quarta-feira, 6 de maio de 2015

O conceito de gratidão nos salmos






Os estudiosos classificam os salmos em vários gêneros literários, dentre os quais estão os “salmos de ações de graças”. Curiosamente são poucos os salmos que podem ser classificados nesse gênero. Isso porque nosso conceito de gratidão talvez não condiga com a mentalidade dos autores bíblicos. Vejamos.

Salmo 100.4: Entrai por suas portas com ações de graças e nos seus átrios, com hinos de louvor; rendei-lhe graças e bendizei-lhe o nome.” (ARA). O verbo traduzido por “render graça” é o hebraico yadah. Essa palavra significa essencialmente um reconhecimento (confissão pública) dos atos de Deus na história.

Segundo Claus Westermann, não existe nenhuma palavra no AT que expresse a ideia contemporânea de “agradecer”. Quando se quer expressar gratidão, usa-se o verboyadah, “louvar”, ou berek, “abençoar” (o adorador reconhece Deus como abençoador). Westermann afirma que “o AT não possui o nosso conceito autônomo de agradecimento. A expressão de gratidão a Deus está incluída no louvor, é um modo de louvor.” [1]

Por isso, a melhor tradução do termo yadah seria “confissão”: o adorador confessa os atributos e os atos de Deus na história.  

A noção de ‘agradecimento’, que seria a base da ação de graças, não é habitual ao homem bíblico. Esse homem, quando beneficiário de um dom, não ‘agradece’, ele ‘louva’ (veja exemplos dessa reação em Dt 9.10; 24.13; 2Sm 14.22; Jó 31.19s.; Ne 11.11). Por outro lado, o verbo que traduções recentes traduziam por ‘dar graças’ (forma causativa hodah) significa, na realidade, louvar, apreciar, especialmente ‘reconhecer’ (comparar justamente com ‘reconhecimento’’), a saber: experimentar uma verdade abstrata já conhecida e ‘reconhecer’ toda a sua riqueza. Essa significação é demonstrada, e também ilustrada, pelos verbos que os salmistas põem em paralelo com hodah, isto é, sapper, ‘contar, enumerar, enuncia’ (Sl 9.2; 78.3-6); haggid, ‘narrar’ (30.10; 92.2s.), hallel, ‘louvar’ (33.18; 44.9; 109.30; 111.1); zammer, “cantar” (18.50; 30.5,13, etc.).[2]

Ou seja, na mentalidade hebraica, agradecimento se traduz em louvor. Assim, agradecer é louvar a Deus. Você quer agradecer a Deus? Então, não vá a ele com meras palavras do tipo “obrigado”, mas derrame-se diante dele em louvor e adoração.

Ora, o que é gratidão senão o reconhecimento de que não existe nenhuma possibilidade de retribuição por um benefício recebido? O que é gratidão senão o surgimento da consciência de que não podemos retribuir um benefício? Daí vem a indagação do salmista: “O que darei ao Senhor, por todos os seus benefícios?” (Sl 116.12).

Há uma estória judaica que ilustra muito bem esse conceito de gratidão. Conta-se que Abraão recebia peregrinos e os alimentava. Depois Abraão impelia os peregrinos a louvarem Adonai. Caso os peregrinos se recusassem a render graças ao Deus de Abraão, então o patriarca dizia veementemente: “Então pagas o que deves”.

Ou seja, caso você não consiga quitar sua dívida, e se a quitação da mesma lhe for oferecida, então simplesmente agradeça. Mas se não quiser agradecer, então pague. Se não puder pagar, então agradeça.

Assim, mediante tudo aquilo que o Senhor fez por você, mediante a impossibilidade de retribuição pela bênção recebida, não lhe resta mais nada, senão se prostrar diante dele em adoração. Mas lembre-se: gratidão a Deus não é um mero “obrigado”. É, antes, um coração rendido. É louvar. Por isso, atenda o convite do salmista:

Cantem hinos a Deus, o SENHOR, todos os moradores da terra! Adorem o SENHOR com alegria e venham cantando até a sua presença. (Sl 100.1-2 [NTLH]). 

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Referências bibliográficas:
- WESTERMANN, Claus. The praise of God in the Psalms. Richmond, John Knox Press, 1965. 
- MONHOUBOU, L. “Os Salmos” em Os Salmos e os outros escritos. São Paulo, Paulus, 1996. 

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Fonte: Teologia Brasileira

terça-feira, 5 de maio de 2015

A morte da morte - Por Denis Monteiro


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Se Cristo morreu a nossa morte para vivermos a sua vida, por que muitos cristãos morreram e muitos ainda morrerão (e nós também)? Ou seja, a Bíblia mostra que Cristo sofreu a condenação de nossos pecados e por sua justiça fomos justificados, mediante a fé, diante de Deus, e mesmo assim sofremos com a morte física, por quê?

É justamente isso que o 16º Dia do Senhor no Catecismo de Heidelberg vai tratar:

40. Por que Cristo devia sofrer a morte?
R. Porque a justiça e a verdade de Deus (1) exigiam a morte do Filho de Deus; não houve outro meio de pagar nossos pecados (2). 
(1) Gn 2:17. (2) Rm 8:3,4; Fp 2:8; Hb 2:9,14,15. 
41. Por que Ele foi "sepultado"?
R. Para dar testemunho de que estava realmente morto (1). 
(1) Mt 27:59,60; Lc 23:53; Jo 19:40-42; At 13:29; 1Co 15:3,4. 
42. Se Cristo morreu por nós, por que devemos morrer também?
R. Nossa morte não é para pagar nossos pecados (1), mas somente significa que morremos para o pecado e que passamos para a vida eterna (2). 
(1) Mc 8:37. (2) Jo 5:24; Rm 7:24,25; Fp 1:23. 
43. Que importância tem, para nós, o sacrifício e a morte de Cristo na cruz?
R. Pelo poder de Cristo, nosso velho homem é crucificado, morto e sepultado com Ele (1), para que os maus desejos da carne não mais nos dominem (2), mas que nos ofereçamos a Ele, como sacrifício de gratidão (3). 
(1) Rm 6:6. (2) Rm 6:8,11,12. (3) Rm 12:1. 
44. Por que se acrescenta: "desceu ao inferno"?
R. Porque meu Senhor Jesus Cristo sofreu, principalmente na cruz inexprimíveis angústias, dores e terrores (1). Por isso, até nas minhas mais duras tentações, tenho a certeza de que Ele me libertou da angústia e do tormento do inferno (2). 
(1) Mt 26:38; Mt 27:46; Hb 5:7. (2) Is 53:5. 

A morte de Cristo é o pagamento total de nossa dívida diante de Deus, e Sua morte foi necessária porque não havia nenhum ser humano que conseguiria pagar a divida Dele e de qualquer outro pecador; “porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm 3.23), nenhum justo sequer (Rm 3.10). Portanto, nenhuma criatura poderia suportar a ira de Deus por causa de seus próprios pecados, por isso, Cristo, o qual foi profetizado desde o Gênesis, mostra que Ele era quem esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15) e o Servo que sofreria em favor de seu povo (Is 53) sendo obediente até a morte e morte de Cruz (Fp 2.8). 

Não obstante, Cristo, ao sofrer por nossos pecados e morrer, ele também foi sepultado. O Seu sepultamento mostra a veracidade de sua morte, não somente isso, mas também que Cristo venceu a morte em sua ressurreição não tendo poder sobre Ele, promessa essa que foi feita aos santos quando o que é corruptível se revestir da incorruptibilidade (1Co 15.54-57). 

Voltando a pergunta inicial, se Cristo morreu a nossa morte, por causa de nossos pecados, por que nós morreremos assim como outros irmãos na fé morreram? 

A resposta da pergunta 42 é muito interessante: [A] morte não é para pagar pelos nossos pecados, mas só um aniquilamento do pecado, e uma passagem para a vida eterna. 

Ou seja, a morte é o caminho mais rápido, antes da consumação final, de pararmos de pecar e de estarmos diante de nosso Salvador. E isso é muito interessante, porque todos nós desejamos estar eternamente com Cristo, mas ninguém quer morrer. Por que será? 

Se a nossa morte faz com que paramos de pecar e faz com que cheguemos à presença do Senhor, a morte de Cristo nos proporciona alguns benefícios, conforme mostra a resposta 43 do Catecismo:


      • O nosso velho homem é crucificado, morto e sepultado;
      • Os nossos maus desejos já não reinam sobre nós;
      • Possibilitando-nos oferecer como um sacrifício vivo em gratidão a Deus.


Portanto, por causa de nossos pecados, o nosso Salvador pagou a nossa dívida recebendo a ira de Deus na cruz do calvário, e essa ira, segundo Calvino, é o que significa o “descer ao hades”. Cristo sofrendo na cruz todo desprezo, angústia e dor. 

Por fim, devemos nos humilhar diante do nosso Salvador,  reconhecendo a cada dia que a nossa salvação foi fruto da obra de redenção do Senhor Jesus Cristo e que nós não tínhamos nenhum meio para pagar a nossa dívida diante de Deus. Mas devemos nos alegrar por causa da morte de Cristo, pois é um consolo para a nossa alma. Porque o tormento do inferno nós não enfrentaremos porque Cristo suportou na cruz por nós, nos dando vida e vida com abundância. 

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Notas:
¹ “E, de fato, não há abismo mais formidável que se possa imaginar que te sentires abandonado e alienado de Deus; e quando o invocas, não é ouvido, justamente como se ele próprio houvesse conspirado para a tua ruína”...  “ele suportou o peso da severidade divina, porquanto, ferido e afligido pela mão de Deus, experimentou todos os sinais de um Deus irado e punitivo”. (CALVINO, João. As Institutas, vol. II. 2º Ed. – São Paulo: Cultura Cristã. 2006. pp. 268, 269)

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Fonte: Bereianos

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A Reforma e o Trabalho - Por Rev. Hermisten Maia

A Reforma e o Trabalho

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Por Rev. Hermisten Maia


Trabalho pode ser definido como o esforço físico ou intelectual, com vistas a um determinado fim. O verbo "trabalhar" é proveniente do latim vulgar tripaliar: torturar com o tripalium. Este é derivado de tripalis, cujo nome é proveniente da sua própria constituição gramatical: tres & palus (pau, madeira, lenho), que significava o instrumento de tortura de três paus. A idéia de tortura evoluiu, tomando o sentido de "esforçar-se", "laborar", "obrar"[1]

Etimologia à parte, devemos observar, que o trabalho, apresenta as seguintes características:

a) Envolve o uso de energia destinado a vencer a resistência oferecida pelo objeto que se quer transformar – intencionalidade.
b) O trabalho se propõe sempre a uma transformação.
c) Todo o trabalho está ligado a uma necessidade, externa ou interna.
d) Todo trabalho traz como pressuposto fundamental, o conceito de que o objeto, sobre o qual trabalha, é de algum modo aperfeiçoável, mediante o emprego de determinada energia – esforço e perseverança.

Na Idade Média, há de certa forma, um retorno à idéia grega, considerando o trabalho – no sentido manual, (banausi/a) (banausia), "arte mecânica", como sendo algo degradante para o ser humano,[2] e inferior à (sxolh)(scholê), ao ócio, descanso, repouso, à vida contemplativa e ociosa (sxola/zw) (scholazõ), por um lado, e à atividade militar pelo outro. Na visão de São Tomás de Aquino (1225-1274), o trabalho era no máximo, considerado "eticamente neutro".[3] Segundo a igreja romana, "a finalidade do trabalho não é enriquecer, mas conservar-se na condição em que cada um nasceu, até que desta vida mortal, passe à vida eterna. A renúncia do monge é o ideal a que toda a sociedade deve aspirar. Procurar riqueza é cair no pecado da avareza. A pobreza é de origem divina e de ordem providencial," interpreta Pirenne.[4]

Ainda na Idade Média, a posição ocupada pelo trabalho era regida pela divisão gradativa de importância social: Oradores (eclesiásticos), Defensores (guerreiros) e Lavradores (agricultores). Desta forma, os eclesiásticos, no seu ócio e abstrações "teológicas" é que tinham a prioridade, ocupando um lugar proeminente. Biéler comenta: “O trabalho, especialmente o trabalho criador de bens e riqueza, o trabalho manual, se não decaíra mais até o nível do trabalho servil da Antiguidade, foi, todavia, considerado como uma necessidade temporal desprezível com relação aos exercícios da piedade. E aqueles que se dedicavam às atividades econômicas e financeiras, os negociantes e banqueiros, eram particularmente desconsiderados.”[5]

Não nos cabe aqui analisar a história da filosofia do trabalho, contudo, devemos mencionar, que a Reforma resgatou o conceito cristão de trabalho.

Na ética do trabalho, Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) estavam acordes quanto à responsabilidade do homem de cumprir a sua vocação através do trabalho. Não há lugar para ociosidade. Com isto, não se quer dizer que o homem deva ser um ativista, mas sim, que o trabalho é uma "bênção de Deus". Lutero teve uma influência decisiva, quando traduziu para o alemão o Novo Testamento (1522), empregando a palavra "beruf" para trabalho, em lugar de "arbeit". "Beruf", acentua mais o aspecto da vocação do que o do trabalho propriamente dito. As traduções posteriores, inglesas e francesas, tenderam a seguir o exemplo de Lutero. A ideia que se fortaleceu, é a de que o trabalho é uma vocação divina.[6] Calvino, diz: “Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante os olhos de Deus.”[7]

Calvino defendeu três princípios éticos fundamentais: Trabalho, Poupança e Frugalidade.[8] Note-se que a poupança deveria ter sempre o sentido social.[9] Comentando 2Co 8.15, diz: “Moisés admoesta o povo que por algum tempo fora alimentado com o maná, para que soubesse que o ser humano não é alimentado por meio de sua própria indústria e labor, senão pela bênção de Deus. Assim, no maná vemos claramente como se ele fosse, num espelho, a imagem do pão ordinário que comemos. (...) O Senhor não nos prescreveu um ômer ou qualquer outra medida para o alimento que temos cada dia, mas ele nos recomendou a frugalidade e a temperança, e proibiu que o homem exceda por causa da sua abundância.[10] Por isso, aqueles que têm riquezas, seja por herança ou por conquista de sua própria indústria e labor, devem lembrar-se de que o excedente não deve ser usado para intemperança ou luxúria, mas para aliviar as necessidades dos irmãos. (...) Assim como o maná, que era acumulado como excesso de ganância ou falta de fé, ficava imediatamente putrificado, assim também não devemos alimentar dúvidas de que as riquezas que são acumuladas à expensa de nossos irmãos são malditas, e logo perecerão, e seu possuidor será arruinado juntamente com elas, de modo que não conseguimos imaginar que a forma de um rico crescer seja fazendo provisões para um futuro distante e defraudando os nossos irmãos pobres daquela ajuda que a eles é devida.”[11]

Para Calvino a riqueza residia em não desejar mais do que se tem e a pobreza, o oposto.[12] Por sua vez, também entendia que a prosperidade poderia ser uma armadilha para a nossa vida espiritual: “Nossa prosperidade é semelhante à embriaguez que adormece as almas.”[13] “Aqueles que se aferram à aquisição de dinheiro e que usam a piedade para granjearem lucros, tornam-se culpados de sacrilégio.”[14] Daí que, para o nosso bem, o Senhor nos ensina através de várias lições a vaidade dessa existência.[15] Comentando o Salmo 62.10, diz: “Pôr o coração nas riquezas significa mais que simplesmente cobiçar a posse delas. Implica ser arrebatado por elas a nutrir uma falsa confiança. (...) É invariavelmente observado que a prosperidade e a abundância engendram um espírito altivo, levando prontamente os homens a nutrirem presunção em seu procedimento diante de Deus, e a se precipitarem em lançar injúria contra seus semelhantes. Mas, na verdade o pior efeito a ser temido de um espírito cego e desgovernado desse gênero é que, na intoxicação da grandeza externa, somos levados a ignorar quão frágeis somos, e quão soberba e insolentemente nos exaltamos contra Deus.”[16] Em outro lugar: “Quanto mais liberalmente Deus trate alguém, mais prudentemente deve ele vigiar para não ser preso em tais malhas.”[17] “Quando depositamos nossa confiança nas riquezas, na verdade estamos transferindo para elas as prerrogativas que pertencem exclusivamente a Deus.”[18] A nossa riqueza está em Deus, Aquele que soberanamente nos abençoa.[19] Portanto, “.... é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança.”[20] Quanto ao dinheiro, como tudo que temos provém de Deus, “o dinheiro em minha mão é tido como meu credor, sendo eu, como de fato sou, seu devedor.”[21] Somos sempre e integralmente dependentes de Deus: “Um verdadeiro cristão não deverá atribuir nenhuma prosperidade à sua própria diligência, trabalho ou boa sorte, mas antes ter sempre presente que Deus é quem prospera e abençoa.”[22]

Max Weber (1864-1920) ao analisar o progresso econômico protestante, não conseguiu captar este aspecto fundamental no protestantismo, que enfatize o trabalho, não simplesmente pelo dever ou vocação, conforme Weber entendeu, mas sim, para a glória de Deus; este é o fator preponderante, que escapou à sua compreensão.[23]

As Escrituras nos ensinam que Deus nos criou para o trabalho (Gn 2.8,15). O trabalho, portanto, faz parte do propósito de Deus para o ser humano, sendo objeto de satisfação humana: “Em vindo o sol, (...) sai o homem para o seu trabalho, e para o seu encargo até à tarde” (Sl 104.22-23). Na concepção cristã, o trabalho dignifica o homem, devendo o cristão estar motivado a despeito do seu baixo salário ou do reconhecimento humano; embora as Escrituras também observem que o trabalhador é digno do seu salário (Lc 10.7). Seu trabalho deve ser entendido como uma prenda feita a Deus, independentemente dos senhores terrenos; deste modo, o que de fato importa, não é o trabalho em si, mas sim o espírito com o qual ele é feito; a dignidade deve permear todas as nossas obras, visto que as realizamos para o Senhor. A prestação de contas de nosso trabalho deverá ser feita a Deus; é Ele com o seu escrutínio perfeito e eterno Quem julgará as obras de nossas mãos, daí a recomendação do Apóstolo Paulo:

E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus (...). Servos, obedecei em tudo aos vossos senhores segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-só agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor, e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas. Senhores, tratai aos servos com justiça e com eqüidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu (Cl 3.17,22-4.1)(Vd. Ef 6.5-9).

Portanto, não há desculpas para a fuga do trabalho, mesmo em nome de um motivo supostamente religioso (1Ts 4.9-12/Ef 4.28; 1Tm 5.11-13).

Um comentarista bíblico, resume bem o espírito cristão do trabalho, afirmando: “O trabalhador deve fazê-lo como se fosse para Cristo. Nós não trabalhamos pelo pagamento, nem por ambição, nem para satisfazer a um amo terreno. Trabalhamos de tal maneira que possamos tomar cada trabalho e oferecê-lo a Cristo.”[24] (Vd. 1Tm 6.1-2).

Lamentavelmente, o conceito Protestante do trabalho, no pensamento moderno, foi secularizado, abandonando aos poucos a concepção religiosa que lhe dera suporte, tornando-se agora apenas uma questão de racionalidade, não necessariamente de "vocação" ou de "glorificação a Deus". Perdeu-se a “infra-estrutura”, ficou-se apenas com a “superestrutura.”[25]

O homem é um ser que trabalha. A sua mão é uma arma "politécnica", instrumento exclusivo, incomparável de construção, reconstrução e transformação. Faz parte da essência do homem trabalhar. O homem é um artífice que constrói, transforma, modifica; a sua vida é um eterno devir, que se realiza no fazer como expressão do seu ser... O ser como não pode se limitar ao simples fazer, está sempre à procura de novas criações, que envolvem trabalho. Acontece, que se o homem é o que é, o seu trabalho revela parte da sua essência. A "originalidade" do seu trabalho será uma decorrência natural da sua autenticidade. O homem autentica-se no seu ato construtivo. O trabalho deve ser visto primariamente como um privilégio, um compartilhar de Deus com o homem na preservação da Criação (Gn 2.15). Por isso, nunca poderemos ter como meta da sociedade, a ausência do trabalho. Deixar de trabalhar, significa deixar de utilizar parte da sua potência, equivale a deixar parcialmente de ser homem; em outras palavras, seria uma desumanidade.

Algumas conclusões:

Todos somos vocacionados ao trabalho. Sabemos que no cumprimento de nossa vocação estamos servindo primeiramente a Deus. Contudo, isso não nos deve tornar presas ingênuas de manipulações e explorações. Devemos trabalhar dignamente e lutar pelos nossos direitos dentro do que permite a lei, desde que esta não fira as Escrituras. Buscar um lugar melhor onde pudemos realizar de modo mais eficiente o nosso trabalho e, termos remuneração compatível, não entra em conflito com as Escrituras; no entanto, o não reconhecimento de nosso trabalho nunca poderá servir de pretexto para a nossa baixa qualidade. Estamos sempre servindo a Deus.

Para nós Reformados, o trabalho é uma das bênçãos de Deus. Num país como nosso com alta taxa de desemprego, devemos de forma ainda mais veemente agradecer a Deus pelo trabalho que temos.

A maneira como trabalhamos reflete a nossa vida espiritual (Ef 6.5-7). Lembremo-nos também, de que a guarda do “sábado” é precedida por seis dias de trabalho (Ex 20.9). O descanso é para quem trabalha.

Por sua vez, os patrões e chefes cristãos que vivem no Espírito, por certo, não se aproveitam da sua autoridade para pressionar os que estão sob as suas ordens, valendo-se do fato de que há mais procura do que oferta de emprego, a fim de ameaçá-los, menosprezá-los ou tratá-los indignamente como se fossem apenas uma ferramenta humana descartável. A justiça divina (Is 64.6) deve ser a tônica da relação patrão-empregado e empregado-patrão. A base para este relacionamento, é a certeza de que, quer sejamos empregados, quer sejamos patrões, todos temos o mesmo Senhor no céu (Ef 6.9; Cl 4.1). A possibilidade real desta prática está no fato de sermos guiados e capacitados pelo Espírito Santo.

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Notas:
[1]Cf. Trabalho: In: José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Lisboa, Confluência, 1956, II, p. 2098; Trabalhar: In: Aurélio B.H. Ferreira, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 2ª ed. rev. aum. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986, p. 1695; Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 2ª ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 779; Trabajar: In: J. Corominas, Diccionário Crítico Etimológico de la lengua Castellana, Madrid, Editorial Gredos, (1954), Vol. 4, p. 520-521; Trabalho: In: Antonio Houaiss, ed.Enciclopédia Mirador Internacional, São Paulo, Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1987, Vol. 19, p. 10963-10964.

sábado, 2 de maio de 2015

Teologia - Por William Ames


Segundo William Ames, a teologia “é para nós a suprema e a mais nobre das disciplinas exatas. É um guia e plano-mestre para o nosso fim mais elevado, enviado por Deus de maneira especial, tratando das coisas divinas... Não existe preceito de verdade universal relevante para se viver bem em economia doméstica, moralidade, vida política e legislação que não pertença legitimamente à teologia” (A medula da teologia, 1623).
Os puritanos eram estritos defensores da teologia reformada, que inicialmente tinham em comum com a Igreja da Inglaterra (os Trinta e Nove Artigos ensinavam a doutrina reformada da Ceia do Senhor e afirmavam a predestinação). Depois que muitos anglicanos adotaram uma posição mais arminiana (1620s), os puritanos defenderam vigorosamente o calvinismo devido à sua afirmação intransigente da graça imerecida de Deus.
Alguns puritanos, como William Perkins, William Ames e John Owen, deram importante contribuição para o desenvolvimento da ortodoxia reformada.
Uma contribuição puritana mais específica foi a articulação do aspecto prático e afetivo da religiosidade. Richard Rogers, John Dod e Richard Sibbes foram fontes de um movimento devocional puritano que floresceu especialmente após a Restauração (1660) com grandes autores como Richard Baxter, Joseph Alleine e John Flavel.
Os puritanos escreveram uma enorme literatura sobre a vida espiritual, incluindo sermões, meditações, exposições bíblicas práticas, aforismos de orientação espiritual, biografias e autobiografias.
Essa literatura dava ênfase a temas como a experiência pessoal de conversão, a regeneração pelo Espírito Santo, a união mística da alma com Cristo, a busca de certeza da salvação e o crescimento em santidade de vida.
A maior expressão dessa “teologia afetiva” foi a alegoria de John Bunyan (†1688), O Peregrino, que retratou a vida cristã como peregrinação e luta espiritual.
A maioria dos puritanos estavam firmemente comprometidos com uma igreja nacional, dando forte ênfase à pureza do culto e do governo bíblicos como parte de uma reforma contínua. Uma pequena minoria não via esperança de reforma sem separação da igreja oficial e a criação de uma igreja de santos em relação pactual.
“A fidelidade da teologia puritana à revelação bíblica, sua abrangência, sua integração com outros tipos de conhecimento, sua profundidade pastoral e espiritual, seu êxito em criar uma tradição duradoura de culto, pregação e espiritualidade fazem dela uma tradição de permanente importância no cristianismo de língua inglesa e na tradição reformada mais ampla” (I. Breward).


sexta-feira, 1 de maio de 2015

John Bunyan, O Peregrino e a Perseverança dos santos!





Viajar de um mundo fugaz para um eterno é uma longa jornada. Do que precisamos? “E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar, para que caminhassem de dia e de noite.” - Êxodo 13:21
Do que Israel precisava?Precisava de um guia em sua jornada do deserto ao lar.Eles teriam uma longa jornada de quarenta anos.Eles teriam que caminhar por um caminho estranho que jamais haviam pisado antes.Inúmeros inimigos iriam se esforçar dia e noite para impedir o seu progresso.Os perigos forravam cada parte do caminho.Eles tinham corações enganadores.Essa não é a história de cada homem regenerado? Um peregrino numa viagem para um país que Deus nos descreveu e chamou? A viagem é longa... Leva talvez cerca de 20, 30, 40, 50, 60, 70... anos.

Eu posso resistir?Todos nós temos momentos em que olhar para frente com suas aflições, lutas... reais ou imaginárias, e é de se admirar que pensamentos furtivos venham até nós...Será que vou ter forças para continuar confiando em Cristo como meu prazer todo suficiente, minha delícia perpétua? E se o sofrimento for demais para mim? Se, nestes momentos, não sabemos o que a Palavra de Deus ensina, podemos ser sobrecarregados com medo e desespero.Então, o que a Palavra de Deus ensina? Aqui estão nas Escrituras que eu encontrei útil - Judas 1:24-25No final de sua carta Judas levanta uma palavra de louvor a Deus:Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém.

Observe que agora, nesta vida, Deus é capaz de mantê-lo livre de tropeçar. O que significa que, na Segunda Vinda, Deus vai lhe apresentar irrepreensíveis diante dele com grande alegria.Então em todas as aflições, artimanhas do diabo, mundo, carne... entre o agora e o céu, Deus vai estar lá – impedindo de tropeçar, fortalecendo sua fé, dando-lhe toda esperança, resistência e coragem que você precisa para se manter confiando em Cristo. Confiando nEle como fonte e pão – ou seja, satisfação completa, saciedade e prazer – o que impede de prazeres falsos se mostrarem capazes de enganar fazendo escolhermos algo que quebre a comunhão com o prazer final – Cristo!Observe o que Paulo diz sobre os crentes que viviam em Filipos:Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo - Filipenses 1:6
A fé é uma boa obra que Deus começa em nós. Ele pega o nosso coração de pedra, e dá-nos um coração de carne que confiam em Cristo da maneira descrita – como fonte, como pão, como deleite, como a delícia da vida – tudo o mais se torna apenas um eco disso – “...dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.” - Ezequiel 36:26-27É a promessa infalível de Deus! Como John Bunyan ilustra isso no grande clássico O Peregrino?No livro O  Progresso do Peregrino, John Bunyan deu uma ilustração poderosa desta verdade.

No capítulo 5, personagem central de Bunyan, que é chamado de "cristão",encontra um ajudante chamado "intérprete". O trabalho do “intérprete” é ensinar as verdades cristãs fundamentais que ele vai precisar para a caminhada de fé.Intérprete mostra a “cristão”  um fogo que arde contra uma parede, e mostra alguém que estava de pé junto ao fogo constantemente tentando apagar o fogo jogando água sobre ele.Mas o fogo não se apaga. Não só não apaga, ele queimava cada vez mais forte e mais quente.Assim, “Cristão” pergunta a  Intérprete - O que isso significa?Intérprete explicou que o fogo é a obra da graça que Deus produz em nossos corações - a graça dá confiança em Cristo e amor por ele.Mas o diabo está constantemente tentando apagar este incêndio, este fogo, derramando sobre ele a água das tentações e preocupações e provações...O que mantém o fogo que queima? Pergunta “Cristão”.Então Intérprete quer mostrar a Cristão como o fogo não só é mantido aceso, mas mantido queimando cada vez mais alto e mais quente. Ele (Intérprete) pegou Cristão e o leva para o lado de trás da parede, onde ele vê um homem que tinha um pote de óleo em sua mão que ele derramava continuamente no fogo.

Então Cristão pergunta mais uma vez -   o que isso significa?E respondeu Intérprete:Esta é Cristo, que continuamente com o óleo de sua graça mantém o trabalho já iniciado no coração; por meio do qual, não obstante tudo o que o diabo possa fazer, as almas de seu povo ficam mais cheias de graça soberana que prevalece sempre: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza...” - 2 Coríntios 12:9 –O que vistes, o homem atrás da parede, te ensina que a tentação, provações, tristezas... não pode senão – pela ação soberana de Deus – aumentar o poder da graça que um dia apresentará todos os regenerados diante de Deus. A trabalho da graça soberana que é sempre mantido na alma.
Veja a imagem inteira que Bunyan quer mostrar...
Se tudo o que vemos é a chama da nossa fé e a água que o Diabo está derramando, podemos facilmente nos desesperar. Essa é a tragédia de não conhecer as doutrinas fundamentais – como a Perseverança dos Santos, por exemplo.
É por isso que é crucial ver o que Jesus está fazendo. Agora e para o resto de sua vida, ele vai continuar a derramar em sua chama todo o óleo que você precisa – O poder infinito da Graça Soberana – que predestinou, chamou e irá glorificar (Romanos 8.29) – Ele derrama e vai continuar a derramar todo o óleo que é necessário não apenas para que a sua fé continue, mas para que ela queime mais alto, e mais quente, e mais forte...