domingo, 19 de janeiro de 2014

João 3:16, Desejos do Homem e Novo Nascimento


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Tendo Deus ressuscitado o seu Servo, enviou-o primeiramente a vocês, para abençoá-los, convertendo cada um de vocês das suas maldades” (Atos 3:26).
Uma pessoa só pode receber o que lhe é dado dos céus” (João 3:27) .
Freqüentemente me pego debatendo com cristãos que acreditam que homem e Deus têm papéis iguais na regeneração (sinergistas) e que nossa escolha é osine qua non do novo nascimento. Eles argumentam que Deus dá a todos a graça preveniente, mas o homem pode exercer seu livre-arbítrio autônomo para fazer a graça eficaz. Estes cristãos ensinam que o homem escolhe a Cristo apesar de seus desejos e isso é o que faz sua vontade livre. Escolher algo diferente de seus desejos constitui verdadeira liberdade para eles, já que a liberdade está acima e é independente de todas as outras influências. Mas é isto o que a Bíblia ensina? 
O primeiro alvo deste texto é provar pelas Escrituras que nós sempre escolhemos o que nós queremos (desejamos) mais e que isso é baseado em nossa natureza. Nós escolhemos alguma coisa porque nós a desejamos. Em outras palavras, nós acreditamos em Jesus porque nosso desejo por Cristo se torna maior que nosso desejo pelo pecado. O segundo alvo é explorar de onde esse desejo vem. Ele vem de nossa natureza degenerada (como os sinergistas crêem) ou ele é um dom incondicional de Deus? Meus amigos sinergistas dizem que, utilizando a graça de Deus, apesar de nossos desejos, nossa vontade autônoma definitivamente determinará nosso destino final. Eu argumentarei porque essa posição é fatal para seu sistema teológico inteiro. 
Nós Escolhemos O Que Nós Desejamos Mais 
Vamos começar com alguns textos bíblicos que ensinam que nossa natureza determina nossos desejos e nossos desejos determinam nossas escolhas. Cristo diz:
O homem bom tira coisas boas do bom tesouro que está em seu coração, e o homem mau tira coisas más do mal que está em seu coração, porque a sua boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6:45).
O que Jesus diz aqui é claro – a água não corre contra a correnteza. Nossa decisão de dizer algo bom ou ruim é somente determinada pela condição de nosso coração. Há uma grande evidência para o mesmo conceito em Mateus 7:18. 
A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons”.
Aqui, Jesus está ensinando que é a natureza da árvore que determina o que virá dela. Somente aquele que tem uma boa natureza é capaz de criar um pensamento correto, gerar uma afeição correta, ou originar uma volição correta. Jesus martela novamente o mesmo conceito nos judeus incrédulos, quando discute se eles são ou não descendentes de Abraão: 
Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo. Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira (...) Aquele que pertence a Deus ouve o que Deus diz. Vocês não o ouvem porque não pertencem a Deus”. (João 8:43,44,47)
Na passagem acima, os judeus não puderam ouvir a palavra de Deus porque eles pertenciam ao diabo (suas naturezas) e isso aumentou suas vontades de fazer o que desejavam. Suas naturezas os tornaram moralmente impotentes para ouvir as palavras de Jesus. Mais tarde, Jesus ensina que antes de alguém ouvir as palavras de Deus, ele deve ser de Deus. Em outras palavras, uma pessoa não entenderá o evangelho enquanto permanecer em seu estado não-regenerado e decaído.
Deus Exige Perfeição 
Na história do jovem rico, Jesus o ensina que se ele obedecer todos os mandamentos, ele terá a vida eterna. Todos nós sabemos que esta história foi contada para expôr nossa inabilidade de cumprir tudo isso. Mas o jovem (equivocadamente) confiava que ele guardou tudo desde sua juventude. Jesus, conhecendo seu coração e onde ele vacilaria, ordena que o rapaz venda todas suas posses, dê aos pobres e o siga. Em outras palavras, Jesus lhe disse que o arrependimento de sua ganância e a fé em Cristo eram onde ele ainda falhava. Mas ele se afastou entristecido. Jesus então diz a seus discípulos que é mais difícil que um homem rico entre no Paraíso que um camelo passar por um buraco de agulha. “Quem então poderá ser salvo?”, os discípulos perguntam, sabendo que Jesus está dizendo que o caminho para o céu está fechado a todos os homens – um padrão santo que ninguém poderia alcançar. A resposta que Jesus dá é “Para o homem é impossível [arrependimento e fé], mas para Deus todas as coisas são possíveis”. A natureza do jovem não poderia se colocar acima de seus desejos e Jesus diz que isso é impossível para todos os homens. Apenas Deus tem a capacidade de fazer isto. A Bíblia é recheada com exemplos assim. É realmente um mito que o homem em seu estado natural está genuinamente buscando a Deus. Homens podem procurar um deus, mas eles não procuram o verdadeiro Deus, revelado nas Escrituras. Exceto pelo novo nascimento, ninguém vem à luz do verdadeiro Deus, mas suprimi a verdade pela injustiça. 
A Bíblia, por esta razão, ensina além de qualquer dúvida que nós agimos ou escolhemos de acordo com nosso maior desejo, que é baseado é nossa natureza. Jesus, como notamos acima, ensina que é impossível ser de outra forma. Mais ainda, como uma conseqüência da morte física de Adão e seus descendentes (Gn 2:17) existem muitos outros problemas com a natureza do homem em seu estado decaído, incluindo sua incapacidade de entender Deus (Salmos 50:21; Jó 11:7,8; Rm 3:11); ver coisas espirituais (Jo 3:3); conhecer seu próprio coração (Jr 17:9); direcionar os próprios passos no caminho da vida (Jr 10:23; Pv 14:12); libertar a si mesmo da maldição da Lei (Gl 3:10); receber o Espírito Santo (Jo 14:17); nascer por si só na família de Deus (Jo 1:13; Rm 9:15,16); produzir arrependimento e fé em Jesus Cristo (Ef 2:8,9; Jo 6:64.65; 2 Ts 3:2; Fp 1:29; 2 Tm 2:25); ir a Cristo (Jo 10:26; Jo 6:44); e agradar a Deus (Rm 8:5,8,9). Estas conseqüências da desobediência de Adão em seus descendentes são o que os teólogos freqüentemente se referem como a total depravação do homem. Sem uma mudança de disposição, o amor de Deus e Sua lei não é a mais profunda motivação e princípio do homem natural. 
O Que Tudo Isso Tem a Ver com João 3:16?
Sinergistas freqüentemente me dizem: “Predestinacionistas acreditam em um Deus que requer mais do que Ele capacita ou permite os homens alcançarem. Este é o tipo de Deus em quem eles acreditam”. Nisto eles estão parcialmente corretos, mas a falha está no homem, não em Deus... porque a natureza de Deus nunca mudou, mas a nossa muda. A Lei de Deus é perfeita porque Ele é perfeito. Ele não pode diminuir Seus padrões por nós ou Ele não mais seria Deus. Por esta razão, Deus teve um propósito específico em exigir perfeição moral em nós e isso inclui o mandamento de crer em Cristo. 
Declarações bíblicas como “se tu o buscares” e “todo aquele que nele crer” como em João 3:16 estão num modo hipotético. Um gramático explicaria que há uma declaração condicional, que não expressa nada de forma indicativa. Nesta passagem o que nós “deveríamos” fazer não implica necessariamente que nós “podemos” fazer. Os dez mandamentos, da mesma forma, falam do que nós deveríamos fazer mas eles não implicam que nós temos a habilidade moral de cumprí-los. Os mandamentos de Deus nunca serviram para nos fortalecer, mas para arrancar nossa confiança em nossas próprias capacidades de tal forma que seria o fim de nós mesmos. Com uma clareza pungente, Paulo ensina que este é o intento da legislação divina (Rm 3:20, 5:20; Gl 3:19,24). Se alguém está tentado a argumentar que essa crença é meramente um convite, e não um mandamento, leia 1 João 3:23: “E este é o seu mandamento: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo...”. Então, eu creio que aqueles que sustentam a idéia de que Deus ordena aos homens decaídos e não-regenerados a fazerem algo que já são capazes de fazê-lo estão impondo uma teoria antibíblica no texto. Um mandamento ou convite com uma afirmação abertamente hipotética, como João 3:16 faz não implica na capacidade de cumpri-lo. Isto é especialmente verdadeiro à luz de textos como Jo 1:13, Rm 9:16, Jo 6:37, 44, 63-65, Mt 5:16-16, 1 Co 2:14 e muitos outros que mostram a incapacidade moral do homem no estado decaído em crer no Evangelho. Em nossa natureza não-regenerada nós não podemos fazer nada a não ser amar as trevas e nunca nos aproximarmos da luz.
Na Cruz Deus Nos Dá o que Ele Exige de Nós
Como isso pode ser boa-nova se os homens nunca se encontrarão naturalmente desejando se submeter em fé aos humilhantes termos do Evangelho de Cristo? (Rm 3:11; Jo 6:64,65; 2 Ts 3:2). Porque Deus nos deu graciosamente o que Ele exige de nós. No evangelho, Deus nos revela a mesma justiça e fé que Ele exige de nós. O que nós deveríamos ter, mas não poderíamos criar ou alcançar ou cumprir, Deus nos garante livremente, como é chamada, a justiça de Deus (2 Co 5:21) e a fé de Cristo. Ele revela, como um dom em Cristo Jesus, a fé e a justiça que antes era somente uma exigência. Fé não é algo com que o pecador contribui para pagar o preço de Sua salvação. Jesus já pagou todo o preço por nós. Fé é nosso primeiro fôlego na respiração de nosso novo nascimento, antes de falar. É uma testemunha da obra da graça de Deus que tomou seu lugar dentro de nós (Ef 2:5,8; 2 Tm 2:25).
Romanos 3:11,12 diz “não há ninguém que busque a Deus, ninguém” e 1 Co 2:14 diz que o homem natural não consegue entender as coisas do Espírito, que são loucura para ele e não é possível que sejam aceitas porque devem ser discernidas espiritualmente. Mesmo Pedro teve de ser revelado pelo Pai que Jesus era o Cristo. Os arminianos e nós concordamos que “todo aquele que crer” tem a vida eterna, mas a questão vai além disso – o que leva alguém a crer?
C.H. Spurgeon, em seu sermão Incapacidade Humana expõe isso com grande clareza:
"Oh", diz o Arminiano, "os homens podem serem salvos se quiserem." Nós replicamos: "Meu querido senhor, todos nós cremos nisto; mas é precisamente no se eles quiserem onde está a dificuldade. Afirmamos que ninguém quer vir a Cristo, a menos que ele seja trazido; pelo contrário, nós não afirmamos isto, mas o próprio Cristo o declara: "Mas não quereis vir a mim para terdes vida"; e enquanto este "não quereis" permanecer registrado na Santa Escritura, não seremos inclinados a crer em qualquer doutrina da liberdade da vontade humana. É estranho como as pessoas, quando falam sobre o livre-arbítrio, discutem de coisas que eles não tem nenhum entendimento. "Ora", diz alguém, "eu creio que os homens podem ser salvos se eles quiserem." Meu querido senhor, de modo algum é esta a questão. A questão é: os homens alguma vez são encontrados naturalmente dispostos a submeterem-se aos termos humilhantes do evangelho de Cristo? Declaramos, sob a autoridade das Escrituras, que o homem está tão desesperadamente em ruína, tão depravado, e tão inclinado a tudo o que é mal, e tão oposto a tudo o que é bom, que sem a poderosa, sobrenatural e irresistível influência do Espírito Santo, nenhum ser humano quererá jamais ser constrangido para Cristo. Você replica, que os homens algumas vezes estão desejosos, sem a ajuda do Espírito Santo. Eu respondo: Você encontrou alguma vez alguma pessoa que estivesse?
Eu argumentaria que este é o porquê de Jesus enfatizar o novo nascimento durante toda a passagem de João 3. Nicodemos não podia entender a linguagem de Jesus: “O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito”. Assim como somos passivos em nosso nascimento físico, também no nascimento espiritual o somos. Nós não participamos ativamente de qualquer nascimento com nossos esforços. O Espírito é semelhante ao vento nesta passagem, que não se sabe se está indo ou vindo – assim é todo aquele nascido em espírito. O trabalho do Espírito é soberano e sobrenatural. Assim como um cego não enxergará se você lançar uma luz nos seus olhos, ordenando a ele tudo que você quiser. Não é de luz que ele precisa, mas de um novo par de olhos. É assim que o novo nascimento parece. Antes da regeneração, Satanás nos tornou cativos de sua vontade. Ele nos cegou para a verdade. Nós devemos ser libertos de nossos próprios desejos e o cativo somente é completamente livre pelo dedo de Deus através do trabalho final de Cristo.
Em João 3:19-20, no mesmo contexto de 3:16 (três versos depois), Jesus qualifica Seu “todo aquele que crê” com a seguinte afirmação: “Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas”. (Isto é para todos nós anterior à regeneração)
Mas todos nós sabemos que alguns virão para a luz. Leia o que João 3:20-21 diz sobre eles. “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que seja manifesto que as suas obras são feitas em Deus”. Então, veja que existe aqueles que vêm para a luz; e suas obras são o trabalho de Deus. “Feitas em Deus” significa trabalhado em e por Deus. A não ser pelo gracioso trabalho divino de regeneração, todos os homens odeiam a luz de Deus e não irão até ela.
Ao invés de balançar nossas cabeças para o versículo que se encaixa em nosso sistema particular de teologia, nós devemos interpretar escritura com escritura, especialmente no contexto da passagem. Agora que nós vimos João 3 por completo, o verdadeiro significado do texto se torna claro. João 1:10-12 é também um dos favoritos dos sinergistas quando anunciam o evangelho:
Ele estava no mundo, e o embora mundo tenha sido feito por intermédio dele, o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus”.
Grande passagem, eu também adoro usar estes versos, mas nós não podemos parar aqui. Nós precisamos reconhecer que devemos adicionar a qualidade do verso 13:
os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus” (João 1:13).
Eu acho estranho muitos deixarem esse versículo de fora de sua evangelização: todos os versículos caminham juntos. Isso repete um tema constante nas Escrituras: que nós somos ordenados a nos arrepender e crer no evangelho, mas adicionalmente, que nós somos moralmente incapazes de fazer tanto sem o eficaz trabalho do Espírito Santo. A oferta de “todo aquele que nele crer” é para todos os homens e verdadeiramente oferecida a todos os homens, mas nenhum homem natural deseja a Deus. TODOS rejeitam este dom, mas o que nós não podemos fazer por nós mesmos, Deus faz por nós. Aqueles que vêm a Deus dão glórias a Ele porque Ele tem preparado seu coração, dando-lhes um desejo por Cristo que é maior que o desejo de permanecer no pecado. Isto é o que Ele fez por Lídia através da pregação de Paulo, no livro de Atos: “O Senhor abriu seu coração para atender à mensagem de Paulo”. O que aconteceu a Lídia é o que acontece a todo aquele que vem para a fé em Cristo. Se o Senhor abrir nosso coração, nós desejaremos crer, e nenhuma resistência existe, porque nós não desejaremos resistir. Nossas novas naturezas vivificadas pelo Espírito Santo têm novos desejos e disposições, que não poderíamos produzir por nós mesmos. Se o Senhor abriu o coração de Lídia para ela atender à mensagem e ela resistisse, isto seria uma afirmação contraditória. Note que Deus abriu seu coração para “atender à mensagem”. Se Deus desarmou a hostilidade de Lídia de forma que ela creria, então não deveria haver mais debates de como Ele faz com todos aqueles que têm fé. Apesar do fato de nós termos uma crença real em nós mesmos, pelo esquema sinergista, no entanto, o homem volta sua afeição e fé para Deus enquanto ainda está em sua caída e degenerada condição de coração petrificado. Mas o homem deve primeiro ter uma nova natureza para crer – ou seja, a Escritura ensina que o homem sem o Espírito não deseja, entende, tampouco é capaz de obedecer ou se voltar a Deus (1 Co 2:14, Rm 8:7, Rm 3:11). Se nós iremos acreditar, Deus deve primeiramente transformar nosso coração de pedra em um coração de carne:
Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis” (Ezequiel 36:26,27).
Os sinergistas acreditam que o grande desejo por fé, pelo qual nós creremos no Deus que justifica pecadores, pertence a nós por natureza e não por um dom da graça, que está, pela inspiração do Espírito Santo, aumentando nossa vontade e tirando ela da descrença para fé e da falta de Deus para Deus. Mas o Apóstolo Paulo diz: “Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fl 1:6). E novamente, “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Ef 2:8). Pior ainda, os sinergistas ensinam que Deus tem misericórdia de nós quando, a partir da graça regeneradora, nós acreditamos, queremos e desejamos, mas não confessam que é através do trabalho e inspiração do Espírito Santo em nós que teremos a fé, a vontade ou força para fazer todas estas coisas. Se eles fazem a ajuda da graça depender de nossa humildade ou obediência, mas não concordam que é um dom da própria graça que nós sejamos obedientes e humildes, eles contradizem a Bíblia, que diz “O que você tem que não tenha recebido?” (1 Co 4:7) e “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou” (1 Co 15:10).
Então vamos perguntar a nossos amigos sinergistas porque um homem crê e outro não?
Pelo esquema arminiano, Deus dá ao homem graça suficiente para colocá-lo numa posição de decidir por si mesmo se irá ou não crer. Então um homem será mais inteligente, mais sábio e mais humilde? Se este fosse o caso, Deus nos salvaria com base na personalidade gerada por nós mesmos e não pela graça. Pergunte a eles como seus olhos se voltaram a Deus. Um homem usa a graça dada a ele e outro não. O que no homem determina sua escolha e por quê? Isso nos deixa com salvação pelo mérito, desde que um homem que tem pensamentos e afeições por Deus O escolhe enquanto o outro não. Não já provamos que as Escrituras ensinam que fazemos nossas escolhas baseados no que mais desejamos? Onde o homem conseguiu sabedoria e inclinação a Deus, enquanto o outro permaneceu endurecido? Como um homem criou um pensamento reto, afeição reta, ou originou volição reta? Se não veio de seus desejos, então veio de onde? As escolhas são baseadas no que nós somos. Um homem natural nunca escolheria a Deus por si mesmo sem a graça regeneradora. Então Deus sobrenaturalmente enxerta a obra regeneradora do espírito ao despertar a fé de Seus eleitos.
Então, porque alguns homens rejeitam a Deus?  
Resposta muito simples: Porque eles são malignos. “Ele fará uso de todas as formas de engano da injustiça para os que estão perecendo, porquanto rejeitaram o amor à verdade que os poderia salvar” (2 Ts 2:10). Eles odeiam a Deus e não O querem, como toda pessoa sem o Espírito. Cristo diz “vocês não crêem, porque não são minhas ovelhas”. Jesus claramente mostra que a natureza da pessoa determina as escolhas que faz. Ele não diz “vocês não crêem, por isso não são minhas ovelhas” . Não, Ele diz “vocês não são minhas ovelhas, (POR ISSO) vocês não crêem”. A Bíblia afirma claramente porque alguns crêem e outros não. Nossa natureza determina nossas escolhas. Descrença é conseqüência da maldade, segundo as Escrituras. Crer é conseqüência da misericordiosa mudança na disposição do coração (em direção a Deus) através da rápida ação do Espírito Santo. O esquema sinergista deixa cada pessoa decidir por elas mesmas enquanto ainda estão em sua natureza decaída. O homem em seu estado não-regenerado decide baseado em um princípio dentro dele. Nossa vontade por si só não é autônoma, mas controlada por quem somos naturalmente. Nós nunca escolhemos o que nós não queremos ou odiamos. Em nosso estado não-regenerado nós ainda somos hostis para com Deus, amamos as trevas e somos cegos pelo diabo, tomados cativos para fazer a vontade dele, e não desejamos ou queremos coisas espirituais.
Se a graça preveniente dos arminianos somente faz o coração neutro, como eles admitem, então o homem não é motivado nem desmotivado para crer ou descrer – conseqüentemente a única opção é pelo acaso que alguém creia ou não. Eles irão argumentar ardentemente contra isso mas não encontrarão outra alternativa bíblica. Nossa escolha, qual seja, é baseada em nosso caráter interior, não pelo acaso. Um homem escolhe e o outro não, porque um foi renovado pelo gracioso trabalho de Deus. Apenas isso dá toda glória a Deus pela salvação.
O Espírito dá vida; a carne não produz nada que se aproveite. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida. Contudo, há alguns de vocês que não crêem” (...) E prosseguiu: "É por isso que eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai” (João 6:63-65).
Concluindo, minha oração é que a igreja do século XXI finalmente aprenda a doutrina “somente pela graça” corretamente. Oh! Que nós entendamos a pobreza da condição do homem perdido e a glória da misericórdia e graça divinas, e que não nos preocupemos em proclamá-las. Acredito que percorreremos um longo caminho parar criarmos uma postura de adoração que dê completa honra a Deus, em que Seu povo terá pensamentos corretos sobre Ele e alcançará um estágio de verdadeiro reavivamento. Esta tem sido uma longa batalha desenhada através da História da igreja (Agostinho/Pelágio, Lutero/Erasmo, Calvino/Armínio, Wesley/Whitefield) mas eu permaneço muito otimista quanto ao futuro crescimento do reino de Deus.
***Tradução livre: Josaías Cardoso Ribeiro Jr.Fonte: Monergismo

sábado, 18 de janeiro de 2014


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Por Rev. Davi Charles Gomes


O adolescente escuta enquanto o professor [re]afirma a posição de Nietzche quanto a convicções religiosas: “toda convicção é uma prisão...” O moço então pergunta se afirmativas como esta e como a morte de Deus não seriam também prisões. “Então, de acordo com o filósofo, você precisa duvidar de toda opinião, até mesmo desta”, foi a resposta rápida do professor. Só que o aprendiz, sem esquecer o ódio que o professor nutre por quem classifica Nietzche como niilista (posição filosófica que nega a realidade substancial, a possibilidade da verdade ou qualquer moral transcendente), perguntou maroto: “mas isso não seria, então, uma forma de niilismo?” Essa troca aconteceu pouco tempo atrás, em uma classe de ensino médio.

A história é antiga. A expressão “não existe absolutamente nenhuma verdade absoluta” é a mãe de todas as filosofias absolutistas! “Todo discurso normativo é uma tentativa de dominação...” ou “toda metanarrativa é uma agressão ideológica...” E por aí vão as declarações aparentemente libertadoras, mas surpreendentemente totalitárias. Fico pensando se Alvin Plantinga não tinha razão quanto afirmou: “Acho difícil ver essa atitude como manifestação de tolerância ou de humildade intelectual: parece-me mais uma condescendência paternalista...” (Alvin Plantinga, Warrented Chistian Belief).

Uma questão tem ocupado minha cabeça: por que é que se fala tanto sobre liberdade de pensamento enquanto radicalizações, coercivas ou não, parecem se multiplicar como coelhos!? E isso, sem gastar tempo mostrando como tal estado de coisas vem acompanhado do ocaso do debate frutífero de idéias bem firmadas, cuidadosamente articuladas e respeitosamente expressadas.

Pensei em chamar este texto pelo título: “Voltaire, socorro!” (Voltaire, ou François Marie Arouet, 1694-1778). Mas, talvez, o título não ficasse bem para um pastor, e, portanto, preciso me explicar (já que acabei deixando escapar!). A antiga tradição da tolerância, a do Iluminismo, dizia algo mais ou menos assim: posso discordar de suas idéias, mas lutarei para que você as possa ter. A suposta “tolerância” de hoje, entretanto, parece gritar: acredite no que quiser menos em que sua crença seja verdadeira!

Fico lembrando que houve tempo em que idéias eram defendidas na ponta da lança ou no tacape. Alguns povos mais espertos, entretanto, resolviam suas diferenças de forma mais “maneira”. Para algumas tribos, as diferença podiam ser resolvidas no grito e no volume do som do bater dos pés. Mas outras tradições milenares apostavam no diálogo, no debate, ou mesmo nas disputas, como melhor maneira para defender idéias e convicções. É assim na tradição bíblica, no pensamento cristão, e especialmente na herança dos reformadores: idéias são importantes, convicções são necessárias e existem acertos e erros, e cada um vai se comprometer com certas crenças e visões das coisas. É claro que, para alguém que crê assim, será inevitável o estabelecimento de um ponto de referência, tal como de uma confiança em que esse ponto de referência seja passível de conhecimento.

Para um cristão, o ponto final de referência é o próprio Criador, que é conhecido de forma pessoal em sua revelação e especialmente e Cristo, o Deus-homem. Mas, exatamente porque reconhece esse ponto de referência externo a ele mesmo, e porque ele aceita que Deus se revela, é que o cristão valoriza o debate de idéias e aceita que o convencimento da verdade envolve fatores racionais, afeitos e, finalmente, de motivos do coração – como eu reajo ao conhecimento de Deus que me confronta nas múltiplas formas como esse Deus se revela. Isso gera uma dupla atitude: firmeza nas convicções já alcançadas e, ao mesmo tempo, tranquilidade quanto ao fato de que essas convicções podem e devem ser objeto de discurso persuasivo, mas nunca poderão ser impostas a outros por força externa – nem mesmo no grito ou no bate-pé!

Aliás, é por aí que vai o apóstolo Paulo quando argumenta em favor da verdade e afirma que, mesmo não pensando ter alcançado a plenitude do conhecimento, prossegue para o alvo de ver as coisas por meio da ótica de Cristo, e, então, completa:

Todos nós que alcançamos a maturidade, devemos ver as coisas dessa forma, e, se em algum aspecto vocês pensam de modo diferente, isso também Deus lhes esclarecerá. Tão-somente vivamos de acordo com o que já alcançamos” (Filipenses 3,15-16).

Davi Charles Gomes

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Fonte: Coramdeo

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014



Por Thiago Oliveira

Vi na internet uma frase de A. W. Tozer que dizia o seguinte: “O Diabo é melhor teólogo do que qualquer um de nós, mas continua sendo Diabo.” Gostei tanto do dito que passei um bom período refletindo sobre ele. Um pensamento foi puxando outro até que eu relacionasse com o episódio da tentação de Jesus, onde Satanás usou a Bíblia para pô-lo a prova. Naquela ocasião fica realmente claro que o inimigo de nossas almas é conhecedor das Escrituras, e que a manipula segundo a sua conveniência. Aliás, distorcer e seduzir faz parte de seu ofício e desde o Éden sabemos disso.
Nos dias atuais, não há maior distorção bíblica do que a Teologia da Prosperidade que vem se alastrando através do crescimento do neopentecostalismo. Kenneth Hagin, tido como o pai de tal teologia, também conhecida pela alcunha de “Confissão Positiva”, na verdade plagiou Essek W. Kenyon, que décadas antes havia escrito e divulgado boa parte do que Hagin divulgou para o mundo. Todavia, observando os ensinamentos e a abordagem dos pastores da prosperidade, vemos que muito se assemelham a atuação diabólica presente no Deserto da Judeia.
Aos adeptos da Confissão Positiva: ficar doente, desempregado, ter problemas familiares ou de qualquer outra natureza são resultantes da falta de fé. Esta fé deve ser provada. O jeito melhor de se provar a sua fé é através de uma contribuição financeira. Quanto mais se doa (em cash), mais abençoado (próspero) se é. E se as coisas não saíram do jeito que você gostaria, é porque você não teve fé suficiente, ou seja, você não deu a quantidade de dinheiro que deveria dar.
A barganha descrita no parágrafo acima é a mesma que Satanás usou com Jesus. Isso faz dele o referencial teórico, ou melhor dizendo, fundador da Teologia da Prosperidade. Vejamos a forma com que ele abordou Cristo:
Usando o relato do Evangelho de Lucas 4:1-13, analisemos que Jesus foi impelido pelo Espírito a ser tentado e num momento de debilidade física após 40 dias de Jejum o Diabo se aproxima sutilmente e diz: “Se és o Filho de Deus, manda esta pedra transformar-se em pão.” Ora, é sabido que Jesus estava com fome e que sua natureza humana ansiava por comida. A primeira proposta satânica é a de satisfazer os nossos desejos carnais. A nossa vontade terrena clama por ser alimentada e é isso que Satanás propõe. Em seu discurso, põe em cheque a debilidade de Cristo com a sua filiação: Como pode o Filho de Deus passar por tal situação?
De igual modo, assisti pela televisão um pregador dizer que por sermos filhos devemos exigir os nossos direitos e não ficar mendigando benção. E sinto informar-lhes que foram exatamente essas as palavras usadas: exijam seus direitos. No deserto Cristo não se deixou levar por tal argumento. Muitos evangélicos acham que devem se sobressair. Boa parte quer ver Deus “tirar do ímpio” para então lhe honrar com um carro, uma casa ou uma vaga de emprego. Mas a Bíblia diz que o sol nasce para todos e a chuva cai para justos e injustos (Mt 5:45) e que não somos privilegiados, pois éramos como os outros, merecedores da ira (Ef 2:3).
Jesus sabia qual era a sua missão e não faria um milagre em benefício próprio. Ele esvaziou-se de si (Fl 2:7) por amor e obediência ao Pai e não negaria o propósito de sua encarnação. Por isso responde: “Não só de pão viverá o homem.” Fiquemos atentos de que não só das coisas materiais consiste a vida. Se esperarmos em Cristo só nessa vida somos mais que miseráveis (1 Co 15:19). Não adianta ganhar o mundo e em troca perder nossa alma (Mc 8:36). Ajuntemos, pois, tesouros no Céu e busquemos com prioridade o Reino de Deus (Mt 6: 19 e 33) . Confiemos na provisão do Pai, assim como Cristo confiou.
Continuando a sua investida maléfica, Satanás mostra os reinos do mundo e oferece caso Jesus o adore. O Messias diante de todo o esplendor sabia muito bem que, como disse o teólogo Abraham Kuyper, não há um centímetro quadrado do Universo que o Senhor não declare seu. Essa barganha é típica do Inimigo e não pertence a Deus. Por isso que a pregação “toma lá da cá” é herética e obscura. Deus age por graça e misericórdia, quem faz trocas é o Demônio.
Os judeus aguardavam um messias político que governaria universalmente subjugando todos os povos. A segunda tentação usava essa falsa exegese das promessas veterotestamentárias e assediava a Jesus a ter a glória e a aceitação dos homens. Cristo, devotado só ao Pai retruca citando a Lei: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e somente a ele servirás.” Louvado seja o Senhor, digno de honra pelo que é e não somente pelo que nos faz. Já nos alertava Flavel: “Todo homem ama as bênçãos de Deus, mas um santo ama o Deus das bênçãos.”
Nas duas respostas que Cristo deu ao nosso adversário usou as Escrituras, para ser mais preciso o livro de Deuteronômio (8:3 e 6:13). Satanás ousa guerrear com a “mesma arma” e usa o Salmo 91. Em que consiste o elemento da terceira tentação? Exacerbação da fé. O ato de Jesus se lançar do Templo para que os anjos viessem ao seu favor ao invés de glorificar a Deus O coagiria. O Diabo com isso queria simplesmente que o Filho desafiasse o Pai.
Quantos e quantos irmãos não estão por aí colocando “Deus contra a parede” querendo que Ele realize um conveniente milagre? As igrejas neopentecostais estão cheias disso. Gente que sobe no púlpito e decreta, declara, determina e diz que se Deus é Deus mesmo ele tem que fazer e ponto. Afinal, quem é servo e quem é senhor? Jesus sabia de sua condição servil e não inverteu a ordem. Seu papel seria obedecer e não ordenar e novamente citando Deuteronômio (6:16) põe literalmente o diabo pra correr.
A guisa de conclusão enfatizo que a Teologia da Prosperidade é anátema. Pois prega um Evangelho distorcido da doutrina dos apóstolos e se assemelha muito mais com a metodologia de Lúcifer. Finalizo com a provocação de um escritor inglês chamado Roger L’estrange: “Aquele que serve a Deus por dinheiro servirá ao diabo por salário melhor.” Aqui me disperso. Graça e Paz.
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Sobre o autor: Thiago S. Oliveira, Recifense, Noivo, Cristão Reformado... um notório pecador remido pela Graça!
Divulgação: Bereianos
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014






Sou pastor de uma igreja que, pela graça de Deus, passou por um processo de reforma, um processo de retorno às Escrituras no que diz respeito à doutrina, ao culto e à prática. Neste processo, uma das doutrinas que nos trouxe um grande impacto foi a doutrina da aliança.

Nós a estudamos por cerca de dois anos, até que nossos filhos vieram a receber o selo da aliança, o santo batismo. Com o aprendizado da doutrina da aliança, logo percebemos que não estávamos educando nossos filhos a partir do pressuposto de que eles pertencem a Deus. Isso nos levou a nos preocuparmos cada vez mais com a educação dos nossos filhos e, por isso, começamos a estudar sobre a educação cristã.

Como pastor e pai, sei que há o grande perigo de abraçarmos a doutrina bíblica da aliança sem, contudo, vermos as implicações da aliança no que concerne à educação de nossos filhos. Creio que a compreensão da doutrina da aliança deve nos levar a uma reforma na educação dos nossos filhos. Por isso, escrevo esta série de artigos na esperança de que o Senhor promova tal reforma, principalmente entre aqueles que confessam a doutrina da aliança. Nos primeiros artigos procuraremos entender nossa responsabilidade como pais, e depois, veremos não só o perigo que nossos filhos estão correndo sendo submetidos a uma educação humanista como também aquilo que podemos fazer a esse respeito.

Inicialmente, precisamos atentar para algo muito importante, precisamos de uma resposta para a seguinte pergunta: de quem é a responsabilidade pela educação dos filhos da aliança? A resposta parece óbvia. E é mesmo. Creio que todos concordarão que os responsáveis são os pais. Mas, mesmo concordando com isso, na prática, muitos pais correm o risco de dividir a educação de seus filhos em duas ou três partes, responsabilizando-se apenas parcialmente.

Quando isso ocorre, os pais tendem a dizer: “Nós não estamos habilitados para ensinar, por exemplo, ciências a nossos filhos, portanto, essa é uma responsabilidade do professor. Nossa responsabilidade é de educar em relação a outros assuntos”. Assim, se pode chegar à seguinte divisão na educação dos filhos e, consequentemente, da vida:

Educação moral. Os pais dizem: “É nossa responsabilidade”. Ainda que, já aqui, haja muita intromissão da escola — intromissão que, por vezes, é tolerada.

Educação intelectual. Os pais dizem: “É responsabilidade da escola”. Neste caso, os pais se limitam a cobrar dos filhos boas notas e algum compromisso com os estudos.

Educação religiosa (bíblica). Os pais dizem: “É responsabilidade da igreja”. Aqui muitos pais se omitem de ensinar a Palavra de Deus a seus filhos de uma maneira consistente, transferindo a responsabilidade para os oficiais da igreja e para as professoras de Escola Dominical.

Tal concepção educacional tem como origem e consequência uma divisão da vida em vários compartimentos. É como se não houvesse unidade entre essas áreas e como se houvesse uma separação entre espiritual e material (gnosticismo). Tal visão não está de acordo com a Palavra de Deus, que nos ensina que tudo pertence ao Senhor (Sl 24) e que até as mínimas coisas devem ser feitas para a glória de Deus (1 Co 10.31).

Essa tricotomia educacional (separação entre campos moral, intelectual e espiritual), pode fazer com que os pais entreguem seus filhos à escola, entendendo que é responsabilidade dela educar seus filhos intelectualmente. Se a escola é pública, o Estado é visto como o responsável pela educação dos filhos. E em nosso país, onde o Estado costuma ganhar um status de deus que deve nos dar tudo e em quem devemos confiar e esperar, tudo isso se agrava. Então se o Estado ocupa nossos filhos tirando-os de casa, se ele provê material escolar, merenda, roupas e, em alguns casos, até dá um dinheiro por filhos matriculados, muitos pais se darão por satisfeitos (q.v. Sl 146). Por outro lado, se é particular, a escola também é vista como responsável pela educação dos filhos. Neste caso, os pais podem dizer: “Nós estamos pagando, então a responsabilidade é da escola”. Com isso, os pais podem imaginar que estão cumprindo com sua obrigação, oferecendo a seus filhos uma “educação de qualidade”. Em ambos os casos, o grande perigo é diminuir a responsabilidade dos pais quanto à educação dos filhos e transferi-la a terceiros. Porque é mais fácil colocar a culpa em terceiros se algo der errado.

Mas o que cada pai cristão precisa lembrar, e especialmente nós que professamos a fé denominada de reformada, e que cremos que Deus estabeleceu uma aliança com seu povo, aliança da qual nossos filhos também participam, é que a responsabilidade de educar nossos filhos é nossa. Cada pai é responsável por educar seus filhos em todos os sentidos, seja no âmbito moral, espiritual ou intelectual.

Portanto, os pais não devem ver a educação de seus filhos partimentada, mas, como um todo pelo qual são responsáveis. É verdade que eles podem pedir ajuda, mas a responsabilidade, perante Deus, continua sendo dos pais. Em Efésios 6.4, lemos sobre esta responsabilidade. A primeira coisa que podemos notar é que o apóstolo Paulo utiliza uma palavra que geralmente é usada para referir-se a “pais” no sentido masculino, o que faz recair um peso maior de responsabilidade sobre o cabeça da família, no que concerne à educação dos filhos. No entanto, precisamos notar que a responsabilidade dos pais (masculino), não exclui a responsabilidade das mães, que devem ser auxiliadoras também nisso. É, portanto, responsabilidade dos pais (pai e mãe) criarem seus filhos. O verbo “criar” tem o significado de “nutrir”, “cuidar”, e a ideia é de ajudar a florescer, ou seja, de ajudar os filhos a alcançarem maturidade em todas as áreas da vida. Podemos pensar nos filhos como pequenas plantas, as quais regamos, aplicamos nutrientes, protegemos, limpamos, em suma, cultivamos com todo cuidado esperando que um dia possam dar frutos. Isso mostra que a participação dos pais na educação de seus filhos é ativa. Se desejam que seus filhos produzam frutos para a glória de Deus, eles devem nitri-los para esse fim.

O texto também nos mostra como devemos fazer isso. Primeiro somos instruídos sobre o que não fazer, isto é, os pais não devem provocar seus filhos à ira. A razão disso nos é fornecida no texto paralelo em Cl 3.21: “... para que não fiquem desanimados”. Portanto, ao criarem seus filhos, os pais devem ter todo cuidado para não encher os corações deles de amargura e desânimo, fazendo com que obedeçam apenas por medo. Pelo contrário, devem dirigir o coração de seus filhos à obediência exigida (Ef 6.1-3), utilizando a “disciplina e admoestação do Senhor”. A palavra “disciplina” (paideia), que também pode ser traduzida por “treinamento”, “instrução”, se refere a tudo aquilo que concorre para o desenvolvimento mental, moral e espiritual da criança, é a educação por meio de regras e normas e que pode envolver recompensas ou castigos. A “disciplina” tem como alvo a vontade da criança. Já a palavra “admoestação” (nouthesia), pode ser traduzida por “advertência”, “instrução”. É a educação por meio de instrução verbal visando a correção do pensamento, da mente. A “admoestação” tem como alvo o intelecto da criança.

Por fim, o texto nos ensina que essa “disciplina e admoestação” devem ser “no Senhor”, isto é, a educação deve se desenvolver sob a autoridade que o Senhor dá e de acordo com a Sua Palavra. Isso nos chama a atenção para o fato de que o Senhorio de Cristo deve ser reconhecido também na educação dos filhos, mesmo aí, não podemos nos submeter a outro senhor.

Portanto, à luz de Efésios 6.4, devemos reconhecer que os pais são responsáveis por “nutrir” seus filhos, para um desenvolvimento pleno, como o próprio Senhor Jesus se desenvolveu como homem (Lc 2.52). Os pais são responsáveis por educar seus filhos e não devem se desfazer desta responsabilidade.

E talvez você pergunte: Se a responsabilidade da educação em todos os âmbitos é dos pais, então qual o papel da escola? A escola e seus professores são meios que os pais podem utilizar para cumprir sua responsabilidade de educar seus filhos. Neste caso, o professor tem autoridade delegada pelos pais para ensinar seus filhos, e ainda que o professor seja também responsável, a responsabilidade final recai sobre os pais. Então se um professor está ensinando a seus filhos que não há nenhum problema em uma união homossexual, que a questão de sexo masculino ou feminino é uma questão de opção, que Deus não existe, que o mundo veio de uma grande explosão, que não existe verdade absoluta, que o aborto deveria ser legalizado, que não existe pecado ou que o homem é inerentemente bom, você, pai, é responsável por isso diante de Deus.

Então, como vocês podem perceber, este é um assunto muito sério. Os pais devem sentir o peso de sua responsabilidade na educação de seus filhos. E já que a responsabilidade é dos pais, então a educação dos filhos é algo para o qual os pais devem dar muita atenção. Eles não podem simplesmente entregar seus filhos à escola, seja cristã ou não, como se não fosse sua responsabilidade a educação como um todo.

Esta é a primeira coisa que os pais que desejam dar a seus filhos uma educação que glorifique a Deus devem ter em mente: a responsabilidade pela educação dos filhos é em todos os sentidos uma responsabilidade deles.

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Fonte: Reforma Hoje
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O sentido da Escritura é apenas um, e não muitos. Pode haver várias partes em que um sentido é subordinado a outros, como algumas profecias com respeito à libertação da Babilônia, o espiritual por Cristo, e a eternidade no céu, e algumas passagens têm uma coisa que é típico de uma outra: ainda estes são apenas um sentido completo, que só podem ser de dois tipos: uma é simples, e um outro composto. 
Algumas escrituras têm apenas um sentido simples, contendo uma declaração de apenas uma coisa, e que seja adequada ou figurativa. Um bom senso é o que surge a partir das palavras tomadas corretamente, e o figurativo das palavras tomadas em sentido figurado. Algumas têm um sentido próprio simples, como: "Deus é Espírito""Deus criou os céus e a terra;", que devem ser entendidas de acordo com a adequação das palavras. Algumas têm um sentido figurado simples, como: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Toda vara em mim que não dá fruto, ele tira”. Estas têm apenas um sentido simples, mas é figurativo, e não deve ser entendido de acordo com o significado literal das palavras, como se Cristo fosse uma árvore. Assim, você vê que o sentido é simples. O composto ou sentido misto em que é encontrada uma coisa é declarado como um tipo do outro, e por isso, é constituído por duas partes, uma respeitando o tipo, o protótipo do outro, o que não são dois sentidos, mas de duas partes que formam um sentido todo pretendido pelo Espírito Santo: por exemplo, Moisés levantou a serpente no deserto, e aqueles que foram picados pelas serpentes venenosas podem olhar para ela e serem curados. O sentido pleno do que é, "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Aqui está um sentido literal e místico, que compõem um sentido pleno entre eles. Essas escrituras que têm esse sentido composto, às vezes são cumpridas corretamente (ou, literalmente, já que é feita em oposição ao sentido figurado) no tipo e tanto no antítipo, como Oseias 11:1 "Eu chamei meu filho do Egito", que era literalmente verdade tanto de Israel quanto de Cristo. Às vezes figurativamente no tipo, e corretamente no antítipo, como Salmos 69:21 "Eles me deram a beber vinagre". Às vezes corretamente no tipo, e figurativamente no antítipo, como Salmos 02:09 "Tu os despedaçaras com uma vara de ferro”, compare com 2 Sam. 12:31. Às vezes, em sentido figurado em ambos, como Sl 41:9 "Até o meu próprio amigo íntimo, levantou contra mim o calcanhar", o que se entende de Aitofel e Judas. Agora, o sentido da Escritura deve ser apenas um, e não é múltiplo, ou seja, bem diferente e de modo algum subordinado a outro, por causa da unidade da verdade, e por causa da clareza da Escritura.
Onde há uma pergunta sobre o verdadeiro sentido da Escritura, ele deve ser encontrado através da pesquisa de outros textos que falem mais claramente, a própria Escritura sendo a regra infalível de interpretação da Escritura. Agora que isso é assim, aparece a partir dos seguintes argumentos.
1 - O Espírito Santo dá isso como uma regra, 2 Pedro 1:20, 21. Depois que o apóstolo tinha chamado os cristãos para tomarem cuidado com a escritura, ele dá-lhes esta regra para entendê-la, "Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular de nossa própria exposição. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”. Da forma que veio, assim deve ser exposto, mas ele não veio por vontade de homem algum, por isso não devemos descansar sobre os homens para o sentido da mesma, mas os homens santos falando como eles foram movidos pelo Espírito Santo, e assim nunca erraram, portanto devemos olhar para o que é dito pelo mesmo Espírito em outros lugares.
2 - Há vários exemplos aprovados disso, comparando uma passagem com outra, para descobrir o significado do Espírito Santo, conforme Atos 15:15. E com isto concordam as palavras do profeta. Os Bereianos são elogiados por isso, Atos 17:11. Sim, o próprio Cristo faz uso desta para mostrar o verdadeiro sentido da Escritura contra o diabo, Mateus 4:6 "Lança-te daqui abaixo", disse o espírito mau, pois está escrito: “Que aos seus anjos dará ordem a teu respeito”, ver vs 7. "Também está escrito", diz Cristo: "Não tentarás o Senhor teu Deus." E, assim, nosso Senhor mostra o verdadeiro sentido da Escritura, que deve ser entendido apenas no que diz respeito a aqueles que não se lançam em tentar a Deus.[1] 
_____________________Nota:[1] A regra infalível de interpretação da Escritura é a própria Escritura, e, portanto, quando há uma questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer escritura que não são vários, mas somente um, que deve ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente. 2 Pedro. 1:20, 21, Atos 15:16 (Confissão de Fé de Westminster, capítulo 1.9).
***Fonte: Puritan SermonsTradução: César Augustos Vargas AméricoDivulgação: Bereianos