segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Pai e paternidade - Por Rev. Ericson







Na sociedade patriarcal judaica a figura do pai estava associada a duas características bem específicas no contexto secular: Primeiro: o pai era a autoridade máxima dentro do lar e como tal deveria ser invariavelmente respeitado na família (cf. Ef. 5:22, 24, 33 e 6:1-3). Sobre ele pesava as decisões mais importantes, a representação da sua família em fóruns sociais e ainda respondia pela culpa da esposa ou filhos por qualquer violação das leis. Segundo: também era o responsável por sustentar, proteger e promover o desenvolvimento social dos seus. Entretanto, havia outra característica associada a figura do pai, no contexto religioso, que pretendo destacar: o sacerdócio.
1. O pai crente era portador das bênçãos divinas. Em Gênesis, por exemplo, Labão abençoou seus filhos (Gn. 31:55), Jacó abençoou a Faraó (Gn. 47:7) e a seus filhos (27:21-35, 48:20, 49:28), Davi abençoou seu terceiro filho (2 Sm. 13:25) e etc. Não há qualquer referência nas Escrituras que mães assim abençoaram seus filhos, porque esta responsabilidade foi dada por Deus aos pais, como mediadores da família. Por tradição católica e em harmonia com este princípio bíblico, nas cerimonias de casamento, o pai é quem deve levar a noiva ao noivo. Simbolicamente o pai transfere neste ato, por meio da sua bênção, a tutela que carregou sobre sua filha ao noivo.
2. O pai crente era mestre das tradições religiosas. Como sacerdotes domésticos, os pais possuíam a responsabilidade de verificar se os membros da sua família estavam vivendo em acordo com a aliança de Deus. Eram servos ativos no aconselhamento dentro de casa, segundo a instrução de Deus. Se negligenciasse tal função, toda a família se tornava vulnerável a apatia espiritual, idolatria, desarmonia nos relacionamentos, rebelião a Deus e a si mesmo como “chefe” familiar. O pai era aquele que “protegia” sua família pela incansável instrução da vontade de Deus, a fim de que nenhum dos seus se afastasse do caminho do Senhor (Êx. 12:26-27, 13:14; Dt. 6:7, 20, 32:7, 46; Pv. 4; Is. 38:19).
3. O pai era digno de honra na família. A palavra “pai” era usada em diversos contextos sempre com significado de alta e merecida estima. Eram chamados de “pai” os patriarcas como homens excepcionalmente compactuados com Deus e mediadores das promessas divinas (Sl. 22:4, 106:7; Hb. 1:1), um sacerdote (Jz. 17:10, 18:19), um profeta (2 Rs. 6:21, 13:14), um tutor espiritual (2 Rs. 2:12) e o mais importante: Deus também era chamado de Pai em comparação aos pais terrenos (Dt. 1:31, 8:5; Sl. 103:13; Pv. 3:12; Hb. 12:4-9). Ser chamado de pai era dignamente honroso e demonstrava respeito, intimidade e o devido reconhecimento.
Estas eram as atribuições dos pais no sistema patriarcal antigo. Todas elas continuam sendo atuais como verdades de Deus para a estabilidade e bom testemunho familiar hoje. Considere cada uma e reavalie sua paternidade com discernimento no lar. Abençoe sua família conferindo as bênçãos que vêm do Senhor. Não deixe de promover os cultos domésticos e orar constantemente por sua esposa e filhos. Fortaleça seu bom testemunho e autoridade, de modo que seja inspirador como homem no temor e no serviço a Deus. E que sob a graça divina, a cada dia, seja um homem segundo a vontade do Senhor!
Rev. Ericson Martins
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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ciência e Fé Cristã podem conversar? - Por Filipe Fontes







"A glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinha-las." (Provérbios 25.2)
Hoje alguém me perguntou ressabiado se é possível fazer a fé cristã e ciência conversarem. Nada estranho! Afinal, de modo geral, para o nosso tempo, fé em Deus é fé em Deus, e ciência é ciência. Aliás, talvez a maioria das pessoas em nossos dias, contraponha o pensamento cientifico não apenas ao conhecimento de Deus, mas à fé, em geral, como se houvesse uma contradição necessária entre ambos, e uma conversa entre eles fosse algo impossível. Se a pergunta fosse quanto a contradição entre ciência e fé, a resposta voltaria imediatamente em forma de outra pergunta: E quando foi que elas deixaram de se falar? Mas como a pergunta qualificou a fé, o diálogo continua.
Apesar deste status quo contemporâneo, à luz de uma cosmovisão cristã não existe uma contradição necessária entre o conhecimento científico e o conhecimento de Deus, isto é, elas não são necessariamente inimigas. Pelo contrário, de acordo com a revelação bíblica, o mundo foi trazido à existência por Deus, e, portanto, está repleto de traços autorais dele. Nas palavras de Davi:"Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos" (Salmo 19.1). E, nas palavras do Apóstolo Paulo: "os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas" (Romanos 1.20). Isto significa que, o verdadeiro conhecimento científico, ao invés de nos afastar de Deus, deveria nos aproximar dEle. Na perspectiva bíblica, ciência e fé cristã deveriam conversar sempre. Aliás, a ciência moderna nasceu em solo cristão. Schaeffer afirma que os primeiros cientistas modernos alimentavam a convicção, em primeiro lugar, de que Deus proporcionou o conhecimento ao homem através da Bíblia – conhecimentos acerca do próprio Criador e também acerca do universo e da história. A afirmação de Schaeffer se confirma, por exemplo, na declaração de Copérnico, de que estava tentando descobrir o mecanismo do universo, feito para nós por um criador supremamente bom e ordeiro. Os primeiros cientistas tinham a percepção de que as regularidades presentes na realidade apontam para um “projeto inteligente”, e criam ser Deus a origem do mesmo. Eles sabiam exatamente da glória de Deus e da glória dos reis.
Então, pergunto: por que tem sido disseminada a ideia de uma contradição necessária entre ciência e fé cristã? Não há espaço nessa pequena reflexão para apontar com a devida abrangência e profundidade todas essas razões; talvez técnicamente até haja, mas poucos leriam até o final. Mas, poderíamos resumir afirmando que isto é uma questão de princípio (cosmovisão). Embora a ciência moderna, cujos princípios estão, de modo geral, ainda vigentes, tenha nascido em solo cristão, ao longo do tempo ela conversou e tornou-se amiga demais de uma cosmovisão materialista, ou naturalista, cuja premissa básica (de fé, diga-se de passagem) é que o mundo material é tudo o que existe, e que qualquer explicação digna do status de “científica” precisa manter-se nos limites da materialidade. Consequentemente, ela passou a excluir qualquer possibilidade de que seja válida uma explicação que considere um ponto de transcendência, isto é, que explique o mundo material, levando em conta algo ou alguém que esteja fora dele. Assim, nasceu a dissociação entre fé cristã e ciência. E, a partir de então, embasada nesta suposta dissociação, e relegando o conhecimento de Deus ao nível de um conhecimento inferior, esta cosmovisão materialista, tem estendido suas asas sobre o conhecimento científic.
o de modo total e abrangente. Em resumo, a irreconciliável inimizade entre ciência e fé cristã não passa de estratégia de batalha, que afasta o inimigo e facilita o domínio territorial.
Eis, portanto, minha resposta: não existe uma contradição necessária entre a ciência e o conhecimento de Deus – existe uma contradição necessária entre a ciência materialista e tal conhecimento. No entanto, substituídos os fundamentos, haverá uma eterna conversa entre ciência e fé cristã, pois será possível redescobrir a verdade de que a glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinha-las.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Para aqueles que têm sede de sonhos e visões - Por C.H. Spurgeon





Há alguns, e estes geralmente são os mais iletrados, que têm a expectativa de experimentar sonhos notáveis ou de ter visões singulares.
Eu às vezes fico surpreso de que ainda persista no meio do nosso povo uma noção de que certo tipo de sonho, especialmente se repetir-se várias vezes, e se for tão vívido que permaneça na imaginação por um longo período, é um sinal do favor divino. Nada poderia ser mais completamente falso, nada pode ser mais infundado e sem a menor sombra de evidência; e ainda assim muitos imaginam que se eles sofressem dolorosamente de indigestão de forma que seu sono fosse estragado por sonhos vívidos, então eles finalmente poderiam pôr sua confiança em Jesus Cristo.
A noção é tão absurda que se ela fosse tão somente mencionada a homens racionais, eles necessariamente teriam que ridiculariza-la. Ainda assim, conheço muitos que foram, e ainda são, escravos dessa ilusão.
Há pouco tempo, depois de pregar em uma distante vila do interior, fui procurado insistentemente como conselheiro espiritual por uma carta importuna de uma mulher que atribuiu a mim uma sabedoria que eu nunca reivindiquei possuir. Eu desejei saber qual era a dificuldade espiritual que ela tinha, e quando fui até a casa dela e a encontrei muito doente, fiquei entristecido ao ver que ela era vítima de uma superstição na qual temo que seu pastor a tinha confortado e, desta forma, confirmado. Ela me informou solenemente que ela tinha visto algo se levantando à noite do pé da sua cama. Ela estava esperançosa de que se tratasse do nosso abençoado Senhor, mas infelizmente ela não tinha conseguido ver a cabeça dele. Como eu conhecia tanto a respeito das coisas espirituais, será que eu poderia lhe dizer quem era?
Eu disse que eu achava que ela devia ter pendurado o vestido dela em um gancho na parede, ao pé da cama, e na escuridão tinha confundindo-o com uma aparição.
É claro que isso não a satisfez. Eu caí imediatamente a zero no conceito dela, ao nível de um homem de mente extremamente carnal, se não um escarnecedor, mas eu nada pude fazer a respeito. Eu não podia flertar com uma superstição tão ridícula. Fui obrigado a lhe dizer que era bobagem ela ter esperança de salvação porque ela era tola o bastante para imaginar que tinha visto Jesus com seus olhos carnais, enquanto a visão salvífica sempre é espiritual.
Sobre a pergunta quanto ao fato da suposta aparição ter uma cabeça ou não, eu lhe disse que se ela usasse mais a sua própria cabeça e o seu coração, meditando na Palavra de Deus, ela estaria em uma condição bem mais esperançosa.
Podem ter havido, eu não negarei – porque coisas estranhas ás vezes acontecem - podem ter havido sonhos, e até mesmo aparições, que despertaram a consciência e assim conduziram ao princípio da vida espiritual em alguns raros casos em que Deus escolheu interferir de maneira especial. Mas que estes venham a ser procurados, e até aguardados, é uma coisa tão distante da verdade quanto o oriente do ocidente. E se você visse qualquer coisa, ou sonhasse qualquer coisa, o que isso prova? Ora, não prova absolutamente nada a não ser que você estava mal de saúde, e que sua imaginação encontrava-se morbidamente ativa.
Lance fora essas coisas, elas são superstições adequadas a povos não-civilizados, mas não são aceitáveis para cristãos do século dezenove. Eu apenas estou mencionando-as, não porque penso que qualquer de vocês tenha caído nelas, mas para que vocês sempre lidem com elas de forma extremamente rígida onde quer que se deparem com elas. Elas são superstições que não podem ser toleradas por homens cristãos. Entretanto há alguns que, de fato, não acreditarão no simples evangelho de Cristo a menos que algum absurdo desse tipo possa ser juntado a Ele.
Que Deus os livre de tal incredulidade.
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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

“Arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1.15). - Spourgeon







Nosso Senhor Jesus Cristo começou seu ministério anunciando suas principais ordens. Ungido recentemente, Ele saiu do deserto, como o noivo sai de sua câmara. As suas notas de amor são arrependimento e fé. Ele surge completamente preparado para exercer seu ofício, depois de permanecer no deserto e ser “tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15)... Escutai, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o Messias fala na grandeza de seu poder. Ele clama aos filhos dos homens: “Arrependei-vos e crede no evangelho”. Atentemos a essas palavras, que, como o seu Autor, estão cheias de graça e verdade. Diante de nós, temos o resumo e a essência de todo o ensino de Cristo, o alfa e o ômega de todo o seu ministério. Procedentes de lábios de tal Pessoa, naquele momento, com poder especial, devemos dar-lhes a mais sincera atenção. Que Deus nos ajude a obedecer a essas palavras, em nosso coração.

Devo começar observando que o evangelho pregado por Cristo era claramente uma ordem: “Arrependei-vos e crede no evangelho”. Nosso Senhor condescendeu em arrazoar. Às vezes, em seu ministério, Ele representou graciosamente o antigo texto: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve” (Is 1.18). Ele persuade os homens por meio de sua mensagem e de argumentos poderosos, que os levam a buscar a salvação de sua alma. O Senhor Jesus chama os homens. Oh! quão amavelmente Ele os convida a serem sábios! “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). O Senhor Jesus roga aos homens; Ele condescende em tornar-se, por assim dizer, um pedinte às suas criaturas pecaminosas, implorando-as a vir. De fato, o Senhor Jesus faz disso a incumbência de seus ministros — “Somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus” (2 Co 5.20).

No entanto, vocês devem lembrar que, embora Ele tenha condescendido em arrazoar, persuadir, chamar e rogar, o evangelho tem, em si mesmo, a força e a dignidade de uma ordem. Se queremos pregar hoje como Cristo pregou, temos de proclamar o evangelho como uma ordem de Deus, acompanhada de sanção divina, que não deve ser negligenciada, exceto ao risco infinito da alma... “Arrependei-vos” é uma ordem de Deus, tal como o mandamento de “não roubarás” (Ex 20.15). “Crê no Senhor Jesus” possui tanta autoridade divina como “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” (Lc 10.27).

Ó homens, não pensem que o evangelho é algo deixado a escolherem ou não, conforme acharem! Ó pecadores, não imaginem que podem desprezar uma Palavra do céu e não incorrer em culpa! Não pensem que podem negligenciar o evangelho, e nenhuma conseqüência má lhes sobrevirá. Essa negligência e desprezo aumenta a medida da iniqüidade de vocês. É a respeito disso que clamamos: “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb 2.3). Deus ordena que vocês se arrependam! O mesmo Deus diante de quem o Sinai se abalou e foi tomado por escuridão — esse mesmo Deus, que proclamou a Lei, com som de trombeta, com raios e trovões, falou-nos de modo mais gentil, porém divino, mediante seu Filho unigênito, quando disse: “Arrependei-vos e crede no evangelho”.

Devemos ressoar esse decreto de Deus a todas as nações da terra. Ó homens, Jeová, que os criou, que lhes dá respiração, a quem vocês têm ofendido, ordena-lhes que se arrependam hoje e creiam no evangelho...Sei que alguns irmãos não gostam disso, mas não posso deixar de falar. Nunca serei escravo de sistemas, pois o Senhor removeu esses grilhões de ferro de meu pescoço. Agora sou um servo feliz da verdade que liberta. Quer ofenda, quer agrade, à medida que Deus me ajude, pregarei cada verdade como a aprendi da Palavra. Sei que, se há algo escrito na Bíblia, esta verdade está escrita com bastante clareza: Deus ordena, em Cristo, que os homens se arrependam e creiam no evangelho. Uma das provas mais tristes da depravação completa do homem é o fato de que ele não obedecerá esse mandamento; antes, rejeitará a Cristo e tornará a sua condenação mais grave do que a de Sodoma e Gomorra...

O evangelho é um mandamento, é um mandamento que se explica em duas ordens: “arrependei-vos e crede no evangelho”. Conheço alguns irmãos bem excelentes — aprouvera a Deus que houvesse mais desses irmãos — que, em seu zelo por pregar a fé simples em Cristo, têm sentido um pouco de dificuldade no assunto do arrependimento. Conheço alguns deles que tentaram remover a dificuldade abrandando a aparente severidade da palavra arrependimento, expondo-a de acordo com o termo grego equivalente e mais usual, um termo que ocorre no original grego de meu versículo e significa “mudar a mente”. Aparentemente, eles interpretam o arrependimento como algo mais brando do que o concebemos, uma mudança simples na maneira de pensar. Ora, desejo sugerir a esses queridos irmãos que o Espírito Santo nunca prega o arrependimento como uma trivialidade. A mudança na maneira de pensar e no entendimento, sobre a qual o evangelho fala, é uma obra mais profunda e solene e não deve ser depreciada por motivo algum.

Além disso, há outra palavra também usada no original grego que significa arrependimento; não é usada com freqüência, eu admito. Ela significa “uma preocupação posterior”, aproximando-se mais do sentido de tristeza ou ansiedade do que aquela que significa mudar a maneira de pensar. No verdadeiro arrependimento, deve haver tristeza e ódio para com o pecado; do contrário, li a minha Bíblia sem qualquer propósito... O arrependimento significa realmente uma mudança na maneira de pensar. Mas é uma mudança completa do entendimento e de tudo que está na mente. Por isso, inclui iluminação, a iluminação do Espírito Santo. Acho que inclui uma descoberta da iniqüidade e ódio para com o pecado, sem os quais não pode haver arrependimento autêntico. Penso que não devemos subestimar o arrependimento. É uma graça bendita de Deus, o Espírito Santo; é uma graça absolutamente necessária para a salvação.

A ordem explica-se a si mesma. Consideraremos, em primeiro lugar, o arrependimento. É certo que, mesmo não levando em conta o significado arrependimento neste versículo, ele é consistente com a fé. Portanto, de sua conexão com a próxima ordem — “Crede no evangelho” — obtemos a explicação quanto ao significado do arrependimento... Lembrem-se de que nenhum arrependimento é digno desse nome, se não é perfeitamente consistente com a fé em Cristo. Um antigo crente, em seu leito de enfermidade, usou esta admirável expressão: “Senhor, em arrependimento faze-me descer tão baixo como o inferno, mas” — eis a beleza de sua expressão — “em fé, ergue-me tão alto como o céu”. Ora, o arrependimento que faz um homem descer tão baixo como o inferno não serve para nada, se não houver a fé que o ergue tão alto como o céu! Os dois são perfeitamente coerentes. Um homem pode detestar e abominar a si mesmo e, ao mesmo tempo, saber que Cristo é poderoso para salvar e o salvou. De fato, é assim que os verdadeiros cristãos vivem. Eles se arrependem tão amargamente de seu pecado como se soubessem que deveriam ser condenados por causa do pecado cometido, mas se regozijam tanto em Cristo como se o pecado não fosse nada.

Oh! quão bendito é saber onde estas duas linhas se encontram, o despir do arrependimento e o vestir da fé. O arrependimento que despeja o pecado como um inquilino maligno e a fé que recebe a Cristo para ser um único Senhor do coração; o arrependimento que limpa a alma de obras mortas e a fé que enche a alma com obras vivas; o arrependimento que destrói e a fé que a edifica; o arrependimento que espalha pedras e a fé que ajunta pedras; o arrependimento que ordena um tempo de chorar e a fé que dá um tempo de saltar de alegria — essas duas coisas juntas constituem a obra da graça no íntimo pela qual a alma do homem é salva. Mas deve ficar estabelecido como grande verdade, escrita com bastante clareza em nosso versículo, o fato de que o arrependimento que devemos pregar está vinculado à fé. Assim, temos de pregar o arrependimento e a fé juntos, sem qualquer dificuldade...

Isso me traz à segunda metade do mandamento: “Crede no evangelho”. A fé significa confiança em Cristo. Ora, devo observar novamente que alguns têm pregado esta confiança em Cristo tão bem e de modo tão completo, que não posso senão admirar sua fidelidade e bendizer a Deus por eles. Contudo, há uma dificuldade e um perigo. Talvez, ao pregarem a simples confiança em Cristo como o meio de salvação, eles deixam de lembrar ao pecador que nenhuma fé é genuína se não é consistente com o arrependimento de pecados passados. O meu versículo parece dizer isso nos seguintes termos: nenhum arrependimento é verdadeiro, senão aquele que se harmoniza com a fé; nenhuma fé é verdadeira, senão aquela que está conectada com um arrependimento sincero e profundo de pecados passados.

Então, queridos amigos, aqueles que têm uma fé que lhes permite pensar levianamente sobre os pecados passados, esses têm uma fé dos demônios e não a fé dos eleitos de Deus... Têm uma fé que lhes permite viver de modo leviano, no presente. Eles dizem: “Bem, eu sou salvo por uma fé simples” e, em seguida, assentam-se na mesa de cerveja, com os bêbados, ou permanecem no bar com os ébrios, ou seguem companhias mundanas e desfrutam de prazeres carnais e da concupiscência da carne — eles são mentirosos. Não têm a fé que salva a alma. Têm uma hipocrisia enganosa; não têm a fé que os levaria ao céu.

Há outras pessoas que têm uma fé que não as leva ao ódio pelo pecado. Não sentem qualquer vergonha quando vêem o pecado dos outros. É verdade que não se comportariam como os outros se comportam, mas se alegram com o que eles fazem. Acham prazer nos erros dos outros, sorriem de suas atitudes profanas e de sua linguagem imprópria. Não fogem do pecado como se este fosse uma serpente, nem o detestam como o assassino de seu melhor amigo. Não. Elas flertam com o pecado. Cometem em privacidade o que condenam em público. Chamam as ofensas graves de erros leves e pequenas falhas. Nos negócios, elas fingem não ver afastamentos da retidão e consideram-nos apenas coisas do comércio. O fato, porém, é que elas têm uma fé que se assenta lado a lado com o pecado, come e bebe à mesma mesa com a injustiça. Oh! se vocês têm esse tipo de fé, peço a Deus que a retire de seu coração. Não lhes serve de modo algum! Quanto mais rápido se livrarem dela, tanto melhor será para vocês; pois, quando este fundamento de areia for removido, talvez comecem a edificar sobre a Rocha.

Meus queridos amigos, quero ser bastante fiel para com sua alma e atingir o seu coração. Qual é o seu arrependimento? Vocês têm o arrependimento que os faz olhar para fora de si mesmos, para Cristo, tão-somente para Cristo? Por outro lado, têm aquela fé que os leva ao verdadeiro arrependimento? Que os leva a odiar até o pensamento de pecado, de modo que desejam remover do trono o seu ídolo mais querido, não importa qual seja, para que adorem a Cristo, apenas a Cristo? Assegurem-se disto: nada aquém desse arrependimento lhes será proveitoso, no final. Um arrependimento e uma fé de outro tipo podes lhe agradar agora, como as crianças agradam-se com ilusões. Mas, quando chegarem ao leito de morte e perceberem a realidade das coisas, serão compelidos a dizer que seu arrependimento e sua fé eram uma falsidade e um refúgio de mentiras. Descobrirão que enganavam-se a si mesmos. Diziam a si mesmos: “Paz, paz”, quando não havia paz.

Digo, novamente, nas palavras de Cristo: “Arrependei-vos e crede no evangelho”. Confiem em Cristo para salvá-los, lamentem que ainda precisam ser salvos e que esta necessidade expôs o Senhor a vergonha pública, a sofrimentos pavorosos e a morte terrível.


Traduzido por: Wellington Ferreira

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Humor apologético? - Por C. H. Spurgeon






Vivemos numa época tão trivial que muitos fazem humor e chamam isso de apologética. Veja como Paulo via a condição da igreja nas palavras de Spurgeon, veja  como era o estado do seu espírito em relação a isso. Spugeon diz:
"Nossas Igrejas, eu lhes digo para sua vergonha, toleram em seu seio membros que não têm nenhum direito a este título; membros que estariam bem melhor se postos em uma sala de festim, ou em qualquer outro lugar de dissolução e loucura, mas que jamais deveriam molhar os lábios no cálice sacramental ou comer o pão místico, emblemas dos sofrimentos de nosso Senhor. Sim, em vão procurariam dissimular que há vários entre nós – (e se tu voltasses à vida, ó Paulo. Quanto não te sentirias apressado em nos dizer, e quantas lágrimas amargas não derramarias ao nos dizer!...) – que são inimigos da cruz de Cristo, e isto porque o deus deles é o ventre, porque eles dirigem suas afeições às coisas da terra, e sua conduta está em completo desacordo com a santa lei de Deus.
Eu me proponho, meus irmãos, a procurar com vocês a causa da dor extraordinária do Apóstolo. Eu digo: dor extraordinária, porque o homem que meu texto apresenta como derramando lágrimas, não era, vocês sabem, um desses espíritos fracos, de sensibilidade doentia e sempre perto de se emocionar. Eu não li em nenhuma parte nas Escrituras que o Apóstolo chorasse sob o golpe da perseguição. Quando, segundo a expressão do salmista, se traçavam sulcos sobre seu dorso, quando os soldados romanos o lancetavam com suas varas, não sei de nenhuma lágrima que tenha escapado de seus olhos. Foi ele jogado na prisão? Ele cantava e não gemia. Mas, se jamais Paulo chorou por causa dos sofrimentos aos quais se expôs por amor a Cristo, ele chorou, nós vimos, ao escrever aos Filipenses. A causa de suas lágrimas era tripla: ele chorava, primeiramente, por causa DO PECADO de alguns membros da Igreja; em segundo lugar, por causa DOS EFEITOS DESAGRADÁVEIS DA CONDUTA DELES, e enfim, por causa do DESTINO que lhes esperava."
“Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas”. - (Fil. 3:18,19).
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