segredos comigo em troca da promessa de anonimato. O que se segue é um conjunto condensado de suas palavras.

1) "Eu queria que as pessoas soubessem que lutamos para ter tempo para a família."

Houve uma resposta comum que recebi da mulher de cada pastor. Cada uma, única, singular. Várias e várias vezes, as esposas de muitos pastores compartilharam inúmeras ocasiões em que férias planejadas tiveram de ser encurtadas (isso não é chato?). Contaram-me histórias de noites familiares tendo de ser reorganizadas por causa de crises de membros da igreja, emergências a meia noite e interrupções regulares. Um verdadeiro dia de folga é raro; mesmo os dias de folga programados de seus maridos são, essencialmente, de plantão.

2) "Quase todos os dias eu estou com medo de estragar tudo."

Elas enfrentam muitas das mesmas questões que todas as outras  mulheres enfrentam: questões de casamento, as extensas dificuldades familiares, doença, finanças, crianças que tomam decisões inadequadas, medos e inseguranças. Alguns momentos da vida são, obviamente, mais difíceis que outros; mas lembre-se, as esposas dos ministros não são a "Mulher Maravilha" com poderes especiais. Por favor, tenham um pouco de misericórdia e ofereça a graça.

3) "Ser esposa de pastor é a coisa mais solitária que eu já fiz e por muitas razões."

Pessoalmente, eu acho que isso será surpreendente para muitos (foi para mim). Várias senhoras compartilharam as dificuldades de encontrar amizades que fossem seguras, sendo observadas (ou tratadas) de forma diferente, e até mesmo o desejo de serem convidadas para uma noite ocasional de senhoras. Ou quem sabe "uma mulher comum", convidando-nos a algo, apenas para nos conhecer. Nós gostamos de conhecer pessoas e sermos conhecidas. As pessoas na igreja muitas vezes pensam que a esposa do pastor é sempre convidada para tudo e popular. Na realidade, por qualquer motivo, muitas mulheres temem fazer amizade com elas. Nas manhãs de domingo as esposas de pastores estão muitas vezes sentadas sozinhas e aquelas com filhos acabam parecendo, essencialmente, mães solteiras.

4) "Sem problema! Seja bem vinda para conversar comigo sobre as coisas que não dizem respeito à igreja, ou mesmo Jesus. Eita, eu falei!"

Elas têm uma variedade de interesses. Acredite ou não, muitas esposas de pastores foram para a faculdade e exerceram suas carreiras em tempo integral antes de se tornarem  "A Sra. Esposa do Pastor". Elas têm hobbies, gostos e desgostos, e embora elas muitas vezes sirvam ao lado de seu marido, elas são indivíduos com seus próprios dons. Não cometa o erro de pressupor que a esposa do seu pastor tem a mesma personalidade dele. Uma mulher recém casada compartilhou que ​​quando anunciou seu noivado, regularmente as pessoas comentavam sobre quão boa cantora ela devia ser (porque seria esposa de um ministro de música). Quando ela contava que cantava mais parecido com um gato morrendo do que um pássaro de canto elegante, o choque nos rostos das pessoas era evidente.

5) "Os domingos, às vezes, são os meus dias menos favoritos. Espera! Estou autorizada a dizer isso?"

Domingos são difíceis. E muito. E não há descanso. Para a esposa de um pastor, o domingo significa um início da manhã de correria para ter a família pronta em seu"Sunday Best". Embora você não possa ver a esposa do seu pastor na plataforma, uma coisa é certa, o domingo é igualmente cansativo para a maioria (todas) dessas mulheres.

6) "É difícil não guardar ressentimento ou não permitir que sua carne ataque a membros que criticam abertamente o seu ministério."

Elas odeiam a crítica à igreja mais do que qualquer coisa. É doloroso, ofensivo, e sim, é muito difícil não levar para o lado pessoal. É uma das coisas mais prejudiciais que testemunham regularmente dentro da igreja, seja através de e-mails, mídias sociais ou fofocas. Elas desejam que as pessoas entendam o quão sério a palavra de Deus fala sobre o perigo e poder de nossas palavras. E o quanto isso fere a família do pastor.

7) "Por favor, não me diminua ou presuma que eu não apoio o meu marido só porque você não me vê o tempo inteiro na igreja, as portas estão abertas".

A maioria das mulheres não são funcionárias remuneradas. São esposas, mães. Algumas são empregadas fora de casa e precisam ter a liberdade para orar e escolher atuar em ministérios em que se sentem chamadas.

8) "Eu gostaria que as pessoas soubessem que nós ensinamos aos nossos filhos a fazer boas escolhas, mas, às vezes, eles não fazem."

Piadas sobre filhos de pastores devem ser evitadas a todo custo. O risco do filho do pastor se revoltar não é nenhum segredo. Eles não são perfeitas, e nunca serão (os seus são?). Eles têm que aprender a caminhar na fé, assim como as outras crianças e precisam de incentivo e amor para fazê-lo. Mais uma vez, ofereça a graça.

9) "O que eu posso dizer é que eu tenho sido abençoada além da medida, que me foram dados presentes, dinheiro, amor e oração, tanta oração ... de tantas pessoas."

Elas amam a sua igreja e entendem que o papel vem com desafios especiais e bênçãos especiais; é gratificante e traz grande alegria.

Um Pensamento extra

Embora não fosse uma resposta comum, houve uma que se destacou. O topo da lista da esposa de um pastor experiente simplesmente dizia: "Eu apaguei o meu número 1." Alguns segredos são tão difíceis de compartilhar, até mesmo a promessa de total confiança não é suficiente para levá-los para fora.

Essas mulheres piedosas tem algo que elas querem que a gente saiba, e como um corpo de crentes trabalhando juntos para o mesmo objetivo, acho que nós podemos obter uma melhor compreensão de como apreciar os nossos líderes ouvindo. Todas estas respostas apontam para uma verdade singular. A esposa do seu pastor é um ser humano que deseja ser conhecido, assim como você é.

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Fonte: Shattered Magazine
Tradução: Ismael de jesus

terça-feira, 17 de junho de 2014

As técnicas mercadológicas do neopentecostalismo - Por Thomas Magnum


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O objetivo de desenvolver pesquisa e denúncia do movimento neopentecostal não é de invalidar a sinceridade de pessoas, que religiosamente procuram nas igrejas respostas para seus problemas existenciais, mas de alertar os males espirituais, sociais e familiares que tal pensamento religioso produz. É válido dizer também que sinceridade não é critério de veracidade, uma pessoa pode ser sincera, mas, estar no erro.

Já fizemos uma análise do Sincretismo Neopentecostal, agora iremos pensar sobre seu interesse econômico e comercial. O mercado da fé tem sido sem sombra de dúvida um dos campos mais rentáveis no comércio moderno, movimentando milhões, tanto na frequência dos fiéis as suas igrejas ou na indústria cultural evangélica. Por isso iremos fazer uma análise comparativa com o mercantilismo e o atual pensamento comercial no campo do marketing. Então veremos que a mensagem e abordagem do neopentecostalismo são baseadas em técnicas e conceitos a muito utilizados no campo comercial e publicitário. 

O mercantilismo ocorreu basicamente do século XVII até o século XVIII, estava ligado ao processo de monarquias nacionais do capitalismo comercial a serviço do estado moderno. O desenvolvimento de uma política econômica no mercantilismo tornou-se indispensável para a formação de uma monarquia absolutista. Esse avançar do mercantilismo se deu através das navegações dos povos europeus. A grande busca por metais era desenfreada e portadora de poder para negociações. Os espanhóis foram muito importantes nesse período, também pelo fato dos países ibéricos deterem grande parte dos metais da época. A balança comercial foi estabelecida pelos europeus para padronizar e dar um eixo ao negócio. Claro que os reis eram os maiores beneficiados com isso, visto sua preocupação em preservação e aumento da riqueza do reino. 

A Negociata da Fé

Ao darmos um passo atrás na história no século XVI, veremos a insatisfação de muitos religiosos com o aparato mercadológico da igreja papal, sobe a égide de Leão X. O monge agostiniano Martinho Lutero discordou e veementemente denunciou a salvação por obras e as heresias e manipulações econômicas e comerciais da igreja. Na dieta de Worms lemos:

Concordas com o conteúdo ali escrito ou quer se retratar. Lutero, ressabido, pediu um tempo para responder. Foi-lhe concedido prazo de 24 horas. No outro dia, Lutero respondeu: “A menos que possa ser refutado e convencido pelo testemunho da Escritura e por claros argumentos (visto que não creio no papa, nem nos concílios; é evidente que todos eles frequentemente erram e se contradizem); estou conquistado pela Santa Escritura citada por mim, minha consciência está cativa à Palavra de Deus: não posso e não me retratarei, pois é inseguro e perigoso fazer algo contra a consciência. Esta é a minha posição. Não posso agir de outra maneira. Que Deus me ajude. Amém!”.

Será que vivemos dias diferentes hoje? As descabidas conquistas mercantilistas continuam por aí atrás do ouro. Muitos já esqueceram como o Bispo Macedo comprou a Record? Muitos não querem ver a barganha em nome de Deus, da mesma forma que era feito no século XVI. Porque será que o culto a personalidade não tem sido refutado? O comércio da fé justificado por líderes que se dizem cristãos. Cantores publicanos, nicolaítas, adeptos de Balaão. Talvez você esteja dizendo, mas essa palavra é muito ofensiva! Faço minhas as palavras de John MacArthur: Nunca suavize o evangelho. Se a verdade ofende, então deixe que ofenda. As pessoas passam toda a sua vida ofendendo a Deus; deixe que se ofendam por um momento. Deus não divide sua glória, “a minha glória não a darei a outrem”. Isaías 48.11

Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto, diz o Senhor. - Jeremias 23.1

Filho do homem profetiza contra os pastores de Israel; profetiza, e dize aos pastores: Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas? - Ezequiel 34.2

A contínua sede de poder por parte de pastores que negociam a fé, que manipulam as ovelhas, que abusam espiritualmente delas e em alguns casos até fisicamente. Esse mercantilismo que guerreia através de técnicas de marketing, não para o crescimento do reino, mas para a construção de um império particular. Os escândalos continuam a aparecer, pastores milionários, lavagem de dinheiro, investimentos com o dinheiro da igreja, paraísos fiscais e por aí vai. Ao elaborar uma campanha de marketing temos alguns pontos que quero considerar.

O Marketing

Façamos algumas elucidações sobre estratégias de venda.

• Geomarketing – É o composto do marketing, a forma que o mercado se organiza num espaço físico, analisando as variáveis.

• Marketing direto – É uma forma de personalização de atendimento e produto.

• Marketing concentrado – Busca obter resultados em determinado mercado. A empresa visa dominar o mercado.

• Marketing cultural – Visa agregar valor para a imagem da empresa. 

• Marketing de massa – Tem o objetivo e atingir todos os consumidores de maneira única.

Poderíamos aumentar a lista, mas, é suficiente. Temos agora essa visão mapeada de algumas estratégias de marketing, podemos com isso compreender como o neopentecostalismo utiliza-se dessas ferramentas. Por isso, os veículos de comunicação de massa têm sido tão explorados por grupos neopentecostais. 

Vemos que a antiga sede mercantilista ainda transparece no mercado comercial hoje, essa contemporaneidade é vital para a sustentação do comércio. Essa negociação está presente desavergonhadamente nas igrejas neopentecostais, que em seu sincretismo e paganismo tem prestado seu culto não ao verdadeiro Deus, mas, a Mamom. Desavergonhadamente manipulam e alimentam suas contas bancárias com a renda dos fiéis. Em uma reunião de uma igreja dessas, temos o momento de que parece um leilão. Quem pode dar R$ 1.000,00? Quem pode dar 500? 250? 100? Se você só tem a passagem do ônibus dê ao Senhor, ele te restituirá. Parece brincadeira, mas é verdade. 

Outro caso muito conhecido são as campanhas, quem já viu uma campanha dessas sem contribuição financeira? E se coloca sobre o fiel o fardo da maldição se não for dizimista fiel, se não participar das campanhas, se não for associado, não será abençoado, R.R Soares geralmente diz em seus programas, “Se Deus não tocou em seu coração não seja associado”, perceba a manipulação psicológica. O que lemos nas Escrituras sobre dízimo e ofertas é baseado na disposição voluntária do crente, não por uma imposição legalista e charlatã. Em quantas igrejas neopentecostais se tem registro do rol de membros? Nenhuma, porque o público é volátil, em quantas tem seções administrativas ou assembleia de membros para dar aos membros transparência das receitas e despesas do mês? Nenhuma. 

Como vemos o negócio da fé é muito bom para tais lobos. Aproveitando-se da fachada de instituição religiosa, ganham seus montantes em nome da fé. O nome que damos para isso é simonia. O termo vem do episódio em Atos 8.18 que Simão o mago ofereceu dinheiro aos Apóstolos para comprar o poder de Deus. Ninguém pode manipular Deus, nem comprar com obras ou somas de dinheiro, ofertas, campanhas ou dízimos o seu agir. 

Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua iniquidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração; Pois vejo que estás em fel de amargura, e em laço de iniquidade. - Atos 8.20-23

O Fator Econômico

Qualquer estudo introdutório de economia levará o leitor ao estudo de oferta e demanda. Podemos identificar isso facilmente nos arraiais neopentecostais. Os pregadores da fé tem o produto (discurso motivacional ou dualista), e a busca por isso na religiosidade sincrética brasileira desenvolve a demanda nesse contexto de fé mística e cega. Ao usar aqui o termo  empregamos como crença e não como a fé bíblica que é um dom de Deus. O querer que o fiel prospere é devido aos interesses mercadológicos da empresa, quanto mais o adepto ganha, mais ele contribui e participa de outras campanhas, ou seja, a filosofia é puramente pragmática. Se funcionar então está certo.

O maior problema do engano de muitos crentes seduzidos pela astúcia de Satanás no movimento da fé é a falta de exame da Palavra de Deus, os fiéis não leem a Bíblia (Isaias 34.16), não meditam nela (Salmos 1.2) e não examinam (João 5.39). A questão não é Sola Scriptura, mas também Tota Scriptura, porque o movimento neopentecostal usa a Bíblia, indevidamente, mas usa. A questão é Somente a Bíblia e Totalmente a Bíblia. 

Pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram a si mesmas com muitos sofrimentos. - I Timóteo 6.10

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Divulgação: Bereianos

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Como entender que a Bíblia é inspirada por Deus?


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A Confissão Belga resume a doutrina reformada da inspiração das Sagradas Escrituras no Artigo 3:

ARTIGO 3, A PALAVRA DE DEUS: Confessamos que a palavra de Deus não foi enviada nem produzida “por vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”, como diz o apóstolo Pedro (2 Pedro 1:21). Depois, Deus, por seu cuidado especial para conosco e para com a nossa salvação, mandou seus servos, os profetas e os apóstolos, escreverem sua palavra revelada [1]. Ele mesmo escreveu com o próprio dedo as duas tábuas da lei [2]. Por isso, chamamos estas escritas: sagradas e divinas Escrituras [3].

[1] Êx 34:27; Sl 102:18; Ap 1:11,19. [2] Êx 31:18. [3] 2Tm 3:16.

Sobre isso, o teólogo presbiteriano B.B. Warfield escreveu:

“Os livros bíblicos são chamados inspirados por serem o produto, divinamente determinado, de homens inspirados; os escritores bíblicos são chamados inspirados por terem recebido o sopro do Espírito Santo, de maneira que o produto de suas atividades transcende a capacidade humana e recebe autoridade divina. A inspiração é, pois, definida, em geral, como sendo uma influência sobrenatural exercida nos escritores sagrados, pelo Espírito de Deus, em virtude da qual os seus escritos recebem fidedignidade divina.

“Toda a Escritura é divinamente inspirada, e é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça” (II Tm. 3:16/ Almeida revista e corrigida). A palavra grega usada nesta passagem, theópneustos, não significa, de maneira nenhuma, “inspirado de Deus”. Esta frase é, antes, a tradução do latim divinitus inspirata, da Vulgata. A palavra grega nem sequer significa, como Almeida traduz, “divinamente inspirada”, embora esta tradução seja, por assim dizer, uma paráfrase rude, ainda que não enganadora, do termo grego, na linguagem teológica corrente daquele tempo. A expressão grega, porém, nada diz a respeito de inspiração ou de inspirar: fala apenas de respirar ou de respiração. Diz, sim, que é “exalado por Deus”, sendo pois o produto do “sopro” criador de Deus, e não que seja “inspirado por Deus”, isto é, que seja produto da “inspiração” divina nos seus autores humanos. Numa palavra, o que se declara nesta passagem fundamental é, simplesmente, que as Escrituras são um produto divino, sem qualquer indicação da maneira como Deus operou para as produzir. Não se poderia escolher nenhuma outra expressão que afirmasse, com maior saliência, a produção divina das Escrituras, como esta o faz.

O “sopro de Deus” é, nas Escrituras, o símbolo do Seu poder onipotente, o portador da Sua palavra criadora. No Salmo 33.6, lemos: “Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles”. É precisamente onde as operações de Deus são ativas, que esta expressão hebraica (“ruah” ou “Neshamah”) é usada para designar essas operações – o sopro de Deus é o fluxo irresistível do Seu poder. Quando Paulo declara que “toda a escritura” ou “cada escritura” é o produto do sopro divino, “é exalada por Deus”, afirma com toda a energia possível, que as Escrituras são o produto de uma operação especificamente divina.

Do mesmo modo, nosso Senhor tem, freqüentemente, ocasião de Se admirar do efeito insignificante produzido pela leitura das Escrituras, não porque tivessem sido examinadas com demasiada curiosidade, mas porque não foram examinadas com bastante anseio e com uma confiança suficientemente simples e forte em cada declaração que elas contêm. “Ainda não lestes esta Escritura” sequer? pergunta, ao citar o Salmo 118, para mostrar que a rejeição do Messias já fora dada a entender nas Escrituras (vd. Mc. 12.10: Mt. 2 1.42 altera a expressão para o equivalente e diz: “Nunca lestes nas Escrituras?”) E quando os judeus indignados se chegaram a Ele e se queixaram dos Hosanas com que as crianças, no Templo, O aclamavam, e lhe perguntaram: “Ouves o que estes estão dizendo?”, Jesus apenas lhes replicou (Mt. 21:16): “Sim: nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito, tiraste o perfeito louvor?”.

O pensamento em que estão baseadas as passagens acima citadas é apresentado, abertamente, quando Ele dá a entender que a origem de todos os erros a respeito das coisas divinas é, justamente, a ignorância das Escrituras. “Errais”, declarou Ele aos seus perguntadores, em determinada ocasião importante, “não conhecendo as Escrituras” (Mt. 22.29); ou, como se encontra, talvez com mais força, na forma interrogativa, na passagem paralela, em outro Evangelho: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras…?” (Mc. 12.24). É evidente que, aquele que conhece bem as Escrituras, não erra.

A confiança com que Jesus se baseava nas Escrituras, em todas as declarações que elas fazem, é ainda ilustrada numa passagem como a de Mateus 19.4. Certos fariseus chegaram perto d’Ele com uma pergunta acerca do divórcio, e Ele replicou-lhes da seguinte maneira: “Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse?.. Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem”. O ponto a salientar aqui é a referência explícita de Gênesis 2.24, como tendo Deus como autor. “O Criador, desde o princípio, os fez… e que disse”. “Portanto, o que Deus ajuntou”. No entanto, esta passagem não nos dá uma sentença de Deus, registrada na Bíblia, mas apenas a palavra da própria Escritura, e só pode ser tratada como uma declaração de Deus na hipótese de que toda a Escritura é uma declaração de Deus. A passagem paralela em Marcos (10.5 e ss.), do mesmo modo, ainda que não tão explicitamente, apresenta esta passagem como sendo da autoria de Deus, citando-a como lei autorizada e falando da sua determinação como um ato de Deus. É interessante notar, de passagem, que Paulo, tendo oportunidade de citar a mesma Escritura (ver 1 Co. 6.16), cita-a também, explicitamente, como palavra divina: “Porque, como se diz, serão os dois uma só carne” – o diz, aqui, de acordo com um uso que mais adiante veremos, refere-se a Deus.

Portanto, é evidente que Jesus, citando ocasionalmente as Escrituras como sendo um documento com autoridade, baseia-se na atribuição a Deus da sua autoria. O Seu testemunho é que tudo quanto está escrito nas Escrituras é uma Palavra de Deus. Não podemos, tampouco, retirar a este testemunho a sua força, alegando que representa Jesus apenas nos dias de Sua carne, quando se poderia supor que Ele apenas refletia a opinião do Seu tempo e da Sua geração. O ponto de vista a respeito das Escrituras, que Ele apresenta, era também, sem dúvida, o ponto de vista do Seu tempo e da Sua geração, além de ser o Seu. Mas não há qualquer razão para duvidar que Ele o mantinha, não por ser o ponto de vista corrente, mas porque, no Seu conhecimento Divino-humano, sabia ser o verdadeiro: pois, até mesmo na Sua humilhação, Ele é testemunha fiel e verdadeira.

Em todo caso, devemos ter presente que era este o ponto de vista do Cristo ressurreto, como fora o do Cristo humilhado. Foi depois d’Ele ter sofrido e ressuscitado, no poder de Sua vida divina, que pronunciou “Ó néscios e tardos de coração…” àqueles que não crerem em tudo aquilo que está escrito nas Escrituras (Lc. 24.25); e que apresentou o simples “Assim está escrito”, como base suficiente para uma fé confiante (Lc. 24.46). Tampouco podemos minorar o testemunho de Jesus em relação à fidedignidade das Escrituras, interpretando-o como sendo não o Seu, mas dos seus discípulos, que o colocaram na Sua boca, ao relatarem as Suas palavras. Não só tudo é demasiado constante, minucioso, íntimo e, em parte, incidental, e, por isso encoberto, por assim dizer, para admitir tal interpretação mas de tal forma penetra todas nossas fontes de informação a respeito dos ensinos de Jesus, que dá a certeza de que vem na verdade, d’Ele mesmo. Não só pertence ao Jesus apresentado nos relatos evangélicos, como também ao Jesus das fontes mais antigas, que concordam com os relatos evangélicos, como se pode verificar, observando os incidentes em que Jesus cita as Escrituras, como divinamente autorizadas, registradas em mais que um dos Evangelhos (por exemplo, “Está escrito”- Mt. 4.4, 7, 10: Lc. 4.4. 8, 10: Mt. 11.10: Lc. 7.27: Mt. 21.13: Lc. 19.46, Mc. 11.17: Mt. 26.31; Mc. 14.21; “a Escritura” ou “as Escrituras: Mt. 19.4: Mc. 10.9: Mt. 21.42: Mc. 12.10: Lc. 20.17: Mt. 22.29: Mc. 12.24: Lc. 20.37; Mt. 25.56: Mc. 14.49; Lc. 24.44). Estas passagens bastariam para tornar evidente o testemunho de Jesus acerca das Escrituras, como sendo em todas as suas partes e em tudo o que diz, divinamente infalível.

As tentativas para se atribuir o testemunho de Jesus aos seus discípulos, apenas tem em seu favor o fato inegável de que o testemunho dos escritores do Novo Testamento tem precisamente o mesmo efeito que o testemunho d’Ele. Também eles falam superficialmente das Escrituras, usando esse tão significativo nome e citam-nas com um simples “Está escrito”, implicando que tudo quanto nelas está escrito, é divinamente autorizado. Do mesmo modo que a vida pública de Jesus começa com este “Está escrito” (Mt. 4.4), também a proclamação evangélica começa com um “Conforme está escrito” (Mc. 1.2): e do mesmo modo que Jesus procurou justificar a Sua obra com um solene “Assim está escrito, que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia” (Lc. 24.46), também os apóstolos justificaram, solenemente, o Evangelho que pregavam, em todos os seus pormenores, com um apelo às Escrituras, “que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” e “que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co. 15.3, 4; ver também At. 8.35; 17.3; 26.22; Rm. 1.17; 3.4, 10; 4.17; 11.26; 14.11; 1 Co. 1.19:2.9; 3.19; 15.45; GI. 3.10, 13; 4.22, 27).

Onde quer que levassem o Evangelho, era um Evangelho baseado nas Escrituras que proclamavam (At. 17.2; 18.24, 28); e encorajavam-se a si mesmos para provar a veracidade da mensagem com as Escrituras (ver At. 17.11). A santidade de vida que inculcavam, baseavam-na em exigências das Escrituras (ver 1 Pe. 1.16), e recomendavam a lei real do amor, que ensinavam com sanção divina (Tg. 2.8). Todos os detalhes do dever cristão, os sustentavam com um apelo às Escrituras (ver At. 23.5; Rm. 12.19). Vão buscar às Escrituras a explicação de circunstâncias nas suas vidas e dos acontecimentos em redor (ver Rm. 2.26; 8.36; 9.33; 11.8: 15.9, 21; II Co. 4.13). Do mesmo modo que o Senhor declarou que tudo quanto estava escrito nas Escrituras tem que se cumprir (ver Mt. 26.54; Lc. 22.37; 24.44), assim, também, os seus discípulos explicavam um dos acontecimentos mais espantosos que se deram nas suas experiências pessoais, mostrando que “convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de Davi…” (At. 1.16).

Afirma-se aqui, muito claramente, a razão para este constante apelo às Escrituras, de forma que basta que algo esteja contido nas Escrituras (ver 1 Pe. 2.6) para ter autoridade infalível. A Escritura tem de se cumprir, porquanto o que ela contém é a declaração feita pelo Espírito Santo, através do autor humano. O que as Escrituras dizem, é Deus quem o diz; e, assim, lemos afirmações tão notáveis como as seguintes: “Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei (Rm. 9.17); “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos” (GI. 3.8). Estas citações não são apenas exemplos da simples personificação das Escrituras, o que, aliás, em si, é um uso bastante notável (ver Mc. 15.28; J0. 7.38, 42; 19.37; Rm. 4.3; 10.11: 11.2: Gl. 4.30: 1 Tm. 5.18; Tg. 2.23; 4.5 ss.), vocal, com a convicção expressa por Tiago (4.5) de que a Escritura não pode falar em vão. Mostram uma certa confusão, na linguagem corrente, entre “Escritura” e “Deus”, resultado de uma convicção profundamente arraigada de que a palavra da Escritura é a Palavra de Deus. Não foi a “Escritura” que falou a Faraó, ou deu a sua grande promessa a Abraão, mas sim Deus. Porém, “Escritura” e “Deus” estavam tão intimamente ligados na mente dos escritores do Novo Testamento, que podiam falar naturalmente da “Escritura” operar aquilo que as Escrituras dizem ter Deus operado. Era-lhes, porém, ainda mais natural falarem casualmente e atribuindo a Deus aquilo que as Escrituras dizem; e, assim, encontramos formas de expressão, como estas: “Assim, pois, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz (Hb. 3.7, citando o Sl. 95.7); “Tu, Soberano Senhor… que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios…” (At. 4.25, citando o Sl. 2.1); “E, que Deus o ressuscitou dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta maneira o disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi. Por isso, também diz em outro Salmo: Não permitirás que o teu Santo veja corrupção” (At. 13.34,35, citando Is. 55.3 e Sl. 16.10), etc. As palavras colocadas, nestes casos, na boca de Deus, não são palavra de Deus registradas nas Escrituras, mas simplesmente palavras das Escrituras. Quando comparamos as duas espécies de passagens, em uma das quais se diz que a Escritura é Deus, enquanto que na outra se fala de Deus como se Ele fosse a Escritura, podemos verificar quão íntima era a identificação de ambas nas mentes dos escritores do Novo Testamento”. 




Por B. B. Warfield

Fonte: “O CONCEITO BÍBLICO DE INSPIRAÇÃO”, Revista Os Puritanos, Ano VIII, nº. 4.
Retirado do blog: Resistir e Reconstruir

domingo, 15 de junho de 2014

Defendendo a Expiação Definida (Limitada) - Por Joel Beeke



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Objeções respondidas[1]

As grandes objeções à expiação limitada são baseadas em considerações textuais e práticas. As objeções textuais incluem o seguinte:

1. Textos em que a palavra mundo é usada para descrever os objetos da morte da morte de Cristo, como em João 3:16 e 1 João 2:2: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”.

2. Textos em que a palavra todos é usada para descrever os objetos da morte de Cristo, como em 2 Coríntios 5:15, “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”, Romanos 8:32, “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes, o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?”, e 1 Timóteo 2:4-6, que fala de Cristo dando a si mesmo como um “resgate por todos”.

3. Textos que parecem indicar que alguns por quem Cristo morreu podem perecer. Um texto, é Romanos 14:15: “Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” Outra, 2 Pedro 2:1, em que o apóstolo fala de falsos mestres que negam o Senhor “que os resgatou”.

Quando estes textos são tratados com cuidado e honestidade, considerando seu contexto e a intenção do autor e comparando a Escritura pela Escritura, problemas aparentes são quase sempre prontamente resolvidos.[2] Por exemplo, a palavra grega para o mundo (kosmos) pode ter vários significados nas Escrituras. Às vezes, ela se refere aos eleitos do mundo, significando ambos os judeus e gentios; às vezes, refere-se ao público que cercava Cristo, especialmente os judeus; por vezes, se refere a todos os tipos de pessoas, tais como reis e súditos; às vezes, se refere à humanidade sob o justo juízo de Deus ou ao reino das forças do mal, tanto angelicais como humana, relacionados com a terra; às vezes, ele se refere à criação, ou a própria terra, ou, no sentido clássico, a um universo ordenado, e às vezes ela, simplesmente, se refere a um grande número de pessoas.[3]

Quanto a textos específicos, João 3:16 não reflete sobre a extensão da expiação; em vez disso, a chave para João 3:16 está no propósito do versículo 17: a fim de que “o mundo através dele pudesse ser salvo.” Mundo não está se referindo a todos, mas ao mundo sob julgamento e condenação. B. B. Warfield diz que kosmos não é usado em João 3 para sugerir que o mundo é tão grande que é preciso uma grande dose de amor para envolvê-lo, mas que o mundo é tão ruim que é preciso um tipo grande de amor para amá-lo em tudo, e muito mais para amar como Deus amou-o quando ele deu o seu Filho pelos pecadores.

Em 1 João 2:1-2, o apóstolo está dizendo que a defesa de Cristo diante de Deus é tão completa que é suficiente para os pecados do mundo. Ele também está dizendo que o sacrifício que Cristo fez não foi só para os judeus ou para um pequeno grupo de crentes do primeiro século, mas para as pessoas de toda tribo, língua e nação através de todos os tempos. John Murray fala sobre o universalismo étnico do evangelho mostrando que aqueles por quem Cristo morreu estão espalhados entre todas as nações. Abraham Kuyper mostra que a palavra grega traduzida "para" (peri, não hiper) significa “apropriado para” ou “com relação a”. Assim, o significado do grego pode ser que Jesus é a propiciação suficiente que nós e o mundo inteiro necessitamos - ou, da mesma forma que Jesus é a nossa propiciação, assim o mundo inteiro necessita desta mesma propiciação.[4]

Quanto aos textos que usam a palavra todos, 2 Coríntios 5:14-15 usa todos no contexto da unidade da morte e ressurreição. Cristo ressuscita para aqueles em união com ele, por isso, sua morte deve ser pensada naqueles mesmos termos.[5] Mesmo a frase “entregou por todos nós”, em Romanos 8:32 está no contexto da pré-ordenação de Deus do seu povo (vv. 28-30) e da intercessão de Cristo para com os eleitos (vv. 33-39). As palavras “Resgate por todos” em 1 Timóteo 2:4-6 estão claramente definidas no contexto de orações que estão sendo oferecidas para todos os tipos de pessoas (vv. 1-2). Desde que a palavra todos nem sempre signifique todos os indivíduos pela linguagem grega ou inglesa, não há razão para concluir que todos nos versículos 4 e 6 se refere a cada pessoa.

E sobre os textos que parecem falar de crentes que caem da fé? O contexto de Romanos 14:15 mostra que o apóstolo não está falando de um irmão por quem Cristo morreu apostatando-se da fé por completo, mas de alguém que se sentiu esmagado por um companheiro cristão que se tornou tal como uma pedra de tropeço na sua vida de fé e que iria começar a percorrer o caminho que leva à destruição. E 2 Pedro 2:1, provavelmente, se refere a falsos mestres que tinham sido membros nominais da igreja, mas que em suas ações, estavam negando o Salvador que uma vez professaram, mas que nunca conheceram de verdade. Eles podem ter tido uma fé histórica, ainda que temporária e milagrosa, mas nunca possuíram a verdadeira fé salvadora[6], por eles rejeitarem o Salvador e “tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” (1 Pedro 2:8). Certamente, Cristo não resgatou os que foram ordenados para serem desobedientes!

A maioria das principais objeções práticas para a expiação limitada pode ser resumida em duas perguntas:

Como pode a expiação ser gloriosa se for limitada a alguns? Esta questão, realmente, tem dois aspectos. O primeiro é a falsa ideia de que Cristo morreu por um pequeno remanescente de pessoas. Ambos, os Cânones de Dort e aSegunda Confissão Helvética, rejeitam essa conclusão com base em passagens bíblicas que dizem que o céu vai abrigar uma grande multidão de pessoas redimidas que nenhum homem pode contar, de toda espécie, tribo, língua e nação (Ap 7 :9-17).[7]

O segundo aspecto é a falsa ideia de limitação na expiação. Como Charles H. Spurgeon mostrou, é o arminiano e não o calvinista que limita a redenção de Cristo:
Os Arminianos dizem: Cristo morreu por todos os homens. Pergunte a eles o que eles querem dizer com isso. Cristo morreu para assegurar a salvação de todos os homens? Eles dizem: Não, certamente não. Fazemos a seguinte pergunta: Cristo morreu, de modo a assegurar a salvação de qualquer homem em particular? Eles respondem: “Não”. Eles são obrigados a admitir isso se eles são consistentes. Eles dizem: “Não, Cristo morreu para que qualquer homem pudesse ser salvo se” - e então, seguem-se determinadas condições de salvação. Dizemos, então, que nós iremos voltar ao Velho Testamento – Cristo morreu para que uma incerteza garantisse a salvação de alguém? Você deve dizer “não”. Então, você é obrigado a dizer que para você, mesmo depois que um homem foi perdoado, ele ainda pode cair da graça e perecer. Agora, quem é que limita a morte de Cristo? Por que, você. . . Você é bem-vindo à sua própria expiação; você pode mantê-la. Nós nunca vamos renunciar a nossa pela segurança que há neste argumento.[8]

O calvinista ensina que a salvação é certa para cada homem, mulher, adolescente, menino ou menina que vem ao Senhor Jesus Cristo. Ninguém deve ser lançado fora (João 6:37). O calvinista diz: “Em sua expiação, Jesus construiu uma ponte entre as profundezas da minha depravação para Deus e o céu, e, através do envio de seu Espírito, vai trazer cada pecador, para quem a ponte foi colocada, ao caminho da glória”. Esta declaração é a essência do evangelho. Deus não vai falhar em reunir cada um de seus eleitos. Não haverá lugares vazios no céu.

Os arminianos dizem que a expiação só faz a salvação ser possível. Ao fazer isso, eles limitam muito a eficácia do sangue do Filho de Deus que foi derramado. Um arminiano coloca desta forma: “A expiação seria tão eficaz e gloriosa a Deus se o pecador, alguma vez, se apropriar dela”. Na visão arminiana, a expiação criou a possibilidade de salvação, mas os homens devem completar a ponte, exercendo seu próprio livre-arbítrio.[9]

Como você pode pregar o evangelho a todos os homens sem distinção, se Cristo não morreu para salvar a todos? Em outras palavras, se você não pode chegar a um pecador e dizer: “Cristo morreu por você”, como você pode pedir para ele acreditar no Senhor Jesus Cristo? O Calvinismo enfraquece o zelo evangelístico? Deixe-me oferecer três respostas. Primeiro, o conteúdo do evangelho não é dizer às pessoas que Cristo morreu por esta ou por aquela pessoa específica. Não há um exemplo na pregação do livro de Atos, privada ou pública, onde o evangelho apostólico diz que Cristo morreu para um indivíduo específico. O evangelho diz que Deus enviou seu Filho, que viveu, morreu e ressuscitou. Essa é a salvação adequada para o mais vil dos pecadores, pois a promessa é: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”.

Segundo, a visão calvinista da expiação garante o sucesso da evangelização. O eleito será salvo, infalivelmente, através da pregação do evangelho, pois Deus determinou que assim seria através da aliança eterna da redenção estabelecida entre as pessoas da Trindade. Em sua soberania, graça e amor, o Pai escolheu certas pessoas (Rm 9:11-13; Ef 1:4) a quem ele deu o seu Filho (João 6:37, 39; 17:6, 24) que, por sua vez, comprometeu-se a realizar a redenção, obedecendo, perfeitamente, os preceitos da lei moral de Deus representando-os (obediência ativa) e pagando a penalidade devida por eles pela desobediência à lei (obediência passiva). Assim, Deus pode ser justo e justificador dos que creem em Jesus (Romanos 3:26). Sob a aliança trinitária, o Espírito é enviado ao mundo pelo Pai e pelo Filho (João 15:26; 16:5-15) para aplicar a obra salvadora de Cristo aos eleitos.

Precisamos lembrar que a vontade pactual e decretiva de Deus é eficaz e que os propósitos de Deus são realizados. A expiação de Cristo é a obra que ele comprometeu-se desde a eternidade. A expiação definida flui para o propósito eletivo de Deus e uni-se, totalmente, com outras doutrinas da Cristologia que se baseiam na eternidade, tais como: as doutrinas de Cristo como o segundo Adão, o seu trabalho sacerdotal e o seu papel no pacto.

O conhecimento de que os eleitos serão reunidos pelo segundo Adão (João 17:12; Rm 5:12-19) faz os calvinistas ousados no evangelismo. Eles, também, são pacientes, sabendo que Deus vai salvar os pecadores no seu tempo e através do trabalho sacerdotal de Cristo (Isaías 55:10-11). Eles são zelosos, sabendo que a glória de Deus virá (1 Coríntios 1:27-31) e piedosos, sabendo que apenas ele pode e irá realizar a salvação como um Senhor sempre fiel e mantenedor do pacto (Ef 2: 1-10).[10] Quase todos os grandes e zelosos evangelistas desde a Reforma do século XVI ao início do século XIX, antes de Charles Finney (1792-1875), se comprometeram com a expiação definida enraizados nesta teologia da aliança centrada em Deus. Será que alguém ousaria dizer que George Whitefield faltou em zelo evangelístico na sua pregação do evangelho? Alguém diria o mesmo de Charles Spurgeon, William Carey, David Brainerd, Jonathan Edwards ou Asael Nettleton? Cada um desses grandes evangelistas criam em uma concepção definitiva da obra expiatória de Cristo e corajosamente anunciavam Cristo como o Salvador oferecido gratuitamente a todos aqueles que se arrependiam e criam.[11]

Terceiro, enquanto não podemos compreender plenamente, com nossas mentes finitas, como conciliar uma expiação limitada e definitiva pelo sangue todo-suficiente de Cristo e um convite universal para crer, assim como é o padrão das Escrituras e a maneira de Deus (João 6:37-40). Além disso, uma vez que a expiação não é limitada em si mesmo, ainda que seja no seu objetivo, e uma vez que a promessa é que todos que, pela fé verdadeira, venham a Cristo para a salvação certamente serão salvos (Rm 10:13), a expiação limitada não é incompatível com a chamada universal à fé.

Esta é também a posição dos Cânones de Dort. Afirmando que o sangue de Cristo é derramado efetivamente apenas para aqueles “que foram desde a eternidade escolhidos para a salvação e dados a Ele pelo Pai” (Capítulo II, Art 8), os Cânones aconselham:
A promessa do Evangelho é que todo aquele que crer no Cristo crucificado não pereça, mas tenha vida eterna. Esta promessa deve ser anunciada e proclamada sem discriminação a todos os povos e a todos os homens, aos quais Deus em seu bom propósito envia o Evangelho, com a ordem de se arrepender e crer. (Cap. II, Art 5).

Roger Nicole diz que o nosso grande problema em entender expiação definida é que pensamos que condições similares são necessárias para uma oferta sincera de qualquer espécie, isto é, Cristo teria que ter morrido por cada pessoa que fosse oferecida a salvação Nele. Nicole diz que esta premissa é falsa, mesmo em assuntos seculares:
Por exemplo, os anunciantes que oferecem produtos nas páginas de um jornal não esperam que se exijam deles um estoque nas mesmas condições dos números de circulação do jornal. Realmente, o único requisito para um convite sincero é este - que, se as condições forem cumpridas, aquilo que é oferecido será realmente concedido.[12]

Jesus diz: “Aquele que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). Ao contrário das lojas com estoque limitado, o estoque de Jesus nunca se esgota.

William Symington argumenta da mesma forma:
Afirmamos que o sacrifício do Senhor Jesus possuía um valor intrínseco suficiente para a salvação de todo o mundo. Neste sentido, foi suficiente para o resgate de cada ser humano... O valor da expiação de Cristo que nós asseguramos é, no sentido mais estrito do termo, infinito, absoluto, todo-suficiente... Este todo-suficiente é o que estabelece as bases para a universalidade irrestrita do chamado do evangelho... [13]

Symington conclui:
Deixem os pecadores, em toda parte, conhecerem que se eles perecem, não é porque não há mérito suficiente em Cristo para atender a todas as exigências da lei e da justiça contra eles. Deixe-os voltar e aceitar o chamado urgente, sincero e singular para a vida e a salvação, por mera gratuidade da parte de Deus: “Quem quiser, tome a água da vida”.[14]

Se, pela graça, você toma esta água da vida, você será salvo. Nenhum daqueles que creram no Senhor Jesus Cristo jamais pereceram. A mensagem do evangelho é: “A ponte está concluída. Cristo irá permitir-lhe colocar o seu peso sobre ele, e ele vai levá-lo em toda a extensão. Ele recebe todos os que vêm. Confie nele”.

Sem a fé, a expiação de Cristo não nos é agradável. Nós somente experimentamos os benefícios da realização de Cristo quando nós, com as nossas mãos vazias, aceitamos Cristo. A boa notícia é que a expiação foi alcançada antes que nós exercêssemos a fé (Romanos 5.5-11). A reconciliação está lá para ser recebida; e pela graça, nós recebemos, quando Cristo, pelo Espírito Santo, nos atrai para si.

Redimidos pelo Sangue Precioso

O Arminianismo e o Calvinismo estão baseados em diferentes premissas. Os calvinistas acreditam em uma expiação definida, no qual afirma que Jesus Cristo realmente resgatou todos que ele pretendeu resgatar através da sua morte vicária. Como Tom Ascol diz:
Assim como o sumo sacerdote, sob a antiga aliança, usava os nomes das doze tribos de Israel em seu peitoral ao executar o seu serviço sacrificial, o nosso grande Sumo Sacerdote, sob a nova aliança, tinha os nomes do Seu povo inscrito no seu coração, sendo assim Ele ofereceu a Si mesmo como um sacrifício para seus pecados.[15]

Ninguém que pertence a Cristo será perdido.

Nicole disse, várias vezes, que quando calvinistas declaram que acreditam numa expiação limitada, arminianos podem proclamar uma expiação ilimitada, mas quando calvinistas proclamam uma expiação definida, nenhum arminiano quer reivindicar uma expiação indefinida.[16] Apesar de expiação definida ou redenção particular serem expressões melhores que expiação limitada, não nos esqueçamos de que cada calvinista e arminiano, na verdade, acredita em uma expiação limitada. Como Ascol ressaltou: “a visão arminiana, alegando que a expiação é ilimitada em sua extensão, é forçada a concluir que ela é limitada em sua eficácia. Ele não conseguiu realizar o seu propósito universal”.[17] Spurgeon, também, descreve esta falha:
Muitos religiosos... acreditam em uma expiação para todos, mas então, sua expiação é somente isso. Eles acreditam que Judas foi perdoado assim como Pedro, pois eles acreditam que os condenados no inferno eram tanto um objeto de satisfação de Jesus Cristo como o salvo no céu; e apesar de não dizerem em palavras adequadas, mas é o que significa por uma inferência justa, que, no caso de multidões, Cristo morreu em vão, pois Ele morreu por todos, eles dizem; e ainda assim foi ineficaz na Sua morte por eles, porque apesar do fato de que Ele tenha morrido por eles, eles estão condenados para sempre.[18]

Falando como Spurgeon, nós, os calvinistas, podemos dizer aos nossos amigos arminianos: “Você é bem-vindo à sua expiação; você pode mantê-la. Nós nunca vamos renunciar a nossa pelo amor a ela”, pelo fato de que nós precisamos de um Salvador que realmente salva (Mateus 1:21) com uma redenção que realmente redime pelo “...precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo, foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado, nestes últimos tempos, por amor de vós; e por ele credes em Deus, que o ressuscitou dos mortos e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus. (1 Pedro 1:19-21).
Sustentando a vergonha e o rude escárnio,No meu lugar condenado Ele estava; Selei o meu perdão com Seu sangue: Aleluia! Que Salvador! - Philip Bliss Paulo

A expiação de Cristo não falhou parcialmente, mas foi totalmente bem-sucedida. Jesus nunca falha!

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Notas:
[1] See also the author's article 'Definite Atonement' on the Banner of Truth website.
[2] John Gill, Body of Divinity (Grand Rapids: Sovereign Grace 
Publishers
, 1971), 467–475; John Owen, The Works of John Owen, 10:316-421; John Murray, Redemption Accomplished and Applied, (Edinburgh: Banner of Truth, 2009 edition), 51–53; A. W. Pink, The Satisfaction of Christ, 253–66.

[3] Vine’s Expository Dictionary of New Testament Words (Nashville: Thomas Nelson, 1985), 233–234; and Duane Edward Spencer, TULIP: The Five Points of Calvinism in the Light of Scripture (Grand Rapids: Baker, 1979), 36–37.
[4] Abraham Kuyper, Particular Grace: A Defense of God’s Sovereignty in Salvation (Grandville, Mich.: Reformed Free Publishing, 2001), 23–33.
[5] Herman Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1975).
[6] For helpful exegetical considerations, see Letham, The Work of Christ, 240–45.
[7] See the Conclusion of the Canons and the Second Helvetic Confession, chap. 10, 'We must hope well of all, and not rashly judge any man to be a reprobate' (Schaff, Creeds of Christendom, 3:848).
[8] Charles H. Spurgeon, 'Particular Redemption,' in The New Park Street Pulpit (1858; reprint, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1994), 4:135; quoted in J. I. Packer's Introduction to John Owen, The Death of Death in the Death of Christ (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1959), note page 14.
[9] Cf. Pink, Atonement, 244.
[10] See Letham, The Work of Christ, 234–37.
[11] Shedd, Dogmatic Theology, 2:482–89; J. I. Packer, Evangelism and the Sovereignty of God (Downers Grove, Ill.: InterVarsity, 1961).
[12] Roger Nicole, Evangelical Theological Society Bulletin (Fall 1967): 207.
[13] William Symington, The Atonement and Intercession of Christ (Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2006), 185–86.
[14] Ibid.
[15] Thomas K. Ascol, 'For God So Loved the World,' Tabletalk, 29, no. 9 (September 2005):16.
[16] Roger Nicole, 'The "Five Points" and God’s Sovereignty,' in Our Sovereign God, ed. James Boice (Birmingham, Ala.: Solid Ground Christian Books, 2008), 32–33.
[17] Thomas K. Ascol, 'For God So Loved the World,' 17.
[18] Charles Spurgeon, New Park Street Pulpit (Pasadena, Tex.: Pilgrim Publications, 1975), 4:70.
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Fonte: Banner of Truth
Tradução: Eric N. de Souza

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O velho namorado fala de namoro






Você conhece aquela do cachorro que corria atrás de carros e que, um dia, conseguindo pegar um, não sabia o que fazer com ele? A coisa do namoro vai por aí. Há quem realmente deseje “encontrar um amor” e nesse sentido, o namoro é um processo de conhecimento mútuo dos enamorados. A Bíblia não menciona a palavra “namoro” no sentido de oficialização de um pacto, mas descreve a ideia de atração e compromisso afetuoso entre um homem e uma mulher, como no caso de Jacó e Raquel (“Assim, por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava” – Gênesis 29.20). No entanto, há quem queira namorar – uma ânsia de afeto, de proximidade bem natural –, mas não sabe com quem. De fato, esse tipo de pessoa quer namorar o “namoro”, isto é, sentir o gelo na espinha, a borboleta no estômago, ou ter com o que desfilar por aí, ou, ainda, achar oportunidade para “umas carnalidades” consentidas. Nisso é que dá correr atrás de namoro sem saber o que fazer com ele. Nesse caso, o alvo de namorar vem primeiro, como um culto a um ídolo desconhecido, que depois leva a cara das pessoas que “cabem” no andor.

Aí é que se adéqua minha versão do ditado: devagar com o santo que o andor é de barro. Primeiro deveria vir o encontro de pessoas, depois o desejo de namorar. Mas como o nosso coração prefere mais sentir ânsias de paixão a viver anseios de amor, a gente acaba pondo o andor do namoro no lugar do santo. Tal como tem de existir água antes que haja o desejo de nadar, assim também deveria haver alguém que despertasse o desejo de “namorar”. Como consequência dessa inversão, ocorre um tríplice engano. Primeiro quem põe à frente o alvo de namorar antes conhecer a pessoa objeto do encontro, tem de criar uma imagem dela, até mesmo para que a possa reconhecer, acaba criando a cara do santo à sua própria semelhança e torna o encontro que deveria ser gracioso em uma transação egoísta. Segundo, para que possa vir antes do encontro, o namoro (que deveria ser um termo descritivo da arte desse encontro especial) vira substantivo, quer dizer, torna-se um termo designativo de uma instituição, como pequeno noivado ou casamento. Terceiro, nessa condição, o namoro é assumido como um ídolo com poderes para satisfazer as necessidades dos pares e, consequentemente, torna-se um encontro por necessidade e não por expressão de amor. Em vez de ser um encontro que promova o bem do outro, vira um encontro para derivação de “benefício” próprio (“Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” – Filipenses 2.4-5).

O namoro cristão – no sentido de um período de atração e de conhecimento mútuo entre um homem e uma mulher com vistas a um compromisso de amor – é uma relação entre irmãos com o propósito de agradar a Deus por meio do conhecimento da vontade de Deus caracterizado pela devida santidade. Paulo, instruindo os tessalonicenses sobre essa matéria, diz: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição; que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra” (ver 1Ts 4.3-4; ver vv 1-9). A palavra “possuir” (gr., ktaomai) tem o sentido de “adquirir”, “obter uma esposa”, e a expressão “próprio corpo” (gr., skeuos, vaso) tem o sentido de “implemento”, que lembra o texto de Efésios 5.31: “Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne”. Nessa linha de pensamento, Paulo realça que o empenho de buscar o “par de vaso” implica em um relacionamento entre irmãos. Assim, namoro deveria ser um relacionamento entre irmãos com vistas a uma união íntima. Essa união íntima exige o conhecimento de Deus em santidade de vida e o conhecimento mútuo dos envolvidos com base no conhecimento da vontade de Deus e no exercício da pureza do amor.

Do jeito que as coisas estão, hoje, o namoro dispensa o conhecimento da vontade de Deus e opta pela busca experimental do “par de vaso” por meio de uma intimidade exacerbada e não própria de irmãos. A jovem ou o jovem “namora” um, depois outro, e outro, até se esgotarem as possibilidades na igreja ou ao redor. Um dia, aparece uma cara nova e, no dia seguinte, os namorados dão-se e exigem todos os direitos de uma falsa intimidade – em nome do amor! Falsa, digo, porque não há intimidade sem conhecimento. Na verdade, toda intimidade sem conhecimento é abuso e violência. Não é fato que todos somos pudicos por natureza? Somos protetores de nossa intimidade assim como jogadores de futebol que, na barreira para um chute a gol, protegem “a cara”? Não é apenas que a menina e o menino foram socialmente condicionados a proteger a intimidade talvez por causa de expressões como: “Só a mamãe pode lavar aí até que você aprenda a se lavar” ou “Tira a mão daí, menino; tá com coceira?” Sobretudo, isso é porque Deus disse que as partes mais honradas foram estrategicamente protegidas por fortes partes do corpo (ver 1Coríntios 12.22-14). É verdadeiro também que as meninas crescem dotadas de um senso de sua missão de mulher, tanto como ninho da humanidade quanto de espelho da glória de Deus, refletindo ao homem a dependência que essa humanidade tem em relação à providência de Deus. E os meninos, da mesma forma, crescem dotados de um senso de sua missão masculina de refletir a glória de Deus tanto na proteção do ninho quando na honra a Deus, refletindo a imagem de Deus na vida da mulher. Tudo isso, como Paulo disse, com um propósito maior: “Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne” (Efésios 5.31).

Agora, um dia, vem o completo desconhecido, cheio de beiço e com quatro mãos, murmurando amores e gabando-se de virtudes protetoras, tais como: “Deixa comigo” e “Confia em mim”, e a mocinha tímida ou atrevida, sedenta de experiências de alguma forma de amor – e, no dia seguinte, são os mais íntimos da vida. Nem pai nem mãe nem irmãos sabem mais ou querem mais. Contudo, ocorre que, uma vez que, sem conhecimento e compromisso, intimidade é abuso e violência, os namorados enfrentam um dilema: amar a Deus e ao próximo ou negar o amor a Deus e “fazer” amor com o próximo? Isso é assim porque a intimidade antes de o compromisso com Deus ser selado no compromisso com o “par de vaso” é, de fato, defraude, como disse Paulo: “e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu irmão” (1Ts 4.6).

Poderá ser que ela pense: “Se eu não ceder, perco a oportunidade” ou “o corpo é meu, faço o que quero”. E poderá ser que ele pense: “Se eu não aproveitar, outro aproveita” ou “Se eu não for afoito o que é que vão (ou ela vai) dizer de mim?” O fato é que, ele e ela estarão se rebaixando e rebaixando um ao outro, de um grau de dignidade que Deus deu a todos os homens como parte da graça comum, pois todos temos consciência do bem e mal (ver Romanos 2, esp. vv 14-21).

Seja um namoro consequente ou inconsequente, os resultados virão. No caso de um namoro inconsequente (como a saída do moço arguido pelo pai da moça, se estava namorando a filha pra casar ou pra que é, respondeu: “Pra que é”), lembre-se de que os namorados sempre preparam o marido ou a esposa de outro irmão ou irmã em Cristo, e o defraude, guardando culpa e medo, diminuirá as possibilidades de futuros relacionamentos bem sucedidos. No caso de um namoro que acabe em casamento, o defraude gerará culpa e ciúme. A qualquer hora ele se perguntará se o chefe, colega ou amigo da esposa terá mais “lábia” do que ele; ou ela se perguntará se a secretária, amiga ou o que for do marido será mais atraente do que ela. Certamente, para os consequentes, haverá sempre a esperança firme de redenção por meio do arrependimento e da confissão, em Cristo Jesus. Para os inconsequentes, ainda que prevaleça a redenção, a restauração será sempre mais difícil e dolorosa.

O namoro, em moldes bíblicos, portanto, é oportunidade para uma amizade fraterna que visa o conhecimento de Deus e propicia o conhecimento próprio e o conhecimento mútuo. Isso implica a orientação da Palavra de Deus:

Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado. Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos (Hebreus 3:12-14).

Uma boa regra para o namoro será: lembre-se de que o beijo cala a boca. Por isso, fale, converse, instrua, aconselhe. Permita que o conhecimento em Cristo seja a intimidade que oriente a maravilha do caminho “do homem com a donzela” (Provérbios 30.19). Conheça a história do coração (memórias) do irmão ou irmã, mas conheça com discernimento, lembrando coisas que transmitam graça, não murmuração, amarguras, maledicências, impurezas e impudicícias. Dignifique o irmão ou irmã com a dignidade de servos de Cristo.

Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai (Colossenses 3.16-17).

Bom namoro!

Wadislau Martins Gomes

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