quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Cristo Cumpriu os dez mandamentos

Adão quebrou os dez mandamentos no Éden. Mas Cristo guardou os dez mandamentos no “deserto”, sob circunstâncias muito mais intensas do que aquelas às quais Adão foi submetido.
Guardou o primeiro mandamento. Ele trouxe glória a Deus o Pai enquanto esteve na terra (Jo 17.4). Temeu, creu, e confiou em seu Pai (Hb 2.13; 5.7; Lc 4.1-12). Cristo zelou pela glória de seu Pai (Jo 2.17) e foi constantemente grato ao seu Pai (Jo 11.41). Ele prestou completa obediência ao Pai em todas as coisas (Jo 10.17; 15.10).
Guardou o segundo mandamento. Ninguém jamais cultuou como Cristo (Lc 4.16). Ele leu, pregou, orou e cantou a Palavra de Deus com um coração puro (Sl 24.3-4). Ele condenou o falso culto (Jo 4.22; Mt 15.9). Além disso, aquele que era a imagem visível de Deus não precisou fazer imagens ilícitas de Deus.
Guardou o terceiro mandamento. Como portador da imagem de Deus (Cl 1.15), ele revelou o Pai de modo perfeito (Jo 14.9). Falou somente aquilo que havia recebido do Pai (Jo 12.49). Em outras palavras, ele jamais tomou o nome de Deus em vão, mas falou apenas a verdade sobre o Pai e trouxe glória ao Pai por viver em conformidade com quem ele é (o Filho de Deus).
Guardou o quarto mandamento. “Entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga…” (Lc 4.16). Ele fez obras de piedade, misericórdia e necessidade no dia de descanso (e.g.: Mc 2.23-28). Além disso, o Senhor do Sábado assegurou nosso sabá eterno por meio de sua morte na cruz, permanecendo no sepulcro no sábado, e ressurgindo no domingo.
Guardou o quinto mandamento. Ele sempre fez aquilo que agradava a seu Pai celestial (Jo 8.29). Sobre a cruz, mesmo enquanto estava morrendo, preocupou-se em cuidar de sua mãe (Jo 19.27). Ele também guardou as leis terrenas (Mc 12.17; Mt 17.24-27).
Guardou o sexto mandamento. Jesus preservou a vida. Ele fez isso física e espiritualmente. Ele salvou pecadores de seus pecados (Jo 5.40). E também curou muitas pessoas (Mt 4.23). Foi manso, gentil, amável e pacífico enquanto esteve na terra (e.g.: Mt 11.29). Sua vida foi de misericórdia e compaixão (e.g.: Lc 18.35-43).
Guardou o sétimo mandamento. Cristo, o marido, entregou sua vida por sua noiva (Ef 5.22-33). Embora eu não tenha dúvidas de que ele achava algumas mulheres atrativas, ele jamais cruzou os limites adequados com respeito à interação entre homens e mulheres, e seus pensamentos sempre foram puros com respeito a pessoas do sexo oposto (cf. 1Tm 5.2).
Guardou o oitavo mandamento. Cristo doou livremente (Jo 2.1-11). Ele se opôs ao roubo (Jo 2.13-17). João 2 retrata, entre outras coisas, Cristo guardando o oitavo mandamento. Aquele que era rico se tornou pobre para que nós, em nossa pobreza, pudéssemos nos tornar ricos (2Co 8.9).
Guardou o nono mandamento. Ele sempre falou a verdade (Jo 8.45-47) porque falou somente as palavras que o Pai lhe havia dado (Jo 12.49). Ele defendeu a verdade porque ele é a Verdade (Jo 1.14, 17; 14.6). Ele não maquiou a verdade (Mt 23), não a falou fora de tempo ou a sonegou (Mt 26.64).
Guardou o décimo mandamento.  Aquele que é dono do céu e da terra é aquele que também disse: “As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9.58). Aquele que poderia facilmente saciar sua própria necessidade e desejo contentou-se com aquilo que vinha da mão do Pai (Lc 4.1-12). Ele não cobiçou aquilo que não era propriamente seu, mas com paciente resistência recebeu sua herança por meio da cruz.
Nos círculos reformados devemos, em nossa pregação, fazer um melhor trabalho em explicar como Cristo guardou perfeitamente a lei. Uma coisa é dizer e sempre repetir: “Jesus guardou a lei perfeitamente por nós [como um pacto de obras] para que pudéssemos ser salvos”; mas outra coisa é explicar precisamente como ele guardou a lei e o que estava envolvido nessa guarda da lei. Ouvir sobre a obediência ativa de Cristo e sobre a imputação gratuita de Deus a nós, por meio da fé, dessa obediência ativa, não deve nunca ser algo que se resuma a frases de efeito.



Tradução: Márcio Santana Sobrinho

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A carta de Paulo aos Colossenses


           A carta de Paulo aos Colossenses é uma impressionante obra escrita que tece conjuntamente alta teologia com santidade de vida, e exortações com admoestações. Um de seus principais temas é a plenitude de Cristo, e a plenitude que Cristãos tem nele. Com isto dizemos que a pessoa e obra de Cristo são completos, e Cristãos tem se beneficiado desta completude. Desde que este é o caso, qualquer tentativa de suplantar ou substituir a pessoa e obra de Cristo é na verdade enfraquecer e desvalorizá-lo, assim severamente comprometendo a integridade da fé Cristã.
Esta é provavelmente uma carta ocasional que Paulo escreveu para combater uma heresia específica que sobre a igreja. Contudo, é desnecessário presumir este conhecimento prévio para julgar a carta inteligível. Isto porque sua exposição categórica de sólida doutrina é tão rica, tão ampla e profunda, que empresta a si mesma a uma aplicação universal.
Este comentário básico provê auxílio básico para compreender e apreciar os escritos de Paulo endereçados aos Colossenses. No processo o leitor irá encontrar nossas discussões sobre as principais, e algumas vezes controversas, doutrinas e questões. Dentre estes está a incompreensibilidade de Deus e a origem do pecado e do mal. Outras características incluem um apanhado de teologia sistemática sob a perspectiva da cristologia, discussões sobre verdade versus falsa filosofia, verdade versus falsa espiritualidade, o que significa ver o Pai por “olhando para” Jesus, as prioridades de Paulo em vida e oração, e a verdadeira natureza da Grande Comissão.
COLOSSENSES 1,1-2: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, aos santos e fiéis irmãos em Cristo que estão em Colossos: A vocês, graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo”.
Uma vez que a carta de Paulo aos Colossenses é considerada uma admoestação e correção contra uma heresia ameaçando a igreja, iremos começar com uma breve palavra sobre a natureza de cartas ocasionais.
Como sugerido pela palavra “ocasional”, estas cartas são “ocasionadas” – e escritas para abordar necessidades particulares, questões, ameaças, eventos, e assim por diante. Uma carta ocasional representa apenas um lado da conversação, e desde que o significado da linguagem depende do contexto, isto pode representar dificuldades na interpretação, especialmente quando existe pouca informação concernente aos assuntos que pretende abordar. Por esta razão, muitas vezes é dada ênfase na averiguação do lado “perdido” da conversação, e então nossa interpretação da carta trona-se dependente do que pensamos que sabemos sobre o propósito pelo qual foi escrita.
Contudo, a dificuldade que isto constitui para interpretação bíblica é frequentemente exagerada, e também a importância do acesso a este lado da conversação. Isto porque a dificuldade é com frequência suficientemente reduzida e algumas vezes completamente eliminada pela profundidade do lado da conversação que está diante de nós.
Para ilustrar, suponha que alguém me pergunte, “Pode uma religião não-Cristã salvar-me da ira de Deus?” Uma resposta “não” é correta, e tão longe quanto é possível, também suficiente. Neste caso, é verdade que alguém que tem acesso apenas ao meu lado da conversação – a palavra “não” – pode não ter entendimento do que a resposta negativa realmente signifique ou o que pretende declarar. Portanto, minha resposta não ensinaria tal pessoa nada sobre a doutrina de Cristo.
Mas ao invés de um simples “não”, eu poderia dizer, Todos os homens caíram em Adão, e tem caído bruscamente dos mandamentos de moral e retidão de Deus. Mas Deus ordenou e enviou Cristo para tomar um corpo humano e morrer pelos pecados dos escolhidos para a salvação, assim todos que receberam o soberano dom da fé podem ser salvos através dele. Porque redenção dos eleitos por Cristo é o único plano de salvação de Deus, assim como Cristo é o único que satisfez a ira de Deus e redimiu os eleitos, a única maneira que qualquer pessoa pode ser salva é pela fé em Cristo.” Esta resposta muito mais completa é também correta e relevante.
E é mesmo possível que eu respondesse a questão desta forma, isso é, nos momentos em que eu não ministrasse uma explicação ainda mais longa.
Sem conhecimento da questão que ocasionou minha resposta, embora alguém possa não perceber qual questão intenciono responder, preenchi meu lado da conversa com tanta informação que a questão original é praticamente dispensável para compreender minhas declarações. A partir de minha resposta, alguém poderia fazer uma possível reconstrução da questão original, mas isto seria desnecessário de ser feito a menos que o objetivo fosse reconstruir todo intercâmbio em vez de entender o meu lado da conversação.
Mais além, não apenas minha resposta é compreensível por si mesma, ela também provê ampla informação na doutrina Cristã que pode ser afirmada e aplicada por alguém não familiar com o intercâmbio original, mas que tem acesso a apenas a minha resposta à questão. Em ato, uma resposta tão extensa por si mesma é mais instrutiva em relação a Cristianismo do que se alguém fosse ter ambos os lados da conversação mas com uma resposta simples – como somente a palavra “não” – no meu lado do intercâmbio.
Também podemos observar que apenas porque minhas declarações são formuladas como resposta a uma questão não significa que cada detalhe na resposta precise corresponder a algo mencionado na questão. Por exemplo, a idéia de redenção é essencial na minha resposta, mas a questão em si não contém o conceito de redenção. Não pergunta se precisamos de redenção, ou se Cristo é o único que redime os pecadores. Ou seja, seria irracional pensar que porque a questão não contém o conceito de redenção, então nem minha resposta pode se referir a isto, ou que porque minha resposta refere a isto, então a redenção deve ser mencionada primeiramente na questão.
Como em nossas próprias conversas, as cartas de Paulo consistem em muito mais que um “sim” aqui e um “não” lá. Elas incluem exposições intensivas de sólida doutrina e detalhadas refutações a seus oponentes. Os assuntos tratados são frequentemente declarados, explanados e reformulados. A dificuldade muitas vezes associada com a falta de contexto histórico na interpretação de cartas ocasionais é um exagero pois elas contém tanta informação positiva como indicações diretas e indiretas com relação aos assuntos tratados que raramente é um impedimento possuir apenas as cartas, ou este lado da conversa. Uma ameaça muito maior à interpretação é a tendência de alguns de especular sobre as informações que não possuímos, ao invés de prestar atenção ao documento que temos bem diante de nós.
Existe algum debate sobre a natureza da heresia a que a carta escrita por Paulo supostamente se refere. Se agirmos pela (injustificada) suposição que toda questão de destaque mencionada por Paulo na carta tem como intenção contradizer um elemento correspondente na falsa doutrina a que escreve em resposta, então pareceria que a heresia contém uma mistura de misticismo, ascetismo, Gnosticismo, e tradição Judaica. Embora o Gnosticismo não tenha sido sistematizado até o segundo século, tendências Gnósticas há muito tem se infiltrado em algumas escolas de pensamento Judeu e Grego, por tanto é concebível que Paulo tenha tido que combatê-las durante seu ministério.
Dito isto, como Paulo não se refere diretamente a nenhuma heresia na carta, alguns argumentam que ele não escreve em absoluto para confrontar uma ameaça específica. Talvez seja apenas uma carta de instruções e exortações gerais, ou na melhor das hipóteses seu conteúdo corresponde, não a uma heresia específica, mas à cultura intelectual e religiosa geral que cerca os Colossenses.
Apenas porque Paulo enfatiza a supremacia de Cristo não significa que existam falsos professores denegrindo a suficiência de Cristo. Apenas porque ele estabelece uma Cristologia precisa e exaltada, insistindo na divindade e na humanidade de Cristo, não significa que exista uma heresia que ameace qualquer aspecto da doutrina. E apenas porque ele escreve, não significa que hajam de fato indivíduos ali buscando reforçar estas tradições. É possível, mas não necessariamente verdade. A carta aos Colossenses é diferente de uma carta como a aos Gálatas, em que falsos professores e falsos ensinamentos são explicitamente descritos.
Por tanto, embora a presença da heresia seja possível, e talvez seja empregada como uma suposição prática ao explorar a interpretação precisa da carta, não há recomendação sólida em insistir nisto. E se a suposição é falsa e a interpretação é feita para depender dela, então o resultado poderia ser um entendimento impreciso da carta. O ponto é, neste caso, que o lado de Paula na conversa é tão extenso que nenhuma perda é sofrida pela incerteza sobre a situação em Colossos.
Sendo assim, Barclay está enganado quando escreve, “Estas, então, foram grandes doutrinas Gnósticas; e todo tempo estivemos estudando esta passagem, e de fato toda a carta, temos que tê-las em mente, pois apenas contra elas a linguagem de Paulo tornou-se inteligível e relevante”.
Ao contrário, as idéias principais da carta são inteligíveis e relevantes para qualquer leitor comum mesmo sem qualquer explicação, ou qualquer conhecimento do antigo pensamento Judeu e Gnóstico. A afirmação de que é necessário ler a carta de Paulo contra o passado das doutrinas Gnósticas é absurda e irresponsável [1].
COLOSSENSES 1,3-8: “Sempre agradecemos a Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, quando oramos por vocês, pois temos ouvido falar da fé que vocês têm em Cristo Jesus e do amor por todos os santos, por causa da esperança que lhes está reservada nos céus, a respeito da qual vocês ouviram por meio da palavra da verdade, o evangelho que chegou até vocês. Por todo o mundo este evangelho vai frutificando e crescendo, como também ocorre entre vocês, desde o dia em que o ouviram e entenderam a graça de Deus em toda a sua verdade. Vocês o aprenderam de Epafras, nosso amado cooperador, fiel ministro de Cristo para conosco, que também nos falou do amor que vocês têm no Espírito”.
Algumas pessoas têm aversão à palavra “religião” e preferem ter nada que ver com isto. Entre estes, aqueles se consideram Cristãos opõe-se à palavra com a justificativa de que Cristianismo não é uma religião mas uma “vida” ou um “relacionamento”. Mas este desdém pela palavra é baseado em ignorância e falsa piedade.
Primeiramente, devemos questionar se as palavras “vida” e “relacionamento” são de fato descrições adequadas à fé Cristã. O relato bíblico desta vida e relacionamento é muito mais rico que do que a maior parte das pessoas que preferem estas descrições da fé tem em mente. Na verdade, Escritura inclui muitas coisas em sua exposição desta vida e relacionamento que muitas destas pessoas buscam excluir pela rejeição da palavra “religião”.
Em Merriam-Webster, uma das principais definições de religião é “o serviço ou adoração a Deus.” Isto pode parecer muito específico para alguns filósofos, mas o Cristão comum mal poderia protestar contra. Mesmo que a definição seja insuficiente, não há nada repulsivo ou não espiritual nisto. E é claro, “o serviço ou adoração a Deus” pode incluir a idéia de uma vida ou um relacionamento, mas é também amplo para incluir mais, ou mais das coisas que estão envolvidas em vida e relacionamento.
Então, a segunda definição é “um conjunto pessoal ou sistema institucionalizado de atitudes religiosas, crenças e práticas.” Esta provavelmente representa a idéia de “religião” que muitos Cristãos desassociam de sua fé ou qualquer vida espiritual legítima. Todavia, não há nada inerentemente errado com esta idéia de religião; ao contrário, precisamos saber o que é que foi personalizado ou institucionalizado. Se é uma religião verdadeira, então deve ser personalizada. Se é religião verdadeira, endossa a forma organizacional de seu funcionamento, então deve ser institucionalizada.
Institucionalizar algo significa apenas “incorporar em um sistema estruturado e muitas vezes altamente formalizado.” Isto pode ser certo ou errado, e a maneira como é feito pode também certa ou errada. Um “sistema altamente formalizado” pode canonizar um conjunto de tradições humanas, resultando no repúdio da ortodoxia doutrinal e liberdade espiritual. Contudo, a culpa então recai no que é formalizado, e não na própria idéia de uma organização formal. Então mesmo a institucionalização não tem nada de inerentemente questionável em si, tampouco é necessariamente adversa para ou pelo Cristianismo.
Assim, por exemplo, se não é errado para um crente dizer que “o Cristianismo é o único verdadeiro serviço ou adoração a Deus,” então não é errado para ele dizer que “o Cristianismo é a única religião verdadeira.” Da mesma forma não há problema com a primeira e segunda definições do Webster’s New World Dictionary: “crer em um poder ou poderes divinos ou supra-humanos a serem obedecidos e adorados como criador(es) e governante(s) do universo” e “qualquer sistema específico de crença e adoração, frequentemente envolvendo um código de ética e uma filosofia.”
Se uma pessoa insiste em uma definição privada de religião que apresente-se errônea ou não bíblica, então é claro que este não deve aplicá-la ao Cristianismo, mas não tem base para impor tal definição a outras pessoas. O ponto é que quando operamos por definições de dicionários comuns, a declaração “Cristianismo não é uma religião”, é falsa, e na verdade não bíblica. É claro que Cristianismo é uma religião. E se nós agirmos por estas definições, então a pessoa que diz “Me dê Jesus, não religião” está nos dizendo que deseja nada ter com “o serviço e adoração a Deus.”
A necessária distinção não é entre religião e relacionamento, ao menos a partir das definições dos dicionários comuns, a religião pode sustentar um relacionamento. Antes, a distinção necessária é entre boa e má religião, ou verdadeira e falsa religião. O Cristianismo é superior a Islamismo, Budismo, e outros, não porque o Cristianismo é um relacionamento enquanto estas são meras religiões. Todas estas são religiões. A diferença é que o Cristianismo é verdadeiro e o resto é falso. O Cristianismo é uma religião revelada divinamente. É a própria palavra de Deus no próprio serviço e adoração a Deus. Todas as outras religiões são invenções humanas e demoníacas.
Sendo assim a questão crucial não é se o Cristianismo é uma religião, mas que tipo de religião é. Um modo pelo qual a Escritura caracteriza a religião Cristã é com palavras de fé, amor, e esperança (v. 4-5). [2]
Quando significados subjetivos e emocionais são atribuídos a essas palavras, eles não podem transmitir nada de substancial sobre o Cristianismo ou acentuar suas características distintas contra outras religiões e filosofias. Mas quando entendidas de acordo com seu emprego bíblico, estas palavras são capazes de personificar alguns aspectos fundamentais da religião Cristã, tanto que alguns escritores têm organizado sua dogmática sob elas. É claro, a mesma informação pode ser apresentada de maneiras diferentes em termos de estrutura e ênfase.[3]
Fé não é crença geral ou confiança. Às vezes as pessoas são impelidas a “ter fé” sem menção ao conteúdo desta fé. Mesmo os descrentes são encorajados a ter fé neste sentido. Se esta fé intenciona produzir um resultado desejável ou causar-lhe esforço e perseverança de prosperar, então qual é a base para esta confiança? “Fé” neste sentido geralmente se refere a nada mais que uma força de vontade ou expectativa irracionais.
A Escritura fala de fé de muitas maneiras. Aqui mencionaremos apenas dois de seus significados gerais. Primeiro, “fé” pode se referir à própria religião Cristã, ou seja, o conjunto de doutrinas e práticas que a definem, como quando dizemos, “a fé Cristã” e “lutar pela fé” (Judas 3). Ou, “fé” pode se referir a uma crença pessoal nesta religião, como quando dizemos “ter fé em Deus” (Marcos 11:22) e “temos ouvido de sua fé em Jesus Cristo” (Colossenses 1:4). Este tipo de fé é um presente de Deus, produzida por seu Espírito naqueles que ele escolheu. Quando afirmamos a doutrina da justificação pela fé, afirmamos que Deus nos salva ao nos dar fé em Jesus Cristo.
Como discutimos fé, amor, e esperança juntos, estamos interessados neste segundo sentido de fé – que é “fé em Jesus Cristo.” Existe o equívoco popular que “acreditar em” Deus não é o mesmo que “acreditar que” o que ele tem revelado sobre si mesmo é verdade, ou seja, acreditar nestas coisas “sobre” Deus. Algumas vezes a distinção é feita entre confiança e crença, ou confiança e concordância. Todavia, a distinção apropriada é a feita entre fé verdadeira e falsa, não “acreditar em” e “acreditar que” fé, ou entre confiança e crença. Seria absurdo dizer, “eu acredito em Cristo, mas não acredito em nada a respeito dele” – “acreditar em” Cristo desta maneira é sem sentido. Ter fé em alguém é acreditar em algo sobre ele, e é impossível ter fé em alguém de uma forma que é além ou outra que o que temos fé sobre ele, ou o que cremos sobre ele.
Tem sido discutido que o significado de “acreditar em” e “acreditar sobre” (ou “acreditar que”) não são necessariamente idênticos desde que acreditamos em certas coisas sobre uma pessoa que nos dá uma base para “acreditar em” ou “confiar” nele além do que é imediatamente indicado por estas coisas que cremos sobre ele. A menos que “confiança” refira-se a uma suposição afirmada por pura força de vontade, que no caso não é fé bíblica de maneira alguma, dizer que você “confia” em Deus além do que você acredita “sobre” ele é apenas dizer que o que você acredita “sobre” ele fornece a base para você fazê-lo, o que por sua vez significa que esta “confiança” permanece idêntica ao que você acredita “sobre” ele. Ou seja, a distinção ou “distância” feita entre confiança e concordância é em si mesma outro objeto de assentimento. E isto significa que a distinção é de fato falsa e que a “distância” entre ambos é não-existente.
Deste modo dizer que temos fé em Cristo é uma abreviação para dizer que acreditamos em um número de afirmações sobre Cristo. A palavra “fé” indica a positiva e desejável natureza das coisas que acreditamos sobre ele, na medida em que esta fé é bíblica, estas seriam afirmações bíblicas. Assim como Paulo tem em mente uma fé que é específica – que é “fé em Jesus Cristo” – ele tem em mente um amor que também é específico – que é “o amor que tens por todos os santos.” Alguns comentaristas observam que nesta passagem é caracteriza nosso relacionamento “vertical” com Deus, enquanto o amor caracteriza nosso relacionamento “horizontal” com outras pessoas. Isto é de longe verdade para esta passagem, mas seria um erro inferir a partir disto um princípio vasto que rigidamente estabeleça a distinção. Isto porque, entre outras coisas, amor deve também caracterizar nosso relacionamento vertical com Deus.
Embora a fé seja algumas vezes associada com um sentimento de confiança, não deve ser identificada com o sentimento em si. Antes, fé é acreditar em afirmações divinamente reveladas é em si mesma independente de sentimentos que podem oscilar. Sentir-se bem com relação uma afirmação bíblica é diferente de acreditar nela. Da mesma forma, embora o amor seja muitas vezes acompanhado por certas emoções, o amor e si não é uma emoção. A idéia que o amor é ou uma emoção ou necessariamente e proporcionalmente associado a certas emoções tem infringido danos desastrosos ao desenvolvimento intelectual e ético de crentes sem conta.
A Bíblia fala de amor como uma disposição a pensar e agir com relação a outras pessoas (incluindo Deus) de acordo com preceitos e leis divinas – ou seja, tratá-los como Deus nos diz para tratá-los. Este amor não tem conexão direta e necessária com qualquer emoção, sem qualquer conotação inerente negativa, definimos como um tipo de perturbação mental [4].
Como Paulo escreve em Romanos:
Romanos 13,9-10: “Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “não matarás”, “não furtarás”, “não cobiçarás”, e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”.
O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei”.
Note que amor é o cumprimento da lei e não a substituição da lei. Nós não tratamos as pessoas com amor ao invés de tratá-las de acordo com a lei. Ao contrário, tratá-las com amor é tratá-las de acordo com a lei, ou os mandamentos de Deus.
Ele diz que os mandamentos, como “Não adulterarás” e “Não matarás”, estão resumidos no mandamento de amar. Uma síntese não é diferente ou superior às coisas que personifica. De fato, para realmente entender os detalhes representados pela síntese, deve-se examinar as coisas que sintetiza. Assim o mandamento de amar não é diferente ou superior aos outros mandamentos – o amor é definido por estes mandamentos em primeiro lugar.
A Escritura define nosso amor para Deus da mesma maneira. Jesus diz a seus discípulos em João 14:23 “se alguém me ama, obedecerá meus ensinamentos” – não que ele vá sentir de certa maneira ou ter certa emoção. Se ama, obedece. Então ele diz, “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” – João 15,12-13. Não há emoção aqui. A ordem é amar, e este amor significa ação heróica e sacrificial pelo benefício de outros.
Muitas pessoas que sentem-se completamente perturbadas por dentro ao menor sofrimento em outros jamais sacrificariam nem seu conforto pessoal para salvá-los, sem mencionar suas próprias vidas. Mas ele foram ensinados – por cultura, por tradição, por filosofias anti-Cristãs, mas não pela Escritura – que isto representa compaixão. Lamentam e choram por eles – não é isto amor?
Embora isto possa permitir a eles mesmos sentirem-se muito compassivos e espirituais, isto não tem nada que ver com amor.
Em seus momentos mais sóbrios, teólogos e comentaristas admitem que amor bíblico tem a ver com pensar e agir de acordo com os mandamentos de Deus com relação a outras pessoas, e que isto não tem relação com um tipo particular de perturbação mental, ou emoção. A Escritura é clara nisto; não é difícil reconhecer. Como um comentador escreve, “A Bíblia fala disto como uma ação ou atitude, não apenas uma emoção… Cristãos não têm um pretexto para não amar porque o amor Cristão é uma decisão de agir no melhor interesse dos outros” (5).
Definir amor como uma emoção deixa alguém com uma desculpa, uma vez que nossos sentimentos podem oscilar. Além do mais, tal definição gera culpa desnecessária naquele que nem sempre sente o que pensa que deveria sentir com relação às pessoas. E se o amor é uma emoção, então qual emoção é exatamente? Quer dizer, como deveria sentir-se? Mas de acordo com a Bíblia, se uma pessoa irá consistentemente tratar os outros de acordo com os mandamentos de Deus, independente de como se sinta, então anda em amor. Por outro lado, a pessoa que não faz nada mais do que sucumbir numa desordem emocional a qualquer sinal de sofrimento humano não anda em amor. É um desamor incômodo, e seria melhor que parasse de fingir.
A esperança Cristã também é específica, uma esperança que está “reservada nos céus” Temos visto que fé também pode ser usada com um sentido objetivo, como em “a fé Cristã,” ou em um sentido subjetivo, como em “a sua fé em Cristo.” Da mesma forma, há um sentido objetivo para esperança, e então um sentido subjetivo. Mesmo quando usada no seu sentido subjetivo, a esperança do evangelho é muito mais do que uma expectativa geral de ou desejo por um futuro positivo, ou a espera de algo. Um mero desejo frequentemente não tem base para sua satisfação, e fora da promessa do evangelho, a natureza do que é desejado está aquém da herança do crente em sua glória e pureza. Por outro lado, a esperança Cristã baseia-se na promessa de Deus e na realidade da redenção.
Em qualquer caso, ao passo que fé é usada no sentido subjetivo nesta passagem, esperança é usada no sentido objetivo – a importância disto será notada em um momento. Isto é evidente porque, primeiro, uma esperança subjetiva é uma atitude, condição, ou disposição da mente – novamente, não necessariamente e proporcionadamente conectada com a perturbação da mente, ou uma emoção – mas aqui a esperança é armazenada no céu, não na mente.
Segundo, Paulo diz que os Colossenses “ouviram sobre” esta esperança, portanto não é algo somente sentido, percebido, opinado, ou afirmado na mente, mas algo proclamado e descrito. E terceiro, se realmente compararmos o que os crentes tinham recebido nos versos 5 e 12, então “esperança” é dita como sendo uma “herança,” que é algo objetivo, não subjetivo.
Embora esta esperança esteja guardada no céu, de forma que os benefícios totais estão reservados para um tempo futuro, pelo Espírito Santo nós agora desfrutamos os poderes a era vindoura. Ademais, está armazenado no céu não no sentido de que está fora de nosso alcance, mas de que está reservado para nós. Isto não é algo que desejamos ou trabalhamos para – não é uma possibilidade mas uma realidade. Deus predestinou a nossa salvação, e nada pode afastar a nossa herança, porque nada pode nos arrebatar de sua mão. A esperança objetiva é a fundação de nossa fé subjetiva. O significado, portanto, é que nossa fé não se baseia na presunção ou possibilidade, mas destino e realidade.
Um modo de usar estas três palavras para incorporar um curso de dogmática é colocar o aspecto doutrinal do Cristianismo sob a fé, a ética sob o amor, e a escatológica sob a esperança. Estas distinções são significativas, mas não precisas ou perfeitas, pois tanto a ética quanto a escatologia podem também cair sob a doutrinal, de forma que a religião toda pode ser chamada de fé Cristã. Também, quando usadas neste contexto, todas as três palavras assumiriam seus sentidos objetivos.
Dizemos que a religião Cristã é caracterizada por estas três coisas, mas outras religiões também oferecem fé, amor, e esperança? Quando propriamente definidas, vemos que não. Novamente, Paulo não se refere a uma fé geral ou crença sem relação com seu objeto. A fé aqui é “fé em Jesus Cristo.” Se não-Cristãos pudessem ter fé em Jesus Cristo no sentido especificado na Escritura, então eles já seriam Cristãos.
Não-Cristãos não têm fé. E desde que amor implica obediência aos comandos de Deus como tem sido revelado na Bíblia Cristã, então nenhuma religião, filosofia, ou visão ética não-Cristã pode oferecer ou produzir amor verdadeiro. Não-Cristãos não têm amor. Todavia, note que quase todas as filosofias não-Cristãs – de Budismo a Satanismo – podem conter amor se for definido como um tipo de emoção. Então, nossa esperança ser refere à “herança” dos santos como prometido na Escritura, guardada para nós no céu descrito na Escritura. É específica e exclusiva. Portanto não há fé, nem amor, e nem esperança exceto na religião Cristã.
A fé e o amor dos Colossenses “brotam” da esperança que está guardada no céu, e eles ouviram sobre esta esperança “na palavra da verdade – o evangelho” (v.5). Este evangelho é uma mensagem sobre a graça de Deus, carregadas de frutas constituídas de fé, amor, e esperança uma vez que são ouvidas e compreendidas (v. 6). E é ouvido e entendido quando uma pessoa o ensina para uma audiência.
Porque a fé Cristã é transmitida quando é explicada e entendida, é intelectual por natureza. Podemos pensar sobre ela, e falar sobre ela. Podemos explicá-la, e compreendê-la. A idéia de que a fé é “apanhada, não ensinada” é contra todo o espírito da religião Cristã, é também um ataque à revelação verbal da Escritura. A verdadeira piedade começa e cresce precisamente da maneira oposta – é ensinada, não apanhada. A idéia de que a graça de Deus é além de nosso entendimento vem da falsa humildade e a rejeição da natureza do evangelho em favor da tradição e filosofia humanas sobre a “incompreensibilidade” de Deus. Alguém que não entenda algo sobre a graça de Deus não pode crer nela, pois não haveria nada para crer, portanto realmente não é um Cristão.
Um comentarista observa que Paulo não inclui “conhecimento” na sua lista de coisas que caracterizam a fé Cristã, mas “ele deliberadamente omite a palavra ‘conhecimento’ por causa do aspecto de ‘conhecimento especial’ da heresia”, sendo, a heresia do Gnosticismo. Mas dizer isto é tão equivocado que quase deveria ser considerado uma heresia.
 
Fonte:
[1] – William Barclay, The Letters to the Philippians, Colossians, and Thessalonians (Westminster John Knox Press, 2003), p. 134.
[2] -Ver Romanos 5,1-5; 1 Coríntios 13,13; Gálatas 5,5-6; Efésios 1,15-18; Efésios 4,2-5; 1 Tessalonicenses 1,3 e 5-8; Hebreus 6,10-12, 10,22-24; 1 Pedro 1,3-8 e 22-23.
[3] – Veja: Vincent Cheung, Systematic Theology e Presuppositional Confrontations.
[4] – Esta perturbação pode ser positiva ou negativa, mas é uma perturbação.
[5] – Life Application Bible Commentary: Philippians, Colossians, & Philemon (Tyndale House Publishers, Inc., 1995), p. 154.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Penologia


A força e autoridade compulsiva de qualquer mandamento em particular reside sempre em sua ameaça penal; se nenhuma punição seguir a violação de uma lei, então a lei é meramente uma sugestão. Não se exige que uma pessoa aja de certa forma a menos que sua desobediência seja seguida pela aplicação de uma sanção penal.

Lei sem sanções não é lei. Aqui a obrigação mútua de lei e autoridade política torna-se muito óbvia. Embora a autoridade política exista por causa da Lei, a Lei é real somente se reforçada por meio da autoridade política. Embora a lei não receba sua validade, ela recebe seu poder da autoridade política, e o governo não deve portar a espada em vão. [1]

A lei de Deus contém contém tanto demandas positivas como sanções penais; ela não somente ordena a plena execução de seus preceitos, mas também a imposição da penalidade apropriada por todas as infrações. Ambos os elementos devem ser atendidos ou então a lei de Deus não estará sendo guardada.


Sanção Dupla

Deus entregou não somente mandamentos com respeito a como devemos nos comportar, mas também mandamentos para o magistrado civil especificando o que deve ser feito quando não o fazemos. A lei de Deus contém uma sanção dupla: penalidade deve ser infligida para guardar a justiça e ordem do Estado, e penalidade eterna deve ser infligida para garantir a santidade e justiça de Deus. Por isso existem os detalhes vetero-testamentários de penalidades civis (até mesmo execução para crimes capitais) para violações da lei de Deus que se aplica à sociedade; todavia, é plenamente reconhecido também que a penalidade por violar um mandamento de Deus se estende além dessa sanção temporal, indo até o castigo eterno de Deus. Há um reconhecimento de uma vida após a morte (e.g., Gn 5.24; Lv 19.28; Nm 16.30; Dt 26.14; Sl 55.15), que o próprio Senhor julgará a iniquidade (e.g., Sl 1.5ss; 96.13; 98.9; Ec 12.14; cf. 11.9), e que seu julgamento poderia levar à condenação eterna (Jó 18; Sl 49.12-15, 19; 69.28; 104.35; Pv 11.7; 14.32; 15.24; Is 33.14; 66.24; Dn 12.2; Ml 4.1). Todavia, o Antigo Testamento também demanda punição civil para malfeitores, até mesmo a execução — reconhecimento plenamente que outro castigo seguirá a esta vida. Visto que uma violação da lei de Deus tem efeito negativo tanto sobre o bem-estar da sociedade como sobre o bem-estar espiritual do ofensor, a punição de acordo com a lei era apropriadamente de dois gumes: civil e divina. Talvez seja útil distinguir entre “pecado” e “crime”. [2] Embora todo crime seja pecaminoso, nem todo pecado é um crime. Uma ofensa contra a lei de Deus é um crime quando ela é um delito social punível pelas autoridades governamentais; o pecado, por outro lado, sempre é julgado e punido por Deus. O magistrado não pode ousar punir o pecado de um homem, mas ele é obrigado a reforçar as sanções penais contra o crime de um homem. Dessa forma, um crime deve sofrer duas punições: um diante do magistrado (como um delito social), um diante do próprio Deus (como um pecado). A lei de Deus designa quais são as sanções penais nas duas áreas. A lei de Deus lida com santidade na sociedade bem como com santidade na vida pessoal. Deus está preocupado que um homem ande corretamente diante dele bem como na sociedade. Por isso as punições sociais detalhadas na palavra de Deus são autoritativas como qualquer outro mandamento que ele estabeleceu para ser obedecido. Sanção intrínseca pertence à retribuição civil como um ditame da justiça divina.

Fonte: Greg L. Bahnsen, Theonomy in Christian Ethics, p. 421-422.


[1] – George W. Forell, “The State as Order of Creation,” God and Caesar: A Christian Approach to Social Ethics, ed. Warren A. Quanbeck (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1959), p. 50.


[2] Cf. J. B. Shearer, Hebrew Institutions, Social and Civil (Richmond: Presbyterian Committee of Publication, 1910), p. 144.

domingo, 4 de outubro de 2015

A gnose no contexto eclesiástico brasileiro





Podemos afirmar ousadamente que aqueles que não cumprem o Princípio Regulador do Culto, ou que, no afã aparentemente louvável de diluir os elementos do culto na cultura local, alteram suas liturgias, são não apenas idólatras e insinceros, mas também solapam quaisquer tentativas de redenção cultural.

Ora, Kuyper já havia dito que uma cultura pode subsistir sem a arte (o que a empobrece, evidentemente), porém não sem a religião. Russel Kirk já atentara para o fato de que toda cultura (como a própria etimologia aponta) provém de um cultus. Dito de outro modo, a religião é o embrião de toda civilização, assim como o cimento que coere seus indivíduos organicamente. Não cabe aqui explorar todos as nuances e complexidades dessa questão – Christopher Dawson, o grande historiador católico, já estabeleceu e explorou tais princípios em seu livro Progresso e religião.

Destarte, se a cultura procede de um culto, aqueles que buscam moldar seu culto segundo a cultura estão efetivamente invertendo a ordem lógica e até mesmo antropológica da questão. Não estamos afirmando que a liturgia é um elemento abstrato e desencarnado que exige a supressão (impossível) de nossas tradições e costumes. Pelo contrário, o cristianismo é encarnacional: diferentemente do islamismo, ele não suprime a cultura “receptora”, antes, a redime. Isso é evidente ao longo de toda a história da Igreja – a Escola de Alexandria, dada a influência mística dos sábios que ali habitavam, praticavam uma exegese mais alegórica e espiritualizada, ao passo que a Escola de Antioquia, na Síria, também devido às influências, apresentava uma hermenêutica mais literalista. Até mesmo dentro de uma mesma tradição, há diferenças cruciais; basta compararmos as igrejas reformadas escocesas e as holandesas. Portanto, não reivindicamos a supressão de traços culturais dentro dos cultos, todavia, protestamos resolutamente contra a primazia da cultura sobre a liturgia.

Conforme dito, Deus, com efeito, deu ao homem aquilo que os neocalvinistas chamaram de Mandato Cultural, ordenado desde a criação do homem: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1:28). A criação está prenhe de possibilidades e potencialidades (At 14:17), que devem ser exploradas e descobertas pelo homem, desenvolvidas segundo os princípios normativos de Sua Lei e direcionados à glória de Deus (1 Co 10:31-33). Ora, estruturalmente toda a criação é boa, conforme assevera o relato de Gênesis, entretanto, nas palavras de Albert Wolters, o homem pode conduzi-la segundo uma direção transgressora da lei divina e corruptora de sua (da criação) bondade intrínseca. É interessante notar que logo após o relato da descoberta da música – “o nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gn 4:21) –, o livro de Gênesis nos apresenta de forma quase imediata os efeitos da depravação, que se estendem até mesmo a essas potencialidades que o SENHOR embutiu na Sua criação:

E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4:23-24).

Lameque, com seu coração pervertido pelo pecado, conspurca a musicalidade, criando para si um cântico que exalta uma retaliação totalmente desproporcional à injúria sofrida.


A cultura, embora se fundamente, em última instância, na revelação, caso não seja direcionada segundo as diretrizes proposicionais da lei de Deus, certamente será deturpada pela pecaminosidade humana. Ora, nesse sentido, o Princípio Regulador do Culto se configura como um parâmetro objetivo, que nos resguarda das alterações e deformações do culto dedicado a Deus. Nas palavras de Michael Bushell, citado por Brian Schwartley, “de modo particular, o Princípio Regulador do Culto pode ser visto como uma inferência natural da doutrina da depravação total [...] Qualquer obra das mãos do próprio homem, que ele presume oferecer a Deus em adoração, é poluída pelo pecado e é, por essa razão, totalmente inaceitável” (SCHWARTLEY, Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, p. 42).

Em Êxodo 20:25, o SENHOR dá instruções tão precisas e concisas relativas à construção do altar dedicado ao Seu nome, que o simples desvio era, por si só, considerado profanação:

Se me levantares um altar de pedras, não o farás de pedras lavradas; pois, se sobre ele manejares a tua ferramenta, profaná-lo-ás (Êxodo 20:25, ARA).

Um dos possíveis motivos dessa prescrição (que também pode ser vista em Deuteronômio 27:5-6) é a diferenciação que se pretende traçar entre o altar israelitas e os altares pagãos. Os santuários das nações vizinhas estavam repletos de desenhos e entalhes minuciosos idólatras e não raro eróticos (Ezequiel 8:5-18). Dessa forma, a simplicidade e rusticidade do altar do SENHOR seriam um nítido contraponto com as demais religiões. Além disso, o fato de não poderem cortar as pedras com instrumentos de ferro demonstra que os israelitas (que naquela época não dominavam a técnica da metalurgia) não deveriam depender de nenhuma nação pagã circunvizinha (os cananeus, por exemplo, eram mestres na siderurgia) para auxiliá-los na adoração a Deus.


Ora, ademais, o altar bruto nos ensina que nossa cultura, por mais refinada que seja, não deve aparar, ornamentar, burilar ou remoldar o culto a Deus. Pelo contrário, a simplicidade do culto é a condição essencial para a restauração e evolução cultural. O meio reformado se encontra premido por dois posicionamentos – primeiramente, aquilo que já abordamos na primeira parte deste artigo, a saber, o gramscianismo que se quer passar por kuyperianismo, “valorizando” e acolhendo em suas comunidades todos os tipos de monstruosidades teológicas e estéticas que se querem fazer passar por música ou arte cristãs. Alguns chegam ao ponto de elencar o brilhante Schaeffer como seu mestre e orientador, como se esse grande pensador cristão, admirador da alta cultura e da cosmovisão bíblica, fosse admitir que a mentalidade reformada fosse conspurcada por elementos como DJ’s, cultos jovens, apresentações teatrais, motoclube, etc.

Em segundo lugar, o meio reformado enfrenta também o perigo do empobrecimento cultural e artístico, como no caso da ala neopuritana, a qual chega a proibir até mesmo as representações iconográficas de Jesus Cristo, com o argumento de que se constituem como transgressão do segundo mandamento. Creio que, ainda que essa mentalidade dominasse inteiramente nosso Ocidente, seus defensores teriam certa dificuldade em incinerar e arruinar a vasta quantidade de quadros, representações, mosaicos, afrescos, telas, etc., que estão presentes nos grandes museus da Europa e Américas, movidos por uma estranha espécie de futurismo puritanista, no afã de apagar a história, que passa a ser concebida como uma simples sequência de eventos idólatras, ao invés do locus da Providência. Tudo isso, podemos dizer, para que, ao fim de seu esforço iconoclasta, percebam aquilo que Nathaniel Hawthorne, brilhante escritor puritano, já havia entrevisto em seu conto Earth’s Holocaust [O Holocausto da Terra], no qual as pessoas se reúnem perante uma grande fogueira, uma espécie de conflagração cósmica, a fim de lançar ao fogo todos os livros, pinturas, objetos, etc. que os lembrassem do passado – a conclusão do conto:

“O Coração – o Coração – havia ainda essa pequena mas ilimitada esfera, na qual subsiste o erro primordial, do qual o crime e a miséria deste mundo visível são simplesmente tipos. Purifique essa esfera interna; e as várias formas de mal que assombram o exterior, e que presentemente aparentam ser a quase totalidade de nossas realidades, tornar-se-ão em meros espectros sombrios, desparecendo por contra própria” (Nathaniel Hawthorne, Tales & Sketches, p. 906, tradução nossa).

Ora, a religião, e em especial um de seus elementos, a liturgia, não devem castrar a arte – isso é confusão de esferas de soberania, e, portanto, transgressão das leis criacionais de Deus. Como já disse Rookmaaker, “a arte não precisa de justificativa”. Tal afirmação, no entanto, não implica na autonomia da arte ou seu desprezo pela cosmovisão bíblica; pelo contrário, toda e qualquer esfera somente realiza e concretiza suas potencialidades quando se encontra pautada nos pressupostos bíblicos, levando em consideração os pilares do macrodrama da história salvífica: Criação, Queda, Redenção e Consumação. Portanto, afirmarmos de fato que o Princípio Regulador do Culto deve exercer sua autoridade e vigilância de forma intransigente – mas na área que lhe cabe: o culto público e privado (no lar e na devoção particular). Jamais deve transgredir os limites de sua própria esfera, com o risco de se tornar pietismo ou iconoclastia gnóstica. Em suma, não se pode negar, todavia, o excelente trabalho litúrgico, incluindo a publicação de obras teológicas que enfatizam e explanam o Princípio Regulador do Culto, livros que se fazem extremamente necessários nesse nosso contexto eclesiástico sincrético e idolátrico, que efetivamente precisa ser purificado por uma nova reforma direcionada pelo Espírito de Deus.


Herman Bavinck, em uma de suas palestras sobre a relação entre Revelação e cultura, lança as bases de um pensamento que se apresenta como uma alternativa ao atual dilema do meio reformado. Para o teólogo holandês, a religião não é o cão de guardada cultura, e esta, por sua vez, não é autônoma nem livre para conceber uma ética alheia à Lei de Deus. Nas palavras de Bavinck:

A ciência, arte e moralidade são cognatas em origem, essência e sentido à religião, pois todas se baseiam na crença num mundo ideal, cuja realidade é assegurada e garantida somente pela religião, isto é, da parte de Deus por meio da revelação. 
Indubitavelmente tem havido um empenho para tornar a cultura ética independente da religião. Todavia, tal tentativa é ainda nova e restrita a um pequeno círculo e provavelmente há de ter pouco êxito. É sem dúvida uma desonra para a religião servir como um agente policial ou como um cão de guarda da moralidade. Religião e moralidade não estão unidas nesse modo externo e mecânico, mas estão em aliança entre si de forma orgânica, por causa de suas naturezas íntimas. O amor a Deus inclui o amor ao nosso próximo, e este se reflete naquele, pois o bem se apresenta a todos nós, desde nossa tenra idade, na forma de um mandamento. Nem a ética autônoma nem a ética evolucionista podem mudar algo nisso. A criança não cria gradualmente leis morais por meio do instinto ou reflexão, antes, ela cresce num círculo que possuía anteriormente essas leis e que as impõe sobre ela com autoridade. À medida que olhamos para as nações e examinamos a história da humanidade, testemunhamos muita hesitação e variedade, no entanto, sempre encontramos, por toda parte, um fundo de leis morais. Todo homem reconhece que, na moralidade, existe uma lei que lhe é sobreposta, obrigando-o, em sua consciência, à obediência. Se de fato é assim, então, nesse surpreendente fenômeno, estamos lidando ou com uma ilusão, ou com um sonho, ou como uma fantasia da humanidade, ou, ainda, com uma realidade que se eleva bem acima do mundo empírico e nos preenche com a mais profunda reverência (BAVINCK, Philosophy of Revelation, p. 260-261, tradução nossa).

Se queremos de fato 
renovar a nossa cultura já degradada, será necessário primeiramente desistir de nossas pretensões idolátricas de renovação do culto. Um culto que não se sustenta sobre as firmes bases das Escrituras, deixando espaço para a autonomia humana, produzirá eventualmente uma cultura também autônoma, que se opõe a tudo que está relacionado à Lei de Deus.

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Autor: Fabrício Tavares
Fonte: Bereianos

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Seus defeitos me fazem crescer




Como o próprio nome já diz, "defeitos", deduzimos não ser uma coisa boa. Mas como os defeitos do outro podem ser benéficos para você? Nos planos de Deus isso pode ser algo bom, o problema é que muitas vezes somos impacientes e de cara nos irritamos e pensamos em desistir de tudo. Quantos casamentos terminados, quantas amizades moídas por não suportarmos o defeito do outro? É cômodo nos afastarmos daquilo que nos fere, seja qual for a parte emocional, o difícil é enfrentar com sabedoria sem sermos covardes.

É fácil olharmos para os defeitos dos outros, o que não acontece com tanta frequência é olharmos para nós mesmos, nos autoavaliar e pensar no que precisamos mudar. Acaba acontecendo que não suportamos algumas coisas na outra pessoa, mas é cômico como queremos que as pessoas engulam seco nossas atitudes defeituosas, porém perfeitas aos nossos olhos.

Se Cristo olhasse nossos defeitos e simplesmente nos desce às costas, o que seria de nós? Louvado seja por Ele ser longânimo e misericordioso. Aí está! Que tal aprendermos com as Escrituras como lidar com os defeitos do outro para que sejamos parecidos com Cristo?

"Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou..."(Ef. 2.4)

Um dos mandamentos do Senhor é para que amemos ao próximo como a nós mesmos. Nos dias de hoje, as pessoas estão sedentas de amor, consequentemente todas as virtudes que viriam deste amor se esvai pelo ralo. Aqui neste pequeno versículo vemos que Deus é misericordioso por que nos amou! Como eu ou você teremos misericórdia dos erros alheios se estivermos desprovidos de amor? 

Precisamos buscar isso em Deus, orar para ter um coração misericordioso, um coração fácil em perdoar; lembrando que tais virtudes não significam sermos bobos. Além do amor ser manso, ele também serve para correção: 

"...repreenda, corrija, exorte com toda paciência e doutrina." (2 Timóteo 4.2)

A palavra paciência vem do L. PATI, "aguentar, sofrer", do Grego PATHE, "sentimento". 

Isso é uma virtude de quem suporta males e incômodos sem queixumes nem revolta. Olha que interessante, para suportar males, literalmente, haja paciência! 

Se o amor tudo suporta, como suportará sem paciência? Esta virtude é outra que deve ser trabalhada, se ao seu lado existissem apenas pessoas perfeitas, não haveria como aperfeiçoar a paciência, nem a misericórdia, tão pouco iria crescer à imagem de Cristo. Aprenda a crescer com o defeito de quem está ao seu lado: 

        Seu orgulho, me tornou humilde;
        Seu falatório, me fez uma boa ouvinte;
        Seu mau humor, me fez ser uma pessoa engraçada para ter fazer sorrir;
        Sua desesperança, me fez aumentar a fé para poder te ajudar;
        Sua agitação, me fez alguém mais tranquila;
        Seus atrasos, me fizeram ser pontual;
        Sua pressa, me fez ter cautela;
        Sua memória curta, me fez ser mais atenta;
        Sua falta de interesse, me fez uma pessoa interessada;
        Seu desleixo, me fez ser organizada.   

Quantos defeitos poderíamos citar aqui, dos quais nos fariam melhorar! Se observarmos apenas os pontos negativos, como se isso fosse um "carma", vamos acabar nos tornando tão defeituosos quanto a nossa maneira de enxergar as coisas. 

Não seja covarde a ponto de se afastar das pessoas que quase te fazem perder a paciência, não as abandone, por que você pode perder a grande chance de se tornar parecido com Cristo. Os seus defeitos, me fazem crescer! 

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Autora: Daniele Bosqueti
Fonte: Mulher Cristã & teologia