segunda-feira, 6 de janeiro de 2014







O sentido da Escritura é apenas um, e não muitos. Pode haver várias partes em que um sentido é subordinado a outros, como algumas profecias com respeito à libertação da Babilônia, o espiritual por Cristo, e a eternidade no céu, e algumas passagens têm uma coisa que é típico de uma outra: ainda estes são apenas um sentido completo, que só podem ser de dois tipos: uma é simples, e um outro composto. 
Algumas escrituras têm apenas um sentido simples, contendo uma declaração de apenas uma coisa, e que seja adequada ou figurativa. Um bom senso é o que surge a partir das palavras tomadas corretamente, e o figurativo das palavras tomadas em sentido figurado. Algumas têm um sentido próprio simples, como: "Deus é Espírito""Deus criou os céus e a terra;", que devem ser entendidas de acordo com a adequação das palavras. Algumas têm um sentido figurado simples, como: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Toda vara em mim que não dá fruto, ele tira”. Estas têm apenas um sentido simples, mas é figurativo, e não deve ser entendido de acordo com o significado literal das palavras, como se Cristo fosse uma árvore. Assim, você vê que o sentido é simples. O composto ou sentido misto em que é encontrada uma coisa é declarado como um tipo do outro, e por isso, é constituído por duas partes, uma respeitando o tipo, o protótipo do outro, o que não são dois sentidos, mas de duas partes que formam um sentido todo pretendido pelo Espírito Santo: por exemplo, Moisés levantou a serpente no deserto, e aqueles que foram picados pelas serpentes venenosas podem olhar para ela e serem curados. O sentido pleno do que é, "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Aqui está um sentido literal e místico, que compõem um sentido pleno entre eles. Essas escrituras que têm esse sentido composto, às vezes são cumpridas corretamente (ou, literalmente, já que é feita em oposição ao sentido figurado) no tipo e tanto no antítipo, como Oseias 11:1 "Eu chamei meu filho do Egito", que era literalmente verdade tanto de Israel quanto de Cristo. Às vezes figurativamente no tipo, e corretamente no antítipo, como Salmos 69:21 "Eles me deram a beber vinagre". Às vezes corretamente no tipo, e figurativamente no antítipo, como Salmos 02:09 "Tu os despedaçaras com uma vara de ferro”, compare com 2 Sam. 12:31. Às vezes, em sentido figurado em ambos, como Sl 41:9 "Até o meu próprio amigo íntimo, levantou contra mim o calcanhar", o que se entende de Aitofel e Judas. Agora, o sentido da Escritura deve ser apenas um, e não é múltiplo, ou seja, bem diferente e de modo algum subordinado a outro, por causa da unidade da verdade, e por causa da clareza da Escritura.
Onde há uma pergunta sobre o verdadeiro sentido da Escritura, ele deve ser encontrado através da pesquisa de outros textos que falem mais claramente, a própria Escritura sendo a regra infalível de interpretação da Escritura. Agora que isso é assim, aparece a partir dos seguintes argumentos.
1 - O Espírito Santo dá isso como uma regra, 2 Pedro 1:20, 21. Depois que o apóstolo tinha chamado os cristãos para tomarem cuidado com a escritura, ele dá-lhes esta regra para entendê-la, "Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular de nossa própria exposição. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”. Da forma que veio, assim deve ser exposto, mas ele não veio por vontade de homem algum, por isso não devemos descansar sobre os homens para o sentido da mesma, mas os homens santos falando como eles foram movidos pelo Espírito Santo, e assim nunca erraram, portanto devemos olhar para o que é dito pelo mesmo Espírito em outros lugares.
2 - Há vários exemplos aprovados disso, comparando uma passagem com outra, para descobrir o significado do Espírito Santo, conforme Atos 15:15. E com isto concordam as palavras do profeta. Os Bereianos são elogiados por isso, Atos 17:11. Sim, o próprio Cristo faz uso desta para mostrar o verdadeiro sentido da Escritura contra o diabo, Mateus 4:6 "Lança-te daqui abaixo", disse o espírito mau, pois está escrito: “Que aos seus anjos dará ordem a teu respeito”, ver vs 7. "Também está escrito", diz Cristo: "Não tentarás o Senhor teu Deus." E, assim, nosso Senhor mostra o verdadeiro sentido da Escritura, que deve ser entendido apenas no que diz respeito a aqueles que não se lançam em tentar a Deus.[1] 
_____________________Nota:[1] A regra infalível de interpretação da Escritura é a própria Escritura, e, portanto, quando há uma questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer escritura que não são vários, mas somente um, que deve ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente. 2 Pedro. 1:20, 21, Atos 15:16 (Confissão de Fé de Westminster, capítulo 1.9).
***Fonte: Puritan SermonsTradução: César Augustos Vargas AméricoDivulgação: Bereianos

sábado, 4 de janeiro de 2014

Avivamento - As perspectivas de Jonathan Edwards e Charles Finney







Em muitos círculos evangélicos atuais, quando se fala em "avivamento", pensa-se em uma grande campanha evangelística, com várias reuniões especiais, com um convidado especial e com uma música especial. Este é o sentido que se associou a este vocábulo no século XIX. As grandes campanhas evangelísticas de Charles G. Finney (1792-1875), Dwight L. Moody (1837-1899) e Reuben A. Torrey (1856-1928), bem como as de outros evangelistas do gênero, exerceram papel decisivo na sedimentação deste modo de pensar. Para outros, "avivamento" seria um "borbulhar de entusiasmo na igreja", um excitamento, um cantar empolgante, um louvor diferente e, até mesmo, um tipo de histeria emocional seguida de sinais incomuns. No século XX, a idéia de "sinais e maravilhas" passou a integrar substancialmente o cerne do conceito de avivamento.
A palavra "avivamento" (ou reavivamento, do inglês revival) surge desde o século XVII e afirma-se no século XVIII, quando se começava a falar sobre o reavivamento da religião. Embora o vocábulo fosse novo, aqueles que o endossavam entendiam claramente que a doutrina era amplamente encontrada nas Escrituras e na história da Igreja. Por "avivamento" pensava-se num "derramar incomum do Espírito Santo".
Jonathan Edwards e a soberania de Deus no avivamento
Jonathan Edwards (1703-1758) foi um dos grandes líderes do avivamento do século XVIII, que tem sido chamado pelos norte-americanos de "Grande Despertamento". Um estudo sério acerca deste assunto terá de levar em conta o que ele fez e escreveu.
D. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) e J. I. Packer, ao escreverem sobre Edwards, entendem que é na questão do avivamento que ele é preeminentemente o mestre. Avivamento é um derramamento do Espírito, e "se vocês quiserem saber algo sobre o avivamento verdadeiro, Edwards é o homem que se deve consultar", arremata Lloyd-Jones.1
Em sua clássica obra A Treatise Concerning Religious Affections (Tratado sobre Afeições Religiosas), Edwards nos fala sobre a atuação do Espírito Santo, dando grande atenção à experiência pessoal.2 O anseio de Edwards em diferenciar a experiência religiosa verdadeira da falsa resultou de sua preocupação pastoral no contexto do avivamento. Ele pregou uma série de sermões sobre 1 Pedro 1.8 tratando do assunto, em 1742-1743. O Tratado resultou da revisão do texto desses sermões para publicação em 1746. Nesta obra, Edwards argumentou que o cristianismo verdadeiro não se evidencia pela quantidade ou intensidade das emoções religiosas, mas por um coração transformado que ama a Deus e busca o seu prazer. Ele faz uma análise rigorosa das diferenças entre a religiosidade carnal e a verdadeira espiritualidade, que toca o coração com a visão da excelência de Deus e liberta o homem do egocentrismo. Edwards lutou em duas frentes: contra os adversários do avivamento e contra os extremistas; contra o perigo de extinguir o Espírito e contra o perigo de deixar-se levar pela carne e ser iludido por Satanás.
Por um lado, tinha que argumentar contra aqueles que descartavam todo o avivamento como histeria irracional; por outro, tinha que argumentar contra aqueles que pareciam pensar que tudo o que aconteceu no avivamento era "de Deus", não importa quão estranho, extremista ou desequilibrado isso fosse (...).
Em sua tentativa de traçar um caminho intermediário entre esses extremos, a um tempo similares e opostos, Edwards confrontou-se com uma série de questões fundamentais.3
Nos seus escritos, Edwards avaliou a experiência religiosa à luz das Escrituras e das suas convicções reformadas. O ponto de partida da sua pregação e da sua teologia foi o Deus soberano, em sua majestade, graça e glória. Edwards incluía uma ênfase na obra soberana e graciosa de Deus, ao tratar do avivamento. Segundo ele, o avivamento é uma visitação divina. É Deus vindo e agindo de maneira poderosamente incomum entre o seu povo. Utilizando a analogia do mar, o avivamento seria como as ondas do mar, que vêm e quebram sobre a praia, e nós podemos visualizar a história constatando essas ondas vindo e quebrando. De fato, a história dos avivamentos seria a história do povo de Deus.
Num avivamento, ou experiência religiosa genuína, o critério principal é este: se quem está no centro das atenções é Deus ou o ser humano. Para que Deus esteja no centro é necessário, em primeiro lugar, que haja nos corações um profundo senso de incapacidade, de dependência de Deus, e de convicção da nossa pecaminosidade. Além disso, é preciso que haja a consciência de que toda genuína experiência religiosa é fruto da atuação do Espírito de Deus, que transforma e santifica os pecadores, capacitando-os a amar e honrar a Deus em suas vidas.
Portanto, todas as teorias de salvação que dão ênfase às obras humanas ou à capacidade humana só desmerecem a grandeza do amor de Deus revelado a nós em Cristo Jesus e tornado real em nossos corações somente pela iluminação do Espírito Santo.4
The Distinguishing Marks of a Work of the Spirit of God (As Marcas Distintivas de uma Obra do Espírito de Deus) é um pequeno mas importante livro de Edwards baseado em um sermão que pregara em Boston, durante o Grande Despertamento.5 Depois do sermão, ele fez alguns acréscimos e publicou o livro em 1741. Trata-se de uma exposição do capítulo 4 da Primeira Epístola de João, texto que nos exorta a provarmos "os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora". De fato, no argumento de Edwards, a palavra "evidência" seria preferível à palavra "marca". Edwards extrai dos escritos do apóstolo João um total de quatorze sinais ou evidências que indicam a presença ou ausência do Espírito de Deus numa pessoa, movimento ou igreja. A seguir, ele oferece cinco conclusões práticas para a igreja, encerrando com sua ênfase característica na humildade em todas as coisas do Espírito. Esta questão lhe era crucial, pois sua igreja fora atingida pelo Grande Despertamento nas décadas de 30 e 40 do século XVIII, e aquele período foi de grande agitação e confusão, à medida que se faziam todos os tipos de reivindicação espiritual.
Em seu livro Jonathan Edwards e o Avivamento Brasileiro, o qual recomendo ao leitor, Luiz Roberto França de Matos (1956-2004), ao analisar os escritos de Edwards, conclui sobre os "princípios úteis para julgar se uma obra espiritual ou movimento religioso efetivamente vem do Espírito". Que princípios são esses? O autor resume-os como segue:
1. Quaisquer manifestações exteriores resultantes de experiências extraordinárias não são um sinal fidedigno de espiritualidade e não asseguram uma obra genuína do Espírito.
2. Uma obra verdadeira do Espírito de Deus produzirá uma mudança radical na natureza de uma alma individual, que irá expressar-se em um comportamento e prática completamente novos, revelando-se progressivamente a imagem de Jesus Cristo implantada no crente.6
Quanto ao avivamento, é ele um período marcante, quando Deus, de forma rápida e impressionante, expande o seu Reino através de um revitalizar da sua igreja; é obra poderosa do Espírito Santo no meio de muita gente ao mesmo tempo. O avivamento é uma intensificação do Cristianismo. Não é um outro tipo de Cristianismo, mas uma intensificação do mesmo quando em tempos normais. Não é diferente em essência; a diferença é de grau e não de tipo. O Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta de número 182, diz que o Espírito Santo nos ajuda "operando em nossos corações, e despertando (embora não em todas as pessoas, nem em todos os tempos, na mesma medida) aquelas apreensões, afetos e graças que são necessários...".7 Alguém recorreu à analogia entre uma "chuva normal" e uma "chuva forte". Num contexto de avivamento, os crentes são mais zelosos, pecadores são atraídos, e mesmo os incrédulos que não se convertem, se vêem convencidos da verdade. J. I. Packer diz que a "Escritura aponta para um processo repetido muitas vezes, mediante o qual, seguindo-se à frieza, descuido e infidelidade existentes dentre o povo de Deus, o próprio Deus age soberanamente para restaurar o que estava prestes a perecer". E acrescenta: "E através do transbordamento evangelístico consequente, [Deus] torna a estender ainda mais o reino de Cristo".8
Uma observação importante, que deve novamente ser enfatizada, é que o avivamento vem exclusivamente de Deus. "Porventura, não tornarás a vivificar-nos, para que em ti se regozije o teu povo?" (Sl 85.6). O desejo do salmista está voltado para Deus, pois o homem não pode operar esta façanha. É Deus quem pode vivificar. O avivamento é uma obra soberana de Deus, pois "o vento sopra onde quer" (Jo 3.8). Nós não podemos dar uma ordem para que haja um avivamento, e ele não segue um modelo previamente fixado por qualquer homem. Nós estamos amarrados à misericórdia de Deus. "Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim também o Filho vivifica aqueles a quem quer" (Jo 5.21). Isto não deveria causar-nos desespero, mas fome, um apetite pela visitação de Deus. Deveria nos levar à humilhação. Na compreensão de Edwards, avivamento é algo que acontece, não é algo que se promove. O homem não é o agente; ele é objeto dessa obra do Espírito. Deus é absolutamente soberano em cada dádiva que concede. Isto é tão verdadeiro acerca do avivamento como é de qualquer grande obra redentora. J. I. Packer colocou isto nas seguintes palavras:
O avivamento é Deus demonstrando a soberania de sua graça. Avivamento é inteiramente obra da graça, pois sobrevém a igrejas e cristãos que merecem apenas julgamento; e Deus o faz acontecer de maneira a mostrar que sua graça foi decisiva nele. Os homens podem organizar convenções e campanhas e buscar a bênção de Deus sobre elas, mas o único organizador dos avivamentos é Deus, o Espírito Santo. Repetidas vezes, o avivamento tem vindo de maneira súbita, irrompendo frequentemente em lugares obscuros, através do ministério de homens também obscuros. Na verdade, ele vem em resposta à oração, e onde ninguém orou é provável que também ninguém seja avivado; entretanto, a maneira pela qual a oração é respondida será de forma a enfatizar a soberania de Deus como a única fonte de avivamento, mostrando que todo o louvor e toda a glória precisam ser dados somente a ele.9
Iain Murray, em seu excelente livro Pentecost Today, chama a atenção para o fato de que a soberania de Deus no avivamento é revelada em que Ele é soberano nos instrumentos que se propõe utilizar neste sentido, em seus propósitos no avivamento, e com relação ao tempo quando o avivamento começa.10 Roberts & Gruffydd, em seu livreto Avivamento e seus Frutos, quando se referiram ao avivamento de 1762, no País de Gales, escreveram:
Avivamento, por definição, é o próprio princípio de vida da igreja. O poder que produz a vida é o próprio princípio de sua vida. O poder que traz à vida é o poder que sustém a vida. A igreja como um corpo de crentes permanece numa contínua necessidade do vivificante Espírito de Deus.11
Evans observa que "um dos fatos mais coagentes e convincentes que serve para demonstrar a soberania do Espírito Santo em instaurar reavivamentos é a maneira simultânea de manifestar Sua operação em vários lugares e pessoas".12 E o mesmo autor salienta o papel da oração. Não obstante ser obra graciosa e soberana, o avivamento sempre vem através da oração. Oração intensa e persistente. A correta compreensão da doutrina da soberania de Deus não implica em passividade da parte do povo de Deus. Edwards colocara isto da seguinte maneira:
Quando Deus tem algo muito grande para realizar em favor da sua igreja, a vontade dele é que isso seja precedido pelas orações extraordinárias do seu povo, segundo manifestado por Ezequiel 36.37... E é revelado que, quando Deus está para realizar grandes coisas para a sua igreja, ele começará derramando de maneira notável o espírito de graça e de súplicas (Zc 12.10).13
"Aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3.2). Isaías 64 é uma oração muito própria em favor de um avivamento. Também o salmista ora: "Vivifica-me, SENHOR, por amor do teu nome; por amor da tua justiça, tira da tribulação a minha alma" (Sl 143.11). Além disto, a pregação da Palavra de Deus é instrumento de Deus para reavivar seu povo. O SENHOR utiliza sua própria Palavra (Sl 119.25; Ez 37.9). O Salmo 119 descreve a Palavra de Deus como o meio para o reavivamento do povo de Deus: "Estou aflitíssimo; vivifica-me, SENHOR, segundo a tua palavra" (Sl 119.107). O impulso do avivamento há de partir do Senhor, como também o poder que acompanha a Palavra deve ser atribuído a Ele. Enfim, se pudermos falar de uma metodologia em Edwards, esta era, basicamente, orar por avivamento e expor a palavra da Escritura.
Charles Finney e a "ciência do avivamento"
A definição que Edwards ofereceu para avivamento sofreu grande revisão no século XIX. Um dos mais influentes líderes do chamado "Segundo Grande Despertamento" foi Charles Finney. Ele escreveu um livro em 1838 chamado Reavivamento da Religião.14 De forma contrária a Jonathan Edwards, Finney fez o avivamento repousar decisivamente sobre o homem. No livro Charles Finney e a Secularização da Igreja, Jadiel Martins Sousa (1964-2002) observa com muito acerto que "em algum sentido, pode-se dizer que Finney foi uma reação a Edwards, uma vez que o calvinismo representado por este foi repudiado e relegado à condição de fantasma por aquele".15 Finney argumentou que podemos alcançar o avivamento simplesmente utilizando adequadamente os meios corretos. No raciocínio de Finney, "orar pelo reavivamento religioso e deixar de empregar qualquer outro meio, é tentar a Deus".16 E na sua argumentação subsequente, estes meios recebem grande ênfase. A analogia que ele utilizou foi a de um fazendeiro à espera de uma colheita. Ele ara, irriga e prepara o seu campo... E à medida que ele faz essa obra, a colheita inevitavelmente acontece. Assim, o avivamento é como uma ciência. Em sua biografia de Finney, V. Raymond Edman falou sobre "a ciência do avivamento" - de fato, o título da obra em português é Despertamento: A Ciência de um Milagre.17
Avivamento é tido comumente como um ato da soberania divina, outorgado pelo Deus todo-poderoso segundo sua vontade, sob sua direção. O homem, no caso, é considerado inteiramente incapaz de promover ou impedir semelhante manifestação do poder soberano. A evidência da experiência cristã não confirma a exatidão de tal conceito, e a verdade é que parece concludente haver muito que os crentes devem fazer na preparação e promoção do verdadeiro avivamento (...).
Finney é explícito e exigente na sua explicação de que um avivamento espiritual, como ele o chamava, "não é milagre", mas antes "o resultado do emprego acertado dos meios apropriados".18
E o autor cita o próprio Finney:
Avivamento não é milagre, nem depende de milagre, em nenhum sentido. É resultado puramente filosófico do emprego acertado dos meios comuns, tal como qualquer resultado que se obtenha empregando métodos apropriados. Pode haver um milagre entre suas causas antecedentes, ou pode não haver. Os apóstolos empregavam milagres simplesmente como meios de chamar a atenção para sua mensagem e de estabelecer a autoridade divina dessa mensagem. Mas o milagre não era o avivamento...
Afirmei que o avivamento é o resultado do emprego acertado dos meios adequados. Os meios que Deus determinou para a operação de um avivamento, sem dúvida, possuem tendência natural para produzir um avivamento, senão Deus não os teria determinado. Mas, conforme todos sabemos, os meios não produzirão um avivamento sem a bênção de Deus. É-nos impossível dizer que não há a mesma influência ou ação direta da parte de Deus para produzir uma colheita de cereais ou para promover um avivamento...
Suponhamos que um homem fosse pregar essa doutrina entre agricultores, com referência à plantação de cereais. Diga-lhes ele que Deus é soberano e lhes concederá uma colheita somente quando lhe aprouver; que arar a terra, semear e cultivar como quem espera uma colheita, está muito errado; é tirar a obra das mãos de Deus, é interferir na sua soberania, é labutar com suas próprias forças; que não existe, entre os meios e os resultados, nenhuma ligação de que possam depender. E suponhamos que os agricultores aceitassem tal doutrina. Ora, poriam o mundo a morrer de fome. Pois os mesmos resultados advirão se a Igreja se deixar convencer de que a expansão do evangelho é matéria misteriosamente sujeita à soberania divina, que não existe conexão entre os meios e o fim....
Creio firmemente que, caso pudéssemos saber todos os fatos, verificaríamos que, quando os meios determinados são usados acertadamente, as bênçãos espirituais são alcançadas com maior uniformidade que as temporais.19
Em resumo, este é o pensamento de Finney acerca do avivamento. E parece que não se alterou substancialmente, embora alguns autores identifiquem alguma mudança em suas últimas correspondências. Pelo final da vida de Finney, os sinais do avivamento vinham declinando. Ele concluía que, se para trazer o avivamento bastava utilizar os meios corretos, a mesma lógica deveria aplicar-se para manter o avivamento. Entretanto, por alguma razão, essa lógica não se verificava na realidade ao seu redor. Ele sentiu a impossibilidade de manter o avivamento pelo esforço humano, e em suas cartas teria concluído que atribuiu muito da obra ao homem. À luz disto, podemos compreender porque Iain Murray conclui que a inevitável tendência da visão de Finney é que, embora espere encorajar a diligência e os sinceros esforços práticos, "ela irá, contudo, cedo ou tarde, produzir desencorajamento". No final das contas, nesta visão, não há avivamento se a desobediência continua a prevalecer, pois é a obediência humana que assegura o avivamento.20
Efetivamente, Finney estava reagindo a uma situação que considerava grave. Além disso, ele era alguém muito interessado em resultados. Para ele, a única forma de afirmar a veracidade de um método era sua eficácia em atingir alvos propostos. O fato de ter experimentado avivamento e ter se concentrado em seus efeitos visíveis deu a Finney a oportunidade de desenvolver sua tese da produção do avivamento. Nela há uma enorme confiança no caráter natural dos poderes da própria mente que são despertados e excitados pela palavra dirigida de forma clara à consciência. Embora houvesse dito que "os meios não produzirão um avivamento sem a bênção de Deus", de alguma maneira, em sua lógica matemática e forense, e promovendo alguma confusão entre causa e efeito, o avivamento ficou reduzido a uma ciência. Numa observação dos escritos de Finney a este respeito, uma leitura superficial dos títulos já é suficiente para perceber sua tese: os títulos sugerem ação exclusiva do homem e apontam para resultados seguros. O avivamento é, pois, o resultado do despertamento dos poderes da consciência por meio das várias técnicas, que passaram a ser exaustivamente empregadas. Assim nasceu o "avivalismo". A definição de Finney prevaleceu entre a maioria dos cristãos evangélicos desde então, e "avivamento" e "metodologia" passaram a caminhar juntos, e com grande detrimento da teologia. Fato, porém, é que a metodologia de Finney era, clara e inescapavelmente, uma expressão de sua teologia.
Jadiel Martins Sousa resume bem tudo isto:
Até os dias de Finney, a Igreja Cristã estava relativamente familiarizada com o fenômeno do avivamento. Vários períodos marcados por grande despertamento espiritual, desde a Reforma do século dezesseis, já haviam ocorrido. Mas a partir do ano 1800, no período do chamado Segundo Grande Despertamento, algo novo começava a ser notado. As manifestações emocionais e as expressões corporais, que já eram conhecidas dos outros períodos de avivamento, ganharam uma nova dimensão. Passavam a ser não apenas sinais secundários ou adereços presentes, mas se tornavam praticamente a essência do avivamento. Se antes essas manifestações eram algo a ser administrado, filtrado e julgado à luz da Palavra de Deus e de seus próprios frutos, agora elas eram buscadas, estimuladas e promovidas. Além disso, havia o pensamento de que todas as coisas relacionadas ao avivamento eram possíveis de serem promovidas pelo homem. Nesse contexto, o avivalista era tão importante quanto o avivamento, o evangelista tão importante quanto o evangelho.
Uma série de adornos foram acrescentados ao fenômeno do avivamento, como, por exemplo, os acampamentos, de tal forma que se acreditava ser impossível que o avivamento ocorresse fora desse ambiente meticulosamente preparado pelo homem. Esse era o novo perfil do avivamento do início do século XIX. O avivamento não era mais um fenômeno surpreendente, determinado pela soberania de Deus e executado livremente por ele. Já não era mais uma visitação especial na qual Deus restabelecia o vigor de seu povo trazendo nova disposição àqueles que estavam moribundos. O avivamento passava a ser um movimento terreno, um programa da igreja, algo planejado e executado pelos homens. Era um movimento ao qual as pessoas aderiam ou se opunham. Surgia o reavivalismo, do qual Finney se tornou o principal representante.21
Alguns líderes cristãos piedosos e operosos, contemporâneos de Finney, e que também estavam sob o impacto de uma grande visitação de Deus, se opuseram ao seu novo conceito e às suas "novas medidas". Tais homens não eram negligentes quanto aos deveres cristãos, mas entendiam que o avivamento dependia da soberania de Deus. Era ele quem determinava quando e onde ocorreria um derramamento especial do seu Espírito. Havia um elemento de surpresa no avivamento. Não era possível nem mesmo estabelecer um modelo fixo de avivamento; Deus se reserva o direito de agir de formas variadas, embora algumas marcas estejam geralmente presentes.
William Sprague (1795-1876) foi durante quarenta anos pastor da Igreja Presbiteriana em Albany, New York. Ele testemunhou um período em que milhares de homens e mulheres foram convertidos. Sendo contemporâneo de Charles G. Finney, Sprague escreveu em 1832 um livro chamado Lectures on Revivals of Religion (Conferências em Avivamento). De onde procedem tais avivamentos da religião? De onde eles vêm? Sprague põe isto da seguinte maneira:
Em todo avivamento nós somos distintamente conduzidos a reconhecer a soberania de Deus. Assim como isto é verdade e pode ser percebido na influência pela qual uma única alma é convertida, certamente não é menos manifesto nessas copiosas chuvas de influência pela qual são convertidas centenas de pessoas. É Ele quem causa isto. É Ele quem faz chover em uma cidade e não em outra. É Ele quem dirige o movimento dessas nuvens no mundo espiritual, das quais descem as bênçãos de reavivar e acelerar a graça. "O vento sopra aonde quer; e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo que é nascido do Espírito». Assim, igualmente, é todo avivamento da religião.22
Uma grande necessidade
A idéia completa de avivamento parece que se tornou estranha a muitos bons cristãos. Isto se deve a um sério equívoco na compreensão das Escrituras, e a uma lamentável ignorância da história da Igreja. Visto que em nosso tempo este termo é utilizado para uma cruzada evangelística ou para alguns eventos planejados, o significado original tornou-se quase inacessível para a maioria dos cristãos.
Precisamos ser conduzidos a um grande senso de nossa própria indignidade e insuficiência, e que seja criado dentro de nós um correspondente desejo pela manifestação da glória e do poder do SENHOR. O "seu braço não está encolhido".
As épocas de avivamento trazem um profundo sentimento de que sempre se está diante dos olhos de Deus; as coisas espirituais tornam-se sobejamente reais, e a verdade de Deus se torna irresistivelmente poderosa, tanto para ferir quanto para curar; a convicção de pecado torna-se intolerável; o arrependimento é profundo; a fé desabrocha forte e firme; a compreensão espiritual cresce depressa e aguda; e os novos convertidos amadurecem em período de tempo bem curto. Os cristãos tornam-se destemidos no testemunho e incansáveis no serviço do seu Salvador. Eles reconhecem a sua nova experiência como um verdadeiro antegozo da vida do céu, onde Cristo se lhes revelará tão plenamente que jamais serão capazes de deixar, dia e noite, de cantar seus louvores e fazer sua vontade. A alegria transborda (Salmo 85.6; 2 Crônicas 30.26; Neemias 8.12, 17; Atos 2.46,47; 8.8), abundando uma generosidade cheia de amor (Atos 4.32).23
Em 1992, ao apresentar a tradução em português do livro Avivamento, de D. M. Lloyd-Jones, o editor expressou-se da seguinte maneira:
Ao considerarmos a condição espiritual do mundo - e especialmente a do Brasil - nesta última década do século vinte, não hesitamos em afirmar que a profunda convicção dos responsáveis desta editora é que não há assunto de maior importância e urgência do que o deste livro.
Não vemos nenhuma possibilidade de uma mudança radical, benéfica e duradoura neste grande país à parte de uma visitação poderosa do Espírito Santo.24
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Notas:1 - J. I. Packer., Entre os Gigantes de Deus; Uma Visão Puritana da Vida Cristã. São José dos Campos: Editora Fiel, 1996, 389pp. e D. M. Lloyd-Jones, Os Puritanos; suas origens e seus sucessores. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993, 432pp.2 - Cf. Jonathan Edwards. A Genuína Experiência Espiritual. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993, 116pp.3 - N. R. Needahm. Introdução ao livro A Genuína Experiência Espiritual, op. cit, p. 9.4 - Alderi de Souza Matos. Avivamento nos Dias de Jonathan Edwards; relevância atual.Veja aqui!5 - Cf. Jonathan Edwards. A Verdadeira Obra do Espírito; sinais de autenticidade. São Paulo: Vida Nova, 1992, 94pp.6 - Luiz Roberto França de Mattos. Jonathan Edwards e o Avivamento Brasileiro. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 110.7 - Catecismo Maior de Westminster. Pergunta 182. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1987, p. 134. Itálicos meus.8 - J. I. Packer. Na Dinâmica do Espírito; Uma avaliação das Práticas e Doutrinas. São Paulo: Vida Nova, 1991, pp. 238 e 240.9 - Idem, p. 250.10 - Iain H. Murray. Pentecost Today?; The Biblical Basis for Understanding Revival. Carlisle, Pensilvânia: Banner of Truth, 1998, pp. 70-74.11 - Emyr Roberts & R. Geraint Guffydd, apud John Armstrong. Avivamento. O quê e por quê? São Paulo: Editora Fiel, s.d., p. 3. Itálicos meus.12 - E. Evans. Reavivamentos; sua origem, progresso e realizações. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, s.d, p.8.13 - Jonathan Edwards. Works. Ed. W. Goold. London: Banner of Truth, 1967, 4:518.14 - Para uma leitura da obra de Finney acesse online aqui! Cf. Garth M. Rossel & Richard A. G. Dupuis. Memórias Originais de Charles Finney. São Paulo: Editora Vida, 1986, 512pp.15 - Jadiel Martins Sousa. Charles Finney e a Secularização da Igreja. São Paulo: Edições Parácletos, 2002, p. 68. Esta obra atualmente é publicada e distribuída por Editora Fiel.16 - Charles Finney. Uma vida Cheia do Espírito. Venda Nova (MG): Editora Betânia, 1980, p. 39.17 - V. Raymond Edman. Despertamento: A Ciência de um Milagre. Venda Nova (SP): Editora Betânia, 1976, 161pp. O título da obra em inglês é Finney Lives On (Finney Ainda Vive).18 - Idem, pp. 61-62.19 - Ibid,. pp. 63-6420 - Murray, op. cit., p. 29.21 - Sousa, op. cit., pp. 45-46.22 - William B. Sprague. Lectures on Revivals of Religion. London: The Banner of Truth Trust, 1959, 287pp, e Appendix 165 pp. Acesse online aqui!23 - Packer, op. cit., p.250.24 - William Barkley. "Nota dos Editores", in: D. Martyn Lloyd-Jones. Avivamento. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 7.
Fonte:  Editora Fiel
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Chamados para ser "sal e luz" por Pr. J Miranda





Não podemos generalizar; mas muitos cristão estão perdendo o sentido de ser “sal e “luz” em mundo de trevas. Estão se tornando réprobos no tocante ao entendimento e néscios em nossas atitudes para com aqueles que esperam mais de nós enquanto Igreja. Jesus disse:
“Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luzdinte dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso pai que está nos céus” ( Mt 513-16).
Estas comparações feitas pelo mestre revelam como deve ser o nosso caráter cristão neste mundo decaído, ou seja, devemos ser modelos de retidão e exemplos de um verdadeiro andar com Deus digno de ser imitado por aqueles que nos vêem. Mas como ser modelos se a nossa conduta nos reprova? Como resplandecer luz diante dos homens se o nosso proceder está envolto por trevas e comprometimentos escusos? Tal comportamento dúbio torna inútil o testemunho cristão bem como transforma em imprestáveis para as proficiências do Reino aqueles que vivem de forma ambivalente sua vida cristã. Vejamos o que nos diz o Comentário Bíblico Pentecostal:
O sal é valorizado por dois atributos principais: gosto e conservação. Não perde suas salinidade se é cloreto de sódio puro. Isto nos leva à sugestão do que Jesus quis dizer quando disse com os discípulos se eles perdessem o caráter de sal. O sal não refinado extraído do mar Morto continha mistura de outros minerais. Deste sal em estado natural o cloreto de sódio poderia sofrer lixiviação em conseqüência da umidade, tornado-o imprestável. O ensino rabínico associava a metáfora do sal com sabedoria. Esta era a intenção de Jesus, visto que a palavra grega traduzida por “nada mais presta” tem “ tolo” ou “louco” como seu significado radicular. É tolice ou loucura os discípulos perderem o caráter, já que assim eles são imprestáveis para o Reino e a Igreja, e colhem o desprezo de ambos”
Neste sentido todo aquele que tem atitudes profanas ou incoerentes com a verdade do Reino se torna imprestável para o mesmo. Viver no Reino implica em abandonar as obras infrutuosas das trevas e viver como filhos da luz. Quando não se vive desta maneira, por si só a contradição já está instalada. Não se pode viver ambiguamente na atmosfera do Reino. Exige-se, portanto, do crente a renúncia completa de todas as anuências ao presente sistema corrompido e as suas benesses. Sobre a ambigüidade comportamental no tocante ao usufruto das coisas do mundo Jesus assevera:
“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6.24).
João também declara:
“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre. Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos, por onde conhecemos que é já a última hora” ( Jo 4.15-18).
E ainda Tiago Também afirma:
“Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo éinimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4).
Advertências bíblicas não faltam para condenar o relacionamento estreito de uma pessoa que se diz cristã com o mundo. Se alguém teima em continuar esta relação promíscua com as trevas mais cedo ou mais tarde colherá os resultados de tal insensatez. Não podemos ignorar que Deus é longânimo, mas frustrar sua longanimidade é loucura. Paulo declara:
“Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna” (Gl 6.7.8).
O pior de tudo é que muitos já não sentem mais a repreensão das Sagradas Escrituras em suas consciências. O nível de insensibilidade está tão avançado que tais indivíduos perderam completamente o temor para com as coisas de Deus. Só fato de se usar as escrituras e de fazer orações em nome de Deus para avalizar certos procedimentos antiéticos já é um sinal de avançada perda da sensibilidade espiritual. Contudo, resta-nos lembrar a todos estes que o julgamento está se aproximando. Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras. Pedro declara que este julgamento começa pela Igreja. Vejamos:
“Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?” ( I Pe 4.17).
Todo este quadro que está se desenhando na atualidade terá repercussões drásticas naqueles que persistem em andar pelas sendas do engano e da corrupção deste mundo. Para estes, deixo o conselho do Senhor em Apocalipse:
Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres” (Ap 2.5).Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei” (Ap 3.3).
Soli Deo Gloria!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Pela fé que foi entregue aos santos



Pela fé que foi entregue aos santos“...senti a necessidade de vos escrever, exortando-vos a pelejar pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos” (Jd 3).
Uma das palavras mais freqüentes na Bíblia é “fé”. Conceito chave, esta palavra descreve um ato que passa pela inteligência e pela vontade.
Na Bíblia, fé significa confiança absoluta em tudo que Deus tem revelado; a confiança que possuímos no testemunho que Deus manifesta acerca de Si mesmo. Às vezes, esta palavra aparece para descrever o exercício da fé por parte do homem espiritual, a crença ativa, a dependência de Deus. Outras vezes, para descrever o objeto da fé, aquilo em que alguém crê, o sistema de princípios religiosos (como é o caso do cristianismo), o anúncio doutrinário na forma de um credo.
“Vigiai, estai firmes na fé, portai-vos varonilmente e fortalecei-vos...” (1 Co 16.13 - ARC).
“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1.23 - ARC).
“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3 - ARC).
“E crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedecia à fé” (At 6.7).
Há algumas perguntas que nos ajudam a avaliar nossa fé. Neste editorial propomos três perguntas através das quais podemos fazer uma radiografia dela. São perguntas importantes e reveladoras.
Em Que Você Crê?
O conteúdo da nossa fé é fundamental. Aquilo em que você crê constitui aquilo que você é. E só a verdade é digna de ser crida. Alguém já disse que “a piedade é filha da verdade, e precisa ser alimentada... não com outro leite que não seja o de sua mãe”. John Owen afirmou que “somente a verdade capacita a alma a dar glória a Deus”. Hoje em dia ouvimos expressões tais como: “Não importa o que você crê, conquanto seja sincero”; “Todos os caminhos levam a Deus”, etc. Ao que nos parece, esta será a religião do século 21. Isto, contudo, é uma grande falácia. Aquilo que você crê constitui o alicerce da sua vida. Aquele que crê mal não pode viver bem, pois não tem alicerces.
Nossa fé requer um conteúdo. Fé sem conteúdo não é a fé bíblica: é misticismo ou superstição. E o conteúdo sólido para alicerçarmos nossa vida tem de ser a verdade. Permaneça fiel às suas convicções, mas assegure-se de que elas são verdadeiras. Jesus disse: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). Somente a verdade liberta e consola. Nossa liberdade consiste em sermos cativos da verdade. Um filósofo dinamarquês disse que, “para ser forte, preciso descobrir a verdade, pela qual eu possa viver e morrer”.
Vivemos tempos em que as pessoas estão à procura de mestres que lhes agradem. Líderes e movimentos religiosos, inclusive no meio evangélico, têm, como premissa essencial de sua prática e base de sua agenda, o pensamento corrente, os conhecimentos da psicologia e as tendências culturais. Surgem doutrinas que agradam multidões e pregoeiros que mais se parecem com aqueles animadores de programas de auditório. Entretanto, a questão não é se uma doutrina é bela, atraente, impressionante ou popular, mas se é verdadeira. O bispo de Hipona escreveu: “Se você crê somente no que gosta do evangelho e rejeita o que não gosta, não é no evangelho que você crê, mas em si mesmo”. E o reformador Lutero adverte-nos: “qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias”. No fim, a verdade triunfará. A verdade é sempre forte, não importa quão fraca pareça; e a falsidade é sempre fraca, não importa quão forte pareça.
Por nós Jesus orou. Ele pediu ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).
Como Você Crê?
A forma e a intensidade da fé têm grande importância. A fé é algo que se desenvolve mediante o uso. Ela precisa ser desenvolvida. Assim, a fé pode aumentar e ser fortalecida. Há níveis variados de fé, pois há níveis variados de desenvolvimento da alma. Por isso, fazem sentido expressões bíblicas tais como: “Homens de pouca fé”; “Geração incrédula”; “Fé do tamanho de um grão de mostarda”; “Mulher, grande é a tua fé”; “Nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”. Dos pedidos que os discípulos fizeram ao Mestre Jesus Cristo, dois se destacam. O primeiro é “ensina-nos a orar”; e o segundo, “aumenta-nos a fé”.
Esta questão da forma e da intensidade da fé pode ser percebida de maneira bem nítida nas palavras de Jesus dirigidas a Tomé, no segundo domingo após a ressurreição. Como sabemos, Tomé esteve ausente na reunião do primeiro domingo (o que já constitui um ponto negativo) e não creu na notícia de que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos. Após haver contemplado o Senhor, colocado o dedo nas feridas dos cravos em suas mãos e apalpado as chagas do seu lado, Tomé creu. E disse-lhe Jesus: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29).
De fato, a fé bíblica é a confiança que temos no testemunho que Deus manifesta acerca de Si mesmo. Ao crente basta a Palavra de Deus. Deus falou a Abraão, e este creu. Lamentavelmente, vivemos um tempo em que a geração incrédula e adúltera pede e busca sinais a fim de crer.
Escrevendo sobre questões relacionadas à esfera da liberdade cristã, o apóstolo Paulo disse aos romanos: “Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14.23 - ARC). A nossa fraqueza nasce de nossa falta de convicções arraigadas. Precisamos de homens com fé inabalável na Palavra do Senhor, com coragem para tomar posição em sua proclamação e defesa e com disposição e tenacidade para assumir os custos de tal decisão. Afinal, uma bigorna não tem medo dos martelos, e, como alguém já disse, “razões fortes levam a decisões enérgicas”.
Walt Disney criou um personagem que ele entendeu representar bem o Brasil. Foi o Zé Carioca. Um papagaio que caracteriza o carioca típico dos morros da cidade do Rio. De fato, o papagaio é uma ave bem brasileira. A singularidade dessa ave é que, por via de regra, imita bem a voz humana. Todavia, é um mero repetidor do que ouve constantemente. Também, em religião, os “papagaios” proliferam em nosso país. Estes repetem idéias que têm ouvido desde o berço ou práticas e doutrinas da moda, sem jamais terem chegado a uma experiência pessoal com Deus.
Quando Pilatos interpelou Jesus, com as palavras “És tu o rei dos judeus?”, Jesus respondeu ao governador, fazendo outra pergunta: “Dizes isso de ti mesmo, ou disseram-to outros de mim?” Ecoar o que se ouve, sem uma fixação pessoal, é tornar-se um papagaio.
Este é um sintoma alarmante de nossa época: muita gente “ecoando” um cristianismo que não passou da gravação, na memória, de algumas respostas do catecismo e alguns textos ou referências da Bíblia. Fé viva na Palavra e vivência com Deus nunca foram experimentadas por tais pessoas. E, quando chegam as horas difíceis, em que a vida espiritual tem de passar por uma prova de fogo, a “religião de segunda mão” não oferece o apoio de que precisa o “religioso”, que entra em pane e atola. Necessitamos de uma geração de homens “religiosos de primeira mão”, que falem ou cantem o que afirma o Salmo 23: “O Senhor é o meu pastor...” Como você crê? Como andam as suas convicções?
O conhecimento da verdade deve nos levar à convicção da verdade. Jesus lançou a seguinte pergunta ao povo, acerca de João Batista: “Que fostes ver no deserto? Uma cana agitado pelo vento? ... Mas, então que fostes ver? Um profeta? Sim, vos digo eu, e muito mais do que profeta” (Mt 11.7-9 - ARC). É terrível quando ouvimos a respeito de alguém: “Ele nunca tem opinião própria; costuma adotar a que estiver em voga”. Eis aí um caniço agitado pelo vento. O profeta do Senhor não é aquele que se orienta pelo catavento da opinião pública, mas pela bússola da convicção bíblica. O nosso mundo é rico em ilusões, e, por vezes, nos deixamos iludir por ele. Somos tentados a preferir o caminho fácil e seguir o curso da multidão. Porém, aqueles que têm por filosofia de vida acompanhar as multidões freqüentemente se perdem no meio delas. Spurgeon um dia concluiu sobre a insanidade de alguém se guiar pela popularidade e disse: “Já faz muito tempo que parei de contar cabeças. Geralmente a verdade está com a minoria neste mundo mau”.
O mundo carece de homens que crêem naquilo que pregam. Nos tempos da bastilha francesa, Mirabeu falou de Robespiere, quando este fazia um discurso: “Este homem vai longe; ele acredita naquilo que diz!” É lamentável dizer, mas há muitos de nossos pregadores e teólogos que simplesmente não crêem naquilo que pregam. Se crêem, a forma como pregam parece negar-lhes a eficácia de sua fé.
O Que Você Faz Com O Que Você Crê?
O que fazemos com a fé é muito importante. Se algo é digno de ser crido, é digno de ser vivido. De fato, a fé bíblica implica em obediência.
A fé bíblica traduz-se em discipulado. Não crê aquele que não vive consoante à sua crença. “Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tg 2.17). Um pressuposto da pregação da Palavra de Deus é que o propósito subjacente a toda doutrina é garantir a ação moral. Aprendemos por simples verificação semântica que teologia é conhecimento de Deus. Sua teologia consiste naquilo que você é quando pára de falar e começa a agir. Deus quando nos instrui a mente, Ele o faz para transformar a vida. Aliás, este é o alvo do ensino, e a lei do processo de aprendizagem estabelece que o aluno deve reproduzir, em si próprio, a verdade aprendida. E vivendo a verdade, nossas próprias vidas se tornam verdadeiras. Nós nos tornamos o que devemos ser.
Uma fé digna de ser crida é digna de ser proclamada. Novamente recorro a Spurgeon, que disse: “Os homens, para serem verdadeiramente ganhos, precisam ser ganhos pela verdade”. Hoje a teologia é vista como reflexões dos ambientes eruditos, aprisionada nos recintos acadêmicos dos seminários. Faz-se uma grande dissociação entre o conteúdo dos compêndios empoeirados das bibliotecas dos teólogos e a ação pastoral na igreja e a vivência comum do crente com Deus. Não tenhamos o mínimo interesse numa teologia que não promova o ardor por Deus; não tenhamos qualquer interesse por uma teologia que não evangelize e uma fé que não seja missionária.
A verdade precisa ser proclamada, não importa como seja recebida. E deve ser proclamada, antes de tudo, porque é a Verdade de Deus. Proclamar a Palavra glorifica o seu santo Nome. A pregação é sem dúvida um bem eterno. Essa foi a conclusão dos apóstolos quando elegeram “os sete”. O bem que se faz aos homens é passageiro; as verdades que lhes deixamos são eternas.
Uma fé digna de ser crida é também digna de que batalhemos por ela. O melhor método para a erradicação do erro ainda é publicar e praticar a verdade. Precisamos tornar clara nossa posição, com palavras e obras, em favor da verdade e contra as falsas doutrinas. Quase sempre, é no vácuo deixado pela negligência e descaso em proclamarmos “todo o conselho de Deus” que proliferam as seitas e heresias. Quando a verdade silencia, as opiniões falsas parecem plausíveis. A verdade amordaçada é uma contradição e impropriedade, pois a verdade é sempre o argumento mais forte.
“Sê fiel até à morte.” Não foi este o lema dos mártires desde Estêvão? “Senti a necessidade de vos escrever, exortando-vos a pelejar pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos” (Jd 3). No eminente e constante desafio de estar comprometida com a fé que foi entregue aos santos, esta revista se apresenta ao leitor. Fazemo-lo com humildade, reverência e tremor. Mas fazemo-lo varonilmente. Neste primeiro número trazemos o artigo O Perfeito Equilíbrio da Verdade de Deus, onde Geoffrey Thomas, integrante da equipe editorial do The Banner of Truth Journal e pastor batista no País de Gales, procura estabelecer um equilíbrio entre algumas verdades que, aparentemente, encontram-se em conflito umas com as outras. Em determinados momentos da história da Igreja, os verdadeiros servos do Senhor tenderam a enfatizar certas doutrinas em detrimento de outras. A geração seguinte reagiu contra essa ênfase da geração precedente, e assim aconteceu o fenômeno que alguns historiadores denominam de “movimento pendular”. O autor é feliz na sua exposição, ao propor um equilíbrio em alguns dos pontos fundamentais da fé e prática cristãs.
O Supremo Dever do Pastor é um artigo do Dr. Thomas K. Ascol, pastor batista em Cape Coral, Flórida, e editor do The Founders Journal. Qual o supremo dever do pastor? Salientando os diversos aspectos que envolvem o ministério pastoral nos tempos atuais, o autor encontra, no emaranhado de responsabilidades que ao pastor se atribui, o dever de pregar a Palavra de Deus. Seu artigo é muito oportuno, mormente nesses tempos em que vozes e movimentos questionam acerca da relevância da pregação bíblica, nos dias atuais.
A. W. Tozer, pastor de uma igreja da Aliança Cristã e Missionária até seu falecimento na década de 1960, é conhecido como “um profeta da nossa geração”. Seu artigo, Precisamos Novamente de Homens de Deus, é uma convocação a agradar a Deus e ignorar a multidão, numa geração pragmática e materialista. A voz de Deus é a voz de Deus. A voz do povo é a voz do povo. Quão desesperadamente precisamos hoje dessa mensagem. Deus está procurando homens que tenham a coragem de tomar posição e assumir o preço dela, no meio desta geração. Na decadente era pré-diluviana, Ele encontrou Noé. O mundo está necessitando novamente de homens como Noé - “pregoeiro da justiça” - a quem o Senhor disse: “Tenho visto que és justo diante de mim nesta geração” (Gn 7.1).
Em Quanto ao Vir a Cristo, Ernest Reisinger, veterano pastor batista na Flórida e editor assistente do The Founders Journal, analisa os fundamentos histórico-teológicos de uma das práticas mais comuns à chamada “pregação evangelística” contemporânea: o sistema de apelo. O autor, numa análise acurada, apresenta os perigos e equívocos em torno desta prática (inaugurada por Charles Finney), entre os quais, a freqüente associação e/ou permuta que se faz entre a regeneração operada pelo Espírito Santo e um ato físico exterior. É um artigo que se enseja bastante oportuno. O que temos nesta edição, contudo, é apenas a primeira parte. Aguarde a conclusão no próximo número.
Em Sansão e a Sedução da Cultura, Roger Ellsworth nos adverte quanto ao perigo de nos tornarmos enamorados e, deste modo, divididos pela cultura. Ele o faz de maneira bastante ilustrativa, recordando-nos a história de Sansão e seu encanto por Dalila. Ellsworth conclui seu artigo, alertando sobre o dever de permanecermos fiéis e não nos deixarmos seduzir pela cultura que, por Deus, fomos chamados a influenciar.
Dois pequenos artigos complementam o conteúdo deste número. Pequenos, mas nem por isso de menor importância. Outro Evangelho é um artigo que se revela bastante atual. Foi extraído dos escritos de A.W. Pink, teólogo reformado falecido em 1952. Trata desse “evangelho” atual cuja maior aspiração é paz, unidade e irmandade. A mensagem desse evangelho objetiva tornar o mundo tão confortável e um habitat tão harmonioso, que a ausência de Cristo não será percebida, e a necessidade de Deus não existirá. As Implicacões do Livre-arbítrio, citado de C. H. Spurgeon, faz breve análise do conceito humanista do livre-arbítrio em contradição com a doutrina bíblica da livre agência do homem. O que pensamos sobre livre-arbítrio? Como isto se relaciona com a vontade soberana e a graça eficaz de Deus? Não estaremos colocando o homem onde Deus deve estar?
Uma de nossas expectativas é que essas leituras estimulem o leitor a batalhar pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos.
Não é coisa pequena ficar em pé diante de uma congregação e dirigir uma mensagem de salvação ou condenação, como sendo do Deus vivo, no nome do nosso Redentor. Não é coisa fácil falar tão claro, que um ignorante nos possa entender; e tão seriamente que os corações mais desfalecidos nos possam sentir; e tão convincentemente que críticos contraditórios possam ser silenciados.

Autor: Richard Baxter
Tradução: Gilson Santos
Fonte: [ Editora Fiel ]
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Nossa missão como soldados é destruir idéias falsas



Esta não é, de modo algum, a primeira vez que a guerra pela verdade se introduziu na igreja. Isso tem acontecido em todas as principais épocas da história da igreja. Batalhas pela verdade têm rugido na comunidade cristã desde os tempos dos apóstolos, quando a igreja estava apenas começando. Na realidade, o relato das Escrituras indica que os falsos mestres na igreja logo se tornaram um problema significativo e amplamente difundido aonde quer que o evangelho chegasse. Quase todas as principais epístolas do Novo Testamento abordam esse problema, de uma maneira ou de outra. O apóstolo Paulo estava sempre envolvido numa batalha contra as mentiras dos "falsos apóstolos, obreiros fraudulentos", que se transformavam em apóstolos de Cristo (2 Coríntios 11.13). Paulo disse que isso era de se esperar. Afinal de contas, essa é uma das estratégias prediletas do Maligno: "E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformam em ministros de justiça" (w. 14-15).
Seria uma ingenuidade deliberada negar que isso pode acontecer em nossos tempos. De fato, isso está acontecendo em grande escala. O tempo presente não é favorável a que os cristãos flertem com o espírito da época. Não podemos ser apáticos quanto à verdade que Deus nos confiou. Nosso dever é guarda-la, proclamá-la e transmiti-la à geração seguinte (1 Timóteo 6.20-21). Nós, que amamos a Cristo e cremos na verdade incorporada nos ensinos dEle, precisamos ter plena consciência da re-alidade da batalha que ruge em nosso redor. Devemos cumprir nosso papel na guerra pela verdade, que já dura muitas eras. Temos a obrigação sagrada de participar da batalha e lutar pela fé.
Em sentido restrito, a idéia motriz por detrás do movimento da Igreja Emergente está correta: o clima atual do pós-modernismo representa realmente uma vitrine maravilhosa de oportunidades para a igreja de Jesus Cristo. A arrogância que dominava a era moderna está em suas agonias de morte. O mundo, na sua maior parte, foi apanhado em desilusão e confusão. As pessoas se sentem inseguras a respeito de quase tudo e não sabem que rumo tomar em busca da verdade.
Entretanto, a pior estratégia para ministrar o evangelho num clima assim é os cristãos imitarem a incerteza ou ecoarem o cinismo da perspectiva pós-moderna — e arrastarem a Bíblia e o evangelho para dentro dessa perspectiva. Em vez disso, precisamos afirmar, de modo contrário ao espírito desta época, que Deus falou com a maior clareza e autoridade, de modo definitivo, através de seu Filho (Hebreus 1.1-2). E temos, nas Escrituras, o registro infalível dessa mensagem (2 Pedro 1.19-21).
O pós-modernismo é simplesmente a expressão mais atual da incredulidade mundana. Seu valor essencial — uma ambivalência dúbia para com a verdade — não passa de ceticismo destilado em sua essência pura. No pós-modernismo, não existe nada virtuoso nem genuinamente humilde. Ele é uma rebelião arrogante contra a revelação divina.
De fato, a hesitação do pós-modernismo no tocante à verdade é a antítese exata da confiança ousada que, segundo as Escrituras, é o direito de família de todo crente (Efésios 3.12). Essa segurança é operada pelo próprio Espírito de Deus naqueles que crêem (1 Tes-salonicenses 1.5). Precisamos valorizar essa segurança e não temer confrontar o mundo com ela.
A mensagem do evangelho, em todos os fatos que a constituem, é uma proclamação clara, específica, confiante e autorizada de que Jesus é Senhor e de que Ele dá vida eterna e abundante a todos os que crêem. Nós, que conhecemos verdadeiramente a Cristo e recebemos aquela dádiva da vida eterna, também recebemos da parte dEle uma comissão clara e específica de transmitir com ousadia a mensagem do evangelho, como embaixadores dEle. Se não demonstrarmos igualmente clareza e nitidez em nossa proclamação da mensagem, não seremos bons embaixadores.
Mas não somos meros embaixadores. Somos, ao mesmo tempo, soldados comissionados a guerrear em favor da defesa e disseminação da verdade, face aos ataques constantes contra a verdade. Somos embaixadores com uma mensagem de boas-novas para as pessoas que andam em trevas e vivem na região da sombra da morte (Isaías 9.2). E somos soldados — com ordens para destruir fortalezas ideológicas e derrubar as mentiras e enganos engendrados pelas forças do mal (2 Coríntios 10.3-5; 2 Timóteo 2.2-4).
Observe atentamente: nossa tarefa como embaixadores é levar as boas-novas às pessoas. Nossa missão como soldados é destruir idéias falsas. Devemos manter esses objetivos no seu devido lugar; não temos o direito de declarar guerra contra as próprias pessoas, nem de entrar em relacionamentos diplomáticos com idéias anti-cristãs. Nossa guerra não é contra a carne e o sangue (Efésios 6.12); nosso dever como embaixadores não nos permite transigir com qualquer tipo de filosofia humana, engano religioso ou outro tipo de mentira nem a nos alinhar com alguma delas (Colossenses 2.8).
Se parece difícil manter essas duas tarefas em equilíbrio e na pers-pectiva adequada, isso acontece porque elas são realmente difíceis.
Judas certamente entendeu isso. O Espírito Santo o inspirou a escrever a sua breve epístola a pessoas que estavam lutando com essas mesmas questões. Contudo, ele as exortou a batalharem diligentemente pela fé, contra toda falsidade, ao mesmo tempo que faziam tudo que lhes era possível para livrarem almas da destruição: arrebatando-as "do fogo... detestando até a roupa contaminada pela carne" (Judas 23).
Somos, portanto, embaixadores e soldados; procuramos alcançar os pecadores com a verdade, ao mesmo tempo que envidamos todos os esforços para destruir as mentiras e outras formas de mal que os mantêm na escravidão mortífera. Esse é um resumo perfeito do dever de todo cristão na guerra pela verdade.
Martinho Lutero, aquele nobre soldado do evangelho, lançou este desafio diante dos cristãos de todas as gerações que o sucederam, ao dizer:
Se, com a voz mais elevada e a exposição mais nítida, eu professar toda porção da verdade de Deus, mas não confessar exatamente o pormenor que o mundo e o Diabo estão atacando naquele momento, não estou confessando a Cristo, ainda que esteja professando-0 com ousadia. Onde a batalha ruge, ali é provada a lealdade do soldado. E ficar firme em todos os demais pontos do campo de batalha é mera fuga e vergonha, se o soldado falhar naquele pormenor.
Autor: John MacArthur
Fonte: [ Josemar Bessa ]
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