sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Existem apóstolos nos dias de hoje? – Renato Vargens



Entendendo o movimento de restauração e o movimento apostólico:
Segundo a bíblia quais deveriam ser as credenciais de um apóstolo?


ReformaAgora

Nunca se viu tantos apóstolos como neste início de século. Em cada canto, esquina e cidade encontramos alguém reivindicando o direito de ser chamado apóstolo.
O chamado movimento de restauração defende a tese de que Deus está restaurando a igreja. Para estes, após a morte dos primeiros apóstolos, a igreja de Cristo paulatinamente experimentou um processo de declínio espiritual culminando com a apostasia vivenciada pelos seus adeptos no período da idade média.
Com o advento da Reforma Protestante, os defensores desta teologia afirmam que Deus começou a restaurar a saúde da igreja. Segundo estes, Lutero foi responsável pela redescoberta da salvação pela graça, e agora no século XXI, estamos vivendo a restauração do ministério apostólico. Os teólogos desta linha de pensamento afirmam que a restauração dos apóstolos é uma das últimas coisas a serem feitas pelo Senhor, antes de sua vinda. Para os adeptos desta linha de pensamento, os apóstolos de hoje possuem, em alguns casos, maior autoridade do que os apóstolos do primeiro século, até porque, para os defensores desta corrente teológica a glória da segunda casa será maior do que a primeira.
Para estes o ministério apostólico não acabou. Na verdade, tais teólogos advogam que o ministério apostólico é perpétuo e que o livro de Atos ainda continua a ser escrito por santos homens de Deus, os quais, mediante a sua autoridade apostólica, agem em nome do Senhor.
Este movimento tem suas semelhanças com o surgimento dos mórmons e a Igreja dos Santos dos Últimos Dias, que ensina que o corpo de escritos inspirados por Deus não se fechou e que Deus tem muita coisa nova para dizer e para revelar aos seus santos através de seus apóstolos.
Infelizmente, assim como os mórmons, os adeptos do movimento apostólico consideram a Bíblia uma fonte importante, mas não única para a fé. Para os apóstolos deste tempo, Deus, através de seus profetas, pode revelar coisas novas, ainda que isso se contraponha a sua Palavra. Basta olharmos para as doutrinas hodiernas que chegaremos à conclusão que os apóstolos do século XXI, acreditam que suas revelações são absolutamente diretivas, normativas e inquestionáveis.
1. O apóstolo teria de ser testemunha do Senhor ressurreto. Em Atos vemos os apóstolos reunidos no cenáculo, conversando sobre quem substituiria Judas. Em Atos 1.21-22 lemos: É necessário pois, que, dos homens que nos acompanham todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre vós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição”. Paulo diz que viu Jesus ressurreto: “Não sou, porventura livre? Não sou apóstolo? Não vi a Jesus, Nosso Senhor?” (1Co 9.1)
2. O apóstolo tinha de ter um chamado especial da parte de Cristo para exercer este ministério. As Escrituras são absolutamente claras em nos mostrar que os apóstolos, incluindo Paulo, foram chamados por Cristo (Mt 10.2-4; Gl 1.11-24).
3. O apóstolo era alguém a quem foi dada autoridade para operar milagres. Isso fica bem claro em 2Coríntios 12.12: Pois as credenciais do meu apostolado foram manifestadas no meio de vós com toda a persistência, por sinais prodígios e poderes miraculosos”. Era como se ele dissesse: “Como vocês podem questionar meu ofício de apóstolo, se as minhas credenciais foram apresentadas claramente entre vós”. Sinais, milagres e prodígios maravilhosos.
4. O apóstolo tinha autoridade para ensinar e definir a doutrina firmando as pessoas na verdade.
5. Os apóstolos tiveram autoridade para estabelecer a ordem nas igrejas. Nomeavam os presbíteros, decidiam questões disciplinares e questões doutrinárias, e falavam com autoridade do próprio Jesus.
Será que diante destas questões os “apóstolos” da modernidade podem de fato reivindicar o título de apóstolo de Cristo? Por acaso, algum deles viu o Senhor ressurreto? Foram eles comissionados por Cristo a exercerem o ministério apostólico? Quantos dos apóstolos brasileiros ressuscitaram mortos? E suas doutrinas? Possuem elas autoridade para se contraporem aos ensinamentos bíblicos?
Pois é, infelizmente os “apóstolos” do nosso tempo não possuem respostas a estas perguntas.
O posicionamento da ortodoxia evangélica entende que o ministério apostólico cessou com a morte dos apóstolos no primeiro século. Sem a menor sombra de dúvidas, considero a utilização do título “apóstolo” por parte dos pastores como uma apropriação indevida de um ministério, o qual não existe mais nos moldes que vemos no Novo Testamento.
Por: Renato Vargens
Trecho do livro “Reforma Agora – o antídoto para a confusão evangélica no Brasil”, lançamento da Editora Fiel para o mês de setembro.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Jesus, o nome sobre todo nome! - Por Hernandes Dias Lopes






O nome de uma pessoa é sua maior identidade. O nome representa a personalidade, o caráter e a missão de uma pessoa. Recebe-se um grande nome por herança, doação e conquista. Jesus tem o nome sobre todo o nome por essas três razões. O nome de Jesus é conhecido no céu, na terra e no inferno. Anjos, homens e demônios se curvam diante de sua majestade. Ele é o Senhor dos senhores, o Rei dos reis, o Soberano dos reis da terra. Nele vivemos, nos movemos e existimos. Ele é a nossa vida, a nossa paz, a nossa alegria, a nossa herança, a nossa justiça, a nossa salvação.
Em primeiro lugar, Jesus herdou o maior de todos os nomes (Hb 1.4). Jesus é a exata expressão do ser de Deus, o resplendor máximo da sua glória, o herdeiro de todas as coisas. Por isso, herdou mais excelente nome do que os anjos e foi exaltado acima de todos os seres celestiais. Ele está entronizado acima dos querubins. Diante dele até os serafins cobrem o rosto. Ele é o Rei da glória e diante de sua majestade todo o universo se curva. Jesus é tudo em todos. Ele é o centro da eternidade e da história. Ele é o agente da criação, o sustentador do universo, o regente que governa os destinos da história e faz todas as coisas conforme o conselho de sua vontade. Não há nenhum nome que se compare ao nome de Jesus. Nenhum nome que esteja acima do nome de Jesus. Esse nome ele herdou do Pai.
Em segundo lugar, Jesus recebeu por doação o maior de todos os nomes (Fp 2.9-11). Pelo fato do Rei da glória ter se tornado servo e se humilhado até à morte e morte de cruz, Deus Pai o exaltou sobremaneira, acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e debaixo da terra e toda língua confesse que Jesus é o Senhor para a glória de Deus Pai. Não há salvação fora do nome de Jesus. Ele recebeu esse porque é o Salvador do seu povo (Mt 1.21). Não há nenhum outro nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos (At 4.12). Há poder no nome de Jesus para curar os enfermos (At 3.6). Há poder no nome de Jesus para libertar os cativos (Lc 10.17). Há poder no nome de Jesus para termos nossas orações respondidas (Jo 16.23). O nome de Jesus é o centro das Escrituras. Jesus é o Alfa e o Ômega. Ele é o Maravilhoso Conselheiro, o Deus forte, o Pai da eternidade e o Príncipe da paz. Jesus é Verbo eterno, o Emanuel, o Pão da vida, a Luz do mundo, a Videira verdadeira. Ele é o bom Pastor, a Porta das ovelhas, o Caminho, e a Verdade e a Vida. Ele é a Ressurreição e a vida, Aquele que esteve morto, mas está vivo pelos séculos dos séculos. Ele é o Salvador, o Messias e o Senhor. Diante de seu nome reis e vassalos, ateus e religiosos, ricos e pobres, doutores e analfabetos, anjos, homens e demônios precisam se curvar. Seu nome está acima de todo nome que se possa referir no céu e na terra!
Em terceiro lugar, Jesus recebeu o maior de todos os nomes por conquista (Cl 2.15). Jesus triunfou sobre os principados e potestades na cruz, despojando-os e decretando sua consumada derrota. Foi na cruz que Jesus esmagou a cabeça da serpente. Foi na cruz que Jesus arrancou a armadura do valente e o expôs ao desprezo. Jesus venceu o diabo, a morte e o pecado. Ressuscitou triunfantemente, ascendeu ao céu e foi entronizado com glória e majestade, acima de todo principado e potestade. Ele tem as chaves da morte e do inferno. Jesus tem todo o poder e toda autoridade no céu e na terra. Ele tem o livro da história em suas onipotentes mãos. Em breve, ele voltará com grande poder e glória para julgar as nações. Então, ele calcará aos pés todos os seus inimigos e todos os reinos do mundo serão do Senhor e do seu Cristo e ele reinará pelos séculos dos séculos. O universo inteiro se ajoelhará para dizer: “Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro seja o louvor, e a honra, e a glória e o domínio pelos séculos dos séculos”. Então, depositaremos aos seus pés nossas coroas e o serviremos por toda a eternidade!
Fonte: Site do autor

Igreja para quê? - Por David Feddes





É possível ficar de fora da igreja e continuar a ser um bom crente? Muitos dizem que sim a essa pergunta e pode ser que até você concorde com isso. Você crê em Deus, ora de vez em quando, se considera um crente, mas acha que pode passar muito bem sem uma igreja. O que importa é como você se relaciona com Deus, e não, com a igreja, certo? Errado.
É possível ficar de fora da igreja e continuar a ser um bom crente? Não, se Deus sabe do que está falando. A Palavra de Deus, a Bíblia, mostra sempre e sempre que se alguém pertence a Cristo, também pertence à Sua igreja e está profundamente envolvido com a vida dela. Portanto, se acha que pode ser um bom crente sem uma igreja, está dizendo que sabe das coisas melhor do que Deus, e fazer isso não é uma coisa muito inteligente.
Por que ficar de fora?
Topei com um monte de razões diferentes que as pessoas usam para ficarem longe de uma igreja. Alguns acham que não têm escolha; acham que devem trabalhar no domingo, senão podem perder o emprego. Ir à igreja para adorar a Deus pode ser muito bom, mas ir trabalhar e deixar o patrão satisfeito é o que paga as contas. Deus vai entender, não é?
Outros não passam o domingo trabalhando, mas acham que precisam de sono extra na manhã daquele dia, ou talvez queiram cortar a grama e lavar o carro, ou fazer as compras. Talvez tenham planejado uma viajem de fim de semana todo na praia ou, participar de um torneio de futebol ou de outro acontecimento esportivo. Separar tempo para ir à igreja poderia atrapalhar os planos para o fim de semana.
Há ainda quem fique fora de uma igreja porque algum de seus membros ou algum de seus líderes lhe desagradaram. Você acha que “se isso é a igreja, quem é que precisa dela?”. Você não tem nada a ver com a sua velha igreja nem sequer está procurando por uma nova. Para que ficar por aí entre um monte de hipócritas, quando pode seguir a Deus do seu modo?
Talvez mantenha-se distante de uma igreja por se sentir muito desconfortável lá. Quando decide dar as caras num domingo fica como um peixe fora d'água. Parece que todos prestam atenção quando você se senta ou se levanta; parece que todo mundo lá se conhece, mas você não conhece ninguém; quase ninguém fala com você ou lhe faz se sentir bem-vindo. Para que repetir uma situação que lhe incomoda?
Talvez tenha uma razão bem diferente para se sentir mal e ficar de longe. Você pertenceu à igreja por muitos anos, conhece a maioria das pessoas e elas lhe conhecem, mas enfrentou problemas no seu casamento, se divorciou, ou passou por alguma outra situação pela qual se sente culpado e encabulado, e, por isso não consegue olhar a cara daquela gente. Então, é melhor ficar longe da igreja.
Essas são apenas algumas das razões que as pessoas usam para ficarem longe da igreja. Mas isso não tem nada a ver com o caso, não importa qual seja a sua razão para ficar de fora, a primeira pergunta que tem de responder é: quais são os bons motivos para que eu vá à igreja? Se nada acontece de importante na igreja, então, fazer qualquer outra coisa é melhor do que perder o seu tempo lá. Se não existir nenhuma razão forte para ir, então qualquer desculpa, a menor que seja, é suficiente para se manter à distância. Por outro lado, se as razões a favor da igreja forem mais fortes, então você não terá outra escolha senão se envolver, não importa quais sejam os seus motivos para ficar de fora.
O que Deus diz a respeito
Se você acha que a fé é um assunto meramente particular, uma negócio entre “eu e Jesus”, está enganado. Você pode perguntar: “Quem foi que disse que eu preciso de igreja para ser um bom crente? Quem foi?”. Bem, foi Deus quem disse. Dê só uma olhada em algumas das formas como Deus, na Bíblia, descreve a igreja.
A Bíblia chama a igreja de a família de Deus (Ef 2.19). Família “tanto no céu como sobre a terra” ( Ef 3.14-15 ). É o lar de todos os que pertencem a Deus. Portanto, se você está do lado de fora da igreja, ou está fugindo de casa ou não faz parte da família de Deus de jeito nenhum.
A Bíblia fala da igreja como a noiva de Cristo. O Senhor enxerga nela uma beleza cada vez mais radiante; partilha com ela de amor e intimidade profundos. A igreja é mais preciosa para Cristo do que a esposa para seu esposo. Se você despreza a igreja e não quer nada com ela, a sua atitude conflita com a de Jesus.
A Bíblia também denomina a igreja de o corpo de Cristo. Cada crente é parte desse corpo. É obvio que qualquer membro do corpo só poderá estar vivo e ativo se estiver ligado ao corpo; é indispensável estar conectado ao corpo. Por isso todo crente tem que está ligado à igreja. A igreja, como corpo de Cristo, está viva com o Espírito de Cristo e realiza no mundo a obra de Jesus.
O próprio Deus nos chama para fazer parte da Sua igreja, não apenas para vislumbrar a beleza de Jesus, a encarnação Deus em homem, mas também para ver e tomar parte na beleza da igreja, onde pessoas de carne-e-osso vivem no poder do Espírito Santo. Por que a igreja? Porque é a família de Deus, a noiva de Cristo, o corpo de Cristo. Mesmo na sua maior feiura, mesmo quando é menos atraente, qualquer igreja genuína tem em si mesma uma beleza e um poder que não se pode achar fora dela. Por que a igreja? Porque é Deus que o diz. Por que a igreja? Porque você e eu precisamos dela.
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terça-feira, 3 de setembro de 2013

De trevas resplandecerá a Luz - João Calvino







É Deus quem disse: De trevas resplandecerá luz (2Co 4.6)
Compreendo que é possível explicar esta passagem de quatro formas distintas:
Primeiro, Deus ordenou à luz que brilhasse do meio da trevas, ou seja, ele trouxe a luz do evangelho ao mundo através do ministério dos homens que são, por sua própria natureza, filho das trevas.
Segundo, Deus produziu a luz do evangelho para substituir a lei que estava oculta em sombras escuras, e daí trouxe luz das trevas. Os que são amantes de sutilezas podem facilmente aceitar tais explicações, mas todo aquele que penetre a questão de forma mais profunda prontamente reconhecerá que elas não expressam o pensamento do apóstolo.
A terceira explicação é a de Ambrósio, e é como segue: Quando todos se achavam envoltos em densas trevas, Deus acendeu a luz de seu evangelho. Os homens se achavam submersos nas trevas da ignorância quando, repentinamente, Deus brilhou sobre eles por intermédio de seu evangelho.
A quarta explicação é a de Crisóstomo, que acreditava existir aqui uma alusão à criação do mundo. Deus, que através de sua Palavra criou a luz, fazendo-a, por assim dizer, surgir das trevas, agora nos iluminou espiritualmente, quando estávamos sepultados nas trevas. Esta analogia (anagoge) entre a luz que é visível e física e a luz que é espiritual produz uma interpretação mais agradável, e não há nela nada forçado, ainda que a tradução de Ambrósio seja também plenamente adequada. Todos podem fazer uso de seu próprio tirocínio.
Resplandeceu em nossos corações. Devemos observar cuidadosamente a dupla iluminação a que ele faz aqui referência. Porque, em primeiro lugar, há a iluminação do evangelho, e então vem a iluminação secreta, que toma assento em nossos corações.
Porque, assim como em sua criação do mundo Deus derramou sobre nós a resplandecência do sol e também nos muniu de olhos para que pudéssemos contemplá-la, também, em nossa redenção, ele resplandeceu sobre nós na pessoa de seu Filho, por intermédio de seu evangelho, mas que seria tudo em vão, uma vez que somos cegos, a não ser que ele iluminasse também as nossas mentes, por intermédio de seu Espírito. De forma que o seu pensamento é que Deus abriu os olhos de nosso entendimento.
Na face de Jesus Cristo. Paulo já declarou que Cristo é a imagem do Pai; e ao dizer aqui que em sua face a glória de Deus nos é revelada, o seu pensamento é o mesmo. Esta passagem é muito importante, donde aprendemos que Deus não deve ser visto por trás de sua inescrutável majestade (pois ele habita em luz inacessível), mas deve ser conhecido na medida em que ele se nos revela em Cristo. De modo que as tentativas humanas de conhecer Deus fora de Cristo são efêmeras, porque tateiam no escuro. É verdade que à primeira vista Deus em Cristo parece ser pobre e abjeto; porém sua glória desponta para aqueles que têm a paciência de se transpor da cruz para a ressurreição. Vemos uma vez mais que na palavra pessoa - aqui traduzida 'face' - há referência a nós, porque nos é mais proveitoso contemplar Deus como ele aparece em seu Filho unigênito do que investigar sua essência secreta.
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Fonte: João Calvino, comentário de 2 Coríntios, Editora Fiel 2008, págs. 116-117.
Via: O Calvinismo
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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O Pecado para a Morte e a Blasfêmia contra o Espírito Santo - Postado por Augustus Nicodemus Lopes




Não são poucos os pregadores de linha pentecostal que ameaçam os críticos das atuais "manifestações espirituais" de cometerem o pecado sem perdão, a blasfêmia contra o Espírito Santo. Mas, será? O pecado para a morte é mencionado por João em sua primeira carta: 

"Há pecado para morte, e por esse não digo que rogue (5.16c)".
A morte a que João se refere é a morte espiritual eterna, a condenação final e irrevogável determinada por Deus, tendo como castigo o sofrimento eterno no inferno. Todos os demais pecados podem ser perdoados, mas o “pecado para morte” acarreta de forma inexorável a condenação eterna de quem o comete, a ponto do apóstolo dizer: "e por esse não digo que rogue". E o apóstolo continua:
"Toda injustiça é pecado, e há pecado não para a morte (5.17; cf. 3.4)".
João não está sugerindo que a distinção entre pecado mortal e pecado não mortal implique na existência de pecados que não sejam tão graves assim.Todo pecado é contra o Deus justo, contra a sua justiça. Portanto, todo pecado traz a morte, que é a penalidade imposta por Deus contra o pecado. Mas, para que seus leitores não fiquem aterrorizados, João repete: há pecado não para morte (5.17b). Nem todo pecado é o pecado mortal. Há perdão e vida para os que não pecam para a morte. O Senhor mesmo convida seu povo a buscar o perdão que ele concede (Is 1.18).
O que, então, é o pecado para a morte? O apóstolo João não declara explicitamente a que tipo de pecado se refere. Através dos séculos, estudiosos cristãos têm procurado responder a esta pergunta. Alguns têm entendido que João se refere à morte física, e têm sugerido que se trata de pecados que eram punidos com a pena de morte conforme está no Antigo Testamento (Lv 20.1-27; Nm 18.22). Não adiantaria orar pelos que cometeram pecados punidos com a morte, pois seriam executados de qualquer forma pela autoridade civil. Ou então, trata-se de pecados que o próprio Deus puniria com a morte aqui neste mundo, como ele fez com os filhos de Eli (2Sm 2.25), com Ananias e Safira (At 5.1-11) e com alguns membros da igreja de Corinto que profanavam a Ceia (1Co 11.30; cf. Rm 1.32).
A Igreja Católica fez uma classificação de pecados veniais e pecados mortais, incluindo nos últimos os famosos sete pecados capitais, como assassinato, adultério, glutonaria, mentira, blasfêmia, idolatria, entre outros. Este tipo de classificação é totalmente arbitrário e não tem apoio nas Escrituras.
A interpretação que nos parece mais correta é que João está se referindo à apostasia, que no contexto de seus leitores, significaria abandonar a doutrina apostólica que tinham ouvido e recebido e seguir o ensinamento dos falsos mestres, que negava a encarnação e a divindade do Senhor Jesus. “Pode-se inferir do contexto que este pecado não é uma queda parcial ou a transgressão de um determinado mandamento, mas apostasia, pela qual as pessoas se alienam completamente de Deus” (Calvino).
Trata-se, portanto, de um pecado doutrinário, cometido de forma voluntária e consciente, similar ao pecado de blasfêmia contra o Espírito Santo, cometido pelos fariseus, e que o Senhor Jesus declarou que não haveria de ter perdão nem aqui nem no mundo vindouro (cf. Mt 12.32; Mc 3.29; Lc 12.10). Em ambos os casos, há uma rejeição consciente e voluntária da verdade que foi claramente exposta.
No caso dos leitores de João, a apostasia seria mais profunda, pois teriam participado das igrejas cristãs, como se fossem cristãos, participado das ordenanças do batismo e da Ceia, participado dos meios de graça. À semelhança dos falsos mestres que também, antes, tinham sido membros das igrejas, apostatar seria sair delas (2.19), e se juntar aos pregadores gnósticos e abraçar a doutrina deles, que consistia numa negação de Cristo.
Tal pecado era “para a morte” por sua própria natureza, que é a rejeição final e decidida daquele único que pode salvar, Jesus Cristo. “Este pecado leva quem o comete inexoravelmente a um estado de incorrigível embotamento moral e espiritual, porque pecou voluntariamente contra a própria consciência” (J. Stott).
É provavelmente sobre pessoas que apostataram desta forma que o autor de Hebreus escreveu, dizendo que “é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6.4-6). Ele descreve essa situação como sendo um viver deliberado no pecado após o recebimento do pleno conhecimento da verdade. Neste caso, “já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.26-27). Este pecado é descrito como calcar aos pés o Filho de Deus, profanar o sangue da aliança com que foi santificado e ultrajar o Espírito da graça (Hb 10.29), uma linguagem que claramente aponta para a blasfêmia contra o Espírito e a negação de Jesus como Senhor e Cristo (ver também 2Pd 2.20-22, onde o apóstolo Pedro se refere aos falsos mestres).
Não é sem razão que o apóstolo João desaconselha pedirmos por quem pecou dessa forma.
Alguém pode perguntar se Deus fecharia a porta do perdão se pessoas que pecaram para a morte se arrependessem. Tais pessoas, porém, não poderão se arrepender. Elas não o desejam. E além disto, o Senhor determinou sua condenação, a ponto de João não aconselhar que oremos por elas. “Tais pessoas foram entregues a um estado mental reprovável, estão destituída do Espírito Santo, e não podem fazer outra coisa senão, com suas mentes obstinadas, se tornarem piores e piores, acrescentando mais pecado ao seu pecado” (Calvino).
Notemos que nestes versículos João não chama de “irmão” aquele que peca para a morte. Apenas declara que há pecado para a morte e que não recomenda orar pelos que o cometem. É evidente que os nascidos de Deus jamais poderão cometer este pecado.
Portanto, não se impressione com as ameaças de pastores do tipo "você está blasfemando contra o Espírito Santo" se o que você estiver fazendo é simplesmente perguntando qual a base bíblica para cair no Espírito, rir no Espírito, a unção da leoa, e outras "manifestações" atribuídas ao Espírito Santo.