quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Humor apologético? Por C. H. Spurgeon




Vivemos numa época tão trivial que muitos fazem humor e chamam isso de apologética. Veja como Paulo via a condição da igreja nas palavras de Spurgeon, veja  como era o estado do seu espírito em relação a isso. Spugeon diz:

"Nossas Igrejas, eu lhes digo para sua vergonha, toleram em seu seio membros que não têm nenhum direito a este título; membros que estariam bem melhor se postos em uma sala de festim, ou em qualquer outro lugar de dissolução e loucura, mas que jamais deveriam molhar os lábios no cálice sacramental ou comer o pão místico, emblemas dos sofrimentos de nosso Senhor. Sim, em vão procurariam dissimular que há vários entre nós – (e se tu voltasses à vida, ó Paulo. Quanto não te sentirias apressado em nos dizer, e quantas lágrimas amargas não derramarias ao nos dizer!...) – que são inimigos da cruz de Cristo, e isto porque o deus deles é o ventre, porque eles dirigem suas afeições às coisas da terra, e sua conduta está em completo desacordo com a santa lei de Deus.

Eu me proponho, meus irmãos, a procurar com vocês a causa da dor extraordinária do Apóstolo. Eu digo: dor extraordinária, porque o homem que meu texto apresenta como derramando lágrimas, não era, vocês sabem, um desses espíritos fracos, de sensibilidade doentia e sempre perto de se emocionar. Eu não li em nenhuma parte nas Escrituras que o Apóstolo chorasse sob o golpe da perseguição. Quando, segundo a expressão do salmista, se traçavam sulcos sobre seu dorso, quando os soldados romanos o lancetavam com suas varas, não sei de nenhuma lágrima que tenha escapado de seus olhos. Foi ele jogado na prisão? Ele cantava e não gemia. Mas, se jamais Paulo chorou por causa dos sofrimentos aos quais se expôs por amor a Cristo, ele chorou, nós vimos, ao escrever aos Filipenses. A causa de suas lágrimas era tripla: ele chorava, primeiramente, por causa DO PECADO de alguns membros da Igreja; em segundo lugar, por causa DOS EFEITOS DESAGRADÁVEIS DA CONDUTA DELES, e enfim, por causa do DESTINO que lhes esperava."

“Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas”. - (Fil. 3:18,19).

Fonte: C. H. Spurgeon

O mau pregador não prega em casa - Por Charles R. Spurgeon


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Esta é nossa obrigação primária: devemos começar na lareira de casa; é mal pregador aquele que não inicia seu ministério no lar. Os pagãos devem ser buscados por todos os meios, e as brechas e oportunidades devem ser aproveitadas, mas o lar tem prioridade, e ai daqueles que invertem a ordem estabelecida pelo Senhor. Ensinar nossos filhos é um dever pessoal; não podemos delegá-lo aos professores da escola dominical, ou a outras fontes úteis — estes podem nos auxiliar, mas não podemos nos eximir dessa obrigação sagrada; outros mestres e tutores são instrumentos malignos nestes casos; pai e mãe devem, como Abraão, ordenar sua casa no temor de Deus, e falar com sua descendência a respeito dos espantosos feitos do Altíssimo... Parcelas do papado (por força de religiosos profissionais) estão sorrateiramente avançando em nossa terra, e um dos meios mais efetivos para resistir a essa incursão é relegado ao descaso, a saber, a instrução dos filhos na fé. Tomara estes pais despertem para reconhecer a importância dessa questão.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Conheci as doutrinas da graça, mas, estou numa igreja herética: o que devo fazer? Por Thomas Magnum





Para um cristão nascido de novo, é salutar estar numa igreja local, é bíblico que os crentes congreguem e tenham comunhão com outros irmãos. A igreja foi criada por Deus e sua existência não é algo restrito ao Novo Testamento, mas, no Antigo Testamento já vemos a igreja presente com o povo de Israel. No entanto o que estamos nos propondo a refletir neste texto é se basta estar simplesmente numa igreja, isto é, qualquer igreja.

Há “ditos populares antigos” que defendem um ecumenismo evangelical que dizem, “temos o mesmo Deus”, “o que importa é que cremos em Deus”, “nossas diferenças são insignificantes”, “Deus é o Deus de todos”, “a letra mata”, “o mais importante é o amor”, “no céu não terá teologia”. Claro que tais afirmações têm algum fundo de verdade, mas, não podemos dizer hoje ao evangelizarmos alguém, que este procure uma igreja perto da sua casa. A igreja próxima da casa dessa pessoa pode provavelmente ser uma igreja herética ou uma seita, então, estaremos contribuindo negativamente para vida dessa pessoa. Até mesmo ao dizermos procure uma igreja que ensine a Bíblia, muitas igrejas heréticas ensinam a Bíblia, de forma distorcida, mas, ensinam. O que nos resta nesses dias é uma delimitação do que é igreja: o que é uma igreja saudável? O que é uma igreja bíblica? O que é uma igreja verdadeira?

Diante desse problema, temos outro problema comum, pelo menos em minha realidade e na região do país onde moro – há escassez de igrejas bíblicas, reformadas, não somente na teologia, mas no culto, na evangelização e missões.

Estamos vivendo uma efervescência da teologia reformada no país, algo que considero bom, porque ao olharmos a história da reforma protestante, vemos que a popularidade da reforma e a propagação de sua mensagem deram-se em grande parte pela imprensa, que era o meio tecnológico que Deus proveu para sua igreja naquela época. Hoje temos uma popularização da teologia reformada por meio das redes sociais, vídeos, cursos online, livros digitais, etc. É possível fazer um curso teológico com bons professores pela internet, o que em outros tempos somente era possível se houvesse um deslocamento geográfico. No entanto nossa problemática aumenta, e chegamos à pergunta de nosso título. Conheci as doutrinas da graça, mas, estou numa igreja herética: o que devo fazer? A questão não é fácil por alguns motivos que quero listar:
a) O que você entende por igreja herética?
b) Você conhece de forma consistente o que sua igreja professa doutrinariamente?
c) Você já conversou com seu pastor sobre as supostas heresias?
d) Você está sendo movido a sair da igreja por vaidade ou por certeza que os ensinos ali pregados estão distantes da sã doutrina?

Já tive o desprazer de ver uma igreja histórica aderir aos ensinos heréticos do neopentecostalismo. Já tive o desprazer de ver um seminário anteriormente professante da fé reformada aderir o ecumenismo religioso e ao liberalismo teológico. O fato não está longe de nós, ao contrário. Vamos então aos questionamentos supracitados.

O que é uma igreja herética?

Comecemos pelas bases. Uma igreja cristã deve crer na Bíblia como sendo a Palavra de Deus, infalível e inerrante. O posicionamento da igreja sobre a Bíblia é à base de tudo na teologia dessa comunidade local. A Bíblia não somente contém a Palavra de Deus, ela é a Palavra de Deus. A Bíblia interpreta-se, a Bíblia não está abaixo da autoridade humana ou eclesiástica, a Bíblia não é serva da igreja, mas a igreja deve seguir os ensinos da Bíblia. A Bíblia é um todo completo, ela não precisa de complemento de revelações, profecias, sonhos, visões, ou nela ser anexado algum outro tipo de literatura arrogando a mesma autoridade, a reforma professou Sola Scriptura(Somente a Escritura) e Tota Scriptura (Toda a Escritura). A Bíblia é o guia da verdadeira igreja de Cristo. Se uma igreja põe em xeque essas questões ela é de fato uma igreja herética.

Outro fator que devemos mensurar numa igreja herética é o que ela professa sobre Cristo. Qual é o papel de Cristo nessa igreja? A grande questão muitas vezes não é a que está na confissão doutrinária da igreja, mas, o que na prática ela crê sobre Cristo. Cristo é o criador (Cl 1.13-23; Jo 1.1-3), é o logos (Jo 1.1), a imagem exata de Deus (Hb 1.3), Cristo é Deus (Jo 20.28), Cristo é Suficiente para sua igreja (Cl 2; Fl 2). Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, Cristo ressuscitou em carne (Lc 24.39). Importante considerar o que a igreja diz sobre a Trindade, nosso Deus é um Deus triúno e isso é expresso em vários textos das Escrituras (Gn 1.26-28; Mt 3.13-17; Ef 5.18-21; Jo 14.5). Considere também qual é o parecer sobre a igreja e seu papel, a igreja não é a porta para a salvação, mas, antes, a congregação dos primogênitos, a igreja não salva, mas os salvos estão na igreja. O papel dos líderes é guiar o rebanho com amor e não com domínio sobre a herança de Deus (1 Pe 5.1-3), a finalidade da igreja é glorificar a Deus e não explorar financeiramente os fiéis, a igreja não é um mercado de bênçãos, a igreja não é uma loja de câmbio, igreja não é um ringue de briga entre anjos e demônios. Igrejas que enfatizam mais a obra de Satanás do que de Deus tem algo errado, igrejas que invocam os demônios em seus cultos para “libertação” de almas, estão distantes das Escrituras, o culto foi feito para adoração a Deus e não para o demônio aparecer. Desconfie de igrejas que não possuem rol de membros, nessas, o fluxo de pessoas é interminável, não há cuidado pastoral, só campanhas, ofertas e uma quantidade interminável de pedidos de somas de dinheiro, cuidado!

Você conhece de forma consistente o que sua igreja professa doutrinariamente?

Procure conhecer o que sua igreja professa doutrinariamente, se estivermos falando de igrejas históricas, provavelmente você irá se surpreender e verá que igrejas Batistas, Anglicanas, Congregacionais, Presbiterianas e outras dessas derivadas tem raízes na teologia reformada calvinista. No entanto, antes de qualquer coisa observe os documentos históricos a respeito da doutrina de sua igreja, muitas vezes uma igreja que está dentro de uma denominação, apostata da confissão doutrinária e adere a heresias, infelizmente isso é muito comum e são raras as denominações que escapam disso.

Você já conversou com seu pastor sobre as supostas heresias?

Converse com o pastor da igreja, saiba da boca dele o que ele crê. Observe se ele possui um posicionamento legalista em relação a igreja, tipo: Deus está nessa igreja e tem abençoado meu ministério – nesses casos uma das marcas em falsos profetas é a arrogância e uma posição de “super” pregador. 

Observando sua pregação e ensino muita coisa pode ser deduzida com eficácia, mas, tenha se possível uma conversa particular, haja eticamente, não saia falando mal de todo mundo e metralhando como hereges, seja piedoso e humilde, no entanto, quando necessário seja firme e diga a verdade. Há inúmeros casos de lideres que absorveram ensinos heréticos que são pessoas sinceras e acham que estão seguindo a verdade, muitas vezes precisam ser alertados a arrependerem-se e retornarem a sã doutrina. Há muitos casos de obreiros que tiveram um treinamento teológico fraco e são levados por muitos ventos de doutrina. Em outros casos uma evidência de uma igreja herética começa na liderança, uma liderança monárquica, centralizadora, legalista e avarenta são fortes indícios de uma igreja herética.

Você está sendo movido a sair da igreja por vaidade ou por certeza que os ensinos ali pregados estão distantes da sã doutrina?

Minha preocupação ao pontuar esse caso é que para muitos ser reformado virou moda, é algo que está em alta. Está existindo uma aderência à teologia reformada por muitos pentecostais e evangélicos de denominações arminianas, mas muitos deles só professam teoricamente as doutrinas da graça, querendo justificar uma vida sem comprometimento com Deus, com a Palavra, com a Igreja, com a santificação, com a oração. Um crescimento do hipercalvinismo tem causado muitos problemas na vida de muita gente. Portanto, se sua postura é puramente baseada na vaidade de ser reformado, suas intensões são erradas.

O que devo fazer?

Bom, o fato é se depois de tudo isso realmente a igreja apostatou, se nela não há disciplina, se o homem é colocado no centro como soberano, se a Palavra de Deus não é ensinada fielmente, se a pregação não é algo sério e pautada somente na Escritura, então algo deve ser feito, uma atitude deve ser tomada, afinal, tal igreja está indo contra a vontade de Deus e estar numa igreja assim é por demais ofensivo a um crente fiel a Escritura.

Deus não quer que seus servos estejam embebidos de heresias, que seu povo esteja no erro. Há inúmeros exemplos nas Escrituras, leia as cartas às igrejas da Ásia Menor no Apocalipse.

No entanto, chegamos num ponto nefrálgico. Muitas vezes a pessoa que descobriu a verdade da Escritura tem inúmeros motivos para ficar naquela igreja. No caso de pastores muitas vezes é o sustento e prestígio, em outros casos são laços fraternos, laços familiares, o temor de exclusão de muitos círculos de amizade e até da família. Na verdade nesse tipo de igreja a verdade sempre é negociada, a verdade de Deus é colocada em segundo plano, lembro-me de uma frase de Lutero que muito me foi útil: “A paz se possível, a verdade a todo custo”. Jesus disse que traria espada, divisão, e a verdade de Deus promove divisão. Um dia uma pessoa que estava em uma igreja assim me disse, temo causar divisão. Considero válida a preocupação, mas, quem divide é quem está errado e não quem está certo. Os puritanos não queriam sair de dentro da igreja Anglicana, queriam uma reforma interna. Isso não foi possível e então eles tiveram que sair e assim foi à vontade de Deus.

Outro temor de pessoas que desejam deixar tais igrejas é se serão bem recebidas em outro lugar. É importante dizermos aqui que Deus tem seu povo, e o povo de Deus não está restrito a uma congregação, Deus cuida de nós e nos guia como tem guiado seu povo em toda a história. Mesmo que estejamos num deserto e as decisões sejam difíceis temos a promessa de que o Espírito nos guia em toda a verdade (Jo 16.13). Não negocie a verdade de Deus, ainda que seja necessário perder amigos, relacionamentos, posição de liderança, prefira a vontade de Deus e sua verdade. A reforma protestante zelou pela verdade, mesmo que ela fosse preferível à unidade. A unidade do povo de Deus deve estar pautada na verdade do Evangelho e não na mentira, pois, o pai da mentira é outro (Jo 8.44).

Procure uma igreja biblicamente saudável, não insista em permanecer em uma igreja herética, isso não irá lhe fazer bem. Quando converso com pessoas que estão nessa situação pergunto por que não saíram ainda dessas igrejas; a resposta não me surpreende mais: “Temos muitos amigos lá, nosso convívio social está lá, temos parentes, tememos o que pode acontecer com esses relacionamentos se sairmos...” Claro que não podemos tratar isso de forma simplista, inegavelmente há impactos nesse processo. Mas, a nossa fidelidade ao que Deus diz deve ser maior que nossos relacionamentos, veja o que Jesus ensinou:
Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á. ” - Mt 10. 37-39

Obviamente muitos casos devem ter acompanhamento pastoral e aconselhamento. Muitos casos são traumáticos e com isso ocorre também a decepção de muita gente com a igreja e cresce o número dos sem igreja ou de igrejas domésticas. Não temos espaço para tratar disso agora, mas, existem bons livros escritos sobre tais assuntos. 

Quero concluir dizendo que a igreja foi criada por Deus, as portas do inferno não prevalecem contra ela, Cristo ama sua igreja e devemos amá-la também. A igreja está fundamentada em Cristo e Cristo é a verdade (Jo 14.6). Lembre que a verdade e a vida são ligadas ao caminho. Jesus alimenta e cuida da igreja (Ef 5.29). Procure uma igreja bíblica, confessional, em que a Palavra seja genuinamente pregada e ensinada.

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Fonte: Electus

sábado, 14 de novembro de 2015

João Calvino e a Doutrina da Soberana e Justa Reprovação por Fred H. Klooster


 Provavelmente, ninguém mais do que Calvino sabia que a doutrina da dupla predestinação é impopular “Agora, quando o homem na sua compreensão humana, ouve estas coisas”, escreveu ele, “sua insolência é tão irreprimível que ele prorrompe a esmo e em imoderado tumulto, como despertado por som de trombeta na batalha”. Calvino estava pensando nos que aceitavam a eleição e negam a reprovação.“Na verdade, muitos, como se quisessem evitar o opróbrio de Deus, aceitavam a eleição em tais termos, que acabavam negando a condenação de qualquer um,” observou; “na verdade, não existiria eleição se não houvesse reprovação”.
Calvino não queria significar que a reprovação fosse uma dedução lógica da eleição; ele fez a asserção acima plenamente convicto de que a Escritura a exige. “Se não nos envergonhamos do Evangelho, devemos confessar que a eleição está aí plenamente declarada. Deus, por sua eterna boa vontade, que não tem causa fora de si mesma, destinou à salvação àqueles de quem se agrada, rejeitando o resto. Aqueles a quem achou dignos da eleição gratuita. Ele iluminou por Seu Espírito, de modo que recebessem a vida oferecida por Cristo, ao passo que os outros descrêem voluntariamente, de modo que permanecem nas trevas, destituídos da luz da Fé”.
Calvino, falou abertamente do “plano incompreensível” de Deus e admitiu que a reprovação levanta questões que não podem ser respondidas. Considerou-se compelidos a defender a doutrina da reprovação, contudo, porque a Escritura o exige. Com referência a Romanos 9, ele disse “que está na mão e na vontade de Deus tanto o endurecer quanto o usar de misericórdia... Nem tão pouco o próprio apóstolo Paulo se empenha em desculpar a Deus - como o fazem muitos aos quais me tenho referido - com falsidades e mentiras; o Apóstolo apenas se limita a advertir que não é lícito ao barro querelar com o oleiro” (Rm 9.20).
Ao sumariar a doutrina da reprovação, de Calvino podemos empregar as mesmas divisões usadas ao sumariarmos a sua doutrina da eleição - com uma exceção. Nossa discussão da doutrina de Calvino a respeito da “soberana e justa reprovação” tratará do decreto divino da reprovação - a causa, porém, não o fundamento da reprovação - seu propósito e seus meios. A reprovação é tão soberana quanto a eleição; contudo, Calvino deu ênfase à soberania da justiça de Deus na reprovação, em contraste com a soberania da livre graça, na eleição.
O DECRETO DIVINO DA REPROVAÇÃO

Calvino entendeu o eterno conselho de Deus como expressão de Sua soberana vontade e propósito para toda a história do mundo. A história é o desdobramento deste imutável conselho de Deus. A presciência de Deus, bem como a Sua providência, estão enraizadas no Seu eterno conselho. O decreto da eleição é parte do eterno conselho de Deus. Agora seguiremos a Calvino na discussão da reprovação. A reprovação bem como a eleição dizem respeito ao decreto eterno ou ao conselho soberano de Deus. Aqui é onde começa a discussão do assunto por Calvino.

a) A reprovação envolve a obra decretiva de Deus. 

A revisão das definições de Calvino a respeito da predestinação demonstra que Calvino ligava a reprovação ao eterno decreto de Deus: “Chamamos predestinação ao eterno decreto pelo qual Deus determinou, em si mesmo aquilo que deve ocorrer a cada homem, pois os homens não são criados todos em igual condição; ao contrário, uns são preordenados à vida eterna, e outros são preordenados à eterna danação.”

“Estamos dizendo que a Escritura mostra claramente que Deus, por seu eterno e imutável desígnio, determinou, de uma vez por todas, aqueles a quem queria receber para sempre à salvação e, por outro lado, aqueles a quem queria entregar à perdição”. Logo Esaú, que não diferia em mérito de Jacó, foi repudiado, enquanto Jacó foi distinguido pela predestinação de Deus.”
Estes sumários do ponto de vista de Calvino são claros. A reprovação relaciona-se com o decreto divino. Contudo, devemos observar que Calvino não fez referência especifica às distintas pessoas da Trindade em conexão com a reprovação, como fez em relação à eleição. A obra de Deus, naturalmente, é operação do Deus Triúno, como foi antes observado. Calvino não repetiu isto especificamente ao discutir a reprovação. Conquanto Calvino tenha dito que o Filho e o Pai são o autor do decreto da eleição, não fez a mesma referência com relação à reprovação.
Que o Espírito Santo é o atual mestre desta doutrina da reprovação deduz-se do ponto de vista de Calvino a respeito da inspiração da Escritura. Ele fez esta referência especifica quando mencionou os que rejeitam esta doutrina difícil: Tais pessoas não se opunham apenas a ele, mas também a Paulo e ao Espírito Santo”.
Calvino sustentou também que esta doutrina da reprovação foi claramente ensinada pelo próprio Cristo. Calvino pergunta: “Toda árvore que meu Pai não plantou será arrancada” (Mt 15.13) - paráfrase?” E Calvino acrescenta: “Isto significa plenamente que todos aqueles a quem o Pai não condescendeu em plantar como árvores sagradas no seu campo, estão marcados e votados à destruição. E se (meus adversários) dizem que isto não é sinal de reprovação, nada mais pode ser provado a eles, por mais claro que seja”
Contudo, Calvino sabia que um apelo a uma passagem clara da Escritura não fechava a boca de seus opositores. Por isso apelou outra vez para a Carta aos Romanos: “Observem os leitores que Paulo, para por fim aos murmúrios e maledicências, reconhece soberania suprema à ira e ao poder de Deus, uma vez que é iníquo sujeitar, à nossa opinião, os profundos juízos de Deus, que absorvem todos os recursos da nossa mente”.
Calvino estava se referindo as palavras de Paulo: “Que diremos, pois, seDeus, querendo mostrara sua ira, e dar a conhecer o seu poder suportou com muita longanimidade os vasos da ira, preparados para a perdição a afim de que também desse a conhecer as riquezas de sua glória em vasos de misericórdia, que para a glória preparou de antemão?”. Ao argumento de que a frase nas frases - “preparados para a perdição” e “preparou de antemão” - parece excluir a reprovação do decreto, Calvino respondeu: “Mas, ainda que eu concorde que Paulo, com o seu modo diferente de falar, abranda a aspereza da primeira frase, está muito longe de concordar em transferir, a outro fator, a preparação para a perdição, senão atribui-lo ao secreto conselho de Deus, visto que ainda há pouco, no contexto, ele afirmou que Deus “instigou a Faraó” (Rm 9.17) e, em seguida. acrescentou: “Logo, tem ele misericórdia de quem quer, e, também, endurece a quem lhe apraz (Rm 9.18). Conclui-se dai que a causa do endurecimento está no secreto conselho de Deus”.
Calvino endossa a interpretação de Agostinho, que disse: “Quando Deus transforma lobos em ovelhas, usa de graça mais poderosa para domar a sua dureza; logo, Deus não converte aos obstinados, porque não emprega essa graça mais poderosa, que Ele poderia propiciar se quisesse, pois não é destituído dela”. Ainda que Calvino não empregue tais distinções como preterição e condenação - que teólogos reformados posteriores empregaram na discussão da reprovação, nós encontramos estas idéias distintas na sua discussão. Referir-nos-emos a isto quando considerarmos o pecado em relação ao decreto de Deus.
A REPROVAÇÃO É PARTICULAR

Para Calvino, a reprovação, como o decreto da eleição relaciona-se especificamente com indivíduos; eleição e reprovação são especificas e particulares. O decreto da reprovação não traduz a intenção geral de Deus, e não é limitado em sua referência a uma classe de pessoas, como contendiam os Arminianos posteriores. As definições gerais de predestinação, citadas atrás, tornam isso claro; assim também as referências especificas a Esaú, diferentemente de Jacó. Só à luz da reprovação individual ou particular poderia surgir o problema que Calvino considerou. O problema origina-se da alegada inconsistência do fato de dizer-se que Deus, “desde toda a eternidade, ordenou, segundo a sua vontade, àqueles que Ele quis que recebessem o seu amor e àqueles sobre os quais Ele quis manifestar o Seu juízo”, e o fato de Deus “anunciar salvação a todos os homens indiscriminadamente”.

Os opositores desafiam a justiça de Deus precisamente porque o decreto de Deus se relaciona com os indivíduos. Ainda que o decreto de Deus, a respeito da reprovação se refira claramente aos indivíduos, Calvino insistiu em dizer que nos não sabemos quem são os reprovados. Isto só Deus sabe. Por isso, no curso da história não podemos tratar com qualquer indivíduo como se ele ou ela fosse claramente um reprovado. Temos obrigação de pregar o Evangelho a todos e podemos também desejar a salvação de todos aqueles a quem pregamos, e nunca temer, por agir assim, que estejamos indo contra a vontade de Deus, pela qual Ele, “soberanamente, decretou a reprovação de alguns”.
Mesmo quando a Igreja, obediente à ordem do seu Senhor, se vê na necessidade de excomungar um de seus membros, nem mesmo nesse caso a pessoa excomungada deve ser mantida como claramente reprovada, porque tal pessoa “está na mão e sob o juízo de Deus somente”. “Um dos objetivos da disciplina da excomunhão é levar o pecador ao arrependimento; para isto, a Igreja deve continuar a orar”. Aqui também está o ensino e o exemplo do apóstolo Paulo, que Calvino repete.
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Transcrito do livro “A doutrina da Predestinação em Calvino” Fred H. Klooster, página 53-58, Editora SOCEP, com permissão. Fonte: Revista Os Puritanos, Ano VIII, No 1, Janeiro, Fevereiro, Março de 2000.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A Onisciência de Deus - Por Gordon Clark




Não somente o livre arbítrio é incapaz de livrar Deus da culpabilidade, e a permissão é incapaz de coexistir com a onipotência, mas o posicionamento arminiano também não consegue firmar uma posição lógica para o onisciência. Uma ilustração romantista-arminiana é a do observador posicionado num penhasco. Na estrada abaixo, à esquerda do observador, um carro dirige-se para o oeste. À direita do observador, um carro vindo do sul. Ele pode ver e saber que haverá uma colisão no cruzamento logo abaixo dele, mas a sua presciência, segundo reza o argumento, não causa o acidente. Deus, semelhantemente supõe-se, tem conhecimento do futuro sem, entretanto, causá-lo.

Tal semelhança, porém, é enganosa em vários pontos. O observador humano não pode saber realmente se a colisão ocorrerá. Embora seja improvável, é possível que ambos os carros estourem os pneus antes de chegarem ao cruzamento e se desviem. Também é possível que o observador tenha calculado mal as velocidades, e um carro poderia desacelerar e o outro acelerar, de modo a não colidirem. O observador humano, portanto, não tem presciência infalível. Nenhum desses erros pode ser assumido para Deus. O observador humano pode imaginar a possibilidade de ocorrência do acidente, e tal imaginação não torna o acidente inevitável; mas se Deus sabe, não há a possibilidade de evitar o acidente. Cem anos antes que os motoristas nascessem, não havia a possibilidade de evitar. Não haveria a possibilidade de um dos dois decidir e ficar em casa nesse dia, tomar uma rota diferente, dirigir numa velocidade diferente. Eles não poderiam tomar decisões diferentes das que tomaram. Isso significa que eles não tinham livre arbítrio ou que Deus não sabia.

Suponha-se, só por um instante, que a presciência divina, assim como as predições humanas, não cause o evento conhecido de antemão. Ainda assim, se existe a presciência, em contraste com a predição falível, o livre arbítrio é impossível. Se o homem tem livre arbítrio e as coisas podem ser diferentes, Deus não pode ser onisciente. Alguns arminianos têm admitido isso e negado a onisciência, mas isso, obviamente, antagoniza-os com o cristianismo bíblico. Há também outra dificuldade. Se o arminiano ou o romantista pretende preservar a onisciência divina e ao mesmo tempo alegar que a presciência não tem eficácia causal, ele deve explicar como a colisão foi assegurada cem anos antes, na eternidade, antes que os motoristas tivessem nascido. Se Deus não organizou o universo dessa maneira, quem o organizou?

Se Deus não o organizou dessa forma, então deve existir um fator independente no universo. E se houver tal, decorrem uma ou duas consequências. Primeira, a doutrina da criação deve ser abandonada. Uma criação ex nihilo estaria completamente no controle de Deus. Forças independentes não podem ser forças criadas, e forças criadas não podem ser independentes.  Então, segunda, se o universo não é criação de Deus, o conhecimento que Deus tem dele – passado e futuro – não pode depender daquilo que ele pretende fazer, mas da sua observação do modo como funciona. Nesse caso, como teríamos a certeza de que as observações de Deus são acuradas? Como teríamos certeza que essas forças independentes não mostrarão mais tarde uma torcedura insuspeita que falsificará as predições de Deus? E, finalmente, nessa perspectiva, o conhecimento de Deus seria empírico e não parte integral da sua onisciência, e, portanto, ele seria um conhecedor dependente. Podemos crer consistentemente na criação, onipotência, onisciência e nos decretos divinos, mas não podemos permanecer em sanidade e combinar alguma dessas doutrinas com o livre arbítrio.


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Fonte: Deus e o Mal, o problema resolvido, págs 51-53. Editora Monergismo.