quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Em Números 14 Moisés muda a mente de Deus? - R. C. Sproul


Mudar a mente, no Novo Testamento, significa arrepender-se. Quando a Bíblia fala do meu arrependimento ou do seu arrependimento, ela quer dizer que somos chamados a mudar nossas mentes, ou nossas disposições com respeito ao pecado — que somos chamado a nos afastar do mal. Arrependimento está carregado desses tipos de conotações, e quando falamos sobre arrependimento de Deus, isso, de alguma forma, sugere que Deus se afastou de algo iníquo. Mas não é sempre isso que a Bíblia quer dizer quando usa essa palavra.

Usar uma palavra como arrependimento em relação a Deus, levanta alguns problemas para nós. Quando a Bíblia nos descreve Deus, ele usa termos humanos, porque a única linguagem que Deus tem para nos falar sobre si mesmo é a nossa linguagem humana. O termo teológico para isso é linguagem antropomórfica, que significa o uso de formas e estruturas humanas para descrever a Deus. Quando a Bíblia fala sobre os pés de Deus ou o braço direito do Senhor, imediatamente vemos isso como uma forma humana de falar sobre Deus. Mas quando usamos termos mais abstratos como arrepender-se, ficamos totalmente confusos a respeito.

Há um sentido em que parece que Deus está mudando sua opinião, e há outro sentido no qual a Bíblia diz que Deus nunca muda sua opinião porque Deus é onisciente. Ele sabe todas as coisas desde o começo, e ele é imutável. Ele não muda. Nele não há sombra de variação. Ele sabe o que Moisés vai dizer antes que Moisés abra a sua boca para suplicar por esse povo. Então, depois que Moisés fala, será que Deus subitamente muda de opinião? Ele não tem mais informação do que aquela que tinha há um momento atrás. Nada mudou no que concerne ao conhecimento de Deus ou à sua avaliação da situação.

O que, nas atitudes ou nas palavras de Moisés, poderia ter levado Deus a mudar de opinião? Creio que o que temos aqui é o mistério da providência, pela qual Deus ordena não apenas o fim das coisas que acontecem, mas também os meios. Deus estabelece princípios na Bíblia onde ele faz ameaças de julgamento para motivar seu povo ao arrependimento. Às vezes, ele declara especificamente: "Mas se vocês se arrependerem, eu não cumprirei a ameaça." Nem sempre ele acrescenta essa condição, mas ela está lá. Creio que essa é uma daquelas situações. Estava tacitamente entendido que Deus ameaçava aquele povo com julgamento, mas se alguém intercedesse por eles de forma sacerdotal, Deus daria graça ao invés de julgamento. Creio que isso está no âmago daquele mistério.

Será que Deus está confuso, tropeçando nas diferentes opções — Devo fazer isso? Não devo fazer aquilo? Será que ele decide a respeito de uma atitude a tomar e depois pensa: Bem, talvez essa não seja uma idéia tão boa assim, e muda de opinião? Obviamente Deus é onisciente, Deus é todo sabedoria. Deus é eterno em sua perspectiva e em seu completo conhecimento de todas as coisas. Portanto, nós não mudamos a mente de Deus. Mas a oração muda as coisas. Ela nos muda. E há ocasiões em que Deus espera que peçamos, porque o seu plano é que trabalhemos com ele no glorioso processo de fazer com que a sua vontade se cumpra aqui na terra

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Homem é só concupiscência - João Calvino (1509-1564).



E, para que as coisas ditas acerca desta matéria não sejam incertas e obscuras, definamos pecado original. Entretanto, nem tenho a intenção de perscrutar, uma a uma, as definições que têm sido propostas pelos escritores. Ao contrário, oferecerei apenas uma, definição esta que a mim me parece perfeitamente consistente com a verdade. O pecado original representa, portanto, a depravação e corrupção hereditárias de nossa natureza, difundidas por todas as partes da alma, que, em primeiro lugar, nos fazem condenáveis à ira de Deus; em segundo lugar, também produzem em nós aquelas obras que a Escritura chama de “obras da carne” [Gl 5.19]. E é propriamente isto o que por Paulo, com bastante freqüência, designa apenas de pecado. As obras que de fato daí resultam, quais são: adultérios, fornicações, furtos, ódios, homicídios, glutonarias, Paulo chama, segundo esta maneira de ver, “frutos do pecado” [Gl. 5.19-21], ainda que, como a cada passo nas Escrituras, sejam também por ele referidas simplesmente pelo termo “pecados”.

Portanto, estas duas coisas devem ser consideradas distintamente. Isto é, em primeiro lugar, que estamos a tal ponto corrompidos e depravados em todas as partes de nossa natureza, que já por causa de apenas tal corrupção, somos, merecidamente, tidos como condenados e incriminados diante de Deus, a quem nada é aceito senão a justiça, a inocência, a pureza. Nem é esta a imputação de um delito alheio.

Ora, o que se diz de nos tornarmos passíveis ao juízo de Deus através do pecado de Adão, não se deve assim tomar como se portássemos a culpa de seu delito, sendo nós próprios inculpáveis e imerecedores. Pelo contrário, visto que, por sua transgressão, fomos todos engolfados na maldição, lemos que aquele nos fez culposos. Todavia, sobre nós não caiu somente o castigo, mas, dele instilado, uma contaminação reside em nós, à qual, de direito, se deve punição. Razão por que Agostinho, embora para mostrar mais claramente que ele nos é transmitido por propagação, freqüentes vezes o chame pecado alheio, ao mesmo tempo, contudo, também afirma ser ele inerente a cada um. E mui eloqüentemente o atesta o próprio Apóstolo que, por isso, a morte se propagou a todos, porque todos pecaram; isto é, estão enredilhados no pecado original e tisnados de sua nódoa [Rm 5.12].

E por isso também as próprias crianças, enquanto trazem consigo sua condenação desde o ventre materno, são tidas como culposas não por falta alheia, mas pela falta de si próprias. Ora, embora ainda não tenham trazido à tona os frutos de sua iniqüidade, no entanto têm encerrada dentro de si a semente. Com efeito, sua natureza toda é uma como que sementeira de pecado. Por isso, não pode ela deixar de ser odiosa e abominável a Deus. Do quê se segue que, com propriedade, esse estado é considerado como pecado diante de Deus, pois não haveria incriminação sem a culpabilidade.

Acode, em segundo lugar, esta outra consideração: que esta depravação jamais cessa em nós; pelo contrário, produz continuamente novos frutos, a saber, essas obras da carne que referimos antes, exatamente como uma fornalha acesa expele chama e centelhas, ou uma fonte mana água sem parar. Por essa razão, aqueles que definiram o pecado original como a falta de retidão original que devia subsistir em nós, ainda que incluam nessa definição a plena acepção do conceito, não expressaram, contudo, bastante significativamente sua força e energia. Ora, nossa natureza não é apenas carente e vazia do bem; ao contrário, a tal ponto fértil e fecunda em todas as coisas ruins, que não pode nunca deixar de estar produzindo o que é mau.

Aqueles que o declaram ser concupiscência, não fazem uso de termo de todo impróprio se meramente se adicionasse, o que da maioria de modo algum se admite, que tudo quanto há no homem, desde o intelecto até a vontade, desde a alma até a carne, foi poluído e saturado por essa concupiscência. Ou, para expressar-se mais sucintamente, o homem todo, de si mesmo, outra coisa não é senão concupiscência.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O que é o arrependimento em Deus? - João Calvino (1509-1564) Out27


Arrependimento em Deus é Antropomorfismo Pedagógico

No tocante à providência de Deus, até onde conduz à completa instrução e à inteira consolação dos fiéis, já que coisa alguma é suficiente para satisfazer plenamente a curiosidade dos homens fúteis, tampouco devemos querer satisfazê-los, já seria suficiente o que foi dito não fora umas poucas passagens que nos são apresentadas em contraposição ao que acima se expôs, parecendo acenar que em Deus o desígnio não se afigura firme e estável; ao contrário, parece mutável, segundo a disposição das coisas inferiores.

Em primeiro lugar, a providência de Deus é algumas vezes posta em xeque; por exemplo, dizendo que ele se arrependeu de haver criado o homem [Gn 6.6]; de haver elevado Saul ao trono [1Sm 15.11]; de que se haverá de arrepender do mal que infligirá a seu povo, assim que sentisse nele alguma mudança de atitude [Jr 18.8].

Em segundo lugar, fazem referência a algumas anulações de seus decretos. Por meio de Jonas, proclamara aos ninivitas que, decorridos quarenta dias, Nínive haveria de perecer. Todavia, à vista de seu arrependimento, imediatamente cedeu a uma sentença mais clemente [Jn 3.4, 10]. Pela boca de Isaías anunciara a morte de Ezequias, por suas lágrimas e preces foi movido a delongar [Is 38.1, 5; 2Rs 20.1, 5]. Muitos daqui argúem que Deus não fixou os afazeres humanos por um decreto eterno; ao contrário, para cada ano, dia e hora, um a um, decreta isto ou aquilo, segundo são os méritos de cada indivíduo ou conforme o julgue reto e justo.

Quanto ao arrependimento, assim se deve admitir que não aplica a Deus nem ignorância, nem erro, nem incapacidade. Ora, se ninguém cede à necessidade de arrependimento de caso pensado e deliberado, não atribuiremos arrependimento a Deus, sem que, por isso, declaremos ou que ele ignora o que há de vir, ou que ele não o pode evitar, ou que se lança, precipitada e inconsideradamente, a uma decisão de que haja de prontamente arrepender-se. Isto, contudo, tão longe está da intenção do Espírito Santo, que na própria referência ao arrependimento nega que Deus seja movido por compunção, já que ele não é um homem para que se arrependa [1Sm 15.29]. E deve notar-se que no mesmo capítulo de tal modo se associam a ambos, o arrependimento e a imutabilidade de Deus, que simples comparação concilia mui adequadamente a aparência de discrepância. Toma-se figuradamente a mudança de que Deus tenha se arrependido de ter constituído rei a Saul. Pouco depois se acrescenta: “E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa” [1Sm 15.29]. Com tais palavras, claramente é confirmada a imutabilidade e sem qualquer figura.

Portanto, é indubitável que a determinação de Deus, na gestão das coisas humanas, é não só perpétua, mas ainda além de todo e qualquer arrependimento. E para que a constância não lhe fosse duvidosa, se vêem obrigados a dar testemunho em seu favor até mesmo os próprios adversários. Pois Balaão, muito a contragosto, teve de prorromper nesta exclamação: “Deus não é como o homem, para que minta, nem como filho do homem, para que se deixe mudar; e não pode acontecer que ele deixe de fazer tudo quanto disse, e tudo quanto falou tem que cumprir-se” [Nm 23.19].

Portanto, que significa o termo arrependimento quando aplicado a Deus? Exatamente o que significam todas as demais formas de expressão que nos descrevem Deus antropomorficamente. Ora, uma vez que nossa insuficiência não atinge sua excelsitude, a descrição que dele nos é apresentada tem de se acomodar à nossa capacidade, para que seja por nós entendida. Esta é, na verdade, a forma de acomodação: que se representa, não tal como é em si, mas como nós o sentimos.

Embora ele esteja além de todo estado passional, no entanto testifica que se ira contra os pecadores. Portanto, assim como, quando ouvimos que Deus se ira, não devemos imaginar que exista nele qualquer emoção, mas, antes, devemos considerar esta expressão como tomada de nosso prisma, porquanto é como se Deus exibisse o semblante de uma pessoa inflamada e irada sempre que exerce o juízo; assim também não devemos conceber outra coisa sob o vocábulo arrependimento senão a mudança de ação, porquanto os homens costumam, ao mudarem o curso da ação, atestar que estão insatisfeitos consigo mesmos. Logo, como qualquer mudança entre os homens é correção do que desagrada, mas a correção provém do arrependimento, por isso pelo termo arrependimento se entende o que Deus muda em suas obras. Entretanto, não se reverte nele nem o plano, nem a vontade, nem se oscila seu sentimento. Ao contrário, o que desde a eternidade previra, aprovara, decretara, leva adiante em perpétuo teor, por mais súbita que a variação pareça aos olhos dos homens.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Mesmo Tendo as Primícias do Espírito por Pr. Miranda


  Mesmo tendo os crentes as primícias do Espírito Santo, também gemem

            Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo...  Romanos 8:18-24

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O que é nossa "Velha natureza"? - R. C. Sproul


Nossa "velha natureza" é a nossa familiaridade com o pecado por causa de experiências passadas e o nosso conhecimento dele?


Quando a Bíblia fala de nossa "velha natureza," é fácil supor que ela se refira às memórias daquilo que se passou em nossa vida, nossos velhos padrões de comportamento. Penso que a expressão significa muito mais do que isso. O contraste entre velha e nova naturezas ao qual Paulo se refere freqüentemente nas Escrituras é muitas vezes apresentado em outros termos: velho homem e novo homem. A maneira geral com a qual o apóstolo descreve é o contraste entre carne e espírito.


Creio que quando Paulo fala de velho homem, ele está se referindo à natureza humana decaída que é o resultado direto do pecado original; isto é, pecado original não é o primeiro pecado cometido por Adão e Eva, mas a conseqüência dele. O fato é que somos seres decaídos e que nós, por causa dessa natureza decaída, nascemos num estado de separação de Deus. Estamos mortos para as coisas do Espírito. Paulo nos diz em Romanos que a mente da carne não pode agradar a Deus. Não temos nenhuma inclinação ou disposição para obedecer a Deus num sentido espiritual. Essa é a nossa velha natureza, nascemos desse jeito. Somos por natureza filhos da ira; estamos por natureza nesse estado de separação. E a partir dessa natureza que o Novo Testamento nos descreve como seres escravos dessa inclinação ou disposição para pecar.


Esse foi um debate que Jesus teve com os fariseus quando lhes disse que se eles continuassem com seus ensinamentos, eles seriam livres, e os fariseus ficaram indignados dizendo: "...jamais fomos escravos de alguém". Jesus lhes disse: "...todo o que comete pecado é escravo do pecado". Jesus lhes disse que eles eram escravos do pecado.


Paulo afirma que estamos debaixo do pecado, isto é, debaixo do peso dele, debaixo do seu fardo, porque a única disposição e inclinação que temos é a da carne. Não temos nenhuma inclinação natural para as coisas do Espírito até sermos nascidos do Espírito. Quando uma pessoa é regenerada, o Espírito de Deus vem e age sobre aquela pessoa e ele ou ela são uma nova pessoa. Aquele que está em Cristo é nova criatura. Eis que as velhas já passaram e todas as coisas se tornaram novas.


Isso não significa que a velha natureza pecaminosa, com sua disposição alheia a Deus esteja aniquilada. Para todos os propósitos e intenções ela foi destinada à morte. Sabemos que a batalha está ganha. Paulo diz que a velha natureza está morrendo diariamente, e que num certo sentido ela foi crucificada com Cristo na cruz. Não há nenhuma dúvida a respeito de sua destruição final e completa. Nesse meio tempo, vivemos essa luta diária entre o velho homem e o novo homem, a velha natureza e a nova natureza, o velho desejo pelo pecado e a nova inclinação que o Espírito de Deus fez nascer em nossos corações. Agora há uma sede e uma paixão por obediência que não havia lá antes.