segunda-feira, 6 de junho de 2011

Como Deus chama os Eleitos - A. A. Hodge (1823-1886)


Jun

VOCAÇÃO EFICAZ

Seção I. (Confissão de Fé de Westminster) - Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e somente esses, aprouve ele, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente, por sua Palavra e por seu Espírito, daquele estado de pecado e de morte, em que estão por natureza, à graça e salvação por meio de Jesus Cristo; iluminando suas mentes espiritual e salvificamente para entenderem as coisas de Deus; removendo seus corações de pedra e dando-lhes um coração de carne; renovando sua vontade e, por seu infinito poder, determinando-lhes o que é bom, e eficazmente atraindo-os a Jesus Cristo; mas de tal forma que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos por sua graça.

Seção II. - Esta vocação eficaz provém unicamente da livre e especial graça de Deus e não de coisa alguma prevista no homem; nesta vocação ele é totalmente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espirito Santo, seja desse modo capacitado a responder a esta vocação e a abraçar a graça oferecida e comunicada nela.

1 Rm 8.30; 11.7; Ef 1.10,11.2 2 Ts 2.13,14; 2 Co 3.3,6.3 Rm 8.2; Ef 2.1-5; 2 Tm 1.9,10." At 26.18; 1 Co 2.10,12; Ef 1.17,18.5 Ez 36.26." Ez 11.19; Fp 2.13; Dt 30.6; Ez 36.27.7 Ef 1.19; Jo 6.44,45.8 Ct 1.4; SI 110.3; Jo 6.37; Rm 6.16-18.9 2 Tm 1.9; Tt 2.4,5; Ef 2.4,5,8,9; Rm9.11.10 1 Co 2.14; Rm 8.7; Ef 2.5." Jo 6.37; Ez 36.27; Jo 5.25.

EXPOSIÇÃO

Há uma vocação externa provinda da Palavra de Deus, estendida a todos os homens a quem o evangelho é proclamado, o que é considerado sob a quarta seção deste capítulo. A primeira e segunda seções tratam da vocação interna e eficaz provinda do Espírito de Deus, o qual efetua a regeneração, e a qual só é experimentada pelos eleitos. Desta vocação interna afirma-se: —

1.      Que tal vocação interna de fato existe e que é necessária à salvação.

2.      Quanto aos sujeitos dela, eles abrangem a todos os eleitos, e somente os eleitos.

3.      Quanto ao agente dela: —

a.       Que o único agente dela é o Espírito Santo, o qual usa

b.      A verdade revelada do evangelho como seu instrumento;

c.       Que os sujeitos dela, enquanto resistiram espontaneamente a todas as influências comuns do Espírito Santo que experimentaram antes da regeneração, são inteiramente passivos com respeito a esse ato especial do Espírito por quem são regenerados; não obstante, em conseqüência da mudança operada neles na regeneração, obedecem o chamado e subseqüentemente, mais ou menos perfeitamente, cooperam com a graça.

4.      Quanto à natureza dela, ensina-se que ela é um exercício do poder infinito e eficaz do Espírito Santo agindo imediatamente na alma do sujeito, determinando-lhe e eficazmente atraindo-o, todavia de uma maneira perfeitamente consonante com sua natureza, de modo tal que ele vem mui livre e espontaneamente.

5.      Quanto ao efeito dela, ensina-se que opera uma mudança radical e permanente na totalidade da natureza moral do sujeito, iluminando espiritualmente sua mente, santificando suas inclinações, renovando sua vontade e dando uma nova diretriz à sua ação.


Que uma vocação interna provinda do Espírito de fato existe, distinta da vocação externa da Palavra, e a qual é necessária à salvação, prova-se: —

1.1.   À luz do que as Escrituras ensinam concernente ao estado inerente do homem como sendo um estado de morte espiritual, cegueira, insensibilidade e absoluta inabilidade com respeito a toda ação espiritualmente boa

1.2.   As Escrituras distinguem entre a influência do Espírito e aquela provinda só da Palavra. 1 Co 2.14,15; 3.6; 1 Ts 1.5,6.

1.3.   Declara-se ser necessária a influência espiritual para dispor e capacitar os homens a receberem a verdade. Jo 6.45; At 16.14; Ef 1.17.

1.4.   Tudo quanto é bom no homem é atribuído a Deus como seu autor. Ef 2.8; Fp 2.13; 2 Tm 2.25; Hb 8.21.

1.5.   A operação do Espírito nos corações dos regenerados é representada como sendo muito mais direta, poderosa e eficaz do que a mera influência moral procedente da verdade sobre o entendimento e inclinações. Ef 1.19; 3.7.

1.6. 0 resultado efetuado na regeneração é diferente de um efeito particular da simples verdade. A regeneração é "um novo nasci¬mento", "uma nova criação" etc. Jo 3.3,7; Ef 4.24.
1.7, As Escrituras explicitamente distinguem entre as duas vocações. Diz-se dos sujeitos de uma: "Muitos são chamados, mas poucos escolhidos." Mt 22.14. Diz-se dos sujeitos da outra: "A quem chamou, a esses também justificou." Rm 8.30. Comparem-se Pv 1.24 eJo 6.45.

Todos esses argumentos cooperam para provar que essa influência espiritual é essencial à salvação. Qualquer que seja a condição necessária para a regeneração, ela é a condição necessária da salvação, porque "se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." Jo 3.3.

2.      Que esta vocação espiritual abrange a todos os eleitos, e somente os eleitos, prova-se: —

2.1.   À luz do que já ficou provado,

a.       Que Deus, desde a eternidade, definida e imutável mente determinou quem seria salvo; e

b.      Que Deus, havendo "destinado os eleitos à glória, pelo eterno e mui livre propósito de sua vontade, preordenou todos os meios para isso". A vocação eficaz, sendo o real livramento de uma alma da morte do pecado pelo infinito poder de Deus, é óbvio que deve ser aplicada a todos quantos serão salvos, e a qual não pode ser aplicada àqueles que não serão salvos.

2.2.   O mesmo se prova à luz do fato de que as Escrituras representam os "chamados" como sendo os "eleitos", e os "eleitos" como sendo os "chamados". Rm 8.28,30. Os que se encontram com Cristo no céu são "chamados, eleitos e fiéis". Ap 17.14.

2.3.   As Escrituras, além do mais, declaram que a "vocação" tem por base a "eleição": "Que nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo nossas obras, mas segundo seu próprio propósito e graça que nos deu em Cristo Jesus antes da fundação do mundo." 2 Tm 1.9; 2 Ts 2.13,14; Rm 11.7.

3.      Que o único agente nesta vocação eficaz é o Espírito Santo; que ele usa o evangelho como seu instrumento; e que, enquanto todos os pecadores são ativos em resistir as comuns influências da graça antes da regeneração, e todos os crentes em cooperar com a graça santificante depois da regeneração, não obstante cada alma recriada é passiva com respeito àquele divino ato do Espírito Santo, por meio do qual é ela regenerada, seja tudo isso provado sob os seguintes e distintos tópicos: —

3.1. Há certas influências do Espírito na presente vida que se estendem a todos os homens em maior ou menor grau; as quais tendem a restringir ou a persuadir a alma; as quais são exercidas na forma de fortificar o efeito natural e moral da verdade no entendimento, no coração e na consciência. Elas envolvem não mudança de princípio e disposição permanentes, mas só um aumento das emoções naturais do coração à vista do pecado, do dever e do interesse próprio. Essas influências, naturalmente, podem ser resistidas, e são habitualmente resistidas, pelos não-regenerados. O fato de que tais influências resistíveis são experimentadas pelos homens, prova-se: —

a.       A luz do fato de que as Escrituras afirmam que são resistidas. Gn 6.3; Hb 10.29.

b.      Cada cristão é cônscio de que antes de sua conversão foi alvo de influências a impeli-lo à obediência de Cristo, as quais ele por algum tempo resistiu. Observamos ser também verdade no tocante a muitos homens que nunca se converteram realmente.

3.2. A distinção entre regeneração e conversão é óbvia e necessária. Vimos que os atos voluntários da alma humana são determinados por e derivados de seu caráter, inclinações e desejos que a impelem; e que essas inclinações e desejos derivam seu caráter do estado moral permanente da alma na qual surgem. Nos não-regenerados esse estado e disposição permanentes e morais da alma é mau, e por isso a ação é má.
Ação positivamente santa é impossível exceto como conseqüência de uma disposição positivamente santa. A infusão de uma disposição tal deve, portanto, preceder qualquer ato da verdadeira obediência espiritual. A vocação eficaz, segundo o uso de nossos Padrões, é o ato do Espírito Santo efetuando a regeneração. A regeneração é o efeito produzido pelo Espírito Santo na vocação eficaz.

O Espírito Santo, no ato da vocação eficaz, leva a alma a ser regenerada pela implantação de um novo princípio ou hábito governante de emoção e ação. A alma propriamente dita, na conversão, imediatamente age sob a direção desse novo princípio em voltar-se do pecado para Deus através de Cristo. E evidente que a implantação desse gracioso princípio é diferente do exercício desse princípio, e que fazer uma pessoa voluntária é diferente de agir ela voluntariamente. O primeiro é um ato exclusivo de Deus; o segundo é um ato conseqüente do homem, e depende da assistência contínua do Espírito Santo.

Que Deus é o único agente no ato que efetua a regeneração, é óbvio: —

a. A luz da natureza da circunstância, como demonstrado supra. Fazer uma pessoa indisposta, disposta, não pode ser cooperado pela pessoa enquanto indisposta.

h. A luz do que ficou provado no capítulo ix., § 3, quanto à inabilidade absoluta do homem com respeito às coisas espirituais.

c. A luz do que as Escrituras dizem quanto à natureza da mu-dança. Elas a chamam "um novo nascimento", "um gerar", "um vivificar", "uma nova criação". "Deus gera, o Espírito vivifica"; "nós nascemos de novo", "nós somos feitura de Deus". Jo 3.3,5-7; 1 Jo 5.18; Ef 2.1,5,10. Vejam-se também Ez 11.19; SI 51.10; Ef 4.23; Hb 8.10. Que, após a regeneração, a alma recém-nascida imediatamente começa e prossegue sempre mais ou menos perfeitamente cooperando com a graça santificante, é auto-evidente. Fé, arrependimento, amor, boas obras são um e todos ao mesmo tempo "fruto do Espírito" e ações livres dos homens. Além do mais, somos constantemente conscientes de que somos sujeitos às influências divinas, as quais, ou resistimos ou obedecemos, e as quais somos livres para resistir ou obedecer como nos apraz, enquanto, através da graça, predominantemente nos sentirmos felizes em obedecer.

3.3. Que o Espírito Santo usa a "verdade" como seu instrumen¬to na vocação eficaz, é óbvio: —

a.       Porque ele nunca age dessa forma onde o conhecimento da verdade é inteiramente ausente; b. Porque as Escrituras asseveram que somos gerados pela verdade, santificados pela verdade, desenvolvidos por ela etc. Jo 17.19; Tg 1,18; 1 Pe2.2.

4. Que essa ação divina é em sua natureza onipotente e infalivelmente eficaz, e contudo perfeitamente congruente com a natureza racional e voluntária do homem, segue-se indubitavelmente à luz do fato de que ela é um ato do Deus sapientíssimo e todo-poderoso, no exercício de seus autoconsistentes e imutáveis decretos. O que Deus diretamente efetua, seus imutáveis propósitos devem ser certamente eficazes e poderosos. Ef 1.18,19. Além disso, a própria coisa feita é para fazer-nos dispostos, para operar em nós a fé; e isso é indubitavelmente conectado com a salvação. Fp 2.13. Que ela é eficaz, é também asseverado. Ef 3.7,20; 4.16.

Que essa divina influência é perfeitamente consoante com nossa natureza, é óbvio: —

4.1.   A luz do fato de que ela é a influência de um Criador sapientíssimo sobre a obra de sua própria mão. É inconcebível ou que Deus seja incapaz ou indisposto a controlar as ações de suas criaturas de uma maneira perfeitamente consistente com sua natureza.

4.2.   A influência que ele exerce é denominada na Escritura de "uma atração", "uma instrução", "uma iluminação" etc. Jo 6.44,45; Ef 1.18.

4.3.   Por natureza, a mente é trevosa, as inclinações, pervertidas, e a vontade, escravizada pelo pecado. A regeneração restaura essas faculdades à sua condição própria. Ela não pode ser inconsistente com a natureza racional, obstruindo a luz, nem com o livre-arbítrio, produzindo a escravidão. "Onde o Espírito do Senhor está, aí há liberdade." 2 Co 3.17; Fp 2.13; SI 110.3. Cada pessoa regenerada é cônscia de - (a.) Que nenhuma compulsão tem obstado o movimento espontâneo de suas faculdades; e (b.) Que, por outro lado, nenhuma de suas faculdades nunca agiu tão livre e consistentemente com a lei de sua natureza pregressa
5. Que essa mudança é radical, prova-se à luz do fato de que, como se demonstrou supra, ela consiste na implantação de um novo princípio governante da vida; à luz do fato de que ela é um "novo nascimento", uma "nova criação", operada pelo infinito poder de Deus na execução de seu eterno propósito de salvação; e que ela é tão necessária para o de boa moral quanto para o libertino. Que essa mudança é permanente será demonstrado no capítulo xvii., Da Perseverança dos Santos.

Que ela afeta o homem todo - intelecto, emoções e vontade -, é óbvio: —

5.1.   A luz da unidade essencial da alma. Esta é aquele "eu" indivisível que pensa, sente e quer. Se o estado moral permanente da alma é corrupto, todas as suas funções serão pervertidas. Não podemos nutrir nenhum desejo por um objeto, a menos que percebamos seu encanto; nem podemos perceber intelectualmente o encanto daquilo que é totalmente incompatível com nossos inerentes gostos e disposições.

5.2.   As Escrituras expressamente afirmam que o pecado é essencialmente enganoso, que a depravação inata envolve cegueira moral e que o homem natural não pode receber as coisas que se discernem espiritualmente. 1 Co 2.14; 2 Co 4.4; Jo 16.3.

5.3.   As Escrituras expressamente afirmam que todos os "recém-nascidos" são alvos da iluminação espiritual do entendimen-to, tanto quanto da renovação das inclinações. Jo 17.3; 1 Co 2.12,13; 2 Co 4.6; Ef 1.18; 1 Jo 4.7; 5.20.

5.4.   Na Bíblia, a frase, "dar um novo coração" equivale a efetuar a regeneração; e o termo "coração" é caracteristicamente usado para todo o interior do homem - intelecto, emoções e vontade. Observem-se frases tais como "conselhos do coração", 1 Co 4.5; "imaginações do coração", Lc 1.51; "pensamentos e intentos do coração", Hb 4.12

sábado, 4 de junho de 2011

Nossa Visão da Glória de Cristo no Céu – John Owen (1616-1683)


A diferença entre a presente visão de fé da glória de Cristo e nossa contemplação dela no céu "Porque andamos por fé, e não por vista" (II Coríntios 5:7). Nesta vida, fé, na vida por vir, visão. Estas são as habilidade da alma que a fazem ciente da glória de Cristo.


A visão de fé da glória de Cristo, neste mundo, é confusa e obscura. Como o apóstolo diz: "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face: agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido" (I Coríntios 13:12). O nosso conhecimento não é direto, mas é como um reflexo imperfeito da realidade. O evangelho, sem o qual jamais poderíamos descobrir a Cristo, ainda está longe de mostrar totalmente a grandeza de Sua glória. Isso é porque a entendemos imperfeitamente.

A nossa fé é fraca e imperfeita. Não há nenhuma parte de Sua glória que possamos entender completamente. Em nosso presente estado terreno, há algo como uma parede entre nós e Cristo. Contudo, às vezes, nós O vemos através das janelas "O meu amado é semelhante ao gamo, ou ao filho do veado: eis que está detrás da nossa parede, olhando pelas janelas, reluzindo pelas grades" (Cantares de Salomão 2:9).

Estas janelas são as oportunidades que temos de ouvir e receber as promessas do evangelho através da graça e do ministério da palavra. Tais oportunidades estão cheias de refrigério para as almas daqueles que crêem. Entretanto, a visão da beleza e glória não dura para sempre. Então clamamos: "Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? (Salmo 42:1-2). Quando, então, eu O verei, mesmo que seja apenas através de uma janela?

Às vezes, à semelhança de Jó, nós não O podemos ver porque Ele esconde a Sua face em uma nuvem (Jó 38:8-9). Em outras oportunidades Ele Se mostra como o sol em toda a sua força e não suportamos o Seu brilho.

Agora, através de comparações, vamos considerar como veremos essa mesma glória de Cristo quando estivermos no céu. A nossa visão será imediata, direta e firme.

Cristo pessoalmente e toda a Sua glória estarão de verdade e para sempre conosco. Não precisaremos mais estar satisfeitos apenas com descrições dEle que temos no evangelho. Nos O veremos face a face (I Corfntios 13:12) e O veremos como Ele é (I João 3:2). Nós O veremos com os nosso olhos, como diz Jó: "Porque eu sei que o meu Redentor vive, e...em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos, e não outros, o verão..." (Jó 19:25-27).

Os sentidos dos nossos corpos serão restaurados e glorificados de uma forma que não podemos entender, para que sejamos capazes de olhar para Cristo e Sua glória para todo o sempre. Veremos, não apenas a Sua natureza humana, mas a Sua divindade também em Sua infinita sabedo¬ria, amor e poder. Essa glória será milhares de vezes superior a qualquer coisa que possamos imaginar.

"Esta visão da glória de Cristo é tudo o que os santos de Deus desejam ver. É o desejo deles "partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor...mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (Filipenses 1:23; II Coríntios 5:8). Aqueles que não têm este desejo sempre são pessoas carnais e não espirituais.

Ninguém nesta vida tem o poder, quer espiritual ou físico, para ver a glória de Cristo como ela realmente é. Quando alguns reflexos dessa glória foram vistos no Monte da Transfiguração os discípulos ficaram confusos e com muito medo. Se o Senhor Jesus viesse até nós em Sua majestade e glória, seríamos incapazes de receber os benefícios ou conforto de Sua aparição. O apóstolo João, o qual Ele amava, caiu a Seus pés como morto, quando Jesus apareceu para ele em Sua glória (Apocalipse 1:17). Paulo e todos aqueles que estavam com ele caíram por terra quando o brilho da Sua glória resplandeceu sobre eles no caminho de Damasco (Atos 26:13-14). Que insulto a Deus quando pessoas néscias tentam fazer quadros e imagens do Senhor Jesus Cristo em Sua glória presente! Nós apenas podemos conhecê-lO agora através da fé, obscuramente. Não o podemos conhecer verdadeiramente como Ele é, cheio de glória indescritível.

Por causa de nossas naturezas pecaminosas, as nossas almas eram completamente tenebrosas e más, e eram incapazes de ver as coisas espirituais de uma maneira correta. Fomos parcialmente restaurados pela graça e nos tornamos luz no Senhor (Efésios 5:8). Mas as nossas almas ainda estão aprisionadas em nossos corpos naturais e muitas fraquezas e imperfeições ainda permanecem. Mas isso para sempre desaparecerá no céu (Efésios 5:27). Após a ressurreição, as nossas mentes e corpos estarão livres de tudo o que nos impedia o desfrute de uma visão completa da glória de Cristo. Então, apenas um ato de pura visão espiritual ao olhar para a glória de Cristo, um puro ato de amor ao unir-se a Deus, nos fará muito mais felizes e mais satisfeitos do que poderíamos estar como todas as nossas atividades religiosas.

Temos um poder natural para entender e julgar as coisas nesta presente vida terrena. Mas esta habilidade natural não pode nos ajudar a ver e entender as coisas espirituais, como o apóstolo nos mostra em I Coríntios 2:11,14: "Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente".

Assim Deus nos dá a habilidade sobrenatural da fé e da graça. Ainda temos o nossos entendimento natural, mas é apenas por meio de uma faculdade espiritual que podemos ver as coisas espirituais. No céu será acrescentada a capacidade de vermos a glória

Enfraquecimento da raiz do desejo mau – John Owen (1616-1683)


Toda lascívia (desejo mau) é um hábito depravado, que continuamente inclina o coração para o mal. Em Gênesis 6:5, temos uma descrição de um coração no qual o pecado não foi mortificado: "era continuamente mau todo desígnio do seu coração". Em todo homem não convertido, há um coração que não foi mortificado e que está cheio de uma variedade de desejos ímpios, e cada um desses desejos está continuamente clamando por satisfação.

Concentrar-nos-emos apenas na mortificação de um desses desejos. Este desejo (pense no pecado que mais lhe atrai) é uma disposição forte, habitual, e profundamente enraizada, que inclina a vontade e os sentimentos para certo pecado em particular. Uma das grandes evidências de tal desejo mau é a tendência para se pensar nas diversas maneiras de gratificá-lo (veja Rom. 13:14). Este hábito pecaminoso (ou seja, a lascívia ou desejo mau) opera violentamente. "Fazem guerra contra a alma" (1 Ped. 2:11) e buscam tornar a pessoa um "prisioneiro da lei do pecado" (Rom. 7:23). Ora, a primeira coisa que a mortificação efetua é o enfraquecimento deste desejo mau, de modo que se torna cada vez menos violento nos seus esforços para provocar e seduzir a pecar (veja Tiago 1:14,15).

A esta altura, é preciso que se faça uma advertência. Todos os desejos maus têm o poder de seduzir e provocar alguém a pecar, porém parece que não têm, todos eles, o mesmo poder. Há pelo menos duas razões pelas quais alguns desejos maus parecem ser muito mais fortes do que outros:

a)      Um desejo mau pode ser mais forte do que outros na mesma pessoa e também mais forte do que o desejo numa outra pessoa. Há muitas maneiras pelas quais este poder e vida extras são dados, mas especialmente isso ocorre por meio da tentação.

b)      A ação violenta de alguns desejos maus é mais óbvia do que a de outros. Paulo sublinha uma diferença entre impureza e todos os outros pecados. "Fugi da impureza! Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer, é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo" (1 Cor. 6:18). Isso significa que pecados dessa natureza são mais facilmente discerníveis do que outros. Contudo, uma pessoa com um amor desordenado pelo mundo pode estar debaixo do poder desse desejo mau (embora esse poder não seja tão óbvio) tanto quanto outro homem que é cativado por um desejo mau ou por uma imoralidade sexual.

A primeira coisa, então, que a mortificação efetua é um enfraquecimento gradual dos atos violentos do desejo mau, de modo que seu poder para impelir, despertar, perturbar e deixar a alma perplexa seja diminuído. Isso é chamado de crucificar "a carne, com as suas paixões e concupiscências" (Gál. 5:24). Esta linguagem é muito gráfica, como se pode ver na seguinte ilustração:

Pense num homem pregado numa cruz. A princípio o homem se esforçará, lutará e clamará com grande intensidade e poder. Depois de certo tempo, à medida em que vai perdendo sangue, seus esforços se tornam fracos e seus gritos baixos e roucos. Da mesma maneira, quando um homem se propõe a cumprir seu dever de mortificar o pecado, há uma luta violenta; todavia à medida em que a força e a energia do desejo mau se esvai, seus esforços e gritos diminuem. A mortificação radical e inicial do pecado é descrita em Romanos, capítulo 6, e especialmente no versículo 6:

"Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem" - para qual propósito? ~ "para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos ao pecado como escravos".

Sem esta mortificação inicial e radical, realizada mediante união com Jesus Cristo, como descrita em Romanos, capítulo 6 (no próximo capítulo diremos mais sobre isto), uma pessoa não pode fazer progresso na mortificação de um único desejo mau. Uma pessoa pode dar pauladas no mau fruto de uma árvore má até ficar esgotada, porém enquanto a raiz permanecer forte e vigorosa nenhum grau de espancamento impedirá que a raiz produza mais frutos maus. Esta é a tolice que muitas pessoas praticam quando se dispõem com todo fervor a quebrar o poder de qualquer pecado em particular, sem realmente atacar e ferir a raiz do pecado (como acontece quando um cristão é unido a Jesus Cristo).

2. Uma contenda e uma luta constante contra o pecado

Quando o pecado é forte e vigoroso, a alma não consegue fazer grande progresso espiritual. A não ser que constante-mente lutemos contra o pecado, ele crescerá forte e vigorosa-mente, e nosso progresso espiritual será constantemente impedido. Há três coisas importantes no contendermos com o pecado. São as seguintes:

a)      Precisamos conhecer nosso inimigo e estar determinados a destruí-lo por todos os meios possíveis. Temos que lembrar que estamos num conflito acirrado e árduo, um conflito que tem sérias consequências. Precisamos estar alertas "conhecendo cada um a chaga do seu coração" (1 Reis 8:38). Precisamos guardar-nos de pensar levianamente nessa chaga. E de se lamentar que muitos tenham tão pouco conhecimento do grande inimigo que levam com eles nos seus corações. Isso os torna dispostos a se justificarem e a ficarem impacientes com qualquer reprovação ou admoestação, não se apercebendo de que estão correndo perigo (veja 2 Cron. 16:10).

b)      Precisamos nos esforçar para aprender os modos de agir de nosso inimigo, suas estratégias e os métodos de combate que ele emprega, as vantagens que ele procura obter e, até mesmo, detectar as ocasiões quando o seu ataque é mais bem sucedido. Quanto mais soubermos estas coisas, melhor estaremos preparados para lutar e contender com o pecado. Por exemplo: se observarmos que o inimigo repetidamente se aproveita de nós, e leva vantagem, em determinada situação, então procuraremos evitar essa situação. Precisamos buscar a sabedoria do Espírito contra as ciladas do pecado que habita em nós, para que possamos rapidamente discernir as sutilezas do nosso inimigo e frustrar seus planos maus contra nós.

c) Precisamos empenhar-nos diariamente para utilizar todos os meios que Deus ordenou para ferir e destruir o nosso inimigo (alguns desses serão mencionados mais adiante). Jamais devemos permitir que sejamos conduzidos a uma falsa segurança, pensando que nossos desejos pecaminosos já estão mortos devido estarem quietos. Em vez disso precisamos aplicar-lhes novos golpes e surras todos os dias (vejaCol. 3:5).

3. Sucesso na nossa oposição e no nosso conflito com o pecado que habita em nós. Quando há frequente sucesso contra qualquer desejo mau, isso é uma outra evidência da mortificação do pecado. Por sucesso queremos significar uma vitória sobre ele, acompanhada da intenção de dar sequência a essa vitória e atacar novamente. Por exemplo: quando o coração detecta as ações do pecado que habita em nós (procurando nos seduzir, nos atiçar, influenciar nossa imaginação, etc) ele imediatamente ataca o pecado, o expõe à lei de Deus e ao amor de Cristo; ele o condena e o executa.

Quando uma pessoa experimenta tal sucesso e sabe que a raiz do desejo mau foi, na verdade, enfraquecida, e que sua atividade foi contida de modo que não pode mais impedi-lo de cumprir o seu dever ou interromper sua paz como acontecia antes, então o pecado foi, em considerável medida, mortificado.

Este enfraquecimento da raiz do desejo mau é realizada principalmente pela implantação, continuidade e cultivo constante da vida espiritual da graça, que se coloca em oposição direta ao desejo mau, e lhe é destruidora (compare com o capítulo 4, pág. 110, item 2). Desse modo, pela implantação e pelo crescimento da humildade, o orgulho será enfraquecido. Da mesma maneira, a paciência tratará da paixão; a pureza da mente e da consciência cuidará da impureza; a mente celestial porá fim ao amor deste mundo, e assim por diante.

A Culpa não é Minha – João Calvino (1509 – 1564)



A mente assim temperada para a reverência e a humildade não murmurará contra Deus por causa das calamidades que sobrevieram à humanidade em tempos passados; nem culpará a Deus por crimes que o homem cometeu, dizendo com Agamemnom na llíada:

"A culpa não é minha;
Os culpados são o Céu e o Destino."
O homem humilde de coração preferirá buscar a vontade de Deus, e cumpri-la mediante a ajuda do Seu Espírito.
Quanto aos eventos ainda futuros, aprendemos com Salomão que os propósitos do homem operam em harmonia com a providência de Deus; "O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos" (Prov. 16:9]. Estas palavras ensinam que os decretos eternos de Deus não nos impedem, de modo algum, de exercer providência por nós mesmos e de dispor todos os nossos negócios em sujeição à Sua vontade.

E isto não deixa de ser razoável. Pois Aquele que colocou limites à nossa vida também nos comissionou a cuidar dela, nos forneceu modos e maneiras de preservá-la, nos deu poder para prever perigos e nos ensinou a aplicar precauções e remédios. Nosso dever, portanto, é claro. Se Deus entregou a nós o cuidado da nossa própria vida, devemos zelar por ela; se fornece meios, devemos usá-los; se nos adverte de antemão dos perigos, não devemos temerariamente correr ao encontro deles; se fornece remédios, não devemos negligenciá-los.

Há homens que tiram conclusões falsas e temerárias após considerarem isoladamente a doutrina dos propósitos providenciais de Deus. Argumentam: "Por que um ladrão deve ser castigado, se despojou um homem que Deus determinou afligir com pobreza? Por que um assassino deve ser punido, se matou um homem cuja vida atingiu o limite determinado pelo Senhor? Se todos estes agentes estão sujeitos à vontade de Deus, por que devem ser castigados?" Mas nego que os criminosos estejam "sujeitos à vontade de Deus". Estão sujeitos às suas próprias concupiscências malignas.

O coração do cristão, estando totalmente convicto de que todas as coisas estão sujeitas à ordenação de Deus, e de que nada acontece por acaso, sempre olhará.em primeiro lugar para Ele; mas dará às causas secundárias seu lugar apropriado. Quanto aos homens, quer bons, quer maus, o cristão reconhecerá que seus planos, desejos, tentativas e poderes estão sujeitos ao controle do Senhor, e que Ele pode virá-los para onde Ele quiser, e frustrá-los quantas vezes quiser. Há muitas promessas que testificam muito claramente que a providência de Deus sempre cuida vigilantemente da segurança dos crentes;  talvez baste citar os seguintes: "Confia os teus cuidados ao Senhor, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abalado (Sal. 55:22). "Ele tem cuidado de vós" (1  Ped. 5:7). "O que habita no esconderijo do Altíssimo,  descansará à sombra do Onipoente." (Sal. 91:1). "Aquele que tocar em vós toca na menina do meu olho" (Zac. 2:8). "Acaso pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho  do  seu  ventre?  Mas  ainda que  esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti." (Is. 49:15).

E assim Cristo, depois de asseverar que nem sequer um insignificante pardalzinho cai por terra sem nosso Pai consentir, diz-nos que temos mais valor do que muitos  pardais,  e  que  Deus,  portanto,  dispensa  cuidados mais abundantes sobre nós, e que devemos descansar-nos na certeza de que os cabelos da nossa cabeça estão todos contados.

Além disso, as Escrituras testificam que todos os homens estão sob o poder de Deus, e que Ele pode ou torná-los bem dispostos para com Sua igreja ou evitar que sua malícia tome efeito. Ele deu aos israelitas graça aos olhos dos egípcios. Derrotou o conselho de Aitofel quando este ameaçava destruir a Davi. O diabo nada podia fazer contra Jó sem a permissão divina.

O conhecimento de tais verdades como estas nos torna gratos na prosperidade, pacientes na adversidade e maravilhosamente confiantes da nossa segurança futura. Em chegando a prosperidade, atribuímo-la à bondade de Deus, quer chegando a nós através da agência dos homens, quer através de outros canais. Quando os homens nos mostram bondade, consideramos que Deus inclinou seus corações para ajudar-nos; e quando temos colheitas abundantes, percebemos que Deus respondeu aos céus, os céus responderam à terra, e a terra respondeu ao seu produto (Os. 2:21-22).

Quando a adversidade nos sobrevém, erguemos nossos pensamentos a Deus, e o saber que Sua mão a enviou, torna-a mais eficaz para produzir a paciência, a submissão e a tranqüilidade da mente. Se José tivesse deixado que seus pensamentos permanecessem fixos na traição dos seus irmãos, nunca poderia ter reavido sua afeição por eles; mas quando considerou a providência de Deus, esqueceu-se o dano que lhe tinham feito, e disse; "Vós, na verdade intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais pois; e vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos" (Gen. 45:8 e 50:19-21).
Mas embora a vontade de Deus seja a grande causa primária, assim como está escrito: "Eu formo a luz, e crio as trevas; faço a paz, e crio o mal; eu o Senhor, faço todas estas coisas" (Is. 45:7), nenhum homem piedoso fechará seus olhos às causas secundárias.

Na realidade, considerará um homem que lhe faz um ato de bondade como um agente utilizado pela bondade de Deus; mas também sentirá de todo o coração que está endividado para com o agente, e esforçar-se-á para demonstrar sua gratidão de modo apropriado e dentro das suas possibilidades. Se sofrer perda mediante sua própria negligência ou descuido, culpará a si mesmo, embora reconheça nisto a mão de Deus. Se alguém que foi entregue aos seus cuidados morrer devido doença, por causa da sua negligência, considerar-se-á culpado, embora saiba que a duração da vida é fixada pela determinação de Deus. Não fará abuso da doutrina da providência  de  Deus  para  apresentar  desculpas  por  nenhum pecado.

Deus espera com a mão estendida? – João Calvino (1509-1564)


Em Jeremias (32:39-40) Deus diz: "Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias"; "Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim." E logo no princípio da profecia de Ezequiel (11:19): "Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne." Deus considera nossa conversão como criação de um novo espírito e um novo coração. Como então poderia Ele reivindicar mais claramente para Si mesmo tudo o que é bom e reto na vontade do homem?

Com isso estão de acordo as orações dos santos. Salomão disse: "O Senhor nosso Deus seja conosco... a fim de que a si incline os nossos corações para andarmos em todos os seus caminhos e guardarmos os seus mandamentos."(1 Rs. 8:57-58). E no Salmo 119 achamos a oração: "Inclina o meu coração a teus testemunhos, e não à cobiça" (v. 36). Davi pede a Deus que crie nele um coração puro, e renove nele um espírito reto, reconhecendo que seu coração está cheio de impureza e seu espírito de perversidade, e reconhecendo que a pureza que pede em oração é criação de Deus.

O testemunho de Cristo a respeito deste ponto fica claro para todos aqueles que não fecham seus olhos deliberadamente: "Eu sou a videira; vós os ramos; meu Pai é o agricultor. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira; assim nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim." (Jo. 15:1, 4-5). Se não podemos produzir mais frutos por nós mesmos do que um ramo de videira arrancado do seu tronco e privado de seiva, então não precisamos ir mais longe em busca da nossa capacidade natural para o bem. Igualmente decisiva é a conclusão de Cristo: "Sem mim nada podeis fazer."

O apóstolo Paulo, numa passagem que já citei, atribui a Deus todas as boas obras: "porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Fil. 2:13). A primeira parte de uma boa obra é a vontade de praticá-la; a segunda é um esforço eficaz para realizá-la; o autor de ambas é Deus. Portanto, furtamos a

Deus tudo quanto arrogamos a nós mesmos, seja com respeito ao querer ou ao fazer. Deus tanto inicia como completa. Vem da parte dEle que nossa vontade conceba o amor daquilo que é certo, seja inclinada a desejá-lo, e seja despertada para procurá-lo; que nossa escolha, nosso desejo e nosso esforço não fracassem, mas sim sejam realizados; que continuemos nas boas obras e perseveremos nelas até o fim.

Deus move a vontade do homem na conversão, de modo eficaz, não deixando à escolha do pecador se ele obedecerá ou desobedecerá. Devemos rejeitar, portanto, uma declaração de Crisóstomo, freqüentemente citada:"Aquele que é atraído por Deus é atraído voluntariamente", pela qual subentende que Deus espera com a mão estendida para ver se queremos aceitar Sua ajuda, ou não. O apóstolo não nos diz que a graça de uma vontade renovada nos é oferecida na condição de a aceitarmos, mas que a própria vontade é gerada por Deus em nós; ou seja, que o Senhor pelo Seu Espírito dirige, molda, regula nosso coração e reina nele como no Seu próprio reino.

Teria ficado igualmente certo que a perseverança deva ser considerada o dom gratuito de Deus, se não fosse a prevalência do erro grave de que a perseverança é a recompensa do mérito humano, e é dada àqueles que foram devidamente gratos pela graça recebida. Mas visto que este erro brotou de um outro que já refutei, a saber, que depende do homem aceitar ou rejeitar a graça que Deus oferece, o erro originador tendo sido refutado, o segundo cai por terra.

E agora, escutemos Agostinho. Suas palavras mostrarão que não somos, conforme alegam nossos adversários, contraditos pela voz unânime dos pais antigos. Farei um esboço breve da opinião de Agostinho, usando suas próprias palavras.

"Foi concedido a Adão ficar firme se fosse da sua vontade assim fazer; a nós é dado querer e a vencer o mal pela vontade. Ele teria o poder, se apenas tivesse a vontade; Deus nos dá tanto a vontade quanto o poder. Sua liberdade era esta: ser capaz de não pecar; a nossa é maior, a saber: não ser capaz de pecar (1 Jo. 3:9). Se naquela fraqueza, em que o poder de Deus se aperfeiçoa, os santos

fossem deixados a exercerem sua própria vontade, e se Deus não operasse neles para querer e para realizar, a vontade deles falharia devido à própria fraqueza em meio às suas muitas tentações, e não seriam capazes de perseverar. Deus atrai os homens pela própria vontade deles, mas Ele mesmo opera naquelas vontades."

Noutro lugar, Agostinho diz que a graça não priva o homem da sua vontade, e sim transforma-a de uma má vontade para uma boa vontade, e depois passa a assisti-la; com isso quer dizer que o homem não é forçado, por assim dizer, por algum impulso externo, e sim está tão afetado interiormente que obedece de coração. Diz também, numa das suas cartas: "Sabemos que a graça de Deus não é dada a todos os homens; e que, onde é dada, não o é na base dos méritos das obras do homem nem da vontade do homem, mas pela livre graça; e sabemos que onde não é dada, é retida pelo justo julgamento de Deus." E em certo lugar resume admiravelmente a questão inteira desta forma: "Humana voluntas non libertate gratiam, sed gratia consequitur libertatem, isto é, a vontade humana não obtém a graça mediante a liberdade, e sim a liberdade mediante a graça."